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quinta-feira, 30 de maio de 2013

O Racismo nosso de cada dia.


 
Nelson Soares dos Santos

Hoje estive na FNAC no Shopping Flamboyant, como o objetivo de adquirir um livro que li na adolescência e que sempre senti que marcou muito minha formação espiritual, social e intelectual. Trata-se da obra "O Elogio da Loucura" de Erasmo de Roterdam, e, por ora, desejava adquirir o tão sonhado "Esfera Pública Burguesa " de Habermas e " O mundo como vontade de representação" de Artur Schopenhauer. Quando olhava o livro "O pequeno Príncipe" que planejava comprar para minhas filhas, uma garota de mais ou menos 16 anos interpelou-me:

_ Você é vendedor? Perguntou ela.

Olhei fixamente, para ela, como quem dizia – veja se estou vestido de vendedor, veja se estou com crachá -, entretanto ela olhou-me com ar de autoridade e superioridade e disse:

- Você não me ouviu? Eu perguntei se você é vendedor.

Continuei olhando fixamente para ela e em silêncio, quando ela olhou-me mais uma vez e disse:

- Ah, deixe pra lá.

Diante do português coloquial dela, resolvi levar aquela conversa adiante e disse:

-Você perguntou se eu sou vendedor, e se fez esta pergunta é por que algo em você diz que eu posso ser um vendedor, certo?

Já meio sem jeito ela disse:

- Por que? Você não é vendedor?

- Não tenho problema em ser um vendedor pra você, o que está mesmo procurando?

Ela disse o nome de dois livros e eu disse, vamos então até a prateleira de literatura para procura-los. Enquanto isso, comecei  a perguntar a ela onde morava, que série estudava, qual colégio, o que os pais dela faziam, etc.

Depois de responder as perguntas ela olhou-me novamente e disse: Você não é vendedor?

Então eu disse:

_ Você inicialmente pensou que fosse vendedor, agora desconfia que eu não sou um vendedor; então diga-me o que fez com você pensasse que sou um vendedor e agora leva você a desconfiar que eu não seja o vendedor?

Ela disse sem titubear:

- Não existem muitos vendedores que já leram todos os livros que a gente procura. – Olhou-me novamente, e já bastante sem graça, aquietou-se: _ Moço, desculpe-me, desculpe-me mesmo, eu ter pensado que você é um vendedor.

Enquanto isso uma vendedora negra chegava perto de nós, no que eu disse, olhando para o crachá da moça e chamando-a pelo nome:

- Olha, eu ajudei esta garota a encontrar os livros que procurava e me comportei como um vendedor para ela, por isso quero parte da comissão de vendedor.

Olhando novamente para a garota perguntei:

- Diga-me agora que sabes que não sou um vendedor, o que levou você a pensar que eu era um vendedor?

Ela olhou-me novamente e disse, ainda com aquele ar da pura inocência de uma menina de 15 anos, do primeiro ano do Ensino Médio, estudante do Colégio Objetivo de uma cidade do Interior:

É. Não sei. Até por que você não usa as roupas de vendedor, não usa o crachá de vendedor, mas acho que foi pela aparência.

Então eu disse a ela:

- Mas veja, se não uso crachá e sequer estou com roupas parecidas com as roupas dos vendedores ( eu estava de roupas claras e os vendedores utilizam roupas pretas), o que mesmo na minha aparência fez  com que você achasse que eu fosse um vendedor?

Ela, já extremamente sem graça, mais uma vez se desculpou de forma sincera. Então eu disse a ela, encerrando a conversa, e saindo:

Talvez não seja sua culpa, mas você é racista, menina. Carrega em você um triste e oculto racismo que pode afastar de você oportunidades maravilhosas na vida.

Quando me afastava eis que a insistente garota pergunta:

- Então, você é professor?

Sorri, ironicamente, da forma como todas as pessoas que me conhecem ou foram meus alunos já me viram sorrir e disse:

- Sou formado em Pedagogia, fiz Mestrado em Educação Brasileira, e até tenho um doutorado incompleto. Já fui professor do Ensino Fundamental, Médio e Superior, agora não estou mais em sala de aula.

