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sábado, 29 de outubro de 2011

Lula: Boa sorte no seu tratamento – Ainda existe muitas misérias contra as quais devemos lutar.


Nelson Soares dos Santos

Eram 13 horas. Eu estava deitado na cama descansando a alma, o corpo e o espírito, quando a companheira que comigo convive e mãe de minha filha entrou pela porta, tirando-me do doce e suave paz de espírito trazida pela notas das músicas de Zé Geraldo, da música “Deságua”, cuja parte da letra abre este blog, e ousou noticiar: “ O seu presidente está com câncer”. Senti um susto e o primeiro nome que me veio a mente foi o nome do Ex-presidente Lula. Perdi o entusiasmo com o segundo governo de Lula, mas nunca perdi a admiração pela Pessoa do Estadista.
Corri para internet, e lá estavam as notícias detalhadas. Aos poucos, o que eu esperava; mesmo seus adversários mais acirrados reconhecendo o importante papel que o ex – presidente cumpre no cenário político nacional. Até o momento em que escrevo este texto, os principais líderes, ou pelo menos aqueles que merecem meu respeito já manifestaram solidariedade ao ex- presidente; manifestações justas pelo papel  que cumpriu com candidato a presidente e como presidente eleito durante dois mandatos.
Muita gente se esmera em analisar o papel de Lula como presidente, mas poucos consideram o papel realizado por ele antes de ser presidente. Além de  presidente, e grande líder, vejo o Lula como um grande educador do povo. Suas ações, suas decisões, suas palavras, chegam aos corações da massa/povo moldando forma de viver, estratégias de lutas e combates nas lutas do cotidiano.
Lula me foi apresentado quando eu tinha 12 anos de idade e era presidente do Grêmio Cívico Escolar do Colégio Germana Gomes na cidade de Divinópolis de Goiás. O meu amigo e mestre Joel Pinto de Barros contou-me a história de que como surgiu o slogam “A luta continua”, e aquilo ficou na minha mente. Enquanto lia as notícias sobre sua doença todas aquelas cenas do meu amigo contando-me entusiasmado que aquele homem para o qual ele era o único a fazer campanha na nossa pequena cidade e  a quem os fazendeiros chamavam de sapo barbudo chegaria a presidência do Brasil um dia; e, que ele diminuiria a pobreza, faria justiça social, aumentaria o número de Universidades, e dizia entusiasmado; talvez até tenhamos  uma faculdade aqui mesmo em Campos Belos.
Relembrando aquela cena percebi que os sonhos do meu amigo e mestre se tornaram realidade. Inclusive a universidade em Campos Belos. Hoje na Região do Nordeste Goiano tem  não apenas um campus Universitário, mais três: um da Universidade Federal do Tocantins em Arraias, outro da Universidade Estadual de Goiás em Campos Belos, e outro, também da Universidade Estadual de Goiás na cidade de Posse. Foi então que me perguntei: Qual luta devemos travar agora? Qual é a nossa luta, uma vez que a luta daqueles que sonharam com lula foi alcançado?
E não foi só no campo da Educação, bolsas de estudos, etc. Hoje, nem mesmo o mais ferrenho adversário de Lula e do PT, é capaz de negar o crescimento econômico e o combate a miséria travado em todo país. E, foi assim, quando chegou a minha mente a palavra miséria que comecei a pensar que Lula além de lutar contra o câncer pode se juntar novamente aqueles que pensam no futuro da nação e travar outra luta: a Luta contra a miséria. Não mais a miséria econômica, mas a miséria moral e espiritual que assola tantos brasileiros e que é a causa da corrupção tão generalizada que ceifa vidas dia e noite e destrói o futuro de muitas de nossas crianças.
A miséria moral da qual me refiro é aquela que se pode ver nas causas do acidentes de trânsito, provocado por irresponsabilidades das mais variadas; da falta de preparo das pessoas com nível superior, mas que por não terem levado a sério os estudos, não alcançaram a formação necessária; ou mesmo, quando a causa está na miséria de nossos programas educacionais que são incapazes, muitas vezes, de proporcionar uma formação humana digna. A miséria moral está nas relações políticas e sociais que nas mais variadas formas invadiu todas as instituições, inclusive a família; relações estas baseadas na falta de autenticidade, e, por outro lado em um excesso de hipocrisia e desonestidade.
Há também a miséria religiosa. Religião se transformou em praga. Quase todo mundo quer fundar uma. Do jeito que é vai daqui uns dias cada religião terá apenas um membro que será o pastor, o dizimista e o tesoureiro. A miséria religiosa é também a miséria da teologia. Surge interpretações teológicas que beira ao absurdo, e dá náuseas de se ouvir, mas que encontra ressonâncias nas massas. Quase sempre tais teologias prometem o céu na terra, e pela lei do mínimo esforço.
E assim, tem muitas outras misérias contra as quais é preciso lutar. A miséria da educação e do conhecimento, daqueles que falam de tudo e nunca leram os clássicos do pensamento humano; a  miséria espiritual, daqueles que não são capazes de passar um dia sozinho que caem em depressão e solidão espiritual; a miséria do amor, daqueles que já não são mais capazes de amar. Portanto, solidariedade a Lula, que fique bom logo, temos ainda muitas misérias contra as quais devemos lutar. E,  A luta continua.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Goiânia - Bela Goiânia.


Nelson Soares dos Santos

Minha singela  homenagem ao aniversário de Goiânia, embora atrasado. Inspiração de poeta  não respeita datas.


Goiânia, doce Goiânia de povo trabalhador.
Que fazes de ti, os teus governantes?
São todos hipócritas, não existe amor.
São cruéis com o povo, terríveis, pedantes.

Goiânia das tardes  de brisas,
Dos ricos  e   endieirados;
No calor, os parques, amenizam
A consciência sofrida dos celerados.

Goiânia dos homens simplórios;
Das manhas apertadas nos ônibus lotados;
Os fins de semanas são menos que velórios;
Nos bares, nas ruas, desequilbrados.

Goiânia dos trabalhadores!!
Diuturnamente, no vento, na chuva, no calor do sol;
E são roubados por aqueles senhores,
Que se consideram aqui, o escol.

Goiânia das donas de casa;
Santas, imaculadas, mães de família.
E que vivem presas com cortes nas asas,
Por homens maus que as prende e humilha.

Goiânia das mulheres independentes,
Que trabalham fora e tem patrimônio;
E que são sofridas, e vivem doentes.
Algumas, desesperadas pelo matrimônio.

Goiânia das mulheres vadias,
Teimosas, cruéis, as vezes, prostitutas.
E que caminha a noite nas ruas vazias,
Sonhando um dia com outra labuta.

Goiânia das mulheres casadas;
Infelizes, senhoras do adultério.
São como laranjas já descascadas,
O olhar já não possui nenhum mistério.

