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terça-feira, 9 de outubro de 2012

O sono dos enforcados, ou a Roda do Destino


 
Nelson Soares dos Santos      

Recebi nesta semana, diversas perguntas de ex-alunos que por coincidência tratava da mesma questão: Por que existe tanta injustiça? Por que alguns trabalham tanto e outros parecem levar o lucro? O que fazer para tornar este mundo um lugar melhor para se viver? O que fazer para tornar-se melhor? Por que existe tanta gente com tanto conhecimento de como fazer o mundo melhor e não fazem nada de prático para melhorá-lo? Por que existe tanta pobreza e miséria no mundo? Por que a educação nunca muda e a ignorância parece cada vez mais reinar absoluta?

É claro que nem de longe me atreveria a dar respostas a questões de teor tão profundo que carregam em si outras questões que levam a indagação do sentido da vida, do por que estamos aqui no planeta terra, neste tempo, nesta época etc. O que pretendo fazer é elaborar algumas reflexões que possam nos ajudar a pensar de forma certa sobre o assunto. Na verdade é que todas estas perguntas nos remete a grande pergunta de nossa existência: Por que estamos aqui? De onde viemos? Para onde vamos? E, mais ainda, qual o sentido de tudo que fazemos aqui e agora? Aqueles que trabalham em dois ou três empregos e sentem-se injustiçados pelos chefes a pergunta correta, creio eu é: Por que eu trabalho todos os dias? O que me leva ao trabalho, o que me levou a buscar e lutar para que tivesse dois ou três trabalhos? Que tipos de recompensa esperam? São estas perguntas que podem levar a pergunta essencial: Por que estamos aqui?

Caso a pessoa que têm dois, três empregos ponderassem um pouco veria que o seu questionamento sobre por que tem que suportar três chefes ruins soaria como arrogância e pedantismo para aqueles desesperados que não conseguem sequer um único emprego e que já não conseguem o próprio sustento; de outro lado, pareceria pueril e tolo para aquele que tendo apenas um emprego e trabalhando apenas um terço do tempo consegue amealhar mais vantagens financeiras. Tais pessoas refletissem sobre o próprio trabalho e conseguissem ver além do vencimento no final do mês, um processo de interação com o universo e tudo ficaria mais fácil de compreender. Sim, pois olhando para este lado, estamos o tempo todo trabalhando, negociando, fazendo contratos e buscando resultados. A questão central está em como lidamos com o nosso egoísmo e a forma pela qual colocamos nossas intenções. Nilton Bonder em sua obra “A cabala do dinheiro” tem uma versão interessante sobre a questão  ao dizer que contrato é toda a forma de envolvimento e interação –  “ O  melhor contrato é o do justo que usufrui a situação da vida na medida certa: honrando quem é e os limites de quem é. (Bonder, 1991; p.132). Olhando por esta visão o problema nunca estará no chefe e sim nas razões e intenções que nos leva a usufruir da situação vivida.

Outra pergunta que insiste em se repetir é: Por que das injustiças? Afinal o que chamamos de injustiça é mesmo injustiças? Os pensadores  materialistas vêem na organização social uma ordem injusta, e, ao lutar contra tal ordem buscam-se colocar como sábios que guiam a sociedade a um processo de conscientização que levará a humanidade a uma ordem não consumista e igualitária. Esquecem, porém que para cada homem consciente no mundo existe um bilhão de tolos – como afirma no seu livro o Rabino Michale Laitmam; e quando se esquecem disso, o que conseguem é implantar governos totalitários, por que da mesma forma regidos pelo egoísmo, a inveja e a comparação de um homem com outro homem. Portanto, a pergunta que se deve fazer não é por que isso é injusto ou não; mas afinal, o que é a justiça para os nossos dias? A mesma pergunta feita há séculos pelos grandes filósofos desde Platão e Aristóteles volta a nos incomodar. Algo nos impele para que saiamos do mundo das aparências, das cavernas cujas paredes tornam-se cada vez mais espessas, e a subida para a luz cada vez mais difícil.

Também Nilton Bonder citando mais uma vez um rabino judeu escreve :

“Temos que ser capazes de ver o sutil ( Gênesis Raba X), de ver os anjos enquanto influenciam o crescimento de cada lâmina de grama no chão. Temos que vê-los enquanto postam-se ao seu lado e lhe incentivam: cresce, cresce! Enquanto não conseguimos perceber esta dimensão de ordem, enquanto não mergulharmos mais profundamente na sutileza das situações em que nos encontramos, continuamos presas do paradoxo e portanto imobilizados. Nossa percepção deve ser checadas com a acuidade de quem percebe no crescimento das plantas, de tudo, energias que ao seu lado lhe incentivam. Se vistos com estes “olhos”, então “justo” talvez tenha um significado diferente e similarmente “perverso”,  “bom” e “ruim” também.”(Bonder, 1991; p. 56)

Não se trata pois, de se perguntar por que isso ou aquilo é injusto, mas, o que é a justiça. Afinal, o que vemos como justiça na verdade pode ser a mais cruel das injustiças, o que vemos e cremos ser bom pode ser a maior expressão do mal. Bondade e maldade, justiça e injustiça aparentemente parecem se misturar em um mundo no qual reina a razão egoísta. Sim, vivemos em um tempo de uma razão profundamente egoísta e isso é o que explica o crescimento da violência, da corrupção, da desonestidade. Ser rico passou a se confundir com tornar-se rico, honestidade é confundida com aprovação popular e altruísmo se transformou em arma para realizar os mais profundos desejos egoístas. Enquanto isso, o respeito aos outros e a busca desinteressada pelo conhecimento e sabedoria são deixados em segundo plano.

O mundo que vivemos é o mundo mais coletivista e interdependente, porém, pautado por uma razão individualista e egoísta de tal forma que o sonho de todo comerciante é receber o dinheiro e não entregar a mercadoria, e, do comprador, receber a mercadoria e não pagar por ela. É um mundo de roubo e trapaça, cuja moeda maior, ainda é o tempo. É no uso do tempo que está o instante de distinção de interação entre os indivíduos. O individuo que de fato quer tornar-se melhor deve se perguntar como está utilizando o próprio tempo, e quais são suas verdadeiras intenções. Na verdade, aquele terceiro emprego pode ser o inferno; aquele namorado, aquele casamento que se anseia pode ser o pior uso possível a ser feito do tempo, se as razões pelas quais se busca não forem razões altruístas verdadeiras. Pior, aquela caridade que é feita todos os fins de semana pode ser a razão de todas as desgraças.

A saída possível ainda é a mesma nos dada por Sócratres a milênios passados: o autoconhecimento. Não existe outro caminho, não existe outra saída. Apenas o conhecimento de si mesmo como conhecimento de todo universo e cuidado de si como enriquecimento de toda a humanidade pode nos levar aquela paz tão procurada, tão sonhada e invejada dos que a têm. E este caminho passa por enfrentar as cavernas, que em nossa atualidade já não está mais fora, mas dentro de nosso ser. Escavar na escuridão é o trabalho que devemos nos impor para que possamos entender o caminho que procuramos.

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