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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Poder e Traição


Sentado na ante-sala os pensamentos já não lhe eram agradáveis. Tudo indicava que os sonhos e ideais do passado já não impregnava aquele ambiente falsamente decorado de revolucionário. Os quadros nas paredes, a recepcionista sorridente no balcão, o café, a água oferecidos, tudo tinha um cheiro novo, estranho, irreconhecível.
As cores no ambiente já eram tão vivas. O sofá já não era tão macio. O gosto do café parecia amargo, a água insípida. Restava a tão sofrível conversa da qual pouco se esperava além de justificativas inúteis, palavras vazias, explicações do inexplicável. O escritório já não parecia mais o mesmo. A sala de reuniões parecia lotada, e era preciso empurrar o invisível para dar lugar a matéria.
Andando de um lado para o outro, procurando palavras, movimentando energias. Emoção e razão digladiavam entre o prático e o certo, o sonho e a realidade. As palavras quase não saíam do peito. Gaguejava. Os portais se abriam novamente, era hora de fazer novas escolhas, mas havia ali uma dimensão não vista, não descoberta, não planejada.
Ouviram-se os argumentos. Virtudes não eram argumentos. Esperavam-se argumentos práticos, posições consolidadas, caminhos escolhidos, vidas reorganizadas por esta espécie rara chamada poder. Ah, o poder. A mesa organizada meticulosamente, a cadeira portentosa ali na frente. Tudo parecia indicar a invencibilidade do caminho a ser escolhido. Os livros empilhados, papéis  para assinar, o assessor inquieto que com tudo concordava.
Foi-se. Trinta minutos ouvindo argumentos que nada diziam do verdadeiro problema. Não se tratava de coerência ou de falta dela. Tratava-se de perceber um novo modo de ser o mundo. O poder fascina. Nada é permitido àqueles que o têm a não ser a espinhosa missão de conservá-lo. E se perdem, e se angustiam, e sofrem, e rodopiam, e não se reconhecem mais. Tudo estava terminado. Novos caminhos surgiriam para aqueles que ousassem continuar sentindo-se como  homens, esta dor melancólica, e doce, e terrível que apenas os verdadeiramente humanos podem sentir.

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