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sábado, 24 de março de 2012

Conselhos necessários


Nelson Soares dos Santos

Hoje fui abordado por um ex-aluno no chat do Facebook. Ele foi direto ao assunto. “As vezes fazemos uma ideia errada das pessoas. Hoje vejo que você é o cara, seu conselhos hoje me são necessários”. O referido aluno é o que eu posso chamar de bem sucedido. Estuda na Universidade Federal, tem planos, projetos, sonha. Não se pode pedir muito mais do que isso para um jovem nascido no nordeste Goiano. Afinal, está no caminho que pode levá-lo ao topo da pirâmide. Na verdade, não fiquei feliz com a abordagem pois pelas lembranças era um daqueles alunos que tinha se arvorado em fazer abaixo-assinado para pedir minha demissão. Irritado mais ainda por este tipo de abordagem estar cada vez mais frequente, e no presente, os tais conselhos que os do passado se tornaram necessários não parece surtir efeito para os do presente.
Em um esforço de memória pude reconstituir que fui professor do referido, em um curso tecnológico ministrando a disciplina de Metodologia Científica, em um curso voltado para o agronegócio. Perguntei então, de que conselhos se lembrava, não antes de dizer que a má compreensão da minha pessoa por parte de indivíduos que depois aparece para pedir desculpas tem me causado prejuízos financeiros incalculáveis. Ele reagiu respondendo que admirava o jeito e a forma com sempre quero o bem de todos, e, esforçando, lembrou dos conselhos que segundo ele, era o esforço que fazia nas aulas para que cada um aprendesse a pensar por si mesmo e que o conhecimento e a Educação é a única garantia verdadeira de um futuro melhor.
Continuo ensinando as mesmas coisas, sendo o mesmo professor e tentando sempre aperfeiçoar o método, mas como no passado é difícil romper a barreira do senso comum. Mais do que nunca pensar por si mesmo, acreditar na educação, apostar na busca do conhecimento tornam-se conselhos necessários. Hoje, mais ainda, precisamos aprender a viver juntos, respeitar as diferenças, exercitar a tolerância. No entanto, continuo enfrentando coordenadores que aconselham alunos a desistir da matéria, instilam a intolerância, e, pior, são melhor compreendidos e aceitos do que o discurso e a luta que empreendo. Será um destino ser educador? É possível fazer ver aqueles que nos chegam como alunos que a única coisa que queremos é que cresçam e se tornem homens e mulheres?
Lembro-me que na época uma das grandes acusações que eu sofria, era a sórdida imagem de ateu e blasfemador do nome divino. E um diretor caridoso, e uma coordenadora religiosa que passava os fins de semana consumindo caixas e caixas de cervejas eram vistos como verdadeiros servos de deus, e homem e mulher preocupados com o futuro daqueles jovens. Na época, eu trabalha em um Centro Espírita “ Irmã Lúcia”, todos os sábados a noite e domingos de manha, enquanto os servos de deus embriagavam-se e curtiam as mais religiosas orgias em suas ricas fazendas. Hoje, sou acusado de ter “convicções firmes oriundos do Marxismo do PC do B”. Não direi aqui o que faço hoje, vamos deixar para um futuro próximo para que se descubra mais uma vez quais conselhos são necessários.
Conselhos necessários. De onde tiraremos forças para lutar contra os venenos do individualismo? Como romper com as tiranias de faculdades particulares que só são capazes de contratar professores dispostos a não ensinar? Como romper com a falsa ideia de que a educação pode ser um negócio e que quando o aluno paga ele tem o direito de exigir como a educação deve ser feita? Coordenadores que aconselham um aluno a desistir de um disciplina e enquanto tal prejudicam o futuro deste jovem deveriam ser banidos do meio educacional. Quantos jovens como este que abordou-me hoje terão forças para recomeçar? Quantos outros se perderão por que sequer terão acesso a algum conselho útil e necessário? A urgência do respeito a educação e ao educador não é mais uma questão qualquer, trata-se de garantir o futuro da humanidade. Como disse Paulo Freire: “Educação não transforma o mundo, educação transforma pessoas, pessoas transformam o mundo”. Parafraseando podemos dizer que do jeito que as coisas estão indo, chegará um momento no qual as pessoas não saberão do cuidado de si, e então, não serão algumas pessoas que estarão em risco, mas a própria humanidade.

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