Ela, incontinenti, questionou o porquê de ter deixado a sala de aula, se demonstrava conhecer e ter lido tantos livros, que segundo ela, alguns professores dela não teria lido nem metade dos livros que a recomendei como caminho para uma boa formação no Ensino Médio.

Sorri, mais uma vez, ironicamente, com um pouco de raiva dentro do meu coração, um pouco de dor, insatisfação, indignação e respondi, finalizando a conversa e saindo definitivamente:

Eu deixei a sala de aula, entre outras razões, por que me cansei de ser confundido com vendedores.

Dito isso, escolhi meus livros, e retornei a mesma vendedora, uma bela morena de cabelos lisos, que enquanto somava os livros disse-me:

- Amei o que você fez. Você é um verdadeiro professor, deu uma aula para aquela garota que ela nunca mais vai esquecer. E você está certo. Minha mãe é branca e meu pai é negro. Quando saio com meu pai ninguém questiona se sou ou não filha dele, mas quando saio com minha mãe, em tudo quanto é lugar que chego perguntam se ela é minha mãe. É triste lidar com este racismo todo dia.

Eis o racismo de nosso de cada dia.

domingo, 26 de maio de 2013

O Mal do Personalismo e a necessidade de um projeto.



Nelson Soares dos Santos

Não são poucos os exemplos da história que comprovam ser difícil a arte de Governar. Compêndios foram escritos, descrições efetivas de momentos cruciais da história da humanidade mostra o governo uma das atividades mais difíceis de realizar. Por isso, aquele que consegue conquistar o poder, manter e perpetuar-se no poder é digno de honras e glórias. Para nós, goianos, três referências imagéticas permeiam nossa mente quando falamos do poder: Lula, Iris e Marconi. O primeiro por sua proeza de ter sido o primeiro operário a se tornar presidente da república; o segundo pela inconteste contribuição já dada ao desenvolvimento do nosso estado; e o terceiro por ser o presente daquilo que se pode considerar a honra de ser um vencedor.  Com todas as críticas que podem ser feitas ( e existem críticas justas que devem ser feitas), na política Goiana Marconi é o nome que representa o poder e a honra da difícil arte de Governar.

Governar para o Povo.

Marconi representa tal fato por diversas razões, a maior delas por ter sido aquele que derrotou o Irismo depois de 16 anos de poder, e outras não menores, como por exemplo, ter contribuído para um arejamento democrático nos seus dois primeiros governos. Quiçá, seja um vencendor, Marconi vive diversos dilemas da difícil arte de governar depois de perpetuar-se no poder e tornar-se vítima das armadilhas impostas pelo poder. Há um livro, que li e não gostei, que mostra de uma forma clara tais armadilhas. O titulo é “48 Leis do Poder”. Segundo tal livro toda vez que se constrói um império ou um governo com o tempo o governante vê se cercado de pessoas que estão mais preocupadas em acercar-se das vantagens do poder do que se preocupar com os destinos do Governo ou o bem estar coletivo, e que, portanto, as intrigas, as disputas,  tornam-se constantes, por vezes colocando em risco os destinos do governo.

As recentes manchetes de jornais mostram um alerta ao governador. As disputas internas entre os grupos estão chegando ao paroxismo. Dos bastidores extravasaram-se para os jornais e muitos resolveram até dialogar por notas oficiais publicadas em jornais e na internet. Quando um dos nomes mais fortes do Governo resolve desabafar na imprensa afirmando que existe bandidos no Governo alguma coisa já passou do limite. É como se já se soubesse mais quem de fato manda no Governo, segundo o Greene, aquele das “48 Leis do Poder”. A receita seria então uns choques de autoridade, demitindo aqueles que se acham intocáveis, valorizando novos quadros, vindo do meio do povo e quebrando o isolamento entre o povo e o Governo.  O desabafo do secretário mostra que existem sinais dos tempos que precisam ser lidos sobre os rumos do poder em goiás, ou do contrário seremos vítimas de aventureiros.

Oposição e Situação  - vítimas  do Mesmo mal.

