Pesquisar este blog

domingo, 21 de outubro de 2012

Perguntas para minha alma


 

Nelson Soares dos Santos.

 

Alma minha indomável.

Por que não temes a escuridão

Que produz estas vidas, miserável.

Ao cercar tua manifestação?

 

Por que,  alma minha, não recolhes ao silêncio inovador?

Por que não amas o nada, o amor sem movimento?

Por que na roda da vida não temes enfrentar a dor?

E te tornas intocável como a calmaria do vento?

 

Deus meu, Deus meu,  graças dou-te por esta luz.

Esta paz, profunda e lívida que a meu coração acalma;

Mesmo quando meus pés sangram pelo peso desta cruz,

O meu corpo revitaliza, e dorme em paz a minha alma.

 

E sigo, grato oh Deus, por esta Alma indomável.

Que não me deixa sucumbir quando o mundo perde a calma,

E que nos  momentos mais difíceis, ouço de forma amável.

“És dono do teu Destino, capitão de tua alma”

 

 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Entre a Sandice e a Razão


Nelson Soares dos Santos
 
 
É madrugada. Do meu lado uma pilha de livros de Bachelard, de outro, uma pilha de livros sobre ocultismo. Ao lado do computador sobre a mesa onde escrevo “Espumas Flutuantes” de Castro Alves; “O Paradoxo da Moral” de Vladmir Jankélevitch, “A cabala da Saúde e do Bem – Estar” de Mark Stavish, “As Quarenta Questões sobre a Alma” de Jacob Boheme, e, “Dos erros e da Verdade” de Louis-Claude de Sam-Martim. Todos estes livros vieram a memória ao ler dois livros de Kabala, um de Michael Laitmam – “Alcançando Mundos Superiores” e, outro, “A Kabala do Dinheiro” de Nilton Bonder. Foram mais de cincos dias intercalados de leituras, estudos, comparações e lembranças de tantos livros lidos ao longo da vida que nos leva a esta busca intensa de uma verdade que nos guie na travessia da existência. De tudo isso, foi uma lembrança de uma passagem de “Memória Póstumas de Brás-Cubas” que me fez escrever este texto.

Tenho e sempre tive uma paixão espiritual por Machado de Assis e de seus livros nenhum marcou mais que “Mémórias Póstumas de Brás-Cubas”. Brás Cubas é o realista que parece nunca ter encontrado o que buscava no mundo e por isso sai dele  escrevendo “ com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Talvez por isso o livro tenha me chamado tanto a atenção desde os meus tenros doze anos de vida. Confesso que sempre tive dificuldade de acreditar no amor, nas pessoas, na vida, e por isso, talvez, meu rosto tenha sorrido e meu olhar brilhado quando pela primeira vez li o discurso de abertura do enterro de Brás-Cubas, e quando eu, já quase emocionado li as frases seguintes –

“ Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia – peneirava – um chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis de última hora a intercalar  esta engenhosa ideia no discurso que proferiu à beira de minha cova: - “ Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que tem honrado a Humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói a natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado”.

Pode o prezado leitor agora imaginar os sentimentos de um menino de 12 anos lendo tal livro, depois de já ter devorado Monteiro Lobato, José de Alencar, dentre outros. A emoção do anúncio da morte aos sessenta e poucos anos e com saúde, foi seguida de raiva. Quão ingratos os amigos, apenas onze amigos!! E logo depois, a calma, - afinal, chovia, mas... chuva fina, miúda. Sim, eram mesmos ingratos os amigos. O menino se consolava com a presença dos onze amigos e se perguntava se teria um dia onze amigos. O cruel disso tudo é que o menino agora com 38 anos ao refletir sobre os anos vividos já não sabe se tem onze amigos para acompanha-lo ao cemitério. A ideia engenhosa do amigo orador, tenho de confessar, levou-me lágrimas aos olhos, e até hoje, toda a vez que releio, mesmo já sabendo o desfecho irônico, ainda sinto uma fagulha de emoção. Temos de admitir que as palavras são belas, e por isso mesmo, impossível não se desatar a rir quando se lê no parágrafo seguinte: “Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vintes apólices que lhe deixei”.

No entanto, não foi esta passagem o motivo principal da lembrança de Brás-Cubas nesta madrugada. Na verdade, estava eu a refletir sobre fé e razão, razão e formação do espírito científico quando me lembrei da pequena passagem dos delírios de Brás Cubas cujo título  quase tomei emprestado para este texto por falta mesmo de criatividade:

VIII – Razão contra a Sandice.