Goiânia dos poderosos,
Que nos feriados vão buscar maresias,
São vis, ladrões, pobres, odiosos;
O esculacho da hipocrisia.

Governantes e poderosos  que nos motéis,
Embriagam-se nas noites até o raiar do dia.
Não vêem o povo que não tem um conto de réis,
Para alimentar a própria família.

Goiânia, é hora de acordar.
O novo milênio já começou.
Teus filhos esperam por um novo ar.
A vitória dura sobre a tristeza e a dor.










  



quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Orlando Silva Caiu: E agora? O que fazer com os esquemas de corrupção?



Nelson Soares dos Santos

Na terça feira, 18 de outubro, em meio à saraivada de denúncias que eram recebidas pelo ministro do Esporte Orlando Silva, escrevi aqui neste blog que o ministro cairia, não por ser honesto ou desonesto isso já não estava mais em questão. Outras questões bem mais poderosas, razões bem mais fortes e convincentes o fariam cair. E, convicto, de que a corrupção no Brasil faz parte de uma epidemia social acredito que os que advogam a queda de Orlando Silva, sabem que a mesma não vai estancar o processo de corrupção, uma vez, que de certa forma a corrupção parece ser vital para a manutenção do atual sistema político.
Por fim, nesta tarde começa a ser anunciada a queda de Orlando Silva. Daqui a alguns dias as denúncias de corrupção serão esquecidas pela mídia, como já foi as denúncias feitas em relação a todos os ministérios onde houve acontecimentos similares. A corrupção está sendo institucionalizada como instrumento da luta política por espaços no poder. Não vai demorar para que surjam denúncias de que, na verdade, muitos documentos que são utilizados, são produzidos com o único objetivo de desestabilizar aqueles que estão no poder.
Mas o que significa o fato da corrupção começar a ser utilizada como instrumento da luta política? O que se devem temer quando aqueles que denunciam não querem de fato apurar os erros cometidos, ou os atos de corrupção e tão somente ocupar o lugar nos esquemas já estabelecidos? Que tipo de reflexão precisa ser feita quando a mentira, a desonestidade, o roubo se torna instrumento legítimo na busca pelo poder na sociedade organizada, de forma institucionalizada, ou tolerada? Não se trata de ser moralista, ou de querer sê-lo, mas em um país onde denúncias de corrupção servem apenas para derrubar ministros ou governos, alguma coisa pode estar muito errada nisso que chamamos democracia.
É preciso que  o governo tome posição quanto as mecanismos de gerência da coisa pública. Não se trata de questões que possam ser resolvidas trocando pessoas. É muito mais que isso. Nos últimos vinte anos com o processo de abertura democrática, privatização de diversas empresas públicas, aumento da renda das classes B, C e D; Crescimento econômico sustentado, maior acessa a educação escolarizada, acesso a bens de consumo, etc; levou  a construir uma confusão enorme entre o que é o público e o privado; o individual e o coletivo, e, isso fez aumentar a corrupção pela própria decadência moral que tal processo proporciona, justamente pelas condições mais propícias a realização das paixões e desejos inerentemente humanos.
A mídia e os seus próceres que posam como heróis a cada ministro que é derrubado deveriam estar bem mais desconfiados, uma vez que ela própria é vítima do mesmo processo, fazendo um jornalismo profundamente tendencioso e que agrade a um  público em vez de se preocupar com a informação e a narração das notícias. Li recentemente no Observatório da Imprensa, uma análise interessante de um analista político: a maioria das revistas de informação, notícias, jornais e colunistas não passam de um senso comum que tem como único objetivo agradar o público leitor, sem nada levar de novidade ou de utilidade. Trabalha-se cada vez com os sentimentos, com os desejos, as paixões, em vez de se trabalhar com uma preocupação com o bem estar coletivo dos indivíduos. E neste sentido, constroem-se impérios individuais, riquezas, baseadas no roubo, na mentira, e na desonestidade.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Eu quero, eu posso, eu não consigo...


