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sábado, 24 de setembro de 2011

A insônia ou a vida como vontade.

Nelson Soares dos Santos

Aproveitei a noite para estudar o pensamento humano. Filosofia, ciência, tudo que pode explicar estes sentimentos desconhecidos; estas coisas estranhas que o mundo não soube nos explicar. Nada consta nos livros capaz de nos mostrar um caminho que de fato leve a essência. Tudo parece uma meiga e grande ilusão. As religiões, tornaram-se meros fantoches de uma existência sem tempero, uma peça mal encenada, um diretor míope que não consegue fazer rir seus  telespectadores.

Não, não dormi. E  a noite passou lentamente entre um tique e taque e outro do relógio. Também não fiquei plugado na internet. Não queria companhia humana nenhuma, não queria ser interrompido nos meus pensamentos mórbidos na tentativa de conceber o ser humano, nem tão pouco ser surpreendido por alguma bondade. Pela primeira vez eu assumia todos os meus erros, todas as minhas escolhas. A ciência explica tanto a vida quanto a vida explica a ciência, não existe nenhuma surpresa que não possa ser  explicada pelas leis descobertas e não descobertas pelo espírito humano. Nem mesmo a novíssima notícia de que os neutrinos são mais velozes que a luz abala a certeza que o ser humano parece livre, vivendo em um eterno oceano tentando descobrir para que serve a própria liberdade.
Não, não dormi. De um momento  a noite é como a vida. Não é mais a noite que vai, é um novo dia que promete chegar. Teimoso, rompendo a escuridão que foge aos gritos de dor e de remorso por todos os tropeços que produziu. Sim, nenhuma escuridão resiste aos raios de sol de um novo dia, eis a lição que o amanhecer ensina a todos nós. E, do nada, muda-se a brisa – digo do nada, por que todos sabemos que uma complexa rotação e translação de planetas está em movimento, compreendidas pelas leis kleperianas – empurrando o calor infernal do dia anterior por um frio suave que permita germinar as novas vidas que podem surgir com o novo dia. Sim,  no novo dia sempre nasce trazendo consigo a ilusão de que uma nova vida vai surgir, e, que tudo que é velho pode simplesmente recomeçar. Não acredito mais em uma verdade assim. Novas vidas só surgem por meio de um esforço maluco de quem quer nascer ou renascer. Não existem caminhos fáceis.
Rebelo-me. Salto da cama senhor do vento, do ar, do fogo, da água, da terra. Salto disposto dominar este fogo incandescente chamado sol. Desço as escadas, abro a porta, saio porta fora, e, vejo alguns tímidos transeuntes tentando enfrentar o novo dia com um bocejo no rosto, preguiça a mostra. São vidas pobres, pobres vidas vividas no sabor da obrigação, da escravidão de sempre ter de fazer a mesma coisa. Caminho pelas ruas ainda vazias procurando este senhor que logo deve surgir nos céus espantando os últimos indícios de escuridão. Posiciono-me em uma esquina de praça. Olho a relva seca, machucado pelos raios terríveis do meio dia que mata tudo que não possui raízes profundas para buscar sua bebida nas profundezas da terra.
Três moças saem de um prédio a cantarolar. Elas não tem consciência de que o raiar do sol está trazendo um novo dia, seus raios purificando o meio  para permitir o nascimento do novo. Não, elas não tem consciência dos privilégios de sentir aqueles raios no amanhecer, estão por demais apegadas ao passado vivido na escuridão e olham de forma ressacada escondendo seus olhos dos raios ainda escondidos, do dia que se anuncia. Contemplo-as com piedade. Voltarão a ter a mesma noite escura, e sentirão prazeres nas noites escuras da vida, e, quiçá não transformará toda a vida em uma noite sem fim, interminável de folguedos vividos pela carne podre que governa o mundo.
Eu estou ali, de pé, recostado em um poste aguardando o astro rei se pronunciar sobre o novo dia. Em minha mente já está tudo pronto para a nova batalha. Definitivamente perdi o medo da luz, a escuridão não enfraquece mais, não sinto vontade de dormir, não quero a escuridão, quero me banhar no calor ensurdecedor da luz que modifica ao seu bel prazer a inércia, o movimento e a resistência aos movimentos da vida. Eu o enfrento olho no olho pelos seus primeiros raios. Seu núcleo latejante parece nervoso, sente-se pressionado como que tem pressa para explodir seus adversários renitentes que se colocam adiante. Eu mantenho firme o olhar, e apesar, do olhar nervoso, núcleo latejante, é com suavidade que a brisa traz os seus primeiros raios convidando meu corpo, carne e matéria e se harmonizar e se purificar para a luz maior que se dará no zênite do céu ao pleno meio dia.
Sim, é a luz no zênite dos céus que seca tudo que não tem raízes profundas, que faz a tudo desabar. Nenhuma construção sem solidez resiste aos seus espetaculares anúncios das verdades que a vida humana pode suportar. Tudo que é sólido se desmancha perante ela. Ante a resistência e o anúncio de que o enfrentamento com a luz tão poderosa deve esperar até o meio dia, curvo-me perante a doçura dos primeiros raios de sol. Ainda assim, continuo minha briga com o mundo. No entanto, se antes eu gritava aos seus ouvidos que não aceitava que ninguém tirasse nada do que a vida desejava me dar, agora sussurro devagarzinho, em uma meditação silenciosa enquanto sou purificado pela doçura do amanhecer.
Rapidamente, abro os olhos. O dia já se tornou corrido. Transeuntes andam de um lado para outro, carros desenfreados, buzinas, tudo denuncia que o dia parece ser mais um dia entre todos nos quais o sol nasceu e se pôs parecendo indiferente as lutas humanas. No centro do sol percebendo o nascer da luz aprendi que tudo nasce e explode de dentro, e é com esta verdade que volto para a casa, silencioso, consciente de que a vida é sempre do tamanho de que toda a vida merece e vais buscar no sol a pureza e força para enfrentar o meio dia.

