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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Júnior do Friboi: os primeiros movimentos de um desconhecido.

Nelson Soares dos Santos

Existe uma certa desconfiança das lideranças políticas quando um cidadão bem sucedido profissionalmente ou na vida empresarial resolve tentar uma carreira política. Este fato não é uma coisa inerente apenas ao Brasil e a Goiás, mas ao mundo inteiro. Nos E.U.A, por exemplo, milionários já tentaram por diversas vezes serem candidatos a presidência da república mas, sem sucesso. Mesmo quando ambicionam apenas se tornarem membros do Senado, encontram dificuldades intransponíveis. Do outro lado, artista, atores, e, atrizes pavimentam o mesmo caminho com facilidade, tendo por lá, até mesmo um ator de filmes, nem tão bom assim, chegado a presidir o país.
No Brasil, a situação não é tão diferente. Não conheço nenhum estado importante que tenha sido governado por um grande empresário. Em São Paulo, o exemplo mais intrigante é o de Antônio Ermírio de Moraes, que mesmo sendo oriundo de uma família tradicional nunca conseguiu se emplacar como político, embora dono de uma reputação social admirada por todas as lideranças políticas. Na última eleição, um ex-presidente da poderosa FIESP, amargou números ínfimos nas pesquisas como candidato a Governador de São Paulo. O mais perto que um grande Empresário chegou ao poder no Brasil foi com José de Alencar, que se tornou vice presidente na chapa de Lula, em um movimento inusitado de aliança com forças representantes dos trabalhadores.
Em Goiás, alguns grandes empresários já são presentes na cena política. Sandro Mabel é um exemplo considerado de sucesso, embora, nunca tenha conseguido ir além de Deputado Federal. Vanderlam Cardoso, com uma gestão altamente aprovada como prefeito de uma cidade da região Metropolitana ( Senador Canedo), não conseguiu ocupar os espaços pretendidos ainda no cenário político estadual. Para tentar entender as dificuldades enfrentadas por estes “bons” homens precisamos tentar entender as diferenças entre as relações políticas e comerciais.
A principal questão que precisa ser aceita e compreendida é que as relações políticas são completamente diferentes das relações comerciais. Nas primeiras, ocorre uma relação de poder entre as pessoas, onde ser ou se tornar poderoso depende de como ( isso na democracia), cada pessoa esteja disposto de alienar sua identidade aquele que considera digno de ser seu representante. É um processo feito no escuro, uma aposta cuja decisão é de foro íntimo, e, portanto moral. Nas relações comerciais as relações são estabelecidas principalmente pela necessidade. Um comerciante faz negócios com outro pela necessidade de aumentar o seu lucro e de acordo com as possibilidades que o outro tem de oferecer chances deste lucro acontecer. Não é preciso necessariamente identificação, alienação, adesão íntima; apenas a certeza que os parâmetros acertados no negócio serão cumpridos. Mesmo quanto a credibilidade e confiança torna-se um tanto impessoal, pois ambas as partes conta com a possibilidade de buscar no Estado a proteção contra a quebra de contrato.  Na política, a única garantia é a confiança que se passa de identidade a identidade, de pessoa a pessoa, daí, por que e mais ainda na democracia, na política o individuo precisas ser aprovado pela maioria dos cidadãos e, portanto, estabelecer um contrato de confiança com cada um deles.
Nas relações comerciais o individuo relaciona-se sempre com seus iguais. Quando precisa entrar em contato com classes inferior e ou superior a si mesmo contrata executivos, e ou  profissionais. Poucos são os empresários que possuem contatos diretos com seus funcionários, sobretudo, aqueles mais simples e que realizam o trabalho mais pesado das empresas. Duvido quantos grandes empresários sabem o nome da faxineira que limpa o seu próprio escritório. Muitos, sequer sabem como vivem a empregada doméstica que cuidas dos seus filhos. Na política existe uma exigência de conhecimento da situação na qual vive as pessoas, e, costumeiramente o cidadão tende a votar naquele que compartilha com sinceridade, mesmo que por alguns momentos, da situação nas quais ele vive.
Por todas estas questões os movimentos de Júnior do Friboi não devem ser menosprezados. Primeiro por que suas primeiras tentativas de entrar na política pela mão dos grandes líderes políticos foram fracassadas o que o levou a entender que este não era o caminho possível. Sendo assim, seu primeiro movimento, na sua nova tentativa, foi assumir o controle de um partido, no qual ele tivesse voz decisiva, ou mesmo soasse como tendo força suficiente de decisão quanto teria em uma  empresa sua. A escolha do PSB, embora revele certo desprezo pelas ideologias partidárias,  - e  será difícil um empresário milionários convencer o mais leigo dos eleitores que se tornou um socialista; poda dar certo na medida em que ele conseguir desvencilhar seu pensamento de empresário para o seu pensamento de governança política e se diferenciar dos líderes tradicionais Marconi e Iris.
O segundo movimento que tem sido feito pelo empresário foi começar a conversar com lideranças do interior, apresentando-se de forma humilde, expondo suas idéias, e é claro, investindo nas lideranças que podem a vir serem eleitas em 2012. Aliado a isso, faz um movimento sutil de distanciamento dos políticos tradicionais, sobretudo, Iris e Marconi, tentando se colocar como a possibilidade de uma terceira alternativa. Movimento de sucesso semelhante foi feito  por empresários nos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde em ambos os estados que possuem características semelhantes ao Estado de Goiás, lograram êxito na empreitada. Inclusive, em um dos estados, o partido escolhido também foi um partido socialista, no caso o PPS.
Movimento não tão sutil, tem feito o empresário no terreno do Marketing e da mídia. Aos poucos, começa a se notar, aqui e ali, artigos favoráveis, análises marqueteiras, que o bom leitor percebe que não se trata de nenhuma notícia, nem tão pouco uma analise isenta. (Não é o caso do editor deste que nunca esteve na presença do empresário). As análises que aparecem nos jornais, vai mostrando na verdade quem poderá ser os aliados do empresário no terreno intelectual e na mídia formadora de opinião, hoje, dominada por Iristas e Marconistas.
Não tenho dúvida de que os movimentos do empresário tem sido acompanhadas por lideranças de todos os Partidos em Goiás. As suas movimentações, certamente, apressou as movimentações de outros pré-candidatos a Governador em 2014, diga-se, Rubens Otoni e Vanderlan Cardoso. Entende-se, portanto que a batalha de 2014, já começou, todos sabem disso, mas é preciso fingir que o que está em jogo é apenas 2012. Do lado do Governador Marconi, não lhe resta muitas estratégias senão fazer um governo arrojado, desenvolvimentista e atrair uma alta competitividade empresarial para o estado, esta, pode realmente ser a forma mais inteligente de combater o futuro crescimento de um grande empresário na política  - fazer da política uma grande empresa a serviço de todos.
De resto, pode se entender que os movimentos de Júnior do Friboi já começam a serem bons para Goiás. De um lado, mostra a Rubens Otoni e Vanderlan Cardoso que precisa investir verdadeiramente nas lideranças já em 2012, de outro, mostra ao Governo que precisa levar a meritocracia a sério e combiná-la com uma política de respeito e inclusão do outro nos processos sociais. Uma coisa é certa: os movimentos do empresário não podem ser menosprezados e não estão sendo. Será uma batalha boa de se ver, na qual a conscientização política do povo pode levar a um salto de qualidade na democracia goiana.


domingo, 25 de setembro de 2011

Conhecimento: O senso comum e a consciência do novo senso comum..

Nelson Soares dos Santos

Quando me ponho pensar sobre a questão do conhecimento na atualidade, logo me vem à mente o quanto o conhecimento é para poucos. Não é coisa de marxista, a verdade é que o acesso ao conhecimento da realidade ou aos instrumentos de conhecimento da realidade é tão ou mais elitizado que o capital financeiro. Não é por acaso que já se fala em capital intelectual como instrumento do capital financeiro e se estuda as melhores formas de exploração do mesmo visando o lucro das empresas. Mas, afinal, por que o acesso à ciência é tão mal distribuído mesmo entre as classes com alto poder aquisitivo?
A resposta para esta pergunta guarda em si algumas armadilhas; a primeira delas, a aparência de já poder ter havido alguma época na qual o acesso ao conhecimento válido da realidade fosse patrimônio de um grande número de pessoas. Não parece ter sido assim. Um breve olhar pelas tradições do pensamento ocidental e vemos que o conhecimento das coisas foi, parece, tributo de alguns poucos privilegiados.
 Na tradição Judaica, segundo se lê na própria Torá, existia uma limitação ao acesso ao conhecimento, uma vez que apenas os filhos da casa de Levi tinham acesso aos mistérios Sagrados do Templo, e entre os filhos da Casa de Judá eram escolhidos os governantes. Entre os gregos, conhecidos pela riqueza dos seus mitos e por serem os primeiros a instituir o logos como forma de explicação da realidade, apenas os cidadãos tinham acesso a formação necessária que dava condições ao pensamento criador. Ficavam de fora, escravos, mulheres, e, estrangeiros.

