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quarta-feira, 2 de março de 2011

Operação sexto mandamento e o caminho Octuplo.

No primeiro artigo que escrevi sobre a Operação Sexto Mandamento busquei sensibilizar, sobretudo os formadores de opinião, para que utilizassem palavras de equilíbrio para tratar do assunto. Queria transmitir a idéia de que este tipo de operação é necessária, e precisa ser vista como natural, e não de forma espalhafatosa. No artigo seguinte, busquei "Operação Sexto mandamento e outros mandamentos divinos", continuei procurando mostrar como seria possível realizar o mesmo tipo de operação em outras áreas do serviço público e mesmo privado cujo destino é o público. Tentei mostrar, ainda mais, a necessidade de sermos prudentes no julgamento, de forma a não transforma o desejo de justiça em desejo de vingança. Por fim, escrevi um terceiro artigo, quase que uma forma de protesto contra a forma como alguns jornalistas trataram do assunto. No artigo "Sobre Jornalistas, fofoqueiros e direitos humanos" tentei mostrar como é perigoso a utilização da palavra falada ou escrita e os males que podem ser provocados sobre a vida e a reputação de outros.

O assunto Operação sexto mandamento porém não parou, e cada vez mais traz desdobramentos nada auspiciosos para a sociedade. De um lado surge defensores intransigentes da PM, e, de outro, defensores intransigentes da Polícia Federal e da operação realizada. Colocado deste modo, tudo se transforma em uma luta entre Deus e o Diabo, e, o verdadeiro objetivo da operação vai se perdendo no horizonte. Há aqui, um desvio do debate, e, o que é importante torna-se secundário, e o secundário torna-se importante.Tudo começou com a forma espalhafatosa como se recebeu a operação. Sub-comandante demitido em um piscar de olhos, jornalistas exigindo de um prefeito que nem na cidade estava que demitisse um secretário citado na investigação, em seguida, secretário desautorizando a Polícia Militar a fazer o trabalho que é costumeiro, e assim, levantando suspeita sobre toda a tropa; ex-comandantes reunidos em defesa da "Honra" da Instituição; Secretário voltando atrás no comentário feito ou ordem dada, assessor de comunicação apagando post no Facebook, e, por fim, o Governador saindo em defesa da "Honra" da PM.

A questão é que em nenhum momento foi colocado em cheque a honra da Instituição. O que está sendo apurado e a sociedade deseja que seja,  são os desvios de maus profissionais, - que por sinal, como disse no artigo " A Operação sexto mandamento e outros mandamentos divinos", tem em todas as áreas da sociedade - que utilizando o poder da farda e muitas vezes, até mesmo uma certa desobediência ao preparo que recebe para fazer justiça com as próprias mãos, ou mesmo, tirar proveito do fato de estar usando uma farda para explorar, cobrar propina, e, em última instância matar homens desarmados. Por que então tanta confusão e desvio do verdadeiro foco da questão?

Platão já dizia que seria importante que os reis se tornassem filósofos, ou os filósofos se tornassem reis. Ele chegou a esta conclusão ao refletir sobre a necessidade do equilíbrio na arte de governar. Outro mestre da antiguidade pensou coisa parecida e parece até mais profunda. Ele viveu na china, é conhecido como Buda, e sua filosofia como caminho Octuplo. O primeiro elemento do caminho octuplo é o "entendimento correto". Em uma alegoria a filosofia ocidental, este entendimento correto só é possível quando o individuo é capaz de ver além das aparências, compreendendo as essências das coisas. É isso que me parece, ninguém está sendo capaz de ter um entendimento correto sobre a questão da PM. E por que só vêem a aparência cada ponto de vista se torna a vista de um ponto, e, não se vê a totalidade, o conjunto, a universalidade do problema. Parece-me que a operação sexto mandamento é apenas a mostra de um sintoma presente em toda a sociedade. Um sintoma que revela uma doença maior, e, que sobre esta doença todos deveriam estarem debruçados em busca do diagnóstico e da cura.

Caberia aqui a máxima da música de Milton Nascimento. "Procurando bem todo mundo tem pereba, só na bailarina que não tem". E que eu sabia, no serviço público em geral não existem bailarinas. O serviço público é uma expressão do conjunto da sociedade, e a Polícia Militar também é expressão desta mesma sociedade. Não é demais lembrar aqui a fala do Justiceiro Capitão Nascimento quando ele afirma: Ao passar para o lado dos civis descobri que quando eu matei não sabia por quem matei, não sabia quem matava, e nem mesmo quem deveria matar". A triste conclusão do capitão que descobre no seu trabalho uma proteção a corrupção dos políticos, a proteção e apoio dos falsos jornalistas não parece ter sido entendido por muitos.

Valorizar e defender os direitos humanos requer de nós, neste momento, um pensar correto, e o uso correto da palavra. Não se pode deixar de defender que se procure os corpos dos desaparecidos, mas também não se pode condenar antes que a justiça conclua toda a investigação. E, afinal, deve-se fazer a pergunta do capitão Nascimento, - quem afinal puxou o gatilho? Não se pode justificar tais atrocidades  pelo salário irrisório que ganha um policial, assim como não se pode justificar a irresponsabilidade de alguns professores por causa do salário que se ganha na escolha pública. No entanto, também não se pode negar que salários tão ruins de fato tem influência no desequilíbrio emocional destes trabalhadores.  Não se pode esperar muito de um cidadão que vê praticamente faltar as coisas em sua casa e para sua família enquanto ele arrisca a vida pra cuidar da segurança da sociedade. Problemas complexos não podem ser compreendidos com análises simplórias.

Todos os setores da sociedade deveriam se debruçar sobre os problemas atuais. Não é só a PM. A educação está uma calamidade, a saúde está uma calamidade, o trânsito não está nada bom. A resposta para a mudança de toda esta situação pode inclusive estar além da política, pode estar em uma discussão que fundamenta os valores e a ética da sociedade moderna. É o próprio conceito de vida, e do valor que se deve dar vida que de fato está em discussão. 

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