Pesquisar este blog

domingo, 30 de agosto de 2009

O Líder Marconi Perillo (III) – Marconi é o Nome
Nelson Soares dos Santos*

A engenharia pela qual foi construída a candidatura Marconi não foi tão simples como se vê na aparência. Muitos a atribui apenas ao anti-irismo, eu não vejo assim. Na ciência Política quase nada é simples. Os ingredientes que a compuseram foram múltiplos, desde a uma profunda insatisfação popular com a forma do grupo hegemônico do PMDB de fazer política e de governar, passando pela incapacidade dos grupos ideológicos de esquerda de dialogar com o povo sobre democracia, até a reconfiguração dos interesses pessoais de lideranças tradicionais à concepções derrotadas da direita no cenário eleitoral.
Quando chegou o momento de definir as candidaturas e Iris Rezende Machado foi “aclamado” no PMDB, como candidato “natural” a oposição ficou perdida. A alta preferência do eleitorado goiano por Iris, parecia torná-lo imbatível, ainda assim, não parecia fácil “unir” a oposição. O primeiro nome colocado como candidato pelos Partidos, PSDB,PP e PFL, foi Roberto Balestra. Não teve aceitação pelo eleitorado, recebendo um alto índice de rejeição. Entre outros fatores, creio que o fato de ser agropecuarista, estar próximo da direita herdeira da ditadura, tornava-o distante das massas.
Depois de algum tempo, por razões de bastidores, o nome de Roberto Balestra foi substituído por Marconi Perillo.O que parecia fácil pra o PMDB, agora parecia estar resolvido. Talvez esta foi uma das melhores armas de Marconi, - ser um candidato que não produzia ameaças. Quando Marconi iniciou sua campanha com 6% da preferência do eleitorado, o que se viu foram as lideranças nos municípios numa corrida desenfreada para ter espaço no palanque de Iris Rezende. Quando chegava aos municípios, em alguns deles, Marconi não tinha nem mesmo com quem conversar, e muitos antigos aliados de Ronaldo Caiado, Lúcia Vânia, etc, apareciam apenas para justificar que não podiam ficar contra Iris e perder mais uma vez. Marconi, paciente, ouvia, como eu mesmo vi ele fazer em Divinópolis e Campos Belos de Goiás. Eu me lembro, que em Divinópolis apenas eu e Antônio Carlos, e, em Campos Belos Adelino Machado, considerados lideranças inexpressivas apoiamos desde o primeiro momento a candidatura de Marconi Perillo. Iris com 76% da preferência do “povo”, parecia imbatível.
Nem mesmo as grandes lideranças da oposição pareciam empolgar coma caminhada do “moço da camisa azul”, ao lado dele, eu me lembro de Lúcia Vânia, Fernando Cunha e Nion Albernaz. Outros só foram de fato aparecer depois que ele superou os 20% nas pesquisas. Até o final do primeiro turno, as lideranças dos municípios ficaram do lado de Iris, ele era unanimidade, e estou falando aqui das lideranças dos municípios que se constituem a base do Governo Alcides Rodrigues, ou seja PP e DEM.
No início do segundo turno, tendo agora Marconi como grande vencedor, ( e aos ouvidos o jingle “ Marconi é o nome”) novo fenômeno ocorre: as mesmas lideranças que encheram o palanque de Iris Rezende, vieram, agora, afoitos, quase que sem respiração para o palanque de Marconi. Do lado de lá, ficaram apenas os fiéis partidários do PMDB, cansados, mas resignados, alguns até felizes, pois preferiam perder uma eleição a conviver com antigos adversários no futuro governo Iris. Creio mesmo que a adesão apressada dos antigos adversários do PMDB contribui em muito para a derrota de Iris, pois contrariou as antigas bases do PMDB, levando-os ao comodismo do já ganhou, e, de outro lado, não uniu, apenas adiou uma batalha inevitável.
O novo governo de Marconi começa com a influência da classe política conservadora. No interior do Estado, quase nada muda. Nenhuma renovação. Nas eleições seguintes para prefeitos e vereadores o que permanece são velhas disputas. A democracia não evolui, não cresce, não amadurece. Apesar disso, a participação de setores dissidentes do PT, e do PC do B contribui para diversas ações progressistas: o fato de não se ter vendido a CELG, a criação da UEG, a Bolsa Universitária, O Salário Escola, em que juntos configurou uma nova realidade enquanto rede de proteção social. No entanto, pouco se abriu espaço para o surgimento de novas lideranças, e para o aprofundamento da democracia.
Uma questão do senso comum na política goiana e profundamente verdadeira é que só existe dois grandes vencedores desde a redemocratização: Iris e Marconi. Iris, sendo verdade ou não, representou ou acabou por representar a essência da luta contra o regime militar, ocupando um espaço que os líderes do PT e do PC do B, não souberam ocupar; Marconi, veio a representar aqueles que lutaram pela redemocratização e não tiveram voz e nem vez no governo de Iris. No entanto, para Marconi e seus seguidores conseguirem vencer Iris, a primeira coisa que tiveram que fazer foi justamente se aliar ao que mais atrasado existia em Goiás: aquilo que restou do Regime Militar.
O PC do B desenvolveu uma tese para justificar a participação no governo Marconi que julgo acertada até a atualidade. A personalidade de Marconi Perillo era o fator que justificava o partido participar, apesar dos ingredientes que compunha seu governo. Ora, o discurso de Marconi sempre foi o de um estadista democrata, progressista e homem de uma liderança e pulso forte. Apesar de ter liderado uma salada ideológica conseguiu desenvolver ações que ninguém ousa questiona o aspecto progressista, muitas vezes, contrariando aliados conservadores. Investiu na criação de uma forte rede proteção social, incluindo Educação Básica e superior, fortaleceu as Instituições democráticas, não fez a política do denuncismo e do rancor, estabeleceu um diálogo democrático com os movimentos sociais, criou a UEG, e o que é melhor conseguiu aliar tudo isso ao desenvolvimento econômico do estado.
Nelson soares dos santos é Mestre em Pedagogo, Mestre em Educação Brasileira, Doutorando em Educação e Sociedade Pela Universidade Católica de Goiás e Profesor efetivo da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Goiatuba.
O Nascimento do Líder Marconi Perillo. Parte I – Iris e Santillo
Nelson Soares dos Santos

