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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Por que nos matamos? Somos todos suicidas?



Há alguns dias tenho pensado em como escrever um texto sobre a vida, a morte, o suicídio. Confesso que tive dificuldade e esta é talvez a décima vez que sento em frente ao PC para começar a escrever. Então resolvi tentar pensar de forma fragmentada expondo aos poucos os motivos de tal empreitada e procurando não ser cansativo. Na verdade, fui afetado pela morte de um filho de colega de trabalho e ex aluna de poucos anos atrás. Diferente do que se pode esperar, tratava-se de um jovem de bons princípios, que acreditava nas leis, na justiça, em Deus e na vida. Então fica a pergunta: por que se matou?

Razão para falar sobre a morte

A morte como a vida está diante dos nossos olhos todos os dias. Todos os dias pessoas morrem e pessoas nascem. Nas ruas, acidentes de carros, motos, tragédias naturais, sempre existe em algum lugar do planeta em cada minuto da existência humana alguém morrendo, e por incrível que pareça alguém nascendo. Olhando assim, temos tantos motivos para falar da morte como teríamos para falar da vida. No entanto, existem algumas formas de morrer que nos chocam mais, deixa-nos mais afetados no ego, isso por que nos assombramos com o que o homem é, às vezes, capaz de fazer contra a vida. É assim, quando nos defrontamos com a guerra, o roubo seguido de morte, enfim, o suicídio.
O problema destes tipos de morte é que os vemos como fora do ciclo natural das coisas. Também nos afeta a morte de uma criança, para um pai a morte de um filho, pois parece ser a ordem natural das coisas que os pais morram antes dos filhos. Então, ao conviver com eventos que parecem fugir da ordem natural das coisas ficamos aturdidos. Entretanto parece ser necessário colocar isso que chamamos de “ordem natural” entre aspas. A chamada ordem natural não nos parece ser nada mais como sendo fruto de preconceitos construídos com base na ignorância dos homens. Na medida em que vamos crescendo em conhecimento muito do que antes nos parecia natural deixa de ser, e um exemplo disso é o nascer e o por do sol, a relação existente entre o sol e a terra, que muitos acreditaram até bem poucos séculos que era o sol que girava em torno da terra, pois os sentidos assim o indicava como sendo natural.
Então, na verdade, nossa reação diante da morte, ou nossas razões para falar sobre a morte, depende na verdade, do conhecimento que temos da vida, pois existem muitas formas de viver, e ainda, muitas formas de morrer. Já se disse e com muita propriedade que todos nós começamos a morrer assim que nascemos. Na verdade, a vida constitui uma luta contra a morte  desde o momento em que chegamos ao mundo.

A visão que temos da morte.

