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sábado, 2 de junho de 2012

A audácia da Justiça




Nelson Soares dos Santos



Há um tempo atrás ouvia-se muito sobre esperança. Na campanha de Lula a Presidência da república, pregava-se aos quatro cantos a esperança. Contra o medo, o desespero, a miséria, a solução era sempre a mesma: a Esperança. Depois, e logo em seguida, no que se considera o centro do mundo, Obama também pregou a esperança. E o título de uma de suas biografias autorizadas tem como título “ A audácia da esperança”. Confesso que li e fiquei frustrado, sonhava encontrar muito mas do que encontrei. Aos poucos fui percebendo que não era esperança que minha alma buscava, o que me movia, e me move não é a esperança é o espírito de Justiça. Então se um dia alguém escrever uma biografia sobre minha pessoa, se por acaso eu fizer algo grandioso, será movido pela justiça, e então, minha biografia ficaria bem se tiver como título “A audácia da Justiça.

Diga-se em primeiro lugar que não se trata de desejo de vingança, e sim de Justiça. Platão dizia que a justiça está entre as mais nobres das virtudes, ladeadas apenas pela sabedoria e a prudência. Aristóteles a colocou entre as virtudes que devem ser desenvolvidas no cotidiano, por que diz respeito aos outros, a igualdade, aquilo que é devido a cada um. E, em toda a filosofia a justiça esteve presente. Em Santo Tomás de Aquino, a Justiça foi interpretada como não sendo um meio termo, mas um fim em si mesmo, uma virtude mãe. Kant dedica duas obras a questão da Justiça: Crítica do Juízo, e Paz Perpétua, mas, se formos mais criteriosos veremos que a questão do senso de justiça perpassa toda sua obra, e é o fundamento de sua ética. Na fenomenologia a justiça aparece como alteridade, como possibilidade de se ver no outro, sentir o outro, ser igual, ou mesmo se nadificar no outro. E, finalmente, não houve filósofo ou pensador respeitado que não tenha pensado seriamente na questão da justiça.

 Na religião o amor cristão não existe sem o espírito de justiça, e na sua origem, na Torá, o conceito de justiça era tão duro ao ponto de ser entendido por alguns, como sendo, mesmo, uma questão de vingança. No Budismo e no Hinduísmo a justiça aparece  na lei do Karma, que é muito mais profunda do que parece em um primeiro instante para os ocidentais, e na sua essência, muito se assemelha a ideia de justiça da Torá bíblica, considerando no entanto, a multiplicidade das vidas. Todas as religiões que de alguma forma, aceita a teoria da reencarnação, aceita por sua vez, a lei do Karma como sendo um mecanismo da Justiça Universal ou Justiça divina, e, não são poucos os pensadores religiosos, que mesmo de religião que não aceita tal teoria, elucubrar sobre a justiça considerando a vida após a morte.

No misticismo ou entre os místicos, diz-se que a razão de ser um místico ou estudioso do misticismo é ser amante das virtudes, e dentre, estas, a  virtude da justiça é considerada a virtude mãe. As ordens atuais mais conhecidas, no caso da maçonaria, por exemplo, diz que o maçon deve ser sempre um homem de bons costumes e amante da justiça. No misticismo Judaico a Kabala é a expressão de sua maior revelação e nela, a justiça aparece de forma preponderante, e como eixo e razão de toda árvore da vida. A força, a sabedoria, a beleza, e demais virtudes inscritas nas sefirots, são fundadas na irredutibilidade da justiça divina. No tarô, a justiça é o décimo primeiro arcano maior, representada por uma mulher jovem, imponente, sentada de forma a causar forte impressão e olhando para além do horizonte. Sua simbologia é a colheita, e tenta mostrar que cada um colhe aquilo que planta.

Veja portanto, que não existe uma só lugar que não se fale de justiça, uma só teoria, um só pensamento; parece que até mesmo no inferno, se este existir, há um anseio e se deve lá falar de justiça, aliás, a existência do inferno não teria sentido se não houvesse anseio pela justiça. Por tudo isso, vejo que chegou a hora da justiça. Chega de esperança, chega de caridade, chega de medo.  O que precisamos é de justiça. E se Justiça significar a nossa própria morte, tenhamos coragem de morrer. Afinal, tudo que é esperança é destruída pela injustiça, e mesmo o amor, é banalizado quando existe sem o senso e espírito de justiça.  Por tudo isso eu louvo a justiça, anseio a justiça, e nada mais desejo tanto para mim, como para amigos e inimigos que a justiça. É preciso que a colheita seja cada vez mais próxima do plantio, para que não precisarmos sofrer de fome de justiça.


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