É no cristianismo, no entanto, sobretudo sobre sua forma medieval que parece ter havido a maior restrição ao acesso aos instrumentos de conhecimento da realidade, não apenas negando a possibilidade como fazendo uma verdadeira tentativa de impedir que as pessoas ultrapassassem os referidos limites por elas mesmas. As perseguições, as fogueiras e todas as artimanhas do cristianismo romanizado não foram, no entanto, capazes de frear o desenvolvimento do pensamento racional.
Nas demais tradições culturais, seja na Índia, China, Japão, Pérsia, Babilônia, Egito, e, nos países nórdicos o conhecimento dos mistérios também esteve sempre ligado a um grupo restrito de pessoas, ligadas a um mestre que repassava o saber apenas aqueles que acreditavam merecedores.

A revolução do Iluminismo e o Homem Esclarecido.

A  ciência moderna, a grande responsável por produzir o acesso ao conhecimento para todos aqueles que de fato quisessem fazer de suas vidas uma vida de busca ao saber, traz em si, também armadilhas que precisam ser esclarecidas. Acreditar com Kant que aconteça o esclarecimento é preciso que o  homem saia de sua minoridade, e que o  homem é  o único responsável por estar na minoridade não parece mais ser uma explicação plausível. Naquele tempo, as palavras ideologia, alienação, mercadoria e financeirização não possuíam o lugar central que possui nossos dias quando o assunto é expansão da consciência humana.
Esta  mesma ciência moderna com toda técnica a ela inerente revolucionou o modo de divulgar o conhecimento, de um lado institucionalizando no Estado Moderno o papel das escolas e Universidades como lugar de produção de saberes, de outro lado, fez se acompanhar de mecanismos que causa uma grande confusão na mente humana e faz muitos crer possuir o conhecimento que de fato não possui.
O processo de alienação torna-se a assim uma armadilha da qual não é fácil escapar. A dialética estabelecida entre o processo de alienação e a ideologia produz um circulo estranho e interminável, aliado ao processo de fragmentação desta mesma ciência leva a um circulo quase interminável de idas e voltas sobre si mesmo, aonde o sujeito vai se tornando incapaz de conhecer a própria realidade. Isso ainda fica mais complexo quando se analisa a distância que existe entre o mundo vivido e o que Bachelard chama de cidade científica com suas linguagens, terminologias, completamente estranhas a realidade do homem que vive envolvido na técnica ou na fenomenotécnica.
O mundo da ciência ou que depende da ciência para existir, ou seja, o mundo produzido pela ciência está distante do mundo vivido do homem comum, não apenas pela exigência colocada pelo capital para se reduplicar constantemente. Na verdade, o homem comum desconhece o mundo produzido pela ciência por que o aparato produzido por ela retirou a necessidade de se conhecer o real. Qual necessidade tem uma pessoa de conhecer o funcionamento de uma máquina de lavar? O que muda exatamente na vida de uma pessoa saber explicar as diferenças entre as leis de Newton? E tudo isso torna-se menos atraente ainda se a pessoa da qual falamos vive uma vida confortável e precisa de pouco para viver bem. E mesmo aqueles que vêem na busca do conhecimento uma forma de “melhorar a vida”, poucos passam do fenômeno conhecido como profissionalização ou especialização, no qual, o individuo acaba por se restringir ao conhecimento do seu fazer prático, ignorando a possibilidade de se conhecer a realidade de forma radical, rigorosa e de conjunto.

Um novo tipo de senso comum.

Este é  o motivo que leva muitos bons profissionais, executivos, e até mesmo bons profissionais das chamadas ciências humanas se orgulhar de nada saber da filosofia, e questionar, para que serve a filosofia. Pedagogos, Sociólogos, Psicólogos; a  maioria, os quais restringiram a formação a uma graduação e uma especialização falam de peito cheio da filosofia como persona non grata do mundo do saber e do sucesso profissional. Em contrapartida, os graduados das mais diversas áreas são a clientela que mais investe em cursos de curta duração e  no Coaching, sendo que este último já existe como solução para quase todos os males.
Pouco tenho ouvido sobre este novo tipo de senso comum. É uma forma de ignorância não daqueles que não sabem ler, ou escrever, mas, daqueles que pretendem conhecer, ou saber conhecer, e o que é pior, é que este mal está acometendo muitos que se propõe a ensinar e estão nas Universidades ensinando. Mesmo no campo da filosofia, a situação já não é mais tranqüilizadora. Poderia ser entendido como fez a escola de Frankfurt como sendo um processo de morte da razão pela sua instrumentalização, mas não creio ser só isso. Talvez Habermas tenha se aproximado bem mais da realidade ao discutir o processo  de dissociação e fragmentação do mundo da vida. Então, onde a filosofia tem falhado? Talvez não tenha sido falha, mas apenas uma falta de percepção do fenômeno. Preocupada com o esforço de fazer aumentar as possibilidades de conhecimento ou de compreender as novas de conhecimento do real a filosofia tem se mantido no topo da árvore. É preciso descer da árvore, talvez, nem tanto para compreender as raízes mas para retirar as folhas secas que se acumulam no chão e impede novas plantas de se germinarem. Em alguns casos, não se pode mais dizer que são apenas folhas secas, transformaram-se em rochas e o terreno se tornou infértil.
O novo senso comum de que falo é o senso comum dos escolarizados. Em alguns casos, sabem ler, escrever e até são bons escritores com livros publicados e milhares de exemplares vendidos, mas, pessoas que não possuem uma visão radical da realidade. Pessoas que estão tão voltadas para si que não são capazes de perceber as interconexões do todo ou da totalidade.
Uma coisa que se observa é que as formas de conhecimento de uma dada época estão profundamente relacionadas com ao modo de como as pessoas vivem, o padrão moral, a visão de mundo, as crenças e valores. Foi assim na época dos mitos, depois no tempo em que predominou a filosofia de cunha totalmente racional; em seguida, mesmo com a filosofia como serva da teologia na filosofia medieval o exercício do ato de conhecer não estava muito distante do modo de viver das pessoas em sua grande totalidade. Tal dissociação ganha força justamente com o surgimento da ciência moderna e o novo papel que a filosofia passa a ter no novo cenário.

Na verdade, o que parece é que a filosofia não reencontrou mais o seu espaço e papel como campo e ou tipo de conhecimento. A filosofia parece ter ficado presa no medo de, de um lado escorregar para o misticismo ou metafísica; e, de outro, cair no experimentalismo da ciência. Filosofia passou a se tornar sinônimo de estudo de alguma corrente filosófica do passado. Assim, os novos estudiosos da filosofia se tornaram verdadeiros especialistas em metanarrativas, como se isso fosse possível no campo da filosofia. Assim, temos uma maioria de estudantes, professores, mestres e até doutores, que sabem tudo de Fenomenologia mas quando questionados sobre o pragmatismo se esquivam de se pronunciar; outros sabem tudo de marxismo, mas são incapazes de orientar uma tese no campo da epistemologia, fenomenologia, existencialismo, ou outra qualquer. São pessoas que ficam presas a um conjunto de categorias que acreditam tudo explicar, e quando não conseguem se refugiam na questão da especialização das áreas do saber.

As saídas tentadas e imaginadas.