Nelson Soares dos Santos

Tudo posso naquele que me fortalece ( Filipense 4.13)
A primeira parte da frase que segue no texto acima é um versículo bíblico ( Filipenses 4 :13) que eu adorava utilizar em minhas pregações quando membro da Igreja Adventista do Sétimo dia. Naquele tempo, (1987/1992), eu já costumava contrariar alguns ouvintes com a seguinte pergunta: o que o Apóstolo Paulo quis dizer com este tudo? Será que podemos fazer tudo que quisermos se tivermos fé em Deus? Aumentava a polemica acrescentando outros exemplos como : Se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda direis a este monte: sai daqui e vai para ali. (Lucas 17:6). Depois de contar diversas histórias ilustrativas eu recuperava os versículos e procurava mostrar que tais palavras possuíam um contexto, e que estes não podiam jamais serem ignorados no processo de leitura.
Eu utilizava destes argumentos buscando ajuda nas concordâncias bíblicas. A culpa mesmo foi de quem colocou ao meu alcance as obras completas de Gregório de Matos Guerra e do Padre Antônio Vieira. Lembro-me como devorei os sermões do padre vieira volume a volume. E depois de tais leituras a bíblia para mim nunca foi mais o mesmo livro. Outra razão que me fazia usar tais argumentos era ver a forma como a leitura errada da bíblia levava muitos membros sinceros da Igreja a abandonarem o caminho pensando que não eram dignos, que não tinha fé suficiente, por que nas suas vidas sentiam-se por vezes abandonados por Deus.
Eu procurava sempre mostrar que Deus nunca nos abandona, e que na verdade as palavras de Paulo quando ele dizia,  - Tudo  posso naquele que me fortalece, -  não queria dizer que ele podia ser rico, e queria dizer também isso; mas sobretudo queria dizer que não importava se ele tivesse que enfrentar a pobreza ou a riqueza, a doença ou a saúde, a alegria ou a tristeza; todas as coisas, todas as coisas podiam ser enfrentadas tendo Deus na vida.
Nos dias atuais, muito se tem utilizado este mesmo versículo e se transformou em moda, não somente no interior das igrejas, mas ate mesmo entre pessoas que jamais se preocupam ou se preocuparam seriamente com a religiosidade acreditar que a força do pensamento Positivo ( Tudo Posso), é capaz de solucionar todos os problemas. Livros mais livros tem sido publicados e lidos de forma aligeirada e sem nenhuma interpretação do contexto, o que leva muitos a desilusão, ao fracasso, a doenças e até mesmo a loucura. Entre os exemplos de tais livros podemos citar “ O monge e O Executivo”, “ O Segredo”, “ Os segredos de uma mente milionária”, dentre tantos outros conhecidos do público.
O que as pessoas que repetem como um mantra o (Tudo posso/ Eu quero, eu posso, eu consigo, etc), se esquecem é que nestes mesmos livros existem algumas palavras chaves, e, sobretudo a história dos homens que são tidos como exemplos apresentam uma vida virtuosa, disciplinada, de esforço e dedicação aquilo que se faz. Vejamos por exemplo, a história de “ O monge e o Executivo”. É verdade que o executivo depois de ficar uma semana em um mosteiro, conviver com os monges, meditar e fazer preces a Deus, encontrou-se a si mesmo; e, retornando a sua cidade e empresa tornou-se um homem ainda mais feliz e mais bem sucedido. O que o livro deixa passar implícito é que durante toda a vida daquele homem foi dedicada aos estudos, ao trabalho, e a família.  O que ele fez em uma semana de meditação e prece foi reorganizar a bagagem que já possuía.
Outro livro citado aqui, é “O Segredo”. Vendeu milhares de exemplares, e pode se contar quantos teve sucesso ou pensaram que não tiveram com a leitura do livro. Subliminarmente a idéia do pensamento positivo o livro traz lições de vidas virtuosas. Ora, o que se pode esperar quando se afirma que “ O que você pensa, você é”? . Não compreendido ou compreendido de forma superficial o livro parece um amontoado de afirmações; bem compreendido é um convite a uma vida austera, de disciplina, de amor ao próximo e ao sumo bem.
É por ler estas obras de forma tão superficial que muitos repetem diuturnamente (Eu quero, eu posso, eu consigo), e nada acontece, até por que esta afirmação não tem nenhuma relação com a mensagem destas obras. Primeiro por que as mensagens destas obras trazem subliminarmente uma ética universalista do Sumo Bem. Ou seja, a minha prosperidade ou o bem que vivo e tenho é diretamente proporcional ao bem que faço aos outros e ao Universo; e, segundo, por que a própria forma como as pessoas fazem eliminam a parte do “Eu devo”. Ora, o eu devo é aquele limitador que nos faz escolher entre o bem e o mal, o certo e o errado, o divino ou o diabólico.
Assim, enquanto alunos estiverem pensando que vão conseguir chegar a Universidade, ter um diploma, e ter uma carreira profissional de sucesso sem esforço, disciplina e vida virtuosa, estaremos assistindo o desenrolar de vidas fracassadas no futuro. Enquanto homens e mulheres estiverem acreditando que vão conseguir manter um casamento e um lar em harmonia, sem serem honestos, verdadeiros, amorosos, respeitosos e responsáveis, estaremos assistindo o aumento da violência nos lares. Enquanto homens de negócios acreditarem que podem ter sucesso trapaceando, mentindo, roubando, sendo espertos em vez de agirem de forma moralmente correta, estaremos assistindo as mais diversas tragédias em nossa sociedade. E no final, poderemos repetir ironicamente o restante do nosso titulo: Eles querem, eles pensam que podem, mas no final, não conseguem, não terminam bem.

COMENIUS – A TENTATIVA DE UMA PEDAGOGIA MÍSTICO-CRISTÃ



Nelson Soares dos Santos[1]
                               
Resumo
O artigo procura fazer uma leitura do pensamento de Comenius buscando resgatar os aspectos místicos do pensador a partir de uma análise da obra Didática Magna. Para tanto, partiu-se de uma análise foucaltiana do pensamento do autor, buscando situá-lo na história do pensamento para mostrar que, por suas raízes místicas, situa-se no Renascimento e na fronteira ciência/não-ciência, o que permite interpretações que o têm como os fundamentos da pedagogia moderna, tanto quanto como um pensador místico-cristão.
Palavras-chave: Pedagogia místico-cristã, Comenius, Educação.

Introdução

Neste artigo procuramos realizar uma proposta de leitura do pensamento de Comenius a partir do pensamento de Foucault, procurando inseri-lo no campo da história do pensamento, no Renascimento, marcado pela idéia de representação; ou no Período Clássico, marcado pela discursividade. Procuramos demonstrar que a tentativa de Comenius ficou bem mais próxima da idéia da representação, portanto a meio caminho da Idade Clássica, pelo fato de o autor tcheco na verdade ter buscado uma tentativa de racionalizar o pensamento místico no campo da educação, não obtendo, no entanto, o sucesso esperado.
 Para tanto, procuramos uma análise do pensamento de Comenius por dois caminhos: o primeiro buscando identificar as raízes do pensamento místico; o segundo, e a partir do pensamento foucaultiano, na tentativa de racionalização nos moldes da ideia clássica de ciência.
Comenius – o Pai da Pedagogia Moderna?

Falar de Comenius na atualidade, buscar discorrer sobre seu pensamento, confrontá-lo com as teorias modernas do campo da educação pode parecer desnecessário; no entanto, dado o lugar comum no qual o pensamento comeniano é colocado, talvez seja de grande importância buscar compreendê-lo e tentar localizar o lugar que a ele cabe na história do pensamento educacional. São muitos os educadores modernos que o colocam como o arauto da educação moderna. Coloco aqui uma citação ilustrativa para mostrar tão somente a forma e o contexto no qual ele é colocado.
Libâneo (2005) assim coloca a questão:

Penso ser acertado dizer que as teorias modernas da Educação são aquelas gestadas em plena modernidade, quando a idéia de uma formação geral para todos toma lugar na reflexão pedagógica. Comênio lança em 1657 o lema do “ensinar tudo a todos”, e, não por acaso, é considerado o arauto da Educação moderna. O Movimento Iluminista do Século XVIII fortalece esta idéia de formação geral, válida para todos os homens, como condição de emancipação e esclarecimento (Libaneo, 2005, p.24).

O professor Libâneo não é o único a ver em Comenius o “arauto” da pedagogia moderna, aliás, na citação acima ele anuncia implicitamente a existência de muitos outros, ao afirmar não por acaso, é considerado o arauto da Educação moderna. Na citação acima, cremos identificar três questões problemáticas que, segundo Foucault, impedem compreender o pensamento comeniano: a) a história civil é confundida com a história do pensamento (“Comênio lança em 1657 o lema do ´ensinar tudo a todos´, e, não por acaso, é considerado o arauto da Educação moderna”); b) o tempo  dos anos 600, até o Iluminismo, é visto como linear e de movimento continuo, colocando a Idade Clássica e o Renascimento já como parte da Idade Moderna; e c) são atribuídos a Comenius, que está no tempo de transição entre o Renascimento e a Idade Clássica,  atributos só possíveis na Idade Moderna (“São também teorias fincadas nas idéias de natureza humana universal, de autonomia do sujeito, de educabilidade humana, de emancipação humana pela razão de libertação de ignorância e do obscurantismo pelo saber” (Idem, p. 24).
A questão que, no entanto, se coloca é que o pensamento comeniano se coloca em um espaço definido e diferenciado em relação à ciência moderna, com características de racionalização do pensamento místico por meio da ritualização da vida cotidiana por meio da escola e de outras instituições sociais. Assim como no pensamento comeniano o homem repete a natureza, a escola deverá de alguma forma repetir o espaço da religião e das escolas de mistérios, nas quais o objetivo seria o homem retornar a si mesmo.