Já o leitor compreendeu que era a Razão que voltava à casa, e convidava a sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo:

La Maison est mói, c’est à vous d’em sortir (  A casa é minha; você é quem devia deixa-la)

Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha farão despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha. Agora, se advertirmos no imenso número de casas que ocupa, uma de vez, outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. No nosso caso, houve quase um distúrbio à porta do meu cérebro, por que adventícia não queria entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. Afinal, já Sandice se contentava com um cantinho no sótão.

_ Não, senhora – replicou a razão - , estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar, daí à de visitas e ao resto.

_ Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério...

- Que Mistério?

_ De dois – emendou a Sandice -; o da vida e o da morte; peço-lhe uns dez minutos.

A razão pôs-se a rir.

_ Hás de ser sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa....sempre a mesma coisa.

E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas súplicas, grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a língua de fora, em ar de surriada, e foi andando.

O leitor que conhece o que é kabala deve estar se perguntando como uma leitura básica de um livro acompanhado de consultas a Bíblia, ao Zoar e ao Talmude pôde me levar a tal citação. É simples de explicar. É que depois de dias estudando o alfabeto hebraico, compará-lo com o sânscrito, o grego, o latim e o aramaico em busca de certas respostas, encontrei uma reflexão simples, e talvez simplória: Não existe pior sandice na humanidade do que quando homem confunde egoísmo com altruísmo, é tão cruel, e de uma profundidade egoística tão grande que quanto mais se finge altruísta mais o homem enterra-se no egoísmo inevitável. É como aquela também, historieta do diabo que chega na sua casa e pede um espaçozinho bem pequeno que caiba apenas um prego, e, no dia seguinte volta com alguma coisa para pendurar no prego, de tal forma, que logo está ocupando a casa inteira.

As Sandices nossas de cada dia.

Não é difícil encontrar sandices do nosso tempo. E se o leitor não for muito preguiçoso pode tomar nas mãos o livro de Machado de Assis e ler as páginas anteriores a citação aqui referida. Verá eu tenho consciência de que cada século possui suas ilusões. E a ilusão dos homens do nosso século é pensar que a ciência evoluiu de tal forma que por si só, o homem já é capaz de encontrar a felicidade; pensa-se que a liberdade de vontade que faz do homem um individuo é a solução; e é esta solução que nos leva a uma sociedade que se adoece, um mercado contaminado pelo egoísmo exasperado que sobrevive do roubo e da trapaça.

Do estudante que acredita ser a nota a substituta do esforço pelo conhecimento, do diploma a solução para a vida sem o esforço da formação humana; do empresário que acredita que o ter a qualquer custo o torna rico; da donzela que acredita ser possível a construção de um lar sem os valores morais; do jovem que confunde liberdade com leviandade; a Sandice é quem expulsa a razão. Já não existe lugar para a justiça e honestidade. A razão vive no sótão quando não nos lixões da miséria. Os palácios estão embelezados de tal forma pela sandice que a galhofa e a melancolia já não produzem nenhuma graça ao transeunte desavisado e o humor transformou-se em agressão. Já não existe mais nenhum humanismo. Transformamo-nos  em máquinas e animais.

Já não existem mais vagas nas clínicas de Psicologia. As mulheres casadas já até tricotam enquanto esperam sua vez, como se fosse um salão de beleza do passado. O emplasto de Brás-cubas bem faria sucesso, e ele já estaria milionário, tamanha é a necessidade que tem homens e mulheres de fingirem-se doentes nos consultórios médicos e de psicólogos, quando o único remédio realmente necessário seria assumir as próprias responsabilidades, ou talvez o tamanho da própria maldade;  mas neste caso Madame Bovary ficaria corada de vergonha ao ouvir os relatos de suas herdeiras, e até mesmo Mefistófeles se esconderia do horror no qual se transformou a arte de transformar mentiras em verdades.

Parece que estamos no pior espaço do Inferno de Dante. A razão vive maltratada e já não encontra lugar, sequer nas Academias, lugares que foram devotados à ciência. Nelas, mérito se confunde com compadrios; e agora com as cotas ( que se diga que se sou a favor da Inclusão Social dos negros), o direito de nelas estar parece negar a necessidade do esforço e da disciplina na busca pela formação e auto-formação no processo de Auto-conhecimento. A autonomia vai sendo jogada no lixo em nome de políticas equivocadas de inclusão social. Já não há mais nem sótão para a Razão. Logo ela terá de voltar para lugares ocultos e a sandice reinará absoluta nas mentes e nos corações.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O sono dos enforcados, ou a Roda do Destino


 
Nelson Soares dos Santos      

Recebi nesta semana, diversas perguntas de ex-alunos que por coincidência tratava da mesma questão: Por que existe tanta injustiça? Por que alguns trabalham tanto e outros parecem levar o lucro? O que fazer para tornar este mundo um lugar melhor para se viver? O que fazer para tornar-se melhor? Por que existe tanta gente com tanto conhecimento de como fazer o mundo melhor e não fazem nada de prático para melhorá-lo? Por que existe tanta pobreza e miséria no mundo? Por que a educação nunca muda e a ignorância parece cada vez mais reinar absoluta?

