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domingo, 31 de julho de 2011

A polidez é a virtude das crianças



Escrevo como quem se cansa da vida polida da grande cidade. Minha orientadora do mestrado não aprovaria jamais este título. Diria que é subjetivo demais, mesmo para um texto que se pretenda de reflexão. E não vou ter a presunção em dizer que se trata de um texto filosófico. Na verdade, ao afirmar que a polidez é a virtude dos corruptos insisto em não ser polido, apenas falar a verdade; não existe corrupto nos dias de hoje que não seja polido. A polidez, se no passado foi considerada como virtude menor que fazia pouco caso da moral, não deveria mais ser considerada virtudes nos nossos dias. Acredite, se alguém é polido demais para mim, já o considero menor moralmente, pois se a polidez não for a virtude dos corruptos é a virtude das crianças.
O maior exemplo de que a polidez é a virtudes dos corruptos nos dias atuais é a vida na política brasileira. Tornou-se exigência ser polido, educado, de boas maneiras. Assistir a TV câmara ou a TV Senado é uma programação de humor a que me reservo. Quem não se lembra das brigas dos anões do orçamento e não ouviu expressões como: “ Vossa Excelência é um filho da Puta”; “Vossa Execelência é um ladrão do dinheiro público, um larápio”. Recentemente, vi uma cena que não vai sair jamais de minha mente. Senador Tasso em confronto com o Senador Renan; veja o vídeo:
Em outra cena veja o Senador Pedro Simon em confronto com o Senador Renan Calheiros:
Em comum a polidez de todos eles. Isto me lembra um fato de minha vida pessoal. Quando estava no mestrado fui parado por uma mulher bonita, até, que me questionou como um homem tão chucro e que se vestia tão mal podia ter ingressado no mestrado. Tão mal vestido, exclamava ela. Eu fiquei parado alguns instantes tentando entender o raciocínio dela. Na verdade ela já havia aprendido que vivia na sociedade do simulacro, da polidez, da hipocrisia onde é melhor parecer do que ser. A polidez é requisitada em todos os lugares, e tem sido a forma de se manter o simulacro, a hipocrisia e todos os males que os acompanham.
No reino dos relacionamentos a polidez tem feito outros grandes estragos.  Comecemos pelo romance. Que Capitu era polida ninguém duvida. E com sua polidez e por sua polidez ninguém sabe até  hoje se ela traiu ou não traiu Bentinho. Machado de Assis não estava apenas criando um personagem, estava representando a polidez da alta sociedade brasileira. Na França, Madame Bovary de Flaubert,  mulher pudica, pura, alta sociedade e totalmente prostituta, vagabunda, protegida pela polidez e educação refinada.
A polidez não deve ser mesmo uma virtude nos dias atuais. Se Flaubert e Machado de Assis se consideraram realistas ao criar seus personagens eles se escandalizariam com as mulheres da sociedade de hoje. A polidez e educação refinada não esconde mais apenas o desejo escondido da prostituição e da libertinagem, esconde mesmo é a piscopatia e tantas outras doenças mentais só perceptível ao convívio de um observador arguto. Em nome da polidez já não se diz mais  a verdade, portanto, não peça conselhos a um homem ou mulher polida, não ouvirá o que pensam e sim e apenas, aquilo que o marketing e ou network aprovar como sendo politicamente correto.
No campo da filosofia, a polidez não está entre as virtudes. Entres os Gregos, não foi enumerada. Kant ao concluir que apenas pela educação o homem se torna humano, entendeu que a polidez é, no máximo, a virtude das crianças, e que a verdadeira polidez seria a polidez da alma, ou seja, um saber viver consigo mesmo. Andrés Conte –Sponville em seu “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, também afirma que a  polidez é mais a virtude das crianças, daqueles que ignoram a moral e cito-o “A polidez levada demais a sério é o contrário da autenticidade. (...) O saber viver não é a vida; a polidez não é a moral.” [1]
Em fim, a polidez definitivamente é a virtude dos corrputos, daqueles que não conseguem olhar-se no espelho, por que se olham o mostro que vêem é insuportável demais. A polidez é a mascara da hipocrisia, do simulacro, das dores não vividas, dos amores fracassados, dos desejos reprimidos. A autenticidade é o domínio de si, da vida, o viver de peito aberto, mandando brasa como diria a velha musica sertaneja.[2] Com isso posso dizer fora aos polidos de plantão, aos certinhos que insistem em transformar a vida em um espetáculo sem graça e sem nenhuma espontaneidade.



[1] Comte Sponvile, Andrés. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. A polidez. Pg. 13/21
[2] Veja o post. Olha eu aqui de novo catucando a jurubeba.

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