Comenius, o pensamento místico e a Renascença

Quando Comenius inicia o projeto de escrita da Didática Magna, obra considerada como o “arauto” da educação moderna, nos idos de 1600, o Ocidente vive um momento rico e conturbado. Rico, por ser um momento em que quase tudo era possível; conturbado, porque, ao se considerarem todas as possibilidades, abriu-se espaço para as mais variadas elucubrações teóricas. Foi o que se convencionou chamar de Renascimento, um momento marcado pela busca do sentido das coisas em qualquer outra época que não fossem as questões do presente. Buscava-se no passado, no futuro, no espiritualismo, no esoterismo; a ordem era, portanto, rejeitar o que estava posto como norma.
Comenius é, pois, um homem do seu tempo. Na tentativa de anunciar o futuro, de arrancar do presente o que vem a ser a modernidade, chega inclusive a escrever uma obra (A Parnorthosia) na qual tenta anunciar a sociedade futura:

Conforme observa Dobbie em sua introdução à Panorthosia (Comenius,1995), há um evidente paralelismo entre os itens tratados nesses três componente da reforma universal. Professores/filósofos cuidam da luz que é o conhecimento da natureza, políticos cuidam da paz que é o poder da humanidade e os religiosos cuidam do reino de Deus, ou seja, do amor e da fé na revelação divina. A melhoria da sociedade está alicerçada no desenvolvimento e disponibilização dos conhecimentos, mas estes não estão dissociados dos deveres do Estado e da Igreja. É tal associação que poderá corrigir os erros do passado e compensar a Queda. Comenius procura tratar das questões da filosofia natural à luz das Escrituras e se esforça para conciliar as descobertas da ciência com a Bíblia. Embora reafirme o princípio aristotélico de que conhecer é conhecer pelas causas, Comenius ressalta o valor cognitivo das artes e enfatiza a importância de seu ensino. Aliás, o artesão é em grande medida o modelo do professor. Por isso aconselha que sua arte seja analisada e desenvolvida. Em diversas passagens se vê que, para ele, a arte não se diferencia da natureza e a ciência é vista como um passo fundamental para compreensão da condição humana no mundo. É importante frisar que o conhecimento das partes e dos ofícios são fundamentais não apenas como modelo cognitivo mas pela dimensão espiritual que devem incorporar natureza e a ciência é vista como um passo fundamental para compreensão da condição humana no mundo. É importante frisar que o conhecimento das artes e dos ofícios são fundamentais não apenas como modelo cognitivo mas pela dimensão espiritual que devem incorporar (Oliveira: 2002, p. 8).

Na sociedade utópica de Comenius, a terra repete o céu, numa busca ininterrupta de similitudes.  Em Comenius o conhecimento é a luz da natureza, o artesão é o modelo do professor, e o homem em Comenius desaparece entre Deus e a natureza. É quase um louvor aos princípios de Hermes – “o que é em cima é como o que é embaixo” – em sua Tábua de Esmeralda (Parucker, 2007). Comenius situa-se na tentativa de racionalização do misticismo cristão, ou da cristianização do misticismo, obra também desenvolvida por Jacob Boehme, Louis Claude de Sam Martim, entre outros místicos da era do Renascimento.
Uma das ideias principais do pensamento comeniano é a de que nesta vida não alcançamos o fim último, mas que a educação pode auxiliar na evolução do indivíduo rumo a esse fim – uma forma complicada de anunciar as vidas sucessivas:

Tudo que fazemos ou sofremos nesta vida mostra que não atingimos aqui o fim último, mas que todas as nossas ações, assim como nós mesmos, tendem para outro lugar. O que somos, fazemos, pensamos, dizemos, inventamos, conhecemos, possuímos é como uma escada com a qual, subindo sempre mais, alcançamos degraus mais altos, mas nunca chegamos ao topo (Comenius, 2008, p.24).

Comenius apresenta a vida humana como uma vida de dores e sofrimentos, uma escalada dolorosa, cujo fim não é alcançado. Em Sam Martim, na obra Dos erros e da verdade, está presente a ideia comeniana:

É no momento do nascimento corporal que vemos começarem as dores que o aguardam. É então que ele mostra todas as marcas da mais vergonhosa reprovação; nasce na corrupção como vil inseto; nasce em meios a sofrimentos e gritos de sua mãe, como se fosse para ela um opróbrio dá-lo à luz; que lição é para ele ver que dentre todas as mães a mulher é aquela cujo parto é mais penoso e perigoso! E mal começa ele a respirar, logo é coberto de lágrimas e atormentado pelos mais agudos males. Os primeiros passos que dá na vida anunciam que ele só vem à existência para sofrer e que é verdadeiramente o filho do crime e da dor (Sam Martim, 2006, p. 53).

Apesar da ideia de que a existência humana é uma experiência de sofrimentos, causada pela queda do Paraíso, tanto Comenius quanto Sam Martim desenvolvem a tese de que é possível o  homem alcançar um nível de vida no qual ele possa reencontrar sua grandeza perdida. Comenius credita essa tarefa à educação, daí a necessidade de ritualizar o processo educativo, por meio da disciplina, já tão presente nas chamadas escolas místicas dos mistérios.
Trezentos anos depois de ter sido escrita a obra de Comenius, Sam Martim desenvolve a tese de que as ciências cometeram um grande erro e que se afastaram do caminho de lançar luzes ao processo de devolver o homem ao caminho para sua glória. Sam Martim volta então ao que chama “O Príncipe dos Filósofos Divinos” para demonstrar como a ciência e a filosofia cometeram erros na tentativa de racionalizar a busca do caminho pelo qual o homem poderia compreender a realidade e a si mesmo.
Retornamos então a Jacob Boehme (1575/1624), pensador místico, contemporâneo de Comenius, do qual encontramos traduzidas para o português A Sabedoria Divina (1994), A revelação do grande Mistério Divino (1998), A Aurora Nascente (1999) e Os três princípios da Essência Divina (2003), para mostrar como Boehme molda o misticismo às ideias cristãs, buscando demonstrar a justeza do pensamento de Hermes nas Tábuas de Esmeralda, a obra da regeneração por meio do Cristo, construindo a ideia da evolução lenta e gradual do homem de volta ao Paraíso Perdido do Éden. É fundamento do pensamento do “Príncipe dos Filósofos” a lei do triângulo de Hermes ajustada para a ideia da Trindade e dos “Três Princípios Divinos”, trazendo a presença forte dos números três, quatro e nove, mas sobretudo de como essas leis representadas por esses números representam a evolução gradual do homem para o seu objetivo, que estaria, como em Comenius, fora desta vida.
Embora um ser caído e destinado ao sofrimento para obter sua regeneração, passando nesta vida pelas experiências do profundo sofrimento, o homem é para Boehme a mais excelsa das criaturas, pois:

