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terça-feira, 16 de agosto de 2011

A filosofia, a moral, a ética e a Morte da Norma



Cheguei ao meu lar as 22 horas e 30 minutos. Estava ainda latente em minha memória a aula onde eu tentava explicar aos meus alunos o objeto de estudo da Ética e  da Filosofia e a importância que as mesmas têm para um aluno do curso de administração, que logrando êxito será um executivo em um país em franco crescimento econômico. No final da aula alguns alunos seguraram-me com algumas perguntas sobre a realidade que vivemos, nossas responsabilidades, as dificuldades que se tem de viver de forma digna e honesta nos dias atuais; na saída do prédio, um incidente envolvendo dois alunos mantinha preso ao estacionamento alguns alunos e professores. Resolvido o problema, que por sinal só ocorreu por carência de virtudes, cada um retornou ao seu lar.
Como iniciei dizendo, eu cheguei ao meu lar pouco mais de meia hora depois. A televisão estava ligada, e Gilberto Braga era o senhor do meu lar. O deus, o demiurgo, o único, aquele que sabe a verdade sobre as coisas. E hoje era um dia importante – o dia da morte de Norma. Não vou me alongar sobre quem é Norma, na verdade não assisto novela, e  os melodramas são o lixo da indústria cultural. Pior que o melodrama só êxtase inconsciente daqueles que se entregam as drogas ou as bebidas alcoólicas. Minha filha de seis anos, logo foi me perguntando  por que novela era tão importante para a mãe: respondi de forma nada pedagógica que novela é o lixo da humanidade, aquilo que separa a mãe dos filhos, cria atrito nos lares e não tem nada de real a não ser quando o real é uma ilusão de ser.
Resposta dada, fiquei pensando na morte da Norma. E pensar que o tal acontecimento levou a audiência  ao limite. Abro o facebook e lá está um post com inúmeros comentários, engraçados até, mas ali, ocupando espaço, agredindo – a morte da Norma. Até parece os pôneis malditos. Também me lembrei de outros assuntos que tomou os noticiários nos últimos dias: o sexo anal da Sandy já comentado neste blog; a corrupção nos ministérios; a camisa; o cabelo moicano do Neymar; a gordura do Ronaldo Fenômeno; e tantos outros que podem ser enquadrados no quesito ilusão do real.
Como já comentado sobre o caso do sexo anal da Sandy, a popularidade da novela tem o seu significado. É uma forma de nos conhecermos, buscarmos um pouco de nossa intimidade naquilo que não temos coragem de aceitar existir. É ver aquilo que fazemos escondido e não assumimos ser assistido pelos outros. Quantas Normas existem nos dias de hoje? Quantos Leos? Quanta gente fazendo do outro um “esquema” para viver melhor? Quantos usando os subterfúgios da lei para se dar bem, tirar vantagem, esconder os próprios defeitos e escândalos? A verdade é que a vida tem se transformado supra-realidades, uma ilusão, uma quimera. Não separamos mais o que é real do que é imaginário.
Eu digo sempre que a grande sacada dos capitalistas foi criar um sistema cujo fundamento é o egoísmo humano. As vezes, penso que é essa a essência do ser humano e que por isso o capitalismo tenha sido tão duradouro. No capitalismo tudo se transforma em mercadoria que tem um valor e pode ser vendido; transformado em moeda que pode ser trocada por outra moeda, nem mesmo a ilusão, a quimera, escapa disso; e, tudo só acontece por que o homem não consegue não desejar. É o desejo humano que dá valor aquilo que se torna mercadoria. Vivemos em uma sociedade dos desejos. Todos querem. Querem demasiadamente, querem insistentemente, querem desesperadamente. Querem, no final das contas, pelo menos a ilusão de querer. Quase ninguém se pergunta se pode; quase ninguém se pergunta se deve. O importante é querer.
No mundo da polidez, da hipocrisia e do desamor queremos tudo dos outros, e não oferecemos quase nada de nós. Queremos inclusive ver punido nos outros o mal que existe em nós, e por que este mal já nos dá prazer, não queremos mais abrir mão dele. As doenças atuais é o sinal do desequilíbrio que vivemos. Quando só queremos sem nos perguntar se podemos, ou se devemos, o caminho inevitável é a doença do corpo, da mente e da alma. Fico pensando quantos já se perguntaram por que a novela tem como titulo “insensato coração”. Parece que a mensagem subliminar é quase liminar: quem vive entregue aos desejos e as paixões do coração sempre acabam mal. É o querer irracional, aquilo que Platão chamou da vida nos limites da anima; no nível do apetite.
A velha pergunta da filosofia – “ De onde venho, quem sou e para onde vou” – que levava a busca do auto-conhecimento e em conseqüência o que devia e podia ser feito já não existe mais. De um mundo  do-poder-dever fomos entregues a idéia insensata de que podemos atender nossos desejos, que nossa vontade é o nosso único guia. Embriagados pelos apetites perderam a noção de racionalidade; irracionais, passamos a sentir prazer no vício, na dor e na fugacidade. Infelizmente a morte da Norma, o sexo anal da Sandy, o cabelo do Neymar, a gordura do Ronaldo não pode nos ensinar nada disso; não a quem se embriaga de forma a sentir palpitar o coração, emocionar e chorar junto. A vida já não é mais que regida por um insensato coração.

2 comentários:

  1. Bom dia profº Nelson! Meu nome é Luciana e sou sua aluna de administração 1º período! Acordei hoje com uma curiosidade em saber o que você teria comentado sobre a morte da Norma, e por incrivel que pareça eu sabia que o seu comentário seria o que eu realmente achava! Senti uma certa curiosidade em saber e conhecer seu blog. Lendo aqui, como um resumo da aula de terça, compreendi melhor a aula que assitimos. Você citou sobre a aula ser chata. Sim, as vezes torna-se chata por quase não compreendermos o fundamento da matéria e também por todos estarem cansados do dia corrido. Mas, uma coisa aprendi, que nada melhor que acordar cedo e revisar toda a matéria e visitando seu blog, pois aqui sim se resume e cita os exemplos da sua ultima aula. Espero que sempre faça esse resumo no blog, assim fica mais fáci entender a matéria! Não sei se ira ler. Mas desde já, agradeço!

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  2. Boa noite Luciana. Não é fácil escrever textos todos os dias, mas tenho procurado me exercitar bastante. Além de tentar refletir sobre a realidade a partir das aulas que ministro também estou tentando escrever uma tese de doutoramento, então, pode ser que em algum momento o blog fique até um mês inativo. No geral escrevo sempre sobre minhas aulas e questões da atualidade. Verás que prevalece os temos de Política, Ética, Filosofia, e, Educação. Também tem poesias que um dia talvez se transforme em um livro. Este blog começou como uma brincadeira, o objetivo era dialogar com alunos sem revisar os textos para que eles tivessem coragem de errar. Gostei, e até hoje, não reviso os textos escritos, então, fique sempre a vontade para indicar todos os tipos de comentários, inclusive linguísticos.
    Quanto a filosofia é assim mesmo. Não conheço nenhum professor de filosofia que não tenha ouvida vez ou outra que a matéria não fosse chata. No entanto, temos que assumir o desafio de estimular a capacidade de pensar do aluno. Abraços

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