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domingo, 23 de janeiro de 2011

A Justiça prevalecerá e os justos herdarão o reino. Homenagem a Dinalva da Silva Barbosa.

Dinalva era o que se pode chamar de mulher intrépida. Não tinha medo, não temia ninguém. Eu a conheci no ano de 1986, menino, curioso, 12 anos de idade, e já vivendo a primeira paixão juvenil. O mundo religioso me fascinava, e vivia divido entre ser católico, protestante ou coisa nenhuma. Tudo por causa de três exemplos marcantes na pequena cidade; o Professor Perxes, O professor Ezequias e O Seu Joel. Sim, o último era apenas seu joel, homem cheio de mistérios, pai de duas filhas - que o diga, duas filhas lindas . Ezequias era coisa nenhuma, homem que vivia rodeado de mulheres, pervertido, beberrão, jogador, mas, por sorte um tremendo professor de história. É, vou colocar tudo de minúsculo quando me referir a ele para minorar a decepção que ele me trouxe. Perxes, irmão do Ezequias, professor, Pastor Protestante. Vou colocar em maiúscula apenas por respeito a igreja da qual ele faz parte. Ezequias, o pervertido competente;Perxes, o santo aparente. Seu joel, o mistério.

Eu vivia dividido. Como sempre tive uma queda por mulheres não foi fácil escolher, ao ver aquela mulher, esvoaçante e que a todos provocava e  não respeitava ninguém. Desafiava o padre, o pastor, o  pervertido, o misterioso. Era Dinalva da Silva Barbosa que chegava a cidade. Adventista do Sétimo Dia, era a profetisa em pessoa a desafiar os feiticeiros e falsos profetas trazendo a salvação. Até hoje não sei por que me tornei adventista, se pela mensagem que ela trazia, ou se pela intrepidez com a qual pregava. Eu poderia escrever um livro sobre a Dinalva, de tão intrépida ela era. Ela foi uma destas heroínas que passou pelo mundo e tentou de tudo para torná-lo melhor.

Dinalva da Silva Barbosa foi assassinada covardemente no ano de 1994. A investigação da polícia do Distrito Federal encerrou o inquérito afirmando ter sido fruto de um assalto frustrado. A Dinalva era muito inteligente para ser morta por assaltantes. Ela enrrolava até Deus. Eu ainda desconfiou que o crime teve motivação política, mas não existe nenhuma prova. Eu sei que ela sabia muito sobre os poderosos da cidade. Eu mesmo fui embora da cidade anos depois de ter sido derrotado em uma campanha de vereador com ameaças veladas para que não abrisse a boca sobre certas coisas que se ouvia a boca miúda.

Dinalva foi a responsável por eu ter conhecido Goiânia pela primeira vez. Fiquei hospedado na casa das irmãs dela, ( Zinalva, e Dalva). Zinalva, uma mulher equilibrada, sensata, cheia de si. A Dalva, maluca como a irmã Dinalva. Ambas com o mesmo coração bondoso da irmã e todas viam em mim um "neguinho" inteligente e cheio de futuro. Nascia ali a idéia de me mandarem para o Internato Adventista Brasil Central. Dalva, mãe de dois filhos, Tâmara e Cláudio, dois seres que de tão diferentes é difícil acreditar que saíram da mesma mãe.Até hoje, acho que eles não gostaram muito de mim, me acharam esquisito. (novidade).

Dinalva tinha um marido chamado Zé, e dois filhos. Um, Charles Barbosa, a quem considero como meu irmão; e a linda e loira Libia, a quem carinhosamente desde o primeiro momento apelidei de binha. Aliás, acho que só eu a chamo de binha. Ela é a irmã querida que Deus me deu, e, que se emociona toda vez que me encontra. Tenho saudade do dia que dançamos juntos "Adeus Mariana".