Observa aqui: Adão foi criado a partir do elemento, ou da atração do coração de Deus, que é a vontade do pai, e no elemento está a virgem da força divina (ou a Sofia). O regime externo, que na inflamação dividiu-se em quatro partes, gostaria muito de possuí-la em si. Isto é, a cólera do demônio gostaria muito de ter habitado no Coração de Deus, dominado sobre ele e aberto ali um centrum. Todavia, a cólera não pode fazer isso sem a luz, pois todo centrum é engendrado e aberto pela inflamação da luz. A cólera também gostaria de dominar sobre a doçura; por isso, Deus deixou o sol eclodir, de modo que assim abriu quatro centra ou quatro saídas do elemento (Boheme, 2003, p. 216)

Estão presentes alegorias muito comuns na obra de Comenius, como a criação, a queda, a importância do número quatro (os quatro centrum/centra), e o número três (a luz, a vida e o amor: o coração (vida), a luz ( sol) e o amor (doçura). O coração do homem representa a porta da entrada do bem e do mal no mundo, e, por isso, o homem tem pleno domínio, nele está toda a natureza.
Na Didática Magna, Comenius inicia citando a criação, a queda do  homem e  a necessidade de se ter uma educação que recoloque o homem na função para a qual foi criado por Deus. O homem tem uma tarefa que extrapola os limites desta vida, daí a necessidade da disciplina, do esforço, pois se ele e por meio dele é que é possível a regeneração de toda a natureza, uma educação eficiente pode tornar o processo mais rápido e mais proveitoso, e Comenius ainda o quer prazeroso.
Ao afirmar que o homem é a mais excelsa das criaturas, Boehme/Comenius nada mais faz que um processo de estabelecer semelhanças entre o homem, os demais animais e a natureza em geral. No capítulo I, parágro 3, lá está: “reuni em ti todas as naturezas”. O homem de Comenius é uma síntese da natureza, imagem e semelhança da natureza divina, destinado, portanto a servir o seu criador e comandar os seus semelhantes inferiores. O homem de Comenius é a própria natureza e com ela se confunde em um processo analógico, e de semelhanças, e de representação, confirmando, portanto, o pensamento de Hermes: “o que está em cima é como o que está em baixo”.
 É o que Foucault chama de jogo das similitudes, que define os limites do mundo:

Numa episteme em que sinais e similitudes se enrolavam segundo uma voluta que não tinha termo, impunha-se que se refletisse sobre a garantia desse saber e o termo da sua difusão segundo a relação do microcosmo com o macrocosmo (Foucault, 2005, p. 87).

Em um espaço de tantas similitudes, o homem comeniano haveria de estar marcado, e marcado para a vida eterna. Sua passagem pela terra não tem outro fim que um processo de passagem, transição, oficina. O fim último da vida de tal homem está fora desta vida. Como afirma:

Três são as espécies de vida para cada um de nós e três moradas: o útero materno, a terra, o Céu. (...) A primeira vida prepara para a segunda; a segunda para a terceira, a terceira é em si mesma sem fim. (...) Portanto, a primeira e a segunda morada são como duas oficinas em que se forma: na primeira o corpo para o uso na vida futura, na segunda, a alma racional para a vida eterna; a terceira morada contém a perfeição e o verdadeiro gozo de ambas (Comenius, 2006, p. 47).

Definitivamente marcado. Marcado para a vida eterna. Marcado pelas semelhanças e pelo perigo constante da decadência. Não apenas o homem está marcado; o próprio conhecimento comeniano, a própria didática em sua estrutura, sua forma de escrita estão marcados pela numerologia, pela representação, pela magia, pela classificação, enfim, pelo jogo do signo e do similar. O homem e suas angústias se confundem com a obra.
 São três os estágios da vida humana; são três moradas (o útero materno, a terra, o céu); o mundo visível possui três utilidades (à geração, à nutrição, ao exercício; p. 50); são três graus de preparação para a vida eterna (conhecer, dominar e conduzir para Deus e a si mesmo; p. 52); são três os aspectos pelos quais o homem foi colocado entre as criaturas visíveis; são três os aspectos para alcançar os requisitos genuínos do homem (a instrução, a virtude, a religião; p. 55); são três os fins da educação (as coisas, nós mesmos, Deus); e assim poderíamos continuar citando uma infinidade de marcas, seja pelo número 4, conhecido entre os místicos como número do quadrado perfeito; do número 9, como espaço do início da tridimensionalidade; e do número 12, como momento de passagem do profano para a alta astralidade.

Comenius e a Idade Clássica

Comenius tem dificuldade em se desvincular do esoterismo renascentista, de sua formação teológica radical, e com isso o que ele vem a chamar de humanismo nada mais é do que a dissolução do homem na natureza, nas coisas ou na natureza divina. Mesmo quando Comenius fala, nada mais faz que remeter às notações da natureza. A didática comeniana é uma imitação da ordem natural das coisas, daí a classificação, o surgimento da separação entre os pequenos, a juventude e os adultos. Tais características reforçam a presença do autor na idade clássica foucaultiana. Após sair com dificuldade da Idade do Renascimento, não há nada ainda que se assemelhe à Idade Clássica, quando diz:

O primado da escrita é suspenso. Desaparece então essa camada uniforme em que se entrecruzavam o visto e o lido, o visível e o enunciável. As coisas e as palavras vão separar-se. O olho será destinado a ver, e a ver apenas; o ouvido, apenas a ouvir. O discurso terá então por objetivo dizer o que é, mas já não será coisa alguma do que diz (Foucault, 2005, p. 98).