É claro que nem de longe me atreveria a dar respostas a questões de teor tão profundo que carregam em si outras questões que levam a indagação do sentido da vida, do por que estamos aqui no planeta terra, neste tempo, nesta época etc. O que pretendo fazer é elaborar algumas reflexões que possam nos ajudar a pensar de forma certa sobre o assunto. Na verdade é que todas estas perguntas nos remete a grande pergunta de nossa existência: Por que estamos aqui? De onde viemos? Para onde vamos? E, mais ainda, qual o sentido de tudo que fazemos aqui e agora? Aqueles que trabalham em dois ou três empregos e sentem-se injustiçados pelos chefes a pergunta correta, creio eu é: Por que eu trabalho todos os dias? O que me leva ao trabalho, o que me levou a buscar e lutar para que tivesse dois ou três trabalhos? Que tipos de recompensa esperam? São estas perguntas que podem levar a pergunta essencial: Por que estamos aqui?

Caso a pessoa que têm dois, três empregos ponderassem um pouco veria que o seu questionamento sobre por que tem que suportar três chefes ruins soaria como arrogância e pedantismo para aqueles desesperados que não conseguem sequer um único emprego e que já não conseguem o próprio sustento; de outro lado, pareceria pueril e tolo para aquele que tendo apenas um emprego e trabalhando apenas um terço do tempo consegue amealhar mais vantagens financeiras. Tais pessoas refletissem sobre o próprio trabalho e conseguissem ver além do vencimento no final do mês, um processo de interação com o universo e tudo ficaria mais fácil de compreender. Sim, pois olhando para este lado, estamos o tempo todo trabalhando, negociando, fazendo contratos e buscando resultados. A questão central está em como lidamos com o nosso egoísmo e a forma pela qual colocamos nossas intenções. Nilton Bonder em sua obra “A cabala do dinheiro” tem uma versão interessante sobre a questão  ao dizer que contrato é toda a forma de envolvimento e interação –  “ O  melhor contrato é o do justo que usufrui a situação da vida na medida certa: honrando quem é e os limites de quem é. (Bonder, 1991; p.132). Olhando por esta visão o problema nunca estará no chefe e sim nas razões e intenções que nos leva a usufruir da situação vivida.

Outra pergunta que insiste em se repetir é: Por que das injustiças? Afinal o que chamamos de injustiça é mesmo injustiças? Os pensadores  materialistas vêem na organização social uma ordem injusta, e, ao lutar contra tal ordem buscam-se colocar como sábios que guiam a sociedade a um processo de conscientização que levará a humanidade a uma ordem não consumista e igualitária. Esquecem, porém que para cada homem consciente no mundo existe um bilhão de tolos – como afirma no seu livro o Rabino Michale Laitmam; e quando se esquecem disso, o que conseguem é implantar governos totalitários, por que da mesma forma regidos pelo egoísmo, a inveja e a comparação de um homem com outro homem. Portanto, a pergunta que se deve fazer não é por que isso é injusto ou não; mas afinal, o que é a justiça para os nossos dias? A mesma pergunta feita há séculos pelos grandes filósofos desde Platão e Aristóteles volta a nos incomodar. Algo nos impele para que saiamos do mundo das aparências, das cavernas cujas paredes tornam-se cada vez mais espessas, e a subida para a luz cada vez mais difícil.