Para uma leitura dos sinais dos tempos é preciso, antes, compreender o tempo que vivemos, e para se compreender o tempo no qual vivemos é preciso aceitar sua complexidade. Na política em Goiás, não é diferente. Se base de Marconi Perillo peca-se pelo personalismo exagerado fazendo tudo girar em torno de nomes e deixando os projetos, as ideias e os partidos em segundo plano; na oposição não é diferente.

Na verdade, sequer existe oposição em Goiás. O que existe são nomes que se digladiam dentro dos partidos ditos de oposição, sempre em busca de holofotes, de forma personalista e longe de estabelecer um diálogo com o povo com os votos dos quais querem se eleger. Os chamados “novos nomes” estão longe de ter um diálogo frutífero com o povo, e por isso, as pesquisas mostram Iris e Marconi como aqueles melhores posicionados nas pesquisas, fruto do diálogo que estes mantiveram com o povo em eleições anteriores. Friboi, não é político, é um empresário que ser político e o povo já há muito desconfia das razões pelas quais o mesmo é motivado. Afinal, ninguém em Goiás conhece alguma atitude ou ação do mega empresário que demonstrasse preocupação com o Bem estar coletivo.

Vanderlan Cardoso, no máximo repetirá 2010. O povo já teve oportunidade de conhecê-lo e a história política goiana mostra que dificilmente emplacará como candidato a ser levado a sério. Considerado um empresário Sério ( com bem mais credibilidade eleitoral do que o Friboi), não acredito que o povo daria a ele a oportunidade de Governar o Estado. Os exemplos históricos, aos quais ele deveria observar vêm das candidaturas de Paulo Roberto Cunha, Ronaldo Caiado e Otávio Lage. Tanto na situação quando na oposição, o personalismo só contribui para prejudicar as possibilidades de avanço dos processos democráticos no Estado, pois todos os nomes colocados tentam chegar até ao povo por meio das chamadas lideranças consolidadas ( deputados, vereadores e prefeitos), muitas delas tão velhas e desacreditadas que faz o povo ficar descrente de participar no sufrágio Eleitoral.

O Cavalo de Tróia.

A contradição do Governo Marconi é não ter oposição forte e ao mesmo tempo sentir-se sitiado. O que parece é que na verdade os adversários estão espalhados. Isso me faz lembrar-se de umas leituras feitas sobre Confúcio. Diz-se que certa vez Confúcio chegou a um Reino e logo foi chamado para aconselhar o Rei. Pediu ao Rei um prazo para que tivesse um conselho que refletisse a realidade.  Chegando lá, ficou o tempo todo em silêncio, ouviu o Rei, ouviu os conselheiros do Rei, e a esposa do Rei. Depois de a todos ouvir, e antes que terminasse o prazo dado pelo Rei, Confúcio reuniu os seus discípulos que o seguiam e disse que aqueles que quisessem continuar com ele deveriam partir na madrugada e em segredo. Inquirido sobre a razão de tal atitude Confúcio respondeu mais ou menos assim: Em um Reino onde quem manda não tem a segurança de que manda, e quem pensa que manda, na verdade não tem poder de mando o destino é o sangue e carnificina. Pouco tempo depois, aquele reino caiu em meio a traições, mortes, assassinatos e cruel carnificina.

Em artigo anterior, neste blog já havia escrito que é difícil analisar quem realmente tem influência política majoritária em Goiás. Na linguagem Confuciana, quem tem o TAO. E, dentro do governo, os últimos acontecimentos parecem mostrar o mesmo. A direita em Goiás tornou-se pluripartidária e a esquerda democrática apequenou-se. A realidade é que neste vazio surgiram diversos aventureiros servindo-se de ideias frágeis e já  superadas para ocupar um espaço da carência dos sentimentos humanos e transformá-los em objetos do fazer política, poder e de governar. No futebol, tais jogadores são chamados de “Pernas de Pau”, que entram em campo por falta de bons jogadores ou por que os bons jogadores se recusaram a jogar por falta de um bom juiz. O resultado da falta dos bons jogadores é a bola sendo jogada de qualquer jeito e os times sem aquele jogador meio campista que organiza o jogo e o torna um espetáculo belo de ser assistido.  A pancadaria que se vê na imprensa, tanto de oposição contra oposição, situação contra situação e oposição contra situação reflete a fata que faz bons jogadores em campo. Neste sentido, muito das adesões recebidas pelo Governador nos últimos anos revelou-se jogadores “pernas de pau”, quando pior, verdadeiros cavalos de troia.