Ternes (2006) identifica no pensamento de Foucault o surgimento das empiricidades modernas, ou o que se pode convencionar chamar de modernidade quando se dá o salto da tríade da Idade Clássica para as novas empiricidades. Se, com Adam Smith, Lamarck e Jones, se faz a história natural, a análise das riquezas e a gramática geral, Ricardo, Curvier e Boop trarão à luz as novas empiricidades da modernidade: o trabalho, a vida e a linguagem. O pensamento comeniano não conseguiu fazer esse movimento epistemológico, do visível ao invisível, do externo para o interno, por não ser mesmo o objetivo de um pensador que tinha como premissas de seu pensamento a vida após a morte e a união de homem e natureza nas obediências às mesmas leis.
No pensamento de Comenius, começando pelos princípios da educação, ainda é o externo, o visível que se fazem presentes. E quanto ao método, ainda é a analogia, a representação, a classificação que predominam. No primeiro princípio, o professor é comparado a um arboricultor; no segundo, o aluno é comparado a um pássaro no ovo; no terceiro, a uma árvore; e a escola, a um jardim bonito e natural. No quarto princípio, o trabalho educativo é comparado ao trabalho do carpinteiro e à formação do ovo. No quinto, ao processo de nascimento dos passarinhos; e assim segue um completo louvor analógico à natureza, sem perspectiva de libertar o processo educativo daquilo que é visível e externo.
Preso a concepções místicas e à ideia metafísica de que o que está em baixo é como o que está em cima, de que a terra reflete o céu, etc., Comenius não poderia jamais alcançar a concepção clássica de um homem autossuficiente em sua própria razão. O homem cartesiano do cogito ainda não aparece em Comenius. É mais provável vermos aqui elementos do pensamento da patrística e da escolástica com profunda influência do pensamento místico que envolveu o pensamento europeu nos seiscentos, setecentos e oitocentos.

Comenius – Fundamento epistemológico da pedagogia moderna?

Quando dizemos que Comenius sofreu profundas influências do pensamento espiritualista e místico e que na tentativa de racionalizar tal pensamento aproximou-se por demais das características do Renascimento, vemos que isso é possível não por uma decisão deliberada do autor, mas pelas próprias características do Renascimento, assim definido por Ternes (2009): “um mundo fantástico, onde a imaginação e razão parecem gozar dos mesmos direitos” (Ternes, 2009, p.1).
Ao situar Comenius na Idade da Renascença, por ser a que mais se aproxima do pensamento místico, a verdade incômoda se impõe –  não pode haver cientificidade no pensamento comeniano  se consideramos as interpretações de Foucault e Koiré. Sobre o assunto assim expressa Ternes (2009), falando dos estudos de Koiré:

Poderíamos, talvez, separar os estudos renascentistas do filosófo-historiador em dois campos de problematização. De um lado, como já insinuamos, uma reflexão acerca da cientificidade, ou da ausência de todo espírito científico. De outro, a investigação da natureza mesma do pensamento renascentista, aquém do dilema ciência/não-ciência (Ternes, 2009, p. 4).

A grande semelhança do pensamento comeniano ao pensamento de Boehme e outros pensadores místicos nos leva a ver Comenius na segunda opção, mesmo porque os místicos modernos, por meio da Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis, advogam não apenas a existência de um Comenius de pensamento místico, mas como membro insigne da fraternidade, como outros grandes pensadores, incluindo-se Descartes e Newton, que Koyré coloca como tendo os fundamentos da ciência moderna. No entanto, no caso de Comemius, seu pensamento não superou a relação da representação/representado, conforme já demonstrado.
Afirmar que o pensamento comeniano se coloca em um campo próprio é dizer que teve uma continuidade paralela ao desenvolvimento da ciência e não se constitui enquanto raízes desta. Assim se pronuncia um místico moderno:

Ajudar na eclosão do ser profundo que existe em cada criança, para fazê-la participar na criação de um mundo que corresponda aos sonhos mais elevados da humanidade, eis nossa verdadeira utopia espiritualista! Comenius já a defendia nos seguintes termos: “chamarei de escola perfeita (....) aquela onde a luz da sabedoria ilumine a mente dos alunos e os faça apreender prontamente todas as coisas manifestas e ocultas, onde as almas e suas emoções sejam conduzidas a uma harmonia universal e os corações, penetrados e plenos do amor divino...”. O educador moderno, de temperamento místico deve lançar seu olhar em uma dupla direção. Deve, paralelamente, fixá-lo na observação atentiva das ações cotidianas das crianças e abri-lo para uma intuição de ordem cósmica que orienta inelutavelmente suas expressões vitais. Sua sabedoria é o resultado de uma compreensão altamente espiritual do papel que lhe incumbe e que para todo o sempre será o de um pioneiro (Pierre, 2004, p. 45/46).

Por estar aquém do dilema ciência/não-ciência, o pensamento comeniano em seu desenvolvimento permanece marcado pelo dualismo. A vida prática e a interação social, tão presentes nas teorias pedagógicas modernas, só têm sentido quando se estabelece um elo entre a razão e a emoção, o racional e o irracional, o finito e o infinito, a natureza e o cosmo. A própria vida cotidiana torna-se o reflexo do aprendizado e do desenvolvimento/evolução gradual do indivíduo, como afirma Pierre (2004):

Uma educação ciosa de dinamizar um desenvolvimento completo e harmonioso da criança deve ter em conta essas realidades, que, com muita freqüência, nos escapam. Sem dúvida, é muito difícil saber a que nível de evolução espiritual chegou cada criança junto à qual agimos. Alguns astrólogos, todavia procuram desvendar esses mistérios e conceberam uma via original, chamada astrologia da evolução ou astrologia cármica, que hoje está sendo gradualmente estruturada (Pierre, 2004, p. 211)
.
Aqueles que se consideram de fato herdeiros do pensamento comeniano não negam a possibilidade do múltiplo diálogo com todas as demais teorias, mas ainda permanece o cerne do pensamento – o dualismo, e a vida após a morte, ou o fim último da educação fora desta vida; não rejeitam nenhuma abordagem científica, mas admitem abordagens não-científicas, pois o que se busca é um equilíbrio entre o racional e irracional, em uma complexidade que lembra a interpretação de Koiré sobre o Renascimento, um mundo onde tudo é possível.
Ao pensamento de Comenius como ao pensamento místico rosacruz não se põe a questão ciência/não-ciência, pois não existe, grosso modo, a separação homem/natureza, homem/deus; o máximo que pode existir é um humanismo transcendental. A possibilidade, pois, de ver o pensamento pedagógico moderno com raízes no pensamento comeniano só é possível quando este é tomado em sua superficialidade, ou seja, na análise da vida cotidiana ou no aspecto prático do que ele considera parte da evolução gradual do ser humano.
Na medida em que as teorias pedagógicas modernas deixam de considerar a encarnação/reencarnação, os processos cármicos, a relação homem/natureza, homem/deus, evolução gradual, não se pode considerar que as mesmas possuam raízes no pensamento comeniano. Os demais aspectos, como a relação adulto/criança, organização das turmas por idade, disciplina, etc. são tributários dos fundamentos já citados e servem para prover o desenvolvimento gradual do indivíduo na compreensão de sua missão no mundo e harmonização com o macrocosmo. Dessa forma, se se pode falar de estatuto epistemológico da obra de Comenius, ele está situado na tentativa de racionalizar o pensamento místico na busca do equilibro entre o racional e o irracional, a razão e a emoção, o corpo e a alma,  em uma infinita possibilidade dualista e gradual do desenvolvimento humano.
A afirmação de que o pensamento pedagógico comeniano possui o fundamento epistemológico das teorias pedagógicas modernas só tem sentido se o consideramos em sua superficialidade, ou seja, naquilo que foram as mudanças inseridas no cotidiano da relação ensinar-aprender, mestre-discípulo, que colocam a escola em uma nova dimensão dentro da sociedade. A partir do pensamento comeniano, a escola passa a assumir diversos papéis que antes eram da igreja e da família e se organiza de forma a tratar cada indivíduo particular a partir da natureza humana genérica.