Não se pode dizer que não existam pesquisadores dos mais diversos campos e tipos de conhecimento tentando sair da vala comum e encontrar caminhos e métodos que expliquem a realidade de forma mais rigorosa. E, nesta tentativa, o  conhecimento do mundo ocidental que já sofrera as influências do Judaísmo, do Mito, e do Cristianismo tem sofrido nos últimos anos as influências vindas do mundo oriental com um peso nunca visto e em todas as áreas.
Justamente, e também como influência do pensamento oriental, a fragmentação das ciências, no que diz respeito ao conhecimento científico começa a ser negada e tem se tentado o que convencionou chamar de Multidisciplinaridade, Interdisciplinaridade, ou Transdisciplinaridade na tentativa de aproximar as ciências em busca de uma visão mais totalizadora. O problema é que em movimento estranho cada ciência passou a cunhar novos campos como se possível houver aquela ciência para tudo e todos. Um exemplo: na sociologia passamos a ter sociologia rural, do lazer, do esporte; de forma que não duvido que logo teremos uma sociologia do indivíduo por mais absurdo que  pareça ser.
Em busca de uma pretensa unidade o conhecimento parece se fragmentar cada vez mais. A razão parece cada vez mais instrumentalizada e a irracionalidade parece pairar absoluta, dona de si, senhora de todos reinando sobre um senso comum que possui dificuldade de explicar os menores eventos da vida cotidiana. Pior do que isso é tentar fugir deste senso comum que se tornou quase um bem universal. Não é a toa que já temos professores nas Universidades, com doutorado, e muitos no campo das ciências humanas que se orgulham de não conhecer quase nada de filosofia.
O novo senso comum vai se tornando um consenso que se repete pela duvidosa formação das novas gerações, a qualidade do ensino superior de graduação e a própria forma como a sociedade passa a ver a Universidade. Há algumas décadas ira para uma universidade significava que a pessoa iria se tornar alguém importante, hoje, significa necessariamente que a pessoa vai ter uma profissão. O novo senso comum é parte de uma tão bem arquitetada ideologia que até aqueles empedernidos marxistas que dizem lutar contra a dominação tornam-se peças de reposição no grande xadrez no qual se relaciona poder e conhecimento.



sábado, 24 de setembro de 2011

A insônia ou a vida como vontade.

Nelson Soares dos Santos

Aproveitei a noite para estudar o pensamento humano. Filosofia, ciência, tudo que pode explicar estes sentimentos desconhecidos; estas coisas estranhas que o mundo não soube nos explicar. Nada consta nos livros capaz de nos mostrar um caminho que de fato leve a essência. Tudo parece uma meiga e grande ilusão. As religiões, tornaram-se meros fantoches de uma existência sem tempero, uma peça mal encenada, um diretor míope que não consegue fazer rir seus  telespectadores.

Não, não dormi. E  a noite passou lentamente entre um tique e taque e outro do relógio. Também não fiquei plugado na internet. Não queria companhia humana nenhuma, não queria ser interrompido nos meus pensamentos mórbidos na tentativa de conceber o ser humano, nem tão pouco ser surpreendido por alguma bondade. Pela primeira vez eu assumia todos os meus erros, todas as minhas escolhas. A ciência explica tanto a vida quanto a vida explica a ciência, não existe nenhuma surpresa que não possa ser  explicada pelas leis descobertas e não descobertas pelo espírito humano. Nem mesmo a novíssima notícia de que os neutrinos são mais velozes que a luz abala a certeza que o ser humano parece livre, vivendo em um eterno oceano tentando descobrir para que serve a própria liberdade.
Não, não dormi. De um momento  a noite é como a vida. Não é mais a noite que vai, é um novo dia que promete chegar. Teimoso, rompendo a escuridão que foge aos gritos de dor e de remorso por todos os tropeços que produziu. Sim, nenhuma escuridão resiste aos raios de sol de um novo dia, eis a lição que o amanhecer ensina a todos nós. E, do nada, muda-se a brisa – digo do nada, por que todos sabemos que uma complexa rotação e translação de planetas está em movimento, compreendidas pelas leis kleperianas – empurrando o calor infernal do dia anterior por um frio suave que permita germinar as novas vidas que podem surgir com o novo dia. Sim,  no novo dia sempre nasce trazendo consigo a ilusão de que uma nova vida vai surgir, e, que tudo que é velho pode simplesmente recomeçar. Não acredito mais em uma verdade assim. Novas vidas só surgem por meio de um esforço maluco de quem quer nascer ou renascer. Não existem caminhos fáceis.
Rebelo-me. Salto da cama senhor do vento, do ar, do fogo, da água, da terra. Salto disposto dominar este fogo incandescente chamado sol. Desço as escadas, abro a porta, saio porta fora, e, vejo alguns tímidos transeuntes tentando enfrentar o novo dia com um bocejo no rosto, preguiça a mostra. São vidas pobres, pobres vidas vividas no sabor da obrigação, da escravidão de sempre ter de fazer a mesma coisa. Caminho pelas ruas ainda vazias procurando este senhor que logo deve surgir nos céus espantando os últimos indícios de escuridão. Posiciono-me em uma esquina de praça. Olho a relva seca, machucado pelos raios terríveis do meio dia que mata tudo que não possui raízes profundas para buscar sua bebida nas profundezas da terra.
Três moças saem de um prédio a cantarolar. Elas não tem consciência de que o raiar do sol está trazendo um novo dia, seus raios purificando o meio  para permitir o nascimento do novo. Não, elas não tem consciência dos privilégios de sentir aqueles raios no amanhecer, estão por demais apegadas ao passado vivido na escuridão e olham de forma ressacada escondendo seus olhos dos raios ainda escondidos, do dia que se anuncia. Contemplo-as com piedade. Voltarão a ter a mesma noite escura, e sentirão prazeres nas noites escuras da vida, e, quiçá não transformará toda a vida em uma noite sem fim, interminável de folguedos vividos pela carne podre que governa o mundo.
Eu estou ali, de pé, recostado em um poste aguardando o astro rei se pronunciar sobre o novo dia. Em minha mente já está tudo pronto para a nova batalha. Definitivamente perdi o medo da luz, a escuridão não enfraquece mais, não sinto vontade de dormir, não quero a escuridão, quero me banhar no calor ensurdecedor da luz que modifica ao seu bel prazer a inércia, o movimento e a resistência aos movimentos da vida. Eu o enfrento olho no olho pelos seus primeiros raios. Seu núcleo latejante parece nervoso, sente-se pressionado como que tem pressa para explodir seus adversários renitentes que se colocam adiante. Eu mantenho firme o olhar, e apesar, do olhar nervoso, núcleo latejante, é com suavidade que a brisa traz os seus primeiros raios convidando meu corpo, carne e matéria e se harmonizar e se purificar para a luz maior que se dará no zênite do céu ao pleno meio dia.
Sim, é a luz no zênite dos céus que seca tudo que não tem raízes profundas, que faz a tudo desabar. Nenhuma construção sem solidez resiste aos seus espetaculares anúncios das verdades que a vida humana pode suportar. Tudo que é sólido se desmancha perante ela. Ante a resistência e o anúncio de que o enfrentamento com a luz tão poderosa deve esperar até o meio dia, curvo-me perante a doçura dos primeiros raios de sol. Ainda assim, continuo minha briga com o mundo. No entanto, se antes eu gritava aos seus ouvidos que não aceitava que ninguém tirasse nada do que a vida desejava me dar, agora sussurro devagarzinho, em uma meditação silenciosa enquanto sou purificado pela doçura do amanhecer.
Rapidamente, abro os olhos. O dia já se tornou corrido. Transeuntes andam de um lado para outro, carros desenfreados, buzinas, tudo denuncia que o dia parece ser mais um dia entre todos nos quais o sol nasceu e se pôs parecendo indiferente as lutas humanas. No centro do sol percebendo o nascer da luz aprendi que tudo nasce e explode de dentro, e é com esta verdade que volto para a casa, silencioso, consciente de que a vida é sempre do tamanho de que toda a vida merece e vais buscar no sol a pureza e força para enfrentar o meio dia.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Iris e Marconi x Alexandre e Dario – As surpresas que podem vir em 2014

