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domingo, 7 de outubro de 2012

A Masturbação como razão egoísta



“O meu egoísmo é tão egoísta que a essência do meu egoísmo é querer ajudar” Raul Seixas.

 

Desde criança ouvi que a masturbação era algo pecaminoso, e até, pouco não tinha encontrado uma explicação razoável para a questão. Tem sido comum nas últimas gerações, o ato da masturbação; dos meninos espiando as mulheres tomando banho peladas no rio, nas cidades pequenas; os homens que transformaram em um comércio rentável o mercado da pornografia; a masturbação tornou-se assunto em todas as camadas sociais, e ultimamente, tornou-se assunto feminino, uma vez que cada vez mais mulheres aderem a busca do prazer pela masturbação.

A primeira explicação que ouvi para justificar que a masturbação era pecado foi do meu pai. Ele disse que ao masturbar o homem jogava fora a semente divina que fazia do mundo um lugar habitado por homens. Tal explicação calou fundo em meu coração e fez de mim, talvez, um dos poucos jovens da minha geração a ter pavor de revistas pornográficas e a masturbação, e, pior, me fez chegar a segunda dezena de anos da minha vida virgem. Eu não queria ser o responsável por fazer do mundo um lugar habitado por monstros, e, fazer sexo, só era possível com a mulher amada.

A segunda explicação, eu ouvi aos 16 anos no Internato. Utilizando a Bíblia o Pastor leu uma passagem do Antigo Testamento, acho que em Levíticos, quando dois jovens são punidos justamente por se entregar ao tal prazer. Também citou Sodoma, onde dizia ele, a masturbação era uma constante forma de prazer. Como todos sabem Sodoma foi destruída com Fogo, e segundo se acredita, levando a Bíblia ao pé da letra, fogo vindo do céu e enviado de Deus. Também no internato, ouvi que a Masturbação fazia mal a saúde. Explicação incompleta, uma vez que nunca vi alguém aprofundar tal análise é a que hoje mais me parece plausível, não levando em conta apenas a saúde do corpo, mas as últimas descobertas da medicina de que a saúde do homem  só existe de forma integral; saúde do corpo, da mente e da alma.

Quando estava na Universidade fazendo o curso de Graduação em Pedagogia fui a um Congresso Científico da SBPC, apresentar um trabalho de Iniciação Científica. Ao retornar, perplexo com o que lá vi, perguntei ao meu orientador se ciência era aquilo mesmo, no que ele respondeu: não, ciência não é aquilo, aquilo que você viu e muito do que existe atualmente na maioria das Universidades brasileiras chama-se masturbação acadêmica. Desde então, fiz o mestrado e passei por um doutorado e sempre pensando o que o meu orientador de fato quis dizer com a expressão Masturbação Acadêmica.

Recentemente lendo alguns livros, encontrei uma expressão interessante sobre a vida, a sociedade, o conhecimento e os homens. Há uma tese de que no nosso mundo existem apenas dois opostos – o egoísmo e o altruísmo. Nos dois extremos está o desejo de dar e receber prazer. Entretanto, o egoísmo quase sempre prevalece em nosso mundo, diz os estudiosos do assunto por mim estudado, e, isso por que até mesmo o desejo de doar está impregnado do desejo de receber.

Ora, o desejo de receber prazer é um desejo egoísta, que manipula, domina de forma autoritária o outro, e, muitas vezes, ou quase sempre o explora. É também o desejo de receber prazer que faz os  homens se arriscarem. O caso do jovem que tudo faz para ter a atenção da donzela; o político que faz qualquer coisa para ter o voto do eleitor, o comerciante que faz de tudo em busca do lucro, o ambicioso em busca da riqueza. Do outro lado, temos o falso altruísta; aquele que faz caridade por egoísmo, para ser bem visto na sociedade, para se sentir bem consigo mesmo; até dizem que este é a pior forma de egoísmo, pois se o primeiro nos impede de perceber a existência de Deus, a segunda forma nos afasta dele e nos faz mergulhar na escuridão.

Então temos aqui a terceira explicação para o mal que nos faz a masturbação, e, aliás, o mal que a mesma pode estar fazendo para muitos relacionamentos. A masturbação é um prazer solitário, onde pelo pensamento e imaginação aprisionamos o outro nos nossos desejos. Na masturbação o  outro é exatamente como desejamos, deixando de ser o que o outro é, e tornando-se aquilo que gostaríamos que ele fosse. A masturbação elimina a necessidade de doarmo-nos ao outro por que sequer precisamos conviver com o cheiro do outro; somos apenas nós, o nosso cheiro, a nossa vontade, o nosso desejo. A masturbação, mesmo que na presença do outro elimina o outro, e se não o elimina faz com que o dominamos de tal forma, expelindo a possibilidade do encontro e deixando apenas a possibilidade da dominação.

Mas por que masturbamos?  O homem primitivo masturbava dominado pelo desejo da fêmea, (creio que foi assim que se descobriu a masturbação), ou a mulher pelo desejo do outro; ou pelo desejo do prazer. Desta forma, a ausência do outro leva a masturbação e a masturbação leva a eliminação do outro, ou da possibilidade do encontro com o outro. Nos nossos dias, mesmo não tendo o controle sobre muitos dos nossos desejos ( creio que só alguns poucos monges reclusos tem o completo domínio dos desejos do corpo); aprendemos a ter consciência da existência dos mesmos. Assim, a racionalização dos nossos desejos leva-nos a possuir uma nova forma de buscar o prazer. A busca passa a ser racional e consciente; de tal forma que a entrega ou não ao desejo dá as aparências de ser um produto do livre-arbítrio. Esta engrenagem que leva a esta aparência de livre-arbítrio neste processo é o que chamamos de razão egoísta.

A busca racional da satisfação dos prazeres de forma egoísta está presente ao longo da história. As guerras, sobretudo a primeira e a segunda guerra mundial, é um exemplo desta razão egoísta. Ali um desejo imenso de anular o outro, eliminar o outro para alcançar o prazer final, o prazer maior, a era de ouro, a felicidade completa do reino humano na terra. Em tempos de alta tecnologia, esta chamada razão egoísta tem feito história nas Universidades – a que me foi dado o nome de Masturbação Acadêmica – e no mercado. Em um como em outro a mesma característica – a vivência de um prazer falso, levado pela imaginação, pela solidão e pela ilusão da presença do outro. Na Academia ele aparece como falso conhecimento, no mercado como roupo e trapaça. Isto, o entanto, é assunto para outra ocasião.

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