Governar com Projetos e Ideias

Continuando com a metáfora futebolística o Governador Marconi está condenado a renovar o seu time e colocar maior atenção nas capacidades dos jogadores de produzirem boas jogadas, passar e movimentar bem a bola do que na história de fama dos jogadores. Neste sentido, o Governador precisa começar a repensar o projeto de desenvolvimento do Estado colocando o desenvolvimento humano a frente do desenvolvimento econômico; reforçando o aspecto progressista do Governo e a preocupação com o futuro das novas gerações. As ideias de sustentabilidade, poder local, combate a corrupção, defesa dos direitos humanos, combate a violência, ao tráfico humano, dentre outros deve tomar o lugar dos discursos centrado em pessoas e nas suas pretensas habilidades de bem governar. Não serão pessoas que irão fazer de Goiás um estado melhor para se viver, serão ideias progressistas transformadas em ações por pessoas que tem a capacidade de fazê-lo coletivamente.

Goiás carece de um projeto de Governo, mas, sobretudo, padece também de um projeto de reestruturação do estado que estabeleça novas relações entre o Estado e a Sociedade Goiana. Os velhos coronéis precisam entender que os tempos são outros, que a globalização exige a evolução do local, e que o desenvolvimento humano precisa acompanhar o desenvolvimento econômico. Preservação do meio ambiente não pode ser mais uma preocupação de um grupo de idealistas isolados, mas de todo homem público que queira bem governar. A reestruturação do estado deve ser pensada a partir da complexidade existente entre os aspectos globais e locais da existência humana para que se possa pensar um projeto que de fato faça avançar as conquistas por uma sociedade mais e justa e democrática.  Não se trata de negar os avanços, mas de compreender a necessidade de se continuar avançando.

sábado, 4 de maio de 2013

CAMINHOS PEDREGOSOS: A TENTATIVA DE


UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO BRASILEIRA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAMINHOS PEDREGOSOS: A TENTATIVA DE

ORGANIZAÇÃO DO MOVIMENTO ESTUDANTIL NO

TOCANTINS NA DÉCADA DE 1990 (1988/1999)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nelson Soares do Santos

Orientadora: Profa  Dr.a Maurides Batista Macêdo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Goiânia

2003

NELSON SOARES DOS SANTOS

 

 

 

 

 

 

 

 

CAMINHOS PEDREGOSOS: A TENTATIVA DE

 ORGANIZAÇÃO DO MOVIMENTO ESTUDANTIL NO

TOCANTINS NA DÉCADA DE 1990 (1988/1999)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dissertação apresentada ao curso de Mestrado em Educação Brasileira da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás, para obtenção do titulo de Mestre em Educação Brasileira.

Orientadora: Profa Dra Maurides B. Macêdo.

 

 

 

 

 

Goiânia

2003

SUMÁRIO

 

RESUMO........................................................................................ 

ABSTRACT..................................................................................... 

INTRODUÇÃO................................................................................ 

 

CAPÍTULO I

O MOVIMENTO ESTUDANTIL NO BRASIL E EM GOIÁS: DA CRIAÇÃO DA UNE À CRIAÇÃO DO ESTADO DO TOCANTINS....................................................................................  1.1 As primeiras lutas...................................................................... 

1.2 O berço do ME no Tocantins: o ME em Goiás.......................... 

1.3 O ME do Centro-Sul, os partidos políticos e a expansão do ensino Superior................................................................................ 

1 A Sob as bênçãos e a maldição do altar: o ME do Centro-Sul e a Igreja Católica.................................................................................. 

 

CAPÍTULO II

O MOVIMENTO ESTUDANTIL NO NORTE GOAINO