Nelson Soares dos Santos

Olhar para a história pode, as vezes, nos ajudar entender o presente e até a prever o futuro. Não costumou olhar para a história da mesma forma que fazem os historiadores ou pelo menos uma grande parte deles. Olho de forma anacrônica buscando relações que ainda não foram feitas, explicações para fatos em outros fatos menos importantes. Hoje, lendo os jornais e vendo as notícias, do nada me veio a mente um fato histórico e ainda por nada diversas outras cenas começaram a se desenrolar em minha mente.
Primeiro vi nos jornais as notícias sobre a UEG e o processo de reformulação, depois vi algumas coisas sobre a malfadada reforma neoliberal de Thiago Peixoto na Educação Básica; as comemorações do Secretário de Cultura do sucesso do Fórum Estadual de Cultura; o gabarito da Meritocracia. Parece um apanhado de notícias boas se olhadas do lado de um governista esperançoso de que tudo vai dar certo no final. Nas páginas seguintes dos jornais estampava a guerra fatricida que se estabeleceu no PMDB, e na página seguinte cinco rostos de goianos que estão entre os mais prestigiados do Congresso Nacional. Tudo isso fez com que nascesse um enredo moderno e atual de uma guerra do passado que mais que uma guerra entre dois exércitos eu sempre a vejo como a guerra entre dois homens.
Tudo começou bem antes do pai de Alexandre o Grande morrer. Felipe o grande segundo um H. G. Wells ao ensinar Alexandre as agruras de ser rei foi questionado por que não juntava um exército e marchava contra os Persas para derrotá-los. Felipe ficou nervoso, reagiu, e encerrou a história por ali mesmo sem dar grandes explicações. Para complicar a situação, ao desposar uma nova esposa, na festa de casamento Alexandre foi tratado como filho bastardo. No coração de Alexandre estava postas as sementes para desejar  superar o pai, expandir o império e conquistar aquilo que o pai temeu conquistar.
Ao assumir o lugar do pai, Alexandre não se contenta  e não se sente ser imperador. É como se não quisesse herdar e quisesse ser um conquistador. Discípulo que fora de Aristóteles, sabia que as virtudes se aprendiam pelo hábito e via em cada batalha uma oportunidade de aprendizagem. Em Gargamelos, diante do Rei Dario, Alexandre estava disposto a ser mais do que ele mesmo acreditar ser, e, acreditar em seus soldados e generais que sendo estes homens livres seriam capazes de expressar uma vontade capaz de surpreender até mesmo um grande Rei como Dario.
O plano de vencer o Exército de Dario surpreendendo-o pela vontade e velocidade, quebrando-o pelo flanco esquerdo estava a poucos metros de dar a Alexandre a vitória absoluta. Dario estava diante dele, quando ouve gritos de socorro avisando que a outra parte do seu exército estava sendo esmagada. Tendo que decidir entre salvar os seus homens ou matar Dario, Alexandre decide abandonar seus planos iniciais e vê Dario fugindo diante dos seus olhos e perdendo ali a oportunidade de ter uma vitória absoluta. Jura, então, o macedônio de que não descansaria enquanto não encontrasse Dario e o matasse com suas próprias mãos.
Após a batalha o império macedônio se expandiu de forma extraordinária, no entanto, Alexandre vivia obstinado, obcecado, afinal, não alcançara seu objetivo de matar Dario com suas próprias mãos. Tempos depois, segundo a história, Dario é encontrado de forma frágil, é morto, não dando a Alexandre a oportunidade de luta que ele desejava. No final, em honra a Dario a quem tanto respeitava, Alexandre passou a usar até mesmo o seu anel, e sua tiara símbolo do poder do império persa, e, ainda casou-se com Roxana uma Bactriana.
Por que os  jornais me fizeram vir a memória acontecimentos tão distantes? A história de Iris e Marconi é muita mais que a história de dois políticos em busca de honra e glória, é a história de dois homens obstinados pela vitória e pela grandeza, e, que se medem um pelo outro. E talvez este seja ou venha a ser o grande erro de Marconi. Em 1998, quando venceu Iris a primeira vez, todos acreditaram que o velho guerreiro estava completamente derrotado. Penso que até mesmo Iris chegou a pensar que seu tempo na política havia terminado.Recolheu-se na sua fazenda, ficou por lá quase dois anos em silêncio, pouco falava, recebia poucas pessoas. Vendo seu exército sendo massacrado o velho Iris voltou para as trincheiras, percorreu o estado inteiro, reorganizou forças; tentou uma aliança com o PT, e, rejeitado,  lançou-se solitário e desacreditado candidato a prefeito da Capital. Surpreendeu a todos, venceu, e parece ter ensinado uma lição cara aos seus adversários: nunca se deve subestimar um grande líder.
Do outro lado, Marconi via-se as tramas para escolher seu sucessor, e já passara pelo incômodo de ter que disputar o governo como Demóstenes Torres, vendo o PFL dividido e tendo que conviver com adversários e inimigos declarados em sua própria base. No mandado seguinte, ao passar o mandato ao vice Alcides Rodrigues, teve de contemplar seus homens de confiança defenestrados do governo, sua base enfraquecida, e no final, o seu sucessor aliado a Iris Rezende no intuito de derrotá-lo. Marconi atingiu o exército Irista pelo flanco esquerdo, mas pagou o preço de dividir o exército para fazê-lo.
No novo confronto que no momento se descortina, Marconi parece ter se obstinado a destruir completamente Iris Rezende e seu legado político. Primeiro, enfraqueceu-o na batalha cooptando alguns aliados fortes ( Thiago Peixoto, Francisco Junior, etc); vencida a batalha eleitoral consumou-se a cooptação ( o casamento com Roxana); entregando a Secretaria de Educação praticamente de porteira fechada ao neo-governista e atendendo generosamente os demais neo-governistas com “pedaços do reino”.
De tal casamento e andanças do nosso Alexandre  já surge um filho que não é macedônio, e a quem muitos já consideram que pode ser o país de seu novo lar. O filho chama-se PSD, e já há quem especule que Marconi pode deixar o PSDB e estabelecer a capital no país onde vive seus herdeiros. O problema é que Marconi tem suas vitórias creditadas não somente a ele, mas a seus velhos e antigos generais, e, mesmos os novos que com ele estudou e aprendeu da vida já não vêem com tanta confiança que pode tirar de suas mãos o futuro do império construído. A obsessão por vencer o velho guerreiro planta as sementes de uma guerra que cresce em seu próprio chão. No entanto, não se cansa o processo de fustigamento e destruição do PMDB continua com todas as forças mantendo sempre o discurso de que o problema do PMDB é ser dirigido por Iris. O que não se vê, porém, é que muitos dos que ajudaram a dar a Marconi a vitória estão ficando abandonados para que seja dado lugar aos “novos companheiros”, que oxalá tenha as qualidades de lealdade e fidelidades esperadas. Quem tem motivos para trair, terá motivos sempre e todos os motivos terão justificativas lógicas para quem quiser nelas crer.
Na obstinação de isolar totalmente Iris Rezende, Marconi está deixando o flanco direito do seu exército desprotegido, perseguindo diuturnamente o velho lobo deixa seu exército cansado; cooptando gente de baixa qualidade diminui as provisões dos seus velhos aliados e planta as sementes de uma grande destruição. O império de Marconi como o de Alexandre pode acabar cedo, em 2014, em vez de conquistar o mundo ( a presidência do Brasil), pode acabar vendo seu reino todo dividido e passar a história como um jovem intrépido, inteligente, de grande estratégia política mas que não soube a hora de parar de perseguir um velho e cansado general. Marconi precisa esquecer que Iris derrotou Santillo, e contentar-se em seguir adiante. Não importa o quão grande Marconi seja, Iris venceu Santillo, e isso não será mudado.

sábado, 17 de setembro de 2011

CONSIDERAÇÕES CRÍTICAS SOBRE O DOCUMENTO “DIRETRIZES DO PACTO PELA EDUCAÇÃO: REFORMA EDUCACIONAL GOIANA – SETEMBRO DE 2011


(Versão , atualizada e revisada pelo autor)

CONSIDERAÇÕES CRÍTICAS SOBRE O DOCUMENTO “DIRETRIZES DO PACTO PELA EDUCAÇÃO: REFORMA EDUCACIONAL GOIANA – SETEMBRO DE 2011

José Carlos Libâneo, doutor em educação, professor titular da PUC Goiás.

