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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Beleza singela.




Tu és bela. Tua beleza intriga a qualquer olhar.
Sem saber, tu és, quase sempre, singela.
Teu olhar traz aquela beleza única de tarde aquarela;
Sem saber, tu têns a suavidade da brisa ao luar.

Tu és linda. Invejas a ti a poderosa Helena.
Ah! Ela não tinha tua sabedoria, nem o teu poder.
Ah!, Ela não sabia ser encantadoramente doce e serena,
E, quando não sendo, saber sempre  ser mulher.

O teu olhar meigo, sonho de vidas idas.
A tua busca, imensa do amor perdido.
A tua sorte, que cresce ao entardecer.

És a ti, que dedico esta poesia/margarida.
No afã de que do sonho esquecido.
Tua alma se lembre no novo alvorecer.



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Se eu morresse amanhã

Parece que foi ontem que li esta poesia pela primeira vez. Eu a decorei, recitei, cantei, e nela aprendia da força do amor.

Se eu morresse amanhã

Alvares de Azevedo.

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Iniciação

Mas uma linda poesia relida. Desta vez, com uma compreensão bem mais real.

Fernando Pessoa


Iniciação
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
....................................................
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiran-te os Anjos a capa :
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada :
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
....................................................
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não 'stás morto, entre ciprestes.
....................................................
Neófito, não há morte.

Autopsicografia


Mas uma releitura gostosa, desta vez, Fernando Pessoa.
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Pablo Neruda – Cem sonetos de amor
Soneto VIII



Se não fosse por que têm cor de lua teus olhos,
de dia com a argila, com trabalho, com fogo,
e aprisionadas tens a agilidade do ar,
se não fosse por que uma semana és de âmbar.

Se não fosse por que és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és ainda o pão que a lua fragrante
elabora passeando sua farinha pelo céu.

Oh, bem-amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva

e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso ver tudo.
vejo em tua vida todo o vivente.