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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A Bondade - Viver com alegria

Quando era criança e ia até as igrejas em busca de respostas para as muitas perguntas que torpedeavam minha mente, a questão da bondade era sempre recorrente. Não entendia como um deus bondoso, misericordioso, onipotente, onisciente e onipresente podia permitir pessoas viverem passando fome, sem ter onde morar, sem ter roupas para vestir. No ano de 1982, quando a Inglaterra bombardeou a Ilha das Malvinas, chorei copiosamente pelas crianças que morriam sob o bombardeio, e em oração clamei a Deus,por que ele permitia isso. E eu pedia com fé, na esperanças de que minhas orações fizessem deus ter piedade daquele povo sofrido.

Com o passar dos anos, vivi e presenciei muitas outras formas de sofrimentos. A queda do muro de Berlim, a queda do socialismo na URRS, a guerra de Chechênia, Guerra do Vietan, Kuait, Iraque, Iugoslávia, e tantas outras. Em todas, morte de civis, inocentes, que muitas vezes nem sabiam por que estavam ali morrendo. Tudo isso levava-me a refletir no que era a bondade de Deus. Ao longo do tempo, a busca de respostas empurrou-me para os estudos místicos, metafísícos, das vidas passadas, das religiões, da filosofia, e tudo o mais que pousou em minhas mãos. Que respostas existem que possam explicar tanto sofrimento, dissabores, diante da certeza da infinitude bondade de Deus?

Com o tempo, e ainda sem a resposta, ante a certeza da infinita bondade divina e os sofrimentos existentes na terra, passei a refletir em um caminho diferente sobre a bondade. Na minha mente, comecei a me perguntar se era um homem bom e justo. E afinal, é possível ser bom nesta terra? É possível ser bom em um mundo de tantas ilusões? Um dia, andando pela rua encontrei um homem que pedia um dinheiro para comprar uma dose de cachaça, e, segundo ele, eu devia ajudá-lo por que ele precisava daquilo. Afinal, o que seria ser bom naquele momento?

É ser bom auxiliar as pessoas que vivem passando fome, mas ao mesmo tempo se recusam a trabalhar? É ser bom continuar tentando auxiliar alguém a viver melhor quando o mesmo  insiste em viver na ignorância? Afinal, qual é o sumo bem para nós seres humanos?  Aos poucos fui aprendendo que a verdadeira bondade não pode existir distante das demais virtudes. Não existe bondade longe da verdade, da coragem, da misericórdia, da justiça, do conhecimento, da prudência, da sabedoria, da fé, e, do amor. Não existe homem bondoso, não é possível existir é um homem virtuoso. A pergunta, então, se desloca novamente: é possível ser virtusoso em um mundo que força-nos tanto a viver no nível dos sentidos? Um mundo onde a mentira se torna necessária, onde a dissimulação se torna regra, e, a justiça se traduz na maioria das vezes em vingança?

Nunca na história da humanidade foi exigido daqueles que buscam o saber, e respostas, a sabedoria e a prudência. Nunca o equilíbrio foi tão necessário como em nossos dias. O mundo possui teias de ilusões tão espessas que é ilusão crer que deixamos de ser aprendizes. O desenvolvimento da ciência e da técnica contribui em grande escala, para que as novas gerações fiquem sempre mais distantes das virtudes necessárias. O caminho a ser percorrido tem se tornado cada vez mais longo. Já não é possível encontrar as respostas seguindo por um só caminho. A verdade se transformou em um quebra-cabeça cujas partes estão espalhadas em destinos diferenciados, e que a busca exige que se trilhe diversos caminhos ao mesmo tempo, e que se enfrente diversas provas. Já não existe mais O CAMINHO, o que existe são caminhos, onde no final de cada um encontra-se um parte do quebra-cabeça. No final, ainda é preciso montar, para se compreender o ponto de partida do verdadeiro caminho.

Encontrar o caminho do sumo bem, para que possamos entender o que é a bondade, requer a humildade do eterno começo, da convivência com nossos irmãos, do exercício diário da compaixão, da paciência, e do aprendizado do amor. A bondade, aos poucos, vai então fazendo morada em nosso coração. Passa a fazer parte de nossas escolhas, e se enraiza na nossa mente dando-nos força para manter erguida a nossa luz. No final, traz-nos os lampejos da sabedoria que se  transforma na nossa espada na luta contra todas as formas de escuridão. Enfim, entendemos que não é possível ser bom sozinho, ser feliz sozinho. Somos parte de um projeto coletivo de milhões de anos e que representamos bem pouco no resultado final. Então, entendemos que ser bom é existir, viver, desfrutar com alegria das experiências que a vida nos proporciona com a verdade e a sinceridade no coração.

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