1. Visão geral do documento: Diretrizes do Pacto pela Educação – Reforma Educacional Goiana
         Em primeiro lugar, gostaria de acreditar que o projeto de reforma educacional goiana fosse, de fato, uma iniciativa de educação para todos, na busca de políticas públicas de recuperação da escola pública goiana no sentido de melhores resultados da aprendizagem escolar dos alunos e que ao menos sua formulação final contasse com a participação dos professores e dirigentes escolares e dos setores da sociedade envolvidos com os destinos da escola pública.
         É conhecida a precariedade da escola brasileira. Os resultados das aprendizagens mostrados nas estatísticas oficiais são medíocres. Em Goiás a situação não é diferente. Precisamente para enfrentar esses maus resultados o governo do estado e a secretaria da educação lançaram pela imprensa (5/9/2011) um programa ambicioso de mudanças na educação goiana. O documento denominado Diretrizes do Pacto pela Educação – Reforma Educacional Goiana apresenta cinco pilares estratégicos, metas gerais e 25 iniciativas referentes a cada pilar, mas não traz uma exposição de motivos que justificam as Diretrizes. No entanto, uma análise das metas, estratégias e ações propostas não deixa dúvidas de que se trata de um modelo de intervenção diretamente inspirado na proposta dos organismos internacionais (Banco Mundial, OCDE, UNESCO, etc.) para a escola de países em desenvolvimento[1]. No seu conjunto, as Diretrizes do governo goiano para a educação são uma reprodução clara da visão neoliberal economicista da educação que, basicamente, corresponde a uma política de resultados, com base na melhoria de indicadores quantitativos de eficiência do sistema escolar. Tal como já ocorreu em projetos semelhantes de reforma educativa nos estados de Minas Gerais e São Paulo nas últimas décadas (além de países da América Latina, como o Chile), trata-se de juntar a demanda da qualidade da educação com eficiência econômica, dentro de padrões empresariais de funcionamento, visando objetivos pragmáticos e instrumentais. No entanto, é sabido que as reformas efetuadas naqueles estados (e as implantadas em países latino-americanos) não tiveram êxito; ao contrário, a situação da educação piorou significativamente. A reforma agora anunciada em Goiás, cujas linhas gerais, metas e estratégias, não são novidades, pode seguir os mesmos caminhos caso não sejam revistos aspectos importantes do projeto.
         Uma análise crítica das Diretrizes precisa estar atenta a algumas considerações. É verdade que a qualidade da educação é condição para a eficiência econômica, e é essa a motivação que está por detrás dessa reforma educativa goiana. Também é fato que o planejamento estratégico para a educação necessita a previsão de resultados e meios de obtê-los. Mas os educadores comprometidos com os reais interesses dos alunos da escola pública e suas famílias perguntam: Que qualidade? Que eficiência econômica? De quais resultados e processos se trata? Qual é a concepção de desenvolvimento humano e de desenvolvimento social e econômico que estão por detrás das propostas? Respostas a estas perguntas fornecerão os critérios de diagnóstico, análise e busca de soluções para os problemas da educação.
         Vários educadores brasileiros já apontaram o fato de que, desde o governo Collor, passando pelos governos FHC e Lula, as políticas educacionais brasileiras já eram uma política de resultados de inspiração neoliberal. No entanto, este programa do governo de Goiás pode ser considerado um programa requintado da política de resultados, como forma de regulação do sistema escolar. Além do mais, para um governo que declara que gasta muito com educação com pouco resultado, é surpreendente que o documento da reforma tenha sido resultado de contrato com uma empresa multinacional, a Bain & Company, especializada em consultoria de gestão, negócios e resultados financeiros, contrato esse ofensivo e acintoso para a comunidade científica e profissional do campo da educação do Brasil e de Goiás.
         A despeito de eu não concordar com a concepção de desenvolvimento humano (apenas implícita no mencionado documento) e as estratégias de intervenção nos problemas da escola considero, no entanto, legítimo o direito da secretaria da educação de formular as Diretrizes, ainda mais por se propor a discuti-la publicamente com as escolas, comunidade e sociedade. Inclusive, há aspectos da proposta que, se efetivamente postos em prática, podem contribuir para a melhoria da escola pública. Tratando-se, pois, de uma proposta oficial, vinda do órgão que tem a responsabilidade social e financeira de manter as escolas, é preciso conhecê-la, criticá-la, mas, também, indicar os pontos em que a sociedade quer vê-la modificada.
2. Aproximações das Diretrizes com os princípios e estratégias indicados pelos organismos internacionais (principalmente o Banco Mundial)
         Os pesquisadores do campo da educação e os educadores, tanto em âmbito nacional como internacional, têm identificado detidamente as políticas para a educação dos países pobres e em desenvolvimento, em associação com as orientações neoliberais para a economia globalizada. Resumidamente, essas políticas têm as seguintes características:
-        Reducionismo economicista, ou seja, as políticas e estratégias para o setor público devem ser baseadas na análise econômica;
-        Redução da pobreza no mundo por meio de investimentos na educação básica, saúde básica, planejamento familiar, nutrição, de modo a aliviar tensões sociais e ampliar o número de consumidores;
-        Prioridade aos aspectos financeiros e administrativos da reforma educativa, ressaltando aspectos que devem ser centralizados (padrões de desempenho, insumos que influenciam o rendimento escolar, estratégias de aquisição e uso desses insumos e monitoração do desempenho escolar), outros descentralizados (autonomia e responsabilização das escolas e professores pelos resultados);
-        Formulação para a escola de objetivos de aprendizagem mensuráveis (conhecimento operacional), com padrões de rendimento e avaliação em escala, visando o acompanhamento de taxas de retorno e redefinição de critérios de investimento (política de insumos e resultados);
-        Aplicação e controle de insumos (livros didáticos, equipamentos, bônus e prêmios, treinamento em gestão, tempo de permanência na escola, etc.);
-        Flexibilização no planejamento e centralização da avaliação, devendo esta controlar o próprio planejamento e os professores;
-        Medidas controladoras que jogam as responsabilidades em cima dos professores e da sociedade: conteúdos básicos e padrões de aprendizagem, elaboração de livros didáticos padronizados, convocação dos pais à escola para serviço voluntário;
-        Programas de atribuição de bônus e prêmios às escolas que tiverem bom desempenho e aos professores que cumprirem as metas fixadas pelo sistema de ensino em relação ao desempenho dos alunos, com base nas notas dos alunos em exames padronizados;
-        Medidas organizacionais para correção do fluxo escolar: ciclos de escolarização, programas de aceleração da aprendizagem, como mecanismos de redução da repetência.