Também Nilton Bonder citando mais uma vez um rabino judeu escreve :

“Temos que ser capazes de ver o sutil ( Gênesis Raba X), de ver os anjos enquanto influenciam o crescimento de cada lâmina de grama no chão. Temos que vê-los enquanto postam-se ao seu lado e lhe incentivam: cresce, cresce! Enquanto não conseguimos perceber esta dimensão de ordem, enquanto não mergulharmos mais profundamente na sutileza das situações em que nos encontramos, continuamos presas do paradoxo e portanto imobilizados. Nossa percepção deve ser checadas com a acuidade de quem percebe no crescimento das plantas, de tudo, energias que ao seu lado lhe incentivam. Se vistos com estes “olhos”, então “justo” talvez tenha um significado diferente e similarmente “perverso”,  “bom” e “ruim” também.”(Bonder, 1991; p. 56)

Não se trata pois, de se perguntar por que isso ou aquilo é injusto, mas, o que é a justiça. Afinal, o que vemos como justiça na verdade pode ser a mais cruel das injustiças, o que vemos e cremos ser bom pode ser a maior expressão do mal. Bondade e maldade, justiça e injustiça aparentemente parecem se misturar em um mundo no qual reina a razão egoísta. Sim, vivemos em um tempo de uma razão profundamente egoísta e isso é o que explica o crescimento da violência, da corrupção, da desonestidade. Ser rico passou a se confundir com tornar-se rico, honestidade é confundida com aprovação popular e altruísmo se transformou em arma para realizar os mais profundos desejos egoístas. Enquanto isso, o respeito aos outros e a busca desinteressada pelo conhecimento e sabedoria são deixados em segundo plano.

O mundo que vivemos é o mundo mais coletivista e interdependente, porém, pautado por uma razão individualista e egoísta de tal forma que o sonho de todo comerciante é receber o dinheiro e não entregar a mercadoria, e, do comprador, receber a mercadoria e não pagar por ela. É um mundo de roubo e trapaça, cuja moeda maior, ainda é o tempo. É no uso do tempo que está o instante de distinção de interação entre os indivíduos. O individuo que de fato quer tornar-se melhor deve se perguntar como está utilizando o próprio tempo, e quais são suas verdadeiras intenções. Na verdade, aquele terceiro emprego pode ser o inferno; aquele namorado, aquele casamento que se anseia pode ser o pior uso possível a ser feito do tempo, se as razões pelas quais se busca não forem razões altruístas verdadeiras. Pior, aquela caridade que é feita todos os fins de semana pode ser a razão de todas as desgraças.

A saída possível ainda é a mesma nos dada por Sócratres a milênios passados: o autoconhecimento. Não existe outro caminho, não existe outra saída. Apenas o conhecimento de si mesmo como conhecimento de todo universo e cuidado de si como enriquecimento de toda a humanidade pode nos levar aquela paz tão procurada, tão sonhada e invejada dos que a têm. E este caminho passa por enfrentar as cavernas, que em nossa atualidade já não está mais fora, mas dentro de nosso ser. Escavar na escuridão é o trabalho que devemos nos impor para que possamos entender o caminho que procuramos.

domingo, 7 de outubro de 2012

A Masturbação como razão egoísta



“O meu egoísmo é tão egoísta que a essência do meu egoísmo é querer ajudar” Raul Seixas.

 

Desde criança ouvi que a masturbação era algo pecaminoso, e até, pouco não tinha encontrado uma explicação razoável para a questão. Tem sido comum nas últimas gerações, o ato da masturbação; dos meninos espiando as mulheres tomando banho peladas no rio, nas cidades pequenas; os homens que transformaram em um comércio rentável o mercado da pornografia; a masturbação tornou-se assunto em todas as camadas sociais, e ultimamente, tornou-se assunto feminino, uma vez que cada vez mais mulheres aderem a busca do prazer pela masturbação.

A primeira explicação que ouvi para justificar que a masturbação era pecado foi do meu pai. Ele disse que ao masturbar o homem jogava fora a semente divina que fazia do mundo um lugar habitado por homens. Tal explicação calou fundo em meu coração e fez de mim, talvez, um dos poucos jovens da minha geração a ter pavor de revistas pornográficas e a masturbação, e, pior, me fez chegar a segunda dezena de anos da minha vida virgem. Eu não queria ser o responsável por fazer do mundo um lugar habitado por monstros, e, fazer sexo, só era possível com a mulher amada.

A segunda explicação, eu ouvi aos 16 anos no Internato. Utilizando a Bíblia o Pastor leu uma passagem do Antigo Testamento, acho que em Levíticos, quando dois jovens são punidos justamente por se entregar ao tal prazer. Também citou Sodoma, onde dizia ele, a masturbação era uma constante forma de prazer. Como todos sabem Sodoma foi destruída com Fogo, e segundo se acredita, levando a Bíblia ao pé da letra, fogo vindo do céu e enviado de Deus. Também no internato, ouvi que a Masturbação fazia mal a saúde. Explicação incompleta, uma vez que nunca vi alguém aprofundar tal análise é a que hoje mais me parece plausível, não levando em conta apenas a saúde do corpo, mas as últimas descobertas da medicina de que a saúde do homem  só existe de forma integral; saúde do corpo, da mente e da alma.

