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terça-feira, 7 de junho de 2011

O desafio da honestidade



No ano de 1982, ouvi pelo rádio que a Inglaterra havia invadido a Ilha das Malvinas. Eu tinha 8 anos e era representante de sala do  Colégio Estadual Luiz Pereira Cirineu em minha querida Divinópolis de Goiás. Pedi um minuto de silêncio em nome dos mortos nas Ilhas das Malvinas quando fui convidado para hastear a bandeira nacional. No ano de 1987, já presidente do Grêmio Cívico Escolar do Colégio Estadual Germana Gomes, durante as solenidades da Inconfidência Mineira, chorei ao falar de Tiradentes e dos movimentos libertários no Brasil, e com o meu discurso muitos colegas se emocionaram, inclusive alguns professores.
A Professora Goiacy Gomes de Souza impressionada com aquele gesto meu contou ao professor Joel Pinto de Barros, que era secretário de Administração do Prefeito Aureliano Juarez Gomes e pai dela. O Hoje, meu amigo e irmão Joel chamou-me para conversar.Primeiro perguntou-me qual eu achava que era o grande desafio da vida. Eu respondi que o grande desafio era ser um vencedor. Então ele perguntou-me o que eu entendia que era ser um vencedor. Eu respondi que era tornar-me rico, importante e poderoso. Ele baixou a cabeça, pensou, e olhou para diversos retratos em sua sala de trabalho.
A prefeitura funcionava em um prédio simples, junto com a Câmara Municipal e a seção da Empresa Brasileira de Correios e Telegráfos – os Correios. A sala do seu Joel, que veio a se tornar uma dos mais importantes mestres da minha vida, era ao lado da sala do prefeito, e para chegar até ele, passava pela recepção do próprio prefeito. Alguns diziam na cidade, que na prática era seu Joel quem administrava a cidade. Em sua sala, duas cadeiras, prateleiras e armários de documentos. Em uma prateleira, alguns livros, e em uma das paredes uma foto do presidente da República, outra do Governador do Estado, outra do prefeito, e outras duas fotos: uma de Luiz Inácio Lula da Sillva, e outra de Nelson Mandela.
Ao levantar a cabeça o seu Joel começou a me falar de cada uma daquelas fotografias. Quando chegou ao Lula, disse que a história daquele homem havia começado quando pronunciou a frase “a luta continua”, e que só terminaria quando ele se tornasse presidente da República. Sobre Nelson Mandela disse que estava preso por defender os fracos contra os fortes, e que era um homem que lutava pela liberdade. Terminando, afirmou que minhas atitudes na escola me colocavam no mesmo caminho daqueles homens, ma que não importasse a glória que eu viesse a alcançar, o meu maior desafio não era ser poderoso, rico ou importante. O maior desafio, dizia ele em voz pausada, era ser honesto, integro e defensor das liberdades do ser humano. Afirmou ainda que quando Mandela finalmente entendesse que é mais do que lutar era preciso lutar com as armas corretas, ele venceria a luta dele. E como exemplo  citou Gandhi, Martim Luther King como verdadeiros heróis de nossa época.
Não esqueço jamais aquela aula. Ainda leu para mim o discurso de Rui Barbosa, para me lembrar da importância de ser honesto, e saí da sala dele com os livros Biografias de King, Gandhi, Castelo Branco e Rui Barbosa. Incrivelmente, as previsões do meu amigo naquela tarde se confirmaram. Lula e Mandela venceram. Foram presidentes, e mudaram a história do seu povo. Hoje, tantos anos depois, aquela velha lição está na minha mente. Sei que o meu amigo e mestre Joel Pinto de Barros, espera que eu consiga ajudar a mudar a sorte do povo sofrido do nordeste Goiano e da minha querida Divinópolis. Não sei porém, em qual curva do caminho perdi minha vitória na caminhada, ou se minha  hora ainda não chegou como segundo ele, não tinha chegado a hora de Lula ou do Nelson Mandela em 1982.
O seu Joel naquele dia, também disse que um dia eu seria Doutor com Doutorado. Não os doutores que conhecíamos, dizia ele, que é doutor por que tem terras ou é bacharel advogado, mas um Doutor, um homem sábio. Os meus olhos enchiam de esperança ao ouvi-lo falar. Os anos se passaram e eu estou prestes a concluir ou não a tese de doutorado. O maior desafio, no entanto, é continuar sendo honesto. Agora, adulto, todas as decisões são minhas em um mundo onde a honestidade não é mais um valor. Aprendi finalmente a lição que meu amigo e mestre tentou me ensinar: o maior desafio é ser honesto, íntegro, e ter um caráter cuja retidão seja a luz. Não importa mais o poder, a riqueza, importar dormir em paz com o tribunal da minha consciência.
Ainda existem guerras como a das Malvinas. Afeganistão, Iraque, Líbia, tantos outros. Ainda existe egoísmo, inveja, rancor, ódio. Por isso agora vejo o quanto é importante homens que ajudem a construir a paz, a integridade, a honestidade. O grande desafio ainda é vencer a vaidade, lutar contra a escuridão, acreditar no ser humano. O grande desafio ainda é vencer a fome, a miséria, ajudar o mundo a ser melhor. Hoje, neste momento, não sei onde meu amigo está, mas lembrando do passado, mais uma lição aprendi com aquela tarde: ser um grande homem é fazer a diferença no lugar onde estamos, ensinando e fazendo o bem, ainda que não sejamos compreendidos. Seu Joel, na galeria dos grandes homens da minha vida, a sua foto está ao lado da foto de Nelson Mandela, e Lula da Silva. Obrigado pelas lições.

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