         Aplicadas estas orientações para as escolas, temos as estratégias a serem postas em prática:
-        Fixação centralizada de objetivos, metas e competências do sistema de ensino, dentro de uma política de resultados;
-        Introdução de métodos de avaliação para o sistema escolar por meio de testes estandardizados (medição da aprendizagem a partir de parâmetros);
-        Ensino de tipo tecnicista, instrumental, em que se mede a qualidade da aprendizagem com base na porcentagem atingida pelo aluno em conhecimentos determinados pelo sistema de ensino
-        Obtenção de resultados  por meio de provimentos de insumos (textos didáticos apostilados, avaliação externa por testes, formas de capacitação de professores com custo baixo, gerenciamento, parcerias com empresas privadas, prêmios e bônus aas escolas re professores bem sucedidos), sem atender a aspectos qualitativos.
-        Descentralização do sistema visando autonomia das escolas e responsabilização dos professores pelos resultados, medida pela avaliação externa de desempenho (incentivo ao desempenho individual);
-        Comparação de resultados entre escolas, professores e alunos, promovendo competição entre eles;
-        Implantação de modelos empresariais de gerenciamento (metas quantificadas, valorização da meritocracia, incentivo ao desempenho individual, tutoria e coaching, monitoramento
         Trata-se, assim, de uma política educacional controlada por resultados, ou seja, fixação de metas na forma de indicadores quantitativos, exigência de eficácia dos atores do sistema, estímulo ao trabalho individual por meio de bônus e prêmios. A eficácia dos servidores, professores, diretores, alunos, depende de determinadas competências. Sendo assim, as competências são requisitos para os resultados. A avaliação torna-se o meio para medir as competências que levarão aos resultados. Estes, por sua vez, servem como critério para que diretores, professores, pais, façam uma reflexão, reelaborem os projetos pedagógicos em termos de recuperação e melhoramento da escola.
         As conseqüências disto são previsíveis:
-        Instrumentalização crescente da educação tendo em vista formar o capital humano em que a empregabilidade substitui o direito ao trabalho; currículo instrumental com conhecimentos práticos;
-        Entrada total da educação no universo econômico enquanto mercado (de educação, de produtos e serviços pedagógicos, “kits” de formação, de professores e alunos etc. sem consideração pelos direitos cívicos, políticos, sociais, culturais);
-        Exacerbação do individualismo num contexto de competitividade mundial conduzindo a escola e os professores à cultura do individualismo (cada um por si, conseguir desempenho melhor que os outros) ao invés de uma cultura da cooperação e do bem coletivo;
-        Legitimação da exclusão social para os não-qualificados pelos critérios padronizados de desempenho (o sistema provê os meios, conseguir ou não é um problema individual);
-        Tirania da obrigatoriedade de resultados: pressão em cima dos professores e dirigentes escolares, concorrência e competição entre escolas e professores, recompensa aos bem-sucedidos, punição aos mal-sucedidos; responsabilização pelas conseqüências;
-        Institucionalização do “professor-executor” (tarefeiro), capacitado em técnicas, facilitador de aprendizagens, orientador do uso de textos e aplicador de provas, mas desprovido do conhecimento científico.
         Não se trata de outra coisa senão da subordinação a um modelo de capitalismo que se torna uma forma de racionalidade tecnológica que impõe estandardização, o controle e a dominação.
3. Considerações pontuais sobre o conteúdo do documento
         O documento Diretrizes do Pacto pela Educação – Reforma Educacional Goiana apresenta a) cinco pilares estratégicos; b) Dez metas gerais; c) 25 iniciativas correspondentes a cada um dos pilares.
         A posição explicitada sobre o documento da Secretaria Estadual da Educação mostra a prevalência do critério econômico para se definir níveis de qualidade do sistema de ensino: currículo baseado no conhecimento prático e habilidades, empregabilidade, eficiência, baixo custo, competitividade, indicadores quantitativos de rendimento, vínculo ao mercado, escola como empresa, aluno como cliente. Tais características aparecem ora explícitas ora implícitas nos cinco pilares estratégicos, nas metas e ações pontuais da reforma educacional. Passo a considerar cada um dos pilares, indicando aspectos positivos e negativos, em face das considerações apontadas anteriormente.
a) A valorização e fortalecimento do profissional da educação
         Alguns pontos, nesse tópico, considero positivos: garantia de remuneração condigna e capacitação, estágio probatório, escola de formação, suportes tecnológicos ao trabalho do professor (portal pedagógico, banco de aulas, por ex.), acompanhamento pedagógico na situação de trabalho por coordenadores pedagógicos, suportes em material de apoio pedagógico-didático, no caso do portal pedagógico e banco de sugestões para aulas e outros suportes tecnológicos; suporte às escolas vulneráveis.
         Há que se considerar, no entanto, que a elevação do salário de ingresso do professor, proposta no documento, para níveis mais elevados do que o piso salarial legal, precisaria ser uma medida aplicada em curtíssimo prazo. Com efeito, hoje a carreira de professor não tem nenhum atrativo. Os cursos de licenciatura de universidades e faculdades públicas e particulares estão fechando por falta de candidatos. Professores abandonam a profissão. A profissão torna-se a cada dia mais estressante e desestimulante. Considere-se, também, uma medida de curto prazo, absolutamente essencial, de capacitação dos professores da educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental nos conteúdos que ensinam, pois encontram-se completamente despreparados para essa tarefa (ou seja, não dominam os conteúdos que ensinam).
         Entendo que são aspectos negativos todos os mecanismos previstos na Reforma em relação ao reconhecimento e remuneração dos professores por mérito, incluindo critérios de evolução salarial, bônus, prêmios, etc. As medidas de capacitação decorrentes da “avaliação rígida de performance e empenho”, da “formação prática”, levam o professor a se transformar num profissional tarefeiro, para o qual é previsto um “kit” de habilidades docentes necessárias para a execução da função. Além disso: a) o controle do trabalho do professor por avaliação externa será visto como punição, falta de reconhecimento e baixa auto-estima, ao contrário do que se espera com a Reforma; b) os bônus e prêmios são formas de sedução artificial dos professores, cedo tomarão consciência de que não estão sendo valorizados no seu trabalho; c) Os suportes ao professor no material de apoio pedagógico, se for retirado do professor seu papel de elaborador do plano de ensino e de criação e uso do livro e outros materiais didáticos, acabam reforçando o papel de professor-tarefeiro que, pouco a pouco, transformar-se-á num mero executor, escravo do material didático apostilado.