Quando estava na Universidade fazendo o curso de Graduação em Pedagogia fui a um Congresso Científico da SBPC, apresentar um trabalho de Iniciação Científica. Ao retornar, perplexo com o que lá vi, perguntei ao meu orientador se ciência era aquilo mesmo, no que ele respondeu: não, ciência não é aquilo, aquilo que você viu e muito do que existe atualmente na maioria das Universidades brasileiras chama-se masturbação acadêmica. Desde então, fiz o mestrado e passei por um doutorado e sempre pensando o que o meu orientador de fato quis dizer com a expressão Masturbação Acadêmica.

Recentemente lendo alguns livros, encontrei uma expressão interessante sobre a vida, a sociedade, o conhecimento e os homens. Há uma tese de que no nosso mundo existem apenas dois opostos – o egoísmo e o altruísmo. Nos dois extremos está o desejo de dar e receber prazer. Entretanto, o egoísmo quase sempre prevalece em nosso mundo, diz os estudiosos do assunto por mim estudado, e, isso por que até mesmo o desejo de doar está impregnado do desejo de receber.

Ora, o desejo de receber prazer é um desejo egoísta, que manipula, domina de forma autoritária o outro, e, muitas vezes, ou quase sempre o explora. É também o desejo de receber prazer que faz os  homens se arriscarem. O caso do jovem que tudo faz para ter a atenção da donzela; o político que faz qualquer coisa para ter o voto do eleitor, o comerciante que faz de tudo em busca do lucro, o ambicioso em busca da riqueza. Do outro lado, temos o falso altruísta; aquele que faz caridade por egoísmo, para ser bem visto na sociedade, para se sentir bem consigo mesmo; até dizem que este é a pior forma de egoísmo, pois se o primeiro nos impede de perceber a existência de Deus, a segunda forma nos afasta dele e nos faz mergulhar na escuridão.

Então temos aqui a terceira explicação para o mal que nos faz a masturbação, e, aliás, o mal que a mesma pode estar fazendo para muitos relacionamentos. A masturbação é um prazer solitário, onde pelo pensamento e imaginação aprisionamos o outro nos nossos desejos. Na masturbação o  outro é exatamente como desejamos, deixando de ser o que o outro é, e tornando-se aquilo que gostaríamos que ele fosse. A masturbação elimina a necessidade de doarmo-nos ao outro por que sequer precisamos conviver com o cheiro do outro; somos apenas nós, o nosso cheiro, a nossa vontade, o nosso desejo. A masturbação, mesmo que na presença do outro elimina o outro, e se não o elimina faz com que o dominamos de tal forma, expelindo a possibilidade do encontro e deixando apenas a possibilidade da dominação.

Mas por que masturbamos?  O homem primitivo masturbava dominado pelo desejo da fêmea, (creio que foi assim que se descobriu a masturbação), ou a mulher pelo desejo do outro; ou pelo desejo do prazer. Desta forma, a ausência do outro leva a masturbação e a masturbação leva a eliminação do outro, ou da possibilidade do encontro com o outro. Nos nossos dias, mesmo não tendo o controle sobre muitos dos nossos desejos ( creio que só alguns poucos monges reclusos tem o completo domínio dos desejos do corpo); aprendemos a ter consciência da existência dos mesmos. Assim, a racionalização dos nossos desejos leva-nos a possuir uma nova forma de buscar o prazer. A busca passa a ser racional e consciente; de tal forma que a entrega ou não ao desejo dá as aparências de ser um produto do livre-arbítrio. Esta engrenagem que leva a esta aparência de livre-arbítrio neste processo é o que chamamos de razão egoísta.

A busca racional da satisfação dos prazeres de forma egoísta está presente ao longo da história. As guerras, sobretudo a primeira e a segunda guerra mundial, é um exemplo desta razão egoísta. Ali um desejo imenso de anular o outro, eliminar o outro para alcançar o prazer final, o prazer maior, a era de ouro, a felicidade completa do reino humano na terra. Em tempos de alta tecnologia, esta chamada razão egoísta tem feito história nas Universidades – a que me foi dado o nome de Masturbação Acadêmica – e no mercado. Em um como em outro a mesma característica – a vivência de um prazer falso, levado pela imaginação, pela solidão e pela ilusão da presença do outro. Na Academia ele aparece como falso conhecimento, no mercado como roupo e trapaça. Isto, o entanto, é assunto para outra ocasião.