A morte é vista no ocidente como interrupção da vida. Assim, muito do que no oriente é considerado morte, como a falta de cuidado com o próprio corpo, por exemplo, no ocidente não é visto como mortificação. Em todos os casos e em todas as regiões do planeta a questão da morte está profundamente ligada as questões religiosas. No mundo judeu era proibido falar com os mortos, vide a situação de Saul que foi punido por Deus com a perda do reino por que consultou os mortos por meio de uma Pitonisa. Entre os gregos, era normal a existência de Pitonisas, embora as mesmas fossem relegadas como párias da sociedade.
No mundo atual e nas religiões atuais, é quase senso comum a admissão de vida após a morte. No cristianismo católico romano acredita-se que após a morte a alma do morto vai ou para o inferno, ou para o purgatório, ou para o céu. O inferno é reservado aos incorrigíveis. O purgatório é para aqueles que embora não tenham tido uma vida digna do paraíso pelo mérito das orações dos seus queridos ou da santa Igreja, recebem uma segunda oportunidade.
No cristianismo Protestante ou Evangélico ( o que é uma redundância, por que todo cristianismo é evangélico, uma vez que as boas novas  foram trazidas por cristo e estão escritas nos Evangelhos), a morte é vista como interrupção da vida que pode ser retomada com o encontro com o salvador no Juízo final. Com poucas diferenças entre umas e outras denominações, no geral, todas preconizam que haverá um juízo final onde os justos herdarão o paraíso.
Uma nova forma de cristianismo e denominado Cristianismo Espiritista surgida no segundo milênio de nossa era, propagou uma nova forma de ver a morte. Segundo Kardec, seu fundador, e que afirma ter recebido a referida doutrina de espíritos evoluídos, o espiritismo se constitui com a revelação do Espírito Santo prometida nos evangelhos, e que representava um novo passo no processo de evolução da humanidade. Segunda esta doutrina, homens com dons especiais podem receber dos espíritos mensagens divinas,(os chamados médiuns desenvolvidos ou missionários), e que estas mensagens teriam como objetivo auxiliar os demais homens no caminho da evolução rumo ao bem. Para o Espiritismo Kardecista, a morte não é senão um processo de transição, onde a alma deixa o corpo material e prossegue sua jornada em outro plano de acordo com o merecimento.
A doutrina espírita retoma em novos moldes a doutrina da reencarnação ou a idéia de que a alma pode se reencarnar várias vezes nesta terra em corpos diferentes. Na morte o espírito apenas deixa o seu envoltório corporal, e, que a vida depois da morte é na verdade infinitamente mais rica que a vida no planeta terra ou na existência terrena. Veja, que a morte perde em muita sua importância, uma vez que deixa de ser algo definitivo e passa a ser apenas um portal entre duas dimensões de uma mesma existência.
Em todas as religiões e filosofias que admitem a reencarnação, a morte é vista quase sempre desta maneira: um portal entre duas dimensões. O desafio então, destas religiões é ensinar o homem a adquirir a consciência da vida, pois apenas a consciência absoluta da vida pode ensinar o homem a lidar com a morte, e, em outro instante levá-lo a evolução espiritual e ao contato com as esferas superiores. Enquanto não alcança este objetivo, o homem reencarna indefinidamente preso em seus próprios pensamentos, palavras e atos.
Em comum, em nenhuma desta formas de religião o suicídio é aprovado como instrumento para deter os sofrimentos da vida. No entanto, nas religiões reencarnacionistas o suicídio apenas retarda o processo evolutivo, pois ninguém está pré-destinado a danação eterna seja lá por qual crime for. No Kardecismo, os suicidas, assim como os impenitentes das mais variadas formas são lançados na escuridão chamado de umbral ou zonas umbralinas e inferiores onde padecem de sofrimentos terríveis até tomar consciências da necessidade evolutiva ou receber uma chance de reencarnar para vivenciar na terra oportunidades de evolução.
A ciência pouco trata da morte, e na filosofia diz-se que não é possível filosofar sobre a morte, pois o pensamento filosófico exige a consciência e uma vez que ninguém pode afirmar ter tido consciência da morte, ela está além das possibilidades da filosofia. Não podendo filosofar sobre a morte, não foram, no entanto, poucos os filósofos que ousaram pensar o transcendente, ou seja, aquilo que está para além da matéria, que pode ser chamado de espírito, imaterial e além da razão.
Na sociologia moderna, Emile Durkreim em sua obra o Suicídio, tratou do tema como sendo uma anomia social. Entendido aqui como um desequilíbrio da sociedade. No caso deste sociólogo o aumento dos suicídios em uma dada sociedade denuncia que a própria sociedade está doente, uma vez que os acontecimentos sociais estão ligados de forma orgânica e mecânica.
No moderno senso comum, o suicida é visto como alguém desestruturado, doente, marginalizado que não consegue se ajustar as regras sociais, e por isso, vive as angústias da culpa geradas pela covardia de se admitir desajustado da sociedade. Engraçado é que tal acepção está próxima da ciência pos-moderna que vê nas chamadas doenças da mente formas de desajustamento social.

Somos todos suicidas

Um jovem de bem, bons princípios que possuía uma visão mais ou menos consciente do que acima está explicitado sobre o suicídio, por que se mata? A resposta não é fácil de dar, no entanto, como alguém que conviveu com o jovem em questão arrisco a dizer que ele não puxou o gatilho sozinho. Talvez aqui esteja certo a sociologia moderna, e ao puxar o gatilho ele denunciou um mal latente na sociedade, um sinal de que todos estamos caminhando para o suicídio inevitável.
Vivemos em uma sociedade na qual tudo é passageiro demais. Um pensador afirmou em uma de suas obras que vivemos a época das coisas liquidas; outro afirma, que vivemos em uma época onde tudo que é sólido se desmancha no ar; outro ainda, afirma que vivemos um tempo de profundo relativismo de valores e culturas e que já  não existem mais verdades duradouras e universais.  O individualismo, a força, o interesse levaram o homem de nosso tempo a distanciar da humanidade que existe nele. Matamos o homem por que não nos reconhecemos nos outros homens e nos matamos por que já não temos mais consciência de que somos humanos.
A questão é quando nos matamos. Fazemos isso quando distanciamos de nossos semelhantes, dos nossos familiares, amigos e etc. Quando não somos mais capazes de nos comover com o sentimento alheio, com a dor alheia, por que a insensibilidade já tomou conta de todos nós. No mundo da informação não conseguimos pensar sobre nós, conhecer os sentimentos que existem em nós, e por isso, matamos o nosso poder pelo desejo de ter tudo que pulula a nossa  volta. Sim, somos todos suicidas. Os jovens que se matam não estão puxando o gatilhos sozinhos, estão fazendo com a nossa ajuda, quando já não somos mais gratos pela vida, quando somos hipócritas ao ponto de nos sentirmos como deuses; ao usar da deslealdade para saciar os nossos mais pérfidos desejos. Eis por que somos todos suicidas.


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