Como homenagem a Dinalva, já que não posso contar tudo sobre ela, vou lhes contar como ela transformou a cidade numa guerra religiosa. Quando ela chegou na cidade era prefeito o senhor Aureliano Juarez Gomes,conhecido como seu Juarez.  Tínhamos basicamente três religiões; Católica, batista, e Assembléia de Deus. É claro que existia o candoblé, os feiticeiros, mas isso ninguém assumia.  Dinalva chegou trazendo o Adventismo. Ela era aquela professora sabe tudo. Dava aula de tudo, orgulhava-se de ter lido toda a biblia e conhecia, realmente, muito de história antiga e medieval.
Dinalva começou a pregar na cidade, visitava casa por casa distribuindo folhetos "Encontro com vida". Uma vez minha mãe me dissse: - É o fim do mundo mesmo, até agora ninguém vivia nesta cidade, e esta, mulher veio trazer a todos o "Encontro com a Vida". O certo é que o tal folheto foi causando um rebuliço na cidade. Logo, a tal Dinalva estava dando "Estudos Bíblicos" para uns dez alunos, entre eles eu, e, logo os pais começaram a acusar a mulher de coisas que não se deve publicar. O certo é que os tais ensinamentos logo se espalhou, o mais polêmico era um tal de guardar o sabádo, e, ainda tinha também, o tal de não comer carne de porco.
Engraçado que de tantos ensinamentos bons as pessoas escolheram combater justamente estes dois. Parece que logo todos se uniram contra ela. Pastor, padre, e pervertidos. Ela parecia ser uma ameaça a todos. Pronto, eu que sempre gostei de ficar do lado dos mais fracos, finquei fileira ao lado dela. Meses depois estava eu sendo batizado nas aguas do rio, na minha cabeça, o próprio rio jordão.  A guerra na cidade não acabou. Era Domingos Tocador ( um ex-pervertido convertido a renovação carismática católica), gritando que aquela mulher era a própria personfiicação do diabo, o padre de outro lado, começando a ensinar na cidade a versão da igreja católica para a história de Lutero, e, de outro lado, o pastor perxes tentando segurar seus membros.

Para completar a confusão logo chegou na cidade mais duas religiões: Os testemunhas de Jeová, e A Congregação Cristã do Brasil. Em uma cidade de mil habitantes, quando se resolvia fazer cultos ao ar livre era difícil saber a quem ouvir, pois, de um lugar se escutava a pregação dos outros. Eu, na minha meninice, pensava que realmente existia ali uma luta entre Deus e o diabo, e, a minha dificuldade era saber quem servia a quem.

Para me proteger, logo que me batizei ela enviou-me para o Internato. Sonhava me ver missionário. Eu também cheguei a sonhar em ser missionário e até dediquei-me a aprender a ser pregador, trabalhar dando estudos biblícos, distribuindo folhetos, mas a vida no internato mudou tudo dentro de mim. De um lado um grande amor não vivido, e, de outro, uma grande decepção com os dirigentes da Igreja. Muitos eram racistas, cruéis e pervertidos.

Quando voltei a cidade no ano de 1992, pude ver nos olhos da minha Querida Dinalva uma decepção profunda. Ela me olhava agora com ar de respeito. Via em mim alguém com mais conhecimento da biblia do que ela. Alguém que tinha estudado em um dos melhores colégios do país. Ficava horas e horas me ouvindo, sem entender por que eu não tinha ido para São Paulo continuar os estudos e me tornar Pastor, ministro do Evangelho. A sua decepção com a minha volta, e em não me ver Ministro do Evangelho nos afastou. Nunca mais fomos tão amigos como no passado. Na última vez que estivemos juntos foi três semanas antes de sua morte. Ela continuava sonhando com o mundo melhor, acreditando na segunda vinda de Jesus, e lutando dia e noite contra as injustiças sociais.  Ela viajou para Brasília e desapareceu. O mundo perdeu uma mulher, heroína do cotidiano, que colocou fogo em uma cidade e mudou a forma de uma comunidade inteira ver Deus.

Receba minha homenagem amiga, onde você estiver. Aqui vai a música da Alessandra a quem você tanto admirava e a música que você cantava como se falasse com o próprio Deus.

Um comentário:

  1. Oi Nelson, obrigado pela homenagem à nossa Mãe e pelas considerações a Libia e a mim.
    Eu acredito fielmente que a justiça será feita ao tempo e hora da vontade de Deus.
    Ela já estava falecendo aos poucos em Divinópolis e não a deixaram sair com vida de lá.
    Charles

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