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quinta-feira, 17 de março de 2011

O código Moral da atualidade

 O código Moral da atualidade

Quando me ponho a pensar sobre como vivemos nos dias de hoje, e me pergunto qual código moral deveríamos seguir para termos o mínimo de satisfação com a vida, a impressão que logo me vem a mente é que estamos vivendo um sonho sem sim. É uma imagem de uma  história que li ainda quando criança no livro “História sem fim”. No livro, o personagem vivencia diversas experiências, sendo que em cada uma delas, fica um algo inacabado, uma experiência não vivida que segundo o autor se constitui em uma outra história e que só seria contada em outra ocasião.
Adolfo Sanchez Vazques em sua obra “Ética” pretendeu demonstrar-nos que a moral só surge quando o homem alcança o estado da vida em sociedade. Uma visão materialista da moral que exclui Deus, a Natureza e o Homem como fonte e origem da moral. Desta forma para ele, a moral evoluiria coma evolução da sociedade, e que seria possível assim identificar em cada época da história humana um código moral dominante, e, que segundo ele, fiel a tradição marxista, este código moral seria o código moral da classe dominante.[1]
Seguindo esta lógica de raciocínio o autor identifica três épocas dominantes: a antiguidade,o medievalismo e a modernidade. O código moral da antiguidade é então, identificado como a moral dos homens livres das cidades. O exemplo onde isso aparece com mais clareza seria nas cidades gregas, onde, a idéia do Homem Virtuoso determinava o modo de viver, conhecer, sentir e perceber o mundo de todos os demais segmentos da sociedade. Admitia-se, no entanto, a existência de outras possibilidades de ver e compreender o mundo moral, porém, estas outras visões eram dependentes da visão dominante e a ela de alguma forma se subordinava. Assim, mesmo no exemplo mais impressionante da existência de uma moral diferente da moral dos homens livres – a revolta dos escravos romanos liderados por Spartacus – explica-se a impossibilidade de os mesmos conseguirem estabelecer entre eles um governo organizado por que a moral que os movia – a coragem, o sacrifício, a liberdade, etc – era na verdade a moral dos homens livres, e reproduzindo entre eles as mesmas deficiências fez com que deteriorasse a possibilidade de uma nova forma de relação entre os homens.
À medida que o mundo antigo foi desaparecendo um novo tipo de sociedade tomou o seu lugar, o medievalismo, caracterizado pela presença do senhor feudal como classe dominante. A estrutura social, agora já não admitindo escancaradamente a escravidão, é marcada pela vassalagem de um Feudo menor e mais fraco a um outro mais forte e mais poderoso, em uma hierarquia que chegava ao Rei e a Igreja, pois esta sendo uma vez a representante de Deus na terra tinha poder sobre toda a Terra, portando autoridade sobre todos os senhores da Terra.Como necessitava de proteger suas terras surge a figura do Guerreiro Cavalheiro que luta em nome de Deus, e com ele a moral do cavalheiro, cujas virtude maior é representar a Justiça de Deus na Terra, empunhando sua espada e fazendo desaparecer da face da terra os ímpios e condenados.
Na estrutura da sociedade medieval existiam fissuras que levaram ao surgimento da nova sociedade, a sociedade moderna. A principal fissura foi a dificuldade de enquadrar os homens livres que não viviam da terra, e sim, na cidade e realizando pequenos trabalhos, comercializando e construindo pequenas fortunas longe da lida com a terra, e independente dos senhores feudais. Com o tempo, estes habitantes da cidade puderam pagar seus próprios protetores e iniciar uma nova forma de lidar com a realidade, constituindo uma nova forma de ver e perceber o mundo. Para esta nova classe que surgia, a criatividade, a capacidade de buscar lucro através dos negócios era bem mais importante que o apego a terra. E surge junto com esta classe uma nova moral com fundamento na capacidade individual de cada um.
A sociedade moderna, ou que se convencionou chamar-se de modernidade, nasce marcado pelo individualismo, ou pela valorização da liberdade individual, na valorização do respeito à propriedade privada como valor universal, e no direito de cada homem decidir por si mesmo quando ao destino da sua vida. Contrapunha-se desta forma a antiguidade por não aceitar a escravidão, ao feudalismo por não aceitar a servidão em forma de vassalagem, e, rompia com a idéia de que a igreja como representante de Deus na terra era á única capaz de conhecer e decidir sobre os destinos dos homens. Fundada sobre a racionalidade a modernidade fez muitos acreditarem que chegaríamos a uma era de ouro onde não haveria fome ou algum homem carente de necessidades básicas, no entanto, séculos depois, com muita evolução da ciência e da técnica – trunfos da modernidade -, o que se viu e se vê é uma era do vazio, como afirma o filósofo Gilles Lipovestkv[2]. Para  o autor a modernidade se acirra em contradições, por vezes, cai-se em um falso relativismos tornando complexa o processo de globalização das culturas e valores e na busca infinda por um modelo que possa ser universal.
É na compreensão desta cultura tão complexa que devemos buscar compreender  o código moral da atualidade. Não resta dúvida que é preciso verificar o que se busca. Em uma sociedade onde tudo necessita da idéia da moeda e da busca do lucro para se garantir a sobrevivência, a vida simples é uma contradição. A moral dominante se identifica com a mora do vencedor, porém, não se ajusta ao vencedor infeliz. É preciso ser mais que vencedor para inspirar o futuro. O próprio vencedor que não compreende as coisas simples da vida se perde se perde no desespero de são saber o que realmente tem sentido. Quase se pode dizer que o Código moral da atualidade é não ter nenhum código moral, por que o fim representado pelo que o homem moderno busca não permite a existência de um código moral ou de uma moral no seu sentido strictu sensu.



[1] Ética. Vazquez, Adolfo Sanchez. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; 2006.
[2] A era do vazio. In http://pt.scribd.com/doc/7265347/Gilles-Lipovetsky-A-Era-Do-VazioA cultura pós-moderna representa o pólo «surperestrutural» de uma socieda
que sai de um tipo de organização uniforme, dirigista, e que, para o fazer,
mistura, os últimos valores modernos, reabilita o passado e a tradição,
revaloriza o local e a vida simples, dissolve a preeminência da centralidade,
dissemina os critérios da verdade e da arte, legitima a afirmação da identi
dade pessoal de acordo com os valores de uma sociedade personalizada
onde o que importa é que o indivíduo seja ele próprio, e onde tudo e todos
têm, portanto, direito de cidade e a serem socialmente reconhecidos, sendo
que nada deve doravante impor-se imperativa e duradouramente, e todas as
opções, todos os níveis, podem coabitar sem contracção nem relegação. A
cul tura pós-moderna é descentrada e heteróclita, materialista e psi, pomo e
discreta, inovadora e rétro, consumista e ecologista, sofisticada e espontânea, espectacular e criativa; e o futuro não terá, sem dúvida, que decidir em
favor de uma destas tendências, mas, pelo contrário, desenvolverá as
lógicas duais, a co-presença flexível das antinomias

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