b) Adotar práticas de ensino de alto impacto no aprendizado
         Considero como pontos positivos em relação a esse pilar: construção do currículo mínimo pela rede de ensino, materiais de apoio pedagógico, acompanhamento pedagógico em situação de trabalho a coordenadores pedagógicos e professores. No entanto, há um conjunto de aspectos negativos que comprometem a eficácia dos positivos mencionados: a) tendência a manter ações que apenas assegurem o acesso à escola. Como se sabe, não basta o acesso, nem mesmo a permanência, são necessárias condições pedagógico-didáticas no dia-a-dia das aulas. b) as condições pedagógico-didáticas aparecem no documento meramente como “insumos”: materiais de apoio padronizados (supostamente material apostilado), tutoria aos professores, ou seja, não se tem garantia de atuação nos conteúdos, na metodologia, nas formas de acompanhamento do aluno em sala de aula, nos procedimentos de avaliação em sala de aula; c) a menção ao acompanhamento “prático” deixa entrever que se trata de prover ao professor “kits” de habilidades práticas, acentuando seu papel de professor-tarefeiro, não seu papel de intelectual no trabalho com os conteúdos e de criador de suas práticas de ensino. d) absoluta inoperância e ineficácia de escolas de referência e escolas de tempo integral. Essas iniciativas se prestam apenas a visibilidade política do governo, assistencialismo[2]. Iniciativas dessa natureza no estado de São Paulo (foram várias!) resultaram em fracasso e ineficiência para os fins a que foram propostos (seja para capacitação de professores seja para assistencialismo a alunos pobres); e) subordinar a concepção da EJA meramente às necessidades dos alunos e à orientação profissionalizante , o que sacrifica o papel da escola de formação integral para essa população escolar.
         Verifica-se, assim, que dos cinco pilares previstos nas Diretrizes, este é o que tem mais fragilidades como, aliás, ocorre nos documentos do Banco Mundial. Revela-se aqui a estreiteza dos economistas e técnicos que lidam com questões de educação, especialmente as relacionadas ao impacto dos fatores pedagógico-didáticos no funcionamento da escola e da sala de aula[3]. Ao colocar peso na análise econômica e na visão da escola com uma empresa, é inevitável que, para eles, o provimento de um conjunto de insumos para o funcionamento da escolas (ações externas como metas de desempenho prefixadas, testes padronizados, gestão eficiente, livro didático, premiação para os professores, poupança para os alunos bem sucedidos, etc. ), isso por si só garantirá melhoria de resultados dos alunos. Com essa estreita visão de educação e ensino, fica de lado a preocupação com o desenvolvimento mental e moral dos alunos, problemas de aprendizagem,  métodos e procedimentos de ensino, práticas docentes e atividades em sala de aula, articulação entre conteúdos e métodos, formas de avaliação na sala de aula.
c) Reduzir significativamente a desigualdade educacional
         Há aspectos positivos como o suporte às escolas vulneráveis, programas de correção da distorção idade/série escolar (alfabetização de adultos e programas de aceleração; monitoramento de alunos com faltas diárias). No entanto, estão presentes aspectos negativos (analisados em outros pontos), como a remuneração diferenciada dos professores por mérito, o nivelamento de conteúdo (porque baseado numa pedagogia comportamental-tecnicista), e a manutenção da política de ensino especial (inserção em classes comuns de alunos com deficiências física, neurológicas, cognitivas), já que penso que o atendimento público e gratuito na maioria desses casos deve ser feito em instituições especializadas.
d) Estruturar reconhecimento e remuneração por mérito
         Não vejo neste ponto nenhum ponto positivo: programa de reconhecimento de professor que tem impacto direto na aprendizagem do aluno: bônus de incentivo à regência, programa de incentivo às escolas (Prêmio financeiro), programa de incentivo aos melhores alunos de cada escola (premio de poupança), Oscar da educação.
         Acredito que os professores e dirigentes das escolas têm responsabilidades sobre os resultados da aprendizagem dos alunos. No entanto, numa concepção estritamente instrumental de educação, com objetivos padronizados, retira do professor a possibilidade de por em pratica os saberes que dão especificidade à sua profissão. Ele passa a trabalhar apenas para o que pedem as avaliações estandardizadas. Alem do mais, os professores são responsáveis pelos seus atos e decisões, mas não forçosamente pelos resultados, porque eles dependem de um conjunto de fatores sobre os quais não têm controle. Exigir que os professores se subjuguem à obrigação por resultados é quase exigir o impossível. Eles são profissionais do humano, das relações entre pessoas, do conhecimento, não técnicos ou operários que lidam com coisas. Quem trabalha com seres humanos, sabe que há nessa atividade sempre alguma coisa que lhes escapa, que não podem ser controladas, ao menos que se trate de uma escola totalitária ou completamente mecanizada. Desse modo, os prêmios e bônus são mecanismos de sedução do professor, o qual acaba exercendo a profissão não porque gosta dela, mas para receber recompensas reforçadoras. Além disso, a atribuição de bônus e prêmios estimula a competição entre escolas e professores, sendo que o desempenho profissional do professor seja avaliado unicamente pela nota do aluno numa prova.
e) Realizar profunda reforma na gestão e infra-estrutura
         Obviamente encontram-se aqui pontos positivos como o fortalecimento da infra-estrutura (reformas no espaço físico e manutenção das escolas), estrutura de gestão e relações com a comunidade, integração educacional com os municípios (diagnóstico do aproveitamento escolar dos alunos por meio de prova padronizada, apoio em projetos de formação, currículos e práticas pedagógicas), sistema de monitoramento do desempenho da rede, racionalização de gastos.
4. Apreciação de conjunto das Diretrizes
         Um governo e sua secretaria da educação tem o direito de formular objetivos, metas e estratégias que combinem com suas posições ideológicas, políticas e econômicas. Mas a sociedade, especialmente, os professores, dirigentes das escolas e famílias precisam avaliar se essas políticas são de seu interesse. Se não estiverem de acordo, precisam estar preparados para dizer em que não concordam, mas, principalmente, que outros objetivos e estratégias desejam para a solução dos problemas do sistema escolar goiano. Seguem algumas considerações críticas finais sobre as Diretrizes da reforma educacional goiana:
         a) A política de educação baseada em resultados é um mecanismo de regulação do sistema escolar por meio de estabelecimento de metas quantitativas e verificação de resultados, cujo objetivo real é a responsabilização das escolas e professores pelo êxito ou insucesso desses resultados, descarregando os problemas da educação e do ensino à escola , ao professor, ao aluno. A lógica dessa política é a seguinte: 1) O sistema de ensino estabelece uma lista de metas a serem atingidas pelas escolas  conforme  cada  nível  de  ensino, na  forma de competências; 2) São elaborados e distribuídos livros didáticos ou apostilas conforme as competências exigidas; 3) São preparadas provas padronizadas a serem aplicadas nas escolas; 4) Corrigidas as provas, as escolas serão classificadas de acordo com as médias obtidas; 5) Em alguns sistemas de ensino que adotam esta política, algumas escolas e alguns professores cujos alunos foram bem sucedidos (conforme a média obtida) recebem prêmios em dinheiro. Pergunto: o que acontecerá com escolas com instalações físicas ruins, sem equipamentos e material didático, professores mal-pagos e sem acompanhamento pedagógico, famílias com baixa escolaridade e baixo nível socioeconômico? Qual será o destino desses alunos? Qual será a motivação e as expectativas que os professores terão sobre seu trabalho e sua profissão?
         Para os educadores com uma visão humanista, democrática, solidária, de educação e ensino, este tipo de política educacional tem várias limitações ou equívocos. 1) é uma concepção que reduz a pessoa (professor, aluno) ao seu lado individualista, cada um por si; os indivíduos são motivados por meio de gratificações; as diferenças individuais não são importantes, as relações humanas são como relações entre objetos. 2) o conhecimento que vale é o de valor imediato, utilitário, o que pode ser aplicado, por isso pode ser predeterminado (apostilas), ou seja, escolhido de acordo com interesses sociais/econômicos de quem planeja o currículo[4]; 3) os métodos de ensino são “transmissivos”, com suporte das tecnologias de ensino, pois não importa que o aluno aprenda a pensar, mas a reter o ensinado e reproduzir o que memorizou nos testes (é o chamado “ensino behaviorista”, tecnicista, a versão sofisticada do ensino tradicional). 4) supõe-se que uma vez estabelecidas as metas de resultados e premiando as melhores escolas e professores, automaticamente as pessoas irão se motivar para melhorar a escola e o trabalho na sala de aula e se virar para atingir os resultados. 5) supõe-se, também, que mudando o modelo de se elaborar provas (valorizando as competências cognitivas, por exemplo), automaticamente as escolas irão modificar seus currículos e seus métodos de ensino. 5) Sair-se-ão melhor as escolas que transformarem sua rotina escolar numa máquina de ensinar a resolver testes com base numa adequação total das matérias às competências previstas pelo sistema de ensino. Resumindo, do ponto de vista pedagógico, teremos: um professor que transmite o conteúdo com base numa apostila pronta, responsabilizado pelo êxito ou não dos alunos nos testes; uma escola ocupada em treinar os alunos para os  testes; nenhuma atenção à formação e desenvolvimento das capacidades mentais dos alunos; secundarização da formação da personalidade voltada para valores morais solidário e visão critica da sociedade, predominando valores econômicos, individualistas e egoístas.
         b) A adoção da política de resultados acaba sendo muito mais um problema de economia da educação do que de pedagogia e de formação dos alunos. Professores cujas condições de trabalho têm sido estressantes, esperam da instituição pública apoio, reconhecimento, encorajamento, condições salariais e de trabalho que promovem motivação, auto-estima, realização pessoal, mais do que controles pela avaliação externa e muito menos por bônus e prêmios. A ação instrumental, na lógica do mercado e na a ideologia neoliberal, visando resultados, serve à lógica econômica: professores e alunos acabam sendo considerados objetos econômicos. É esperado que os professores se responsabilizem pelos resultados, mas não pelas conseqüências: mesmo que faça o que for possível para o progresso escolar dos alunos, ele não controla outras variáveis humanas e sociais que estão afetando seu trabalho. Além do mais, há pesquisas indicando que a premiação não tem repercussão expressiva na melhoria do desempenho dos alunos.
