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quinta-feira, 7 de abril de 2011

A morte, a vida, o amor e o vazio interior.



Converso com uma amiga que mora no rio de janeiro e ouço-a pensativa sobre a vida levada por acontecimento trágico: a morte de uma amiga íntima aos 34 anos de vida. A morte quando traga alguém na juventude tem este estranho poder sobre os demais que ficam: leva-nos a pensar sobre a vida. Parece paradoxal mas é preciso a morte de jovens sem explicação definida, por doenças graves com câncer, Aids, entre outras doenças para que sejamos levados a pensar seriamente na vida. E ao pensar na vida as pessoas se deparam com duas coisas: o amor e o vazio interior.
Talvez a morte nos leve a pensar sobre a vida justamente por que não é preciso pensar sobre a morte. Marilena Chauí afirmou em uma palestra que assisti que não é possível filosofar sobre a morte, pois se estamos vivos não sabemos do que se trata e quando a experimentamos já não temos mais como fazê-lo; os mortos não filosofam. José de Alencar ao responder questões, indelicadas ao meu ver, sobre sua saúde e se tinha medo da morte assim respondeu: ninguém sabe sobre a morte, por isso tenho medo da desonra.
Nas religiões a morte é tema explorado diuturnamente. É no medo da morte e não na vida que as religiões encontram o maior cabedal de instrumentos para aumentar seus membros. No cristianismo católico a morte é vista como uma passagem para o purgatório, céu ou inferno; e é o medo do purgatório e do inferno que leva muitos a viver dignamente. No cristianismo protestante é o  medo do inferno e  de se queimar eternamente em fogo abrasador que leva muitos a ter uma vida digna e respeitar seus semelhantes, afinal, que são as dificuldades da vida perante uma eternidade queimando no fogo do inferno?
No kardecismo, o chamado espiritismo cristão, codificado por Alan Kardec e popularizado no Brasil por Chico Xavier, a morte é uma transição para um outro plano da realidade que pode ser bom ou ruim de acordo com o nível de evolução daquele que faz a passagem. As regiões escuras são chamadas de umbral, e aqueles que alcançara uma evolução espiritual considerável vão para regiões de luz de onde se preparam para novas encarnações até terminarem seu ciclo evolutivo e alcançarem a perfeição. A vida na terra deixa de ser um ciclo importante para ser apenas de uma peça na existência do indivíduo que pode viver várias vidas até a chegar ao propósito de sua existência.
São muitas outras concepções que se tem da morte, e todas elas em uma relação definitiva com a vida e procurando pautar a vida de forma que uma boa vida leva a uma boa morte, ou  a um bom lugar após a morte. A morte poderia, no entanto, ter menor poder sobre a vida? Isso seria possível? Creio que sim. Para isso o agir humano precisaria ser movido pelo amor a própria vida. O amor deveria tomar o lugar do medo e a vontade o lugar dos apetites. A vontade, segundo Espinosa, é uma coisa que está na alma, faz parte da essência desta. Os desejos estão no corpo. Tomar consciência dos desejos e aprender a utilizar a vontade para atender aos apetites do corpo e a tudo que nos move na vida é encontrar uma forma equilibrada de viver.
Ao tomar consciência desta relação corpo e alma, morte e vida, é que muitos se deparam com o que chamam de vazio interior. Este vazio é descrito como uma vontade ou apetite de querer sempre mais. Aqueles que nada tem querem o alimento, o conforto; outros que tem o necessário querem amor, viagens, vida em família; os que tem família, querem mais, exigem mais, e mesmo pessoas bilionárias, com famílias estruturadas, as vezes, padecem do vazio interior. Muitas vezes, e em algumas filosofias e religiões, o vazio interior tem origem nas lembranças saudosas de vidas passadas e de  momentos que não podem ser revividos na vida presente. Outros dizem que o vazio interior diz respeito a essência humana e sua busca eterna por se unir ao divino.
Sendo difícil compreender a morte e uma vez que a vida pode ser agastada pela existência deste vazio que nada preenche e  nada explica, talvez a solução seja procurar na vida as razões para se viver. E se procuramos na vida as razões para se viver só uma coisa encontraremos que possa nos acalentar: o desejo de nossa alma de levar uma vida virtuosa que nos traga paz de consciência. Os sentimentos, as paixões passam, então, a ficarem em um segundo plano dando lugar as virtudes morais e espirituais, como pensadas por Aristóteles. Talvez se utilizássemos aqui uma metáfora cristã diríamos que a essência da vida está em aprender o exercício do amor, não o amor da carne, dos desejos mas o amor da alma que nos leva a nos unir a todos os seres humano e viver uma vida de equilíbrio  e serenidade. O certo é que quando compreendemos nosso caminho na terra, o sentido e razão de nosso viver, parte deste vazio existencial desaparece e aprendemos que não se pode viver no passado e nem antecipar o futuro. Só somos donos do nosso presente, daí por que é necessário vivê-lo com responsabilidade. É nele que podemos nos corrigir do passado e é nele que decidimos o nosso destino futuro. É por isso que como Nelson Mandela, todos os dias agradeço a todos os deuses por minha alma indomável, pois é ela que me faz dono do meu destino e único capitão de minha existência.

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