No ano de 1986 eu era presidente do Grêmio cívico e tinha 12 anos de idade, menino sonhador, quando subi no palanque para estar ao lado do senhor Iris Rezende Machado. Estavam ainda o Senador Iran Saraiva, que muito me impressionou por ver ele ali, feliz sobre uma cadeira de rodas. Para mim, até então, pobreza e infortúnio era sinal de infelicidade, e, aquele senador era uma prova de que era possível vencer os infortúnios da vida, a pobreza, a miséria, as dificuldades. Outra personalidade ali presente no palanque era o senhor Henrique Santillo. Em conversas nos bastidores antes da chegada das autoridades fui instado por Joel Pinto de Barros, secretário de administração do prefeito Juarez Gomes, que eu deveria liderar os estudantes de todos os municípios da região para apoiar como sucessor de Iris no Governo, Henrique Santillo. Na descrição feita, as razões eram que Goiás tinha até então no Governo Iris muitas realizações e investimento em infra-estrutura, e que doravante precisava de um homem voltado para o social, e, que apesar de Onofre Quinan, ser um bom homem, e Naftali Alves secretário de Obras, também seria uma ótimo candidato, o homem que investiria no ser humano era Henrique Santillo.
Os tempos se passaram e Henrique Santillo foi eleito novo governador de Goiás, e a vida deveria continuar com o progresso indo agora bailar o aspecto humano que faltara no Governo Iris. No entanto, não foi que aconteceu. Apenas muito tempo depois, no ano de 2003, eu iria entender por que o Santillo não conseguiu implantar a tão sonhada rede de proteção social sonhada por seu Joel e muitos idealistas do Estado a fora, que acreditam que o investimento no ser humano é ainda o melhor e mais profícuo investimento. Naquele fatídico ano de 2003, para minha vida, no primeiro governo de Marconi Perillo, eu aprendi muitas coisas; a primeira delas, é que em Goiás, e em sua história política os governantes são todos personalistas e não planejam a própria sucessão. Henrique Santillo não conseguiu governar por que não teve o apoio do governo federal, do qual Iris Rezende Machado era uma figura da mais alta conta, tendo sido inclusive Ministro de Estado da Agricultura. E aqui, começaria então a história de Marconi Perillo, assessor de Henrique Santillo, fazia parte do bloco considerado progressista do PMDB goiano, estando próximo de figuras populares como Aldo Arantes, Pedro Wilson, Denise Carvalho, dentre outras personalidades consideras a esquerda do espectro ideológico da política goiana.
O grupo popular do PMDB afastou-se de Iris Rezende Machado, ( nos documentos públicos dos partidos de esquerda, consta que Iris afastou dos ideários da esquerda, tornando-se personalista e conservador), o certo, é que Marconi Perillo desembarcou no PSDB, onde também desembarcaria mais tarde, depois de uma tentativa frustrada de ser candidato a governador o senhor Nion Albernaz, sendo preterido na escolha por Iris, em favor de Maguito Vilela, numa luta interna para decidir quem seria o sucessor, no seu segundo mandato.
O novo grupo do PSDB, foi crescendo aos poucos, e Marconi tornava cada vez mais o Anti-Iris de Goiás. Nascia ali, os germens da disputa política atual. Nascia ali o líder que haveria de derrotar o “Tocador de Obras de Goiás”, mas que não se importava em nada com o ser humano. Nascia ali, também, a principal característica do Governo Marconi Perillo: o investimento no Ser Humano como mola propulsora de todo desenvolvimento de um povo.
Nos documentos do Partido Comunista do Brasil, consta que o afastamento do Partido do segundo Governo de Iris Rezende Machado se deu para permitir a continuidade da luta pelo aprofundamento da democracia em Goiás, mesmo motivo, que justificava a participação no governo de Marconi Perillo. A Luta, porém, pela democracia em Goiás é uma luta árdua, e a defesa das classes populares, ou mesmo a classe trabalhadora em Goiás, é algo tão difícil quanto transformar o Nordeste Goiano em uma região próspera e de rico desenvolvimento humano. Em Goiás, ainda não temos democracia, não temos as condições mínimas para o exercício da democracia e da cidadania, e isto talvez explique o tão parco crescimento de partidos de esquerda, e mesmo, a qualidade das lideranças dos partidos de esquerda, que na prática quase nada os diferem dos partidos chamados de direita.