Conclusão

 O pensamento comeniano não pode possuir em si o fundamento do pensamento educacional moderno, porque, diferentemente dos demais pensadores, não existia no autor da Didática Magna a preocupação da busca do rigor científico, por isso a naturalidade da relação e integração representante-representado, o espelhamento homem/natureza, homem/deus, microcosmo/macrocosmo. A preocupação maior do autor era buscar mecanismos e estratégias de levar a humanidade à evolução rumo à perfectibilidade humana, e, nessa busca, viu o autor, na reformulação da forma como se dava o ensino/formação nas escolas, um possível encurtamento do caminho.
A superficialidade com que se lê o pensamento comeniano, deixando-se de lado sua insistência tão clara na busca dos fundamentos últimos das coisas em uma revelação divina, leva-nos a colocar como laico aquilo que não é laico e construir razões inexistentes.

Referências bibliográficas

Comenius. J. A. Didática Magna. Aparelho crítico Marta Fartori; Tradução Ivone Castilho Benedetti – 3ª ed – São Paulo: Martins Fontes, 2006.
Foucault, Michel. As Palavras e as Coisas. Coleção Signos, Edições 70 Ltda.: Janeiro, 1995.
_____________História da Loucura: na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 2008.
_____________ O nascimento da Clínica.  – 6ª Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
OLIVEIRA, Bernardo Jefferson de. A ciência nas utopias de Campanella, Bacon, Comenius e Glanvill. Kriterion [online]. 2002, vol.43, n.106, pp. 42-59. ISSN 0100-512X.
Pierre, Daniel. Educação: uma alquimia sutil. Biblioteca Rosacruz; Grande Loja de Língua Portuguesa; Curitiba, 2004.
Sam Martim, Louis Claude. Dos Erros e da Verdade. Coordenação e Supervisão: Charles Vega Parucker; Ordem Rosacruz Amorc; Curitiba, 2006.
_____________.O Novo Homem. Coordenação e Supervisão: Charles Vega Parucker; Ordem Rosacruz Amorc; Curitiba, 2000.
____________. O Ministério do Homem Espírito. Coordenação e Supervisão: Charles Vega Parucker; Ordem Rosacruz Amorc; Curitiba, 2001.
Trimegistos, Hermes. Ensinamentos Herméticos. Coordenação e Supervisão: Charles Vega Parucker; Ordem Rosacruz Amorc; Curitiba, 2007.
Ternes, José. Michel Foucault e a Idade do Homem. 2ª Ed. Ed da UFG, 2009.
__________. Infinitas Similitudes. Mimeo. PPGE. Texto de aula, 2009.
__________. Foucault e a Renascença: a linguagem do mundo. Mimeo. PPGE/texto de aula, 2009.




[1] Nelson Soares dos Santos é pedagogo pela Universidade Federal do Tocantins, mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal de Goiás e doutorando em Educação e Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
*Texto escrito como exigência de conclusão da disciplina “Epistemologia e Educação”, ministrada pelo Professor pelo PPPProproProfessor Doutor José Ternes.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Kadafi, Os direitos Humanos, o Delegado de Campos Belos e a necessidade de um novo Pacto Social.



Nelson Soares dos Santos

Nos últimos dias, dois acontecimentos chamaram muito minha atenção. O primeiro, a morte do Líder Líbio, de alcance mundial; o segundo, um incidente ocorrido durante a aplicação da prova do ENEM ( Exame Nacional do Ensino Médio), na cidade de Campos Belos, minha terra natal. Os dois acontecimentos têm em comum uma palavra: Liberdade. Nos dois acontecimentos a justificativa é realizada por meio do uso da palavra liberdade. Que liberdade é esta que utilizada por alguns dá espaço e justifica abuso de poder e até mesmo assassinatos?

A Líbia que foi destruída.

Junto com Muamar Kadafi, morreu uma Líbia, e não se pode esperar e nem saber qual Líbia nascerá de tal destruição. As fotos, os vídeos, mostrando a morte do líder ditador, são horríveis e beira a crueldade. Ele não era um santo, mas todos aqueles que comemoraram sua morte e a forma como se deu, parece terem se esquecido de uma coisa: Ele ainda era um ser humano.
O grande problema da atualidade é que parece haver uma irracionalidade no tratamento de determinadas questões. E quando vejo professores Universitários, filósofos, e letrados mundo a fora comemorando a morte e a forma como ela se deu, proclamando orgulhosamente como ação do Ocidente Civilizado, alguma coisa parece estar errada. A defesa da liberdade e da democracia parece estar tomando caminhos jamais imaginados pelos antigos. O que diria Alex de Tocqueville, Montesquieu, Rousseau, Thomas Jefferson e mesmo o mais conservador se ouvisse as palavras da Secretária de Estado Americano falando sobre a morte do líder líbio. Certamente, eles se perguntariam se e onde estes novos líderes aprenderam sobre democracia e liberdade.
A defesa de liberdade dos antigos e o esforço por uma sociedade democrática não permitia jamais, o assassinato seja sob quaisquer de suas formas. Os direitos humanos proclamados baseavam-se na racionalidade, no uso da razão, era esta a que caracterizava o conceito de pessoa humana. Mesmo que alguns possam alegar que no passado os índios não eram visto como pessoas, ainda assim, tal caracterização seguia o ponto de vista de uso metódico da razão. No caso da atualidade, isso sequer pode ser aplicado. A líbia possui todo um sistema de Universidades, escolas, pesquisas científica respeitadas, que são um dos sinais do uso público da razão, portanto, nenhum líbio pode jamais ser considerado como não pessoas, como quis de forma progressista justificar um famoso intelectual americano.
O uso do conceito de liberdade e democracia para justificar o abuso do poder, os assassinatos e todas as formas de crueldade só pode ser explicado pelo absolutismo do individuo contra o coletivo. Não foi o povo americano a comemorar, não foi a consciência racional dos americanos ou dos ocidentais a comemorar; foi no máximo uma consciência alienada, manipulada pelos fundamentos de desejos egoístas que passam a ser compartilhados coletivamente.
Não consigo crer que a maioria do povo líbio estava tão insatisfeita assim com seu governante, o mesmo que tirou o país do isolamento e conseguiu melhorar a renda e os programas sociais. Da mesma forma, que nas eleições mais democratas nos países, dito democratas, as decisões já não são mais tomadas pela maioria. Na última eleição americana, e no Brasil, o nível de abstenção foi tão alto, que poderiam ser questionadas a validade do resultado conforme a defesa de que um governo democrata precisa representar a vontade da maioria. Há uma irracionalidade em curso que arrasta a todos a subserviência aos desejos individuais e egoístas, e, mesmo aqueles que ainda utilizam alguma racionalidade preferem ficar calados para não terem prejuízos sociais.