3 comentários:

  1. O que mais detesto é quando uma pessoa tão bem estudada comete o erro de julgar outras pessoas com se fosse o intocável, o absoluto e não é assim não, voçê não é nada. Ninguém se aproxima de voçê por interesse. O motivo porquê me afastei de voçê foi por isso, toda vez voçê me falava que as mulheres se aproximava de voçê por interesse, eu tenho dó de pessoa assim, isso para mim e hipocrisia. Você nao mudou em nada. Passou por problemas mais isso nao te fez ser humilde pena viu

    Comentário postado por um anônimo e repostado, na tentativa de corrigir os erros quase impossíveis de se corrigir.

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  2. 1 – 25 de 58 Antigos ›

    Querido ou querida anônima, imagino que sejas mulher, pois pelo teor do seu texto, aliás, quase incompreensível, deves ser mulher. Apesar de ter tido literalmente poucas mulheres na vida não consigo identificar quem é você, por dois motivos: o primeiro, fique estupefato se já fui próximo de alguém que escreve tão mal( ou talvez você assim o fez para não se denunciar); segundo, esta imagem de intocável e absoluto, não cabe a mim, pelo contrário, me sinto o mais comum dos homens. Quanto a questão do interesse, eu também me aproximo das pessoas por interesse, o que sempre coloco em questão é o tipo do interesse. Vivemos em um mundo por demais egoísta, e até mesmo os interesses dito altruístas, estão contaminados de egoísmo. Também não entendi o comentário do texto em questão - estaria você falando do texto em si, ou é apenas um comentário freudiano? Como não tem como saber quem é você, não tem como saber se tudo isso tem a ver com a "nossa" história. Releia o texto, e verás que o que existe no texto é uma observação empírica e não julgamento. Uma tentativa, apesar do devaneio, de ver a vida com objetividade. Quanto a humildade é difícil saber o que você entende como humildade, mas confesso que não me preocupo em ser humilde mais do que me preocupa ser o que sou e sendo o que sou, tentando ser melhor a cada dia. Também vejo mágoa em suas palavras. Peço perdão se lhe magoei. A vida é feita assim, de feridas, dores, passado. A dor nos faz mais fortes, e aumenta nossa certeza de que vale a pena o caminho da verdade e da sinceridade.

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  3. Ah, ainda querida Anônima, se julgamento você se referir as garotas de quem falo no texto, infelizmente ouvi, elas próprias comentando terem terminado a noite de forma coletiva junto com os seus amigos,uma ria, gracejava e dizia: Não, não posso acreditar no que fiz esta noite. Preciso esquecer. Pelo que ouvi não tinha como ter dúvidas, tratava-se de orgia pelas falas. Veja, que fui sutil no meu comentário sobre elas. E não tenho nada contra que escolhe viver a vida assim, só não se pode é negar que é uma escolha de quem decide viver o momento sem o minimo de confiança no amanha. Carpen Die, aproveite o dia.....

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