         c) Em relação aos objetivos da escola: antes de ser “escola prestadora de serviço” ou uma fábrica de produtos, a escola básica é uma instituição cujo objetivo é prover aos alunos as condições para desenvolverem suas capacidades intelectuais através dos conteúdos e para formar sua personalidade.  Trata-se de um trabalho de longo prazo e não pode restringir-se a uma produtividade em curto prazo. A obrigação de resultados tem sido a orientação neoliberal dos organismos internacionais do capitalismo globalizado visando a regulação da ação pública, especialmente na saúde, na educação e na segurança pública, visando produtividade, eficiência, controle de custos e de qualidade. No entanto, uma forte pressão por resultados produz resistência nos professores e enfraquecimento no ensino. Não que os resultados não sejam necessários, mas querer obtê-los por meio de um ensino pragmático que visa a preparação para responder testes padronizados significa uma simplificação dos objetivos da escola. Nada garante, pois, que uma política de resultados baseada em indicadores quantitativos leve a uma sólida preparação escolar aos alunos. Antes, pode levar à exclusão escolar e social, pois a avaliação padronizada é aplicada a escolas de ensino fundamental com condições físicas, pedagógicas, metodológicas, muito diferentes. Afinal, a sociedade necessita de uma escola para o mercado ou de uma escola para a formação intelectual, científica e moral dos alunos? É moralmente legítimo submeter todas as escolas aos mesmos padrões de desempenho, sem levar em conta as características dos alunos e de seu meio, além das diferenças gritantes entre as escolas em relação às suas instalações físicas, preparo do corpo docente, condições socioeconômicas das famílias? Qual a utilidade dos indicadores quantitativos e do IDEB senão impor uma uniformidade de desempenho, sem que o estado possa dar a todas as escolas as condições para chegar aos padrões estabelecidos? Não há uma perversidade em pautar o desempenho das escolas, dos professores e dos alunos a um padrão daquela escola bem-sucedida ou do professor bem-sucedido? De que adianta exigir responsabilidade profissional dos professores nos resultados de aprendizagem dos alunos se sua formação é precária e seus salários aviltantes? Quantos anos o governo levará para chegar a um suposto patamar de salário ao professor, que se aproxime de outras profissões de nível superior? Num trabalho interativo como o ensino, em que o trabalho do professor não poder ser feito a não ser que o aluno consinta em aprender segundo os modos levados a efeitos na escola, como decidir a responsabilidade destes co-produtores do trabalho escolar? A submissão à regulação do governo não retirará as possibilidades de criação, autonomia e inovação dentro da própria escola, em que os professores estão face-a-face com seus alunos? Que meios de trabalho a secretaria da educação colocará nas mãos dos professores para que os alunos possam ter mais êxito escolar?
         d) Lastimavelmente, sabe-se de antemão que a avaliação externa de resultados escolares incidem diretamente nos alunos pobres. A fim de julgar o êxito ou o fracasso dos sistemas de educação, os governos usam a administração de testes que visam medir o rendimento dos alunos. Trata-se de um tipo de medida homogênea, que indicará onde os alunos estarão classificados em sua aprendizagem. As conseqüências disso são funestas para os principais interessados, os alunos, e também os professores, pois remete a responsabilidade do sucesso ou do fracasso primeiro ao aluno como individuo, em seguida, aos professores que, por suposto, tem a responsabilidade de trabalhar com os conhecimentos e levar o aluno a aprender. Escolas de municípios menores ou mais afastados carregam consigo um acúmulo de problemas, envolvendo prédio escolar, professores, condições de ensino, pobreza das famílias, capital cultural e lingüístico requerido para a aprendizagem escolar, terão um impacto das avaliações mais negativas. Ao tornar os alunos responsáveis pelo seu próprio êxito, arrisca-se a suscitar nestes últimos baixa auto-estima, baixo interesse ao trabalho escolar, ou até abandono da escola. Em resumo, com a aplicação de testes padronizados a uma clientela escolar com profundas diferenças individuais, sociais e culturais, as crianças pobres acabam irremediavelmente injustiçadas. Nesse sentido, a idéia de afixar na porta das escolas uma placa com a nota do IDEB na escolas é extremamente infeliz, porque segregadora. É um acinte, um pecado ético que se comete contra a pobreza. As escolas e os professores podem, em parte, responsabilizar-se pelos resultados, mas é preciso considerar que eles não têm meios suficientes para resolver os problemas sociais e culturais que antecedem sua intervenção na escolarização das crianças. Não sou inteiramente contra ter índices de qualidade das escolas como meio de diagnóstico das redes de ensino, mas o IDEB apanha apenas parte do problema da avaliação do ensino, que é a média obtida na Prova Brasil (português e matemática) e a taxa de aprovação. Escapam dele outras variáveis que atuam antes da escola e em volta da escola, como as práticas socioculturais da comunidade e da família, as relações professor-aluno, as condições de salário e de trabalho do professor. Isso sem falar da “maquiagem” dos resultados por parte de diretores e professores. São questões que não são levadas em conta na avaliação padronizada as quais, no entanto, extrapolam uma simples aferição do conhecimento apresentado pelo aluno quando faz uma prova. Ao não poder, tecnicamente, inserir no índice variáveis sociais e culturais que afetam o desempenho escolar de alunos, o IDEB pode estar culpabilizando injustamente o aluno, o professor e a escola. Além disso, a comparação do desempenho das escolas entre si tem um efeito perverso: o aprofundamento das desigualdades do sistema escolar.
         e) Que fique claro: as escolas precisam proporcionar bons resultados expressos na aprendizagem sólida dos alunos por meio do processo de ensino e aprendizagem. Tais resultados são moralmente desejáveis e socialmente favoráveis à redução das desigualdades sociais e dos processos de exclusão escolar e social. Mas, vistos numa ótica economicista, numa concepção estritamente instrumental de educação, podem ter efeitos perversos, debilitantes e alienantes nos professores e alunos. Com efeito, as  metas são quantificadas muito mais em função da diminuição dos custos do ensino do que de uma sólida preparação escolar dos alunos. Força-se a melhoria dos índices educacionais sem ampliação das verbas para o que é realmente prioritário. As escolas são obrigadas a mostrar produtividade com base em resultados que podem ser falsificados ou maquiados. Alunos são aprovados sem critérios claros em relação a níveis de escolarização. Os números aparecem positivamente nas estatísticas, mas os aprovados não sabem ler e escrever. Estamos, efetivamente, frente a uma pedagogia de resultados: põem-se as metas, e as escolas que se virem para atingi-las. Mas se virar com que meios? Onde estão as instalações físicas? O material didático? O atendimento à saúde das crianças? Os salários e as condições de trabalho dos professores? Onde estão as professoras que dominam os conteúdos, que sabem pensar, raciocinar, argumentar e têm uma visão crítica das coisas?
Conclusão
         O governo estadual e a secretaria da educação não precisavam recorrer a uma empresa global para fazer seu projeto de reforma educativa. Educadores antenados nos problemas da educação no país sabem que há pontos a mexer que estão à vista. É claro que uma gestão necessita metas, previsão de ações e resultados. Mas para fazer uma intervenção no sistema seria esperado dos dirigentes políticos mais maturidade, conhecimento de causa, experiência e vivência no sistema de ensino, conhecimento dos paradigmas pedagógicos, conhecimento da historia e da realidade da rede pública de ensino, conhecimento da vida e da profissão dos professores, etc. Sem isso, mais uma vez teremos um programa de reformas improvisado, megalomaníaco, afobado, pretensioso, como são as ações em que seus autores acham que descobriram a varinha mágica, ou inventaram a roda.
         Educadores e pesquisadores compromissados com a causa da escola pública há décadas apontam para ações pontuais e cruciais, sem necessidade de indicadores quantitativos isolados, premiação e bonificação de professores, testes estandardizados, etc., como:
-        Adoção efetiva de medidas propiciadoras de salário digno, carreira profissional, condições de trabalho, condições de permanência dos professores em uma só escola com 40h;
-        Intervenção da secretaria da educação nas questões intra-escolares, especialmente: instalações físicas adequadas, formas de gestão pedagógica e curricular, aprimoramento das metodologias de ensino e procedimentos da aprendizagem, atividades de sala de aula, que assegurem qualidade e substantiva melhoria dos processos e resultados do ensino e aprendizagem mais elevados índices de aproveitamento escolar para todos os alunos;
-        Ações imediatas de capacitação que assegurem a todos os professores, especialmente da educação infantil e séries iniciais, o domínio de conteúdos e habilidades cognitivas que irão ensinar às crianças, bem como de elementos de uma cultura geral abrangente; igualmente, assegurar aos professores das séries iniciais o domínio de metodologias de ensino de cada uma das disciplinas do currículo.
-        Revisão da legislação atual sobre a formação de educadores e articulação com as universidades, retomando-se a preparação específica de pedagogos especialistas (ao menos um coordenador (a) pedagógica em cada escola) e readequação das diretrizes para a licenciatura para docência na Educação Infantil e Ensino Fundamental.
-        Adequação dos conteúdos de ensino no seu papel de formação do desenvolvimento mental dos alunos, compatibilizados com as práticas socioculturais trazidas pelos alunos, e assegurar que os professores estejam preparados para trabalhar com eles.
         Por fim, cabe recomendar aos sindicatos e associações científicas de professores, aos formadores e professores de nossas universidades, aos professores e dirigentes da rede estadual de ensino que analisem conscientemente as Diretrizes do Pacto pela Educação, a fim de proporem alterações significativas que atendam aos reais interesses dos alunos da escola pública e de suas famílias.


[1] Sobre a influência dos organismos internacionais nas políticas educacionais do Brasil ver: LIBÂNEO, José C. A escola brasileira em face de um dualismo perverso: escola do conhecimento para os ricos, escola do acolhimento social para os pobres. http://professor.ucg.br/SiteDocente/home/disciplina.asp?key=5146&id=3552
[2] A respeito da Escola de Tempo Integral, ver posição do autor: LIBÂNEO, José C. Valerá a pena investir dinheiro público na escola de tempo integral?
http://professor.ucg.br/SiteDocente/home/disciplina.asp?key=5146&id=3552
[3] Para outras idéias sobre o pouco caso das propostas neoliberais para o ensino, ver: LIBÂNEO, José C. O dualismo perverso da escola pública brasileira: escola do conhecimento para os ricos, escola do acolhimento social para os pobres (no mesmo site acima)
[4] Ver a esse respeito o meu artigo sobre o dualismo perverso da escola pública brasileira: escola do conhecimento para os ricos x escola da integração social para os pobres, já citado.