O Delegado de Campos Belos Goiás e o ENEM.

Também em Goiás, em uma cidade chamada Campos Belos, encravada no Nordeste Goiano, um homem do sistema de governo utilizaram a palavra liberdade para quebrar as regras, e fazer valer o interesse individual sobre os interesses coletivos, a organização, a ordem e a disciplina. Trata-se de um Promotor de Justiça e de um Delegado de Polícia que forçaram a entrada de um aluno que chegou atrasado para fazer a prova do ENEM. Utilizaram-se do pretexto de que o aluno possui “livre acesso a escola”, e portanto, indiscriminadamente a palavra liberdade, ou direito de ir e vir ( fundamento dos direitos humanos), para abusar do poder e privilegiar um individuo em detrimento da ordem e do bom funcionamento da governança.
O que impressiona, é que tanto um quanto outro, é pessoa ilustrada, ou pelo menos deveria sê-lo, e que não sendo coloca em questão que tipo de formação as universidades andam ofertando aqueles que passam por ela e saem diplomados. Parece que há mesmo uma irracional interpretação e leitura dos textos antigos. Utilizar a expressão “direito de livre acesso” para justificar em nome da lei a desobediência a questões simples do processo civilizatório, se não for racionalidade, só pode mesmo ser explicada por um absolutismo do individuo contra o coletivo.
A questão que se coloca é que se o individuo tem direito a tudo, e o coletivo tem direito a nada, destrói-se a própria idéia de comunidade, coletivo, estado, país, nação. É por estas e outras razões que em um artigo anterior comecei a defender que está chegando a hora de se construir e ou discutir um novo pacto social. Repensar o papel do individuo, a idéia de felicidade, de moralidade. Tal reflexão na medida em que levará a construção de um novo pacto social, levará a construção de um novo pacto entre as nações, e um novo redimensionamento da história humana na terra.

O PPS e o Projeto de Desenvolvimento para Goiás II – A força da cidadania.



Nelson Soares dos Santos

No primeiro artigo no qual falei da consciência do PPS Goiano quanto ao projeto de desenvolvimento para Goiás e no Brasil, já estava em curso o processo de desligamento do deputado Joaquim de Castro, que fez sua opção por seguir a vida política em um partido recém criado, o PSD. Ali já afirmávamos que, caso viesse a se concretizar a saída do deputado não estaria relacionado a falta de espaço no partido, nem tão pouco, a divergências com o atual presidente Gilvane Felipe; uma vez que o PPS é um partido com diversas lideranças, e, não estando restrito a um ou dois líderes, não tem o seu crescimento atrelado a tais líderes.
Tal tese vem se comprovando e ganhou força nas últimas semanas. O PPS é a força dos seus filiados que espalhados por mais de 150 municípios querem fazer de Goiás o melhor lugar do Brasil para se viver. Apesar de não ter recebido nenhuma visita do atual presidente, o partido se movimentou pelo estado inteiro e realizou conferências vitoriosas, nas cidades de Aparecida de Goiânia com Iron Cordeiro, Anápolis com André Almeida, Goianésia com Cedir; Rio Verde com Demilsom Lima e no sudeste Goiano, diversas conferências acompanhadas pelo camarada Fabiano Arantes, e no Entorno de Brasília a grande força do partido é liderada pelo companheiro Vilmar Popular.
Os acontecimentos no PPS Goiano, longe de parecer algo negativo está em consonância com o programa nacional do Partido de aprofundar a democracia interna, desenvolver novas práticas de gestão, formar intelectuais orgânicos, e, fortalecer o poder local desenvolvendo uma cidadania participativa e consciente através dos municípios. No próximo congresso Estadual deve ganhar força a direção colegiada do partido, já existente na prática, descentralizando o poder de construção do partido pelas diversas regiões do estado, tem em cada uma das regiões um coordenador com a responsabilidade de zelar pela política do partido e auxiliar a direção estadual no processo de construção partidária e formação política.
O PPS Goiano segue a trajetória de coerência já estabelecida de reconstrução de sua identidade política no cenário goiano, mas, mais do que isso está investindo na construção de intelectuais orgânicos no sentido Grasmsciano, atraindo homens e mulheres com interesse não em fazer da política um cabide de empregos ou um meio para ter um cargo em um governo, mas homens e mulheres que se envolvam com  o povo, com o sofrimento do povo, e busque alternativas para se construir um estado melhor, com desenvolvimento e Justiça social.
Neste caminho e com muita determinação, o PPS de Goiás será em breve um partido grande. Nós, os seus filiados, teremos o orgulho de sermos vistos como homens e mulheres que está ajudando a transformar este estado no melhor lugar do mundo para se viver. Em breve o próximo Congresso Estadual que está com data prevista para cinco de novembro confirmará que o futuro será de vitórias, para o PPS e para Goiás, por que nós acreditamos na força do coletivo para vencer os interesses egoístas individuais ou de grupos que impedem que o nosso país seja uma sociedade justa.

domingo, 23 de outubro de 2011

Poesia para o teu coração.



Nelson Soares dos Santos
Logo que o sol amanhece a vida,
Ouço tua alma chamando pela minha.
Hoje sei que o amor é o que move a lida.
Ainda que os espinhos invadem a vinha,
Insisto que a vida vale pena ser vivida,
Na dor, na tristeza, nas mágoas esquecidas
Yeschua nos ensina a louvar a vida.

Rude, duro e triste é o sozinho;
Ouvindo lamentos, tristeza e dor,
Daqueles que escolhem as rosas  sem espinhos;
Rezando para que isso seja o amor.
Isso é o que chamo de brindar com vinho,
Garantindo que a fé é mais forte que a dor.
Usando todas as pedras do caminho
E utilizando para construir um castelo de amor.
Sentindo-se como Colombo, um descobridor.

Tudo é sombrio vivendo sem você.
Ouvindo os murmúrios que a vida apresenta,
Rompendo barreiras, sentindo o coração doer.
Rasgando meu peito, desejando lhe ter;
E esperando os sonhos que a vida alimenta,
Sentindo que sem sua companhia tudo é sofrer.