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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Enade, ética, Moral e avaliação na Educação Superior




Durante toda a minha vida tive problemas com a avaliação sobre minha prática docente feita pelos discentes, ou seja, pelos alunos. Recentemente comecei a refletir sobre as razões de tais problemas, e, foi então que muitos questões começaram a surgir na minha mente. Questões que parecem sem respostas mas que despertam outras tantas reflexões. A primeira grande questão que sempre trouxe inquietação é: Pode o aluno ter condições de avaliar a prática pedagógica de um docente? É claro que esta questão envolve outros tantas questões éticas, morais e técnicas que embora não seja possível problematizar neste artigo podemos tecer pequenas considerações.

Para problematizar se um discente pode ter condições , técnicas e éticas para avaliar um docente  precisamos problematizar o que é o discente, afinal, precisamos saber sobre quais parâmetros este ser olha e lê o mundo, e portanto, como é capaz de ver o próprio professor. Em todas as faculdades e Universidades onde ministrei aulas, ( com a rara exceção de um curto tempo de professor Substituto na Universidade Federal de Goiás), convivi com um grave problema: mais de 80% dos alunos que passaram pelas minhas mãos chegaram a faculdade ou Universidade, e no período no qual ministrei as aulas sem saber ler e escrever o básico em linguagem erudita (aliás, já escrevi mais de uma vez neste blog que eu o comecei como incentivo para que os alunos praticassem a escrita, e por isso, costuma escrever com erros de português para despertar nos que liam a crítica, e, engraçado é  que bons professores, colegas, muitas vezes, elogiavam textos sofríveis que eu publicava, muitos deles ainda publicados neste blog).

No ano de 2004, fiz de propósito e tabulei a qualidade de leitura e interpretação de texto de cem alunos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Goiatuba. No resultado, 95% dos estudantes pesquisados apresentaram sérias dificuldades de leitura e interpretação; e pior, dos alunos tabulados no Oitavo período do Curso, apenas 3% chegavam a apresentar 50% do conhecimento básico do curso no qual estavam aptos a receber o diploma. No ano de 2007, 2008 e 2009, realizei a mesma pesquisa na mesma Instituição, o resultado apresentado foi o mesmo. Não é, portanto, novidade para este que escreve o resultado da Instituição no Enade. A pergunta é: Tem tais alunos condições de avaliar se um docente possui capacidade didática?

No ano de 2009, tive acesso a todas as avaliações discente sobre os docentes da Instituição, e, foi então que notei um fato interessante. Os professores menos qualificados da Instituição foram os mais bem avaliados pelos alunos. Curioso, passei a observar as aulas de tais professores, na condição de Coordenador, e notei que a maioria dos professores bem avaliados não ministrava sequer meia hora de aula útil em um período de duas horas aulas, ou seja, tratava-se daqueles professores que mais matavam aulas, que mais passavam tempo no início e no fim da aula conversando futilidades com os alunos que em nada se relacionava com o conteúdo básico da disciplina que ministravam.

Tal situação gera um problema ético e outro moral. O ético na medida em que se universaliza a idéia de que o bom professor é aquele querido pelos alunos, sem mesmo analisar as razões de tal bem querer, ou a real capacidade didática do professor; o problema moral, é que as faculdades com tal realidade colocam no mercado e na sociedade todos anos uma quantidade imensa de profissionais medíocres que quase nada sabem da profissão que vão exercer.

O que fazer então, quando o maior problema das Instituições, diga-se as periféricas públicas e as privadas, recebem um aluno do Ensino Médio que não sabe ler, não sabe escrever, não sabe interpretar e não tem quase nenhuma bagagem cultura e erudição? Em tal situação os gestores destas Instituições ficam diante de um dilema ético e um problema moral prático: o dilema ético trata-se, ou encontra uma forma de o aluno “sair-se bem no Enade, ou terá os cursos fechados pelo MEC”; o problema moral prático é que, a depender da solução encontrada para que o aluno saia-se bem no Enade pode transformar os cursos em cursinhos para ENADE, jogando no mercado profissionais medíocres e com formação humana sofrível.

Novamente, o problema retorna para as mãos do docente. E então é que novamente se pode perguntar: como pode o docente ajudar o aluno a superar as deficiências? Aqui, a maioria das instituições tem pecado por uma simples questão: a maioria absoluta tem apostado no ensino de Língua Portuguesa, baseado na Leitura e escrita como forma de superar a defasagem do aluno, e esquece, que grande parte do problema situa-se no binômio Cultura Erudita/cultura popular; senso comum/ conhecimento Científico e que a tão esperada evolução do aluno não pode, e não se dará pela prática de leituras, e sim de vivências onde será possível a formação do Espírito de Erudição e do Espírito Científico.

Neste sentido, a filosofia, a missão, os valores que norteiam o projeto Pedagógico da Instituição e a forma como são vivenciados na prática, influenciam muito mais que o papel do docente ou mudanças pontuais nas disciplinas com aumento ou diminuição de cargas horárias. De nada adianta colocar duas ou três vezes mais horas aulas de uma determinada disciplina, se por outro lado, a Instituição “aceitar” abonar faltas de alunos, professores não aproveitar ao máximo o tempo útil em sala de aula para apresentar e discutir conteúdos, e não se exigir dos alunos aprendizado mínimo para que sejam aprovados em cada uma das disciplinas.

Percebe-se que os problemas vão se sobrepondo. Aluno sem formação necessária para receber Educação Superior, ( e que se torna o elemento definidor do que deve ser um bom professor); professores que passam a medir suas práticas tendo como parâmetro “agradar” o aluno que pouco sabe, faculdades que fazem “qualquer negócio para manter o aluno”, aluno que faz qualquer negócio para conseguir o diploma com a maior facilidade possível, ( e o pior é que grande parte acreditam que já sabem tudo do curso e que só precisam do diploma); o resultado disso está cada vez mais claro para todos: deputados que acreditam que exigimos não se escreve com G, a degradação cada vez maior da Língua Portuguesa, e pior, a banalização da cultura. Hoje, parece que ser culto é saber de cor a música do Michel Teló. Mas, retomando a questão inicial é difícil entender que em tal situação não há quem possa avaliar um bom professor? Não precisamos aqui sequer entrar na questão da fragmentação do conhecimento que faz de médicos, enfermeiros, advogados etc. tornarem-se professores e acreditarem de todo coração que sabem tudo sobre educação, aprendizagem e formação humana, muitos deles, sem nunca ter lido nada sobre Pedagogia, ou mesmo sobre desenvolvimento humano. Pior ainda, vamos rejeitar a possibilidade de analisar as fórmulas milagrosas dos economistas que olham para a educação e acreditam que o número de alunos em sala de aula não interfere na aprendizagem, e, fiquemos apenas com esta verdade: para avaliar é preciso sempre saber mais, e ser virtuoso o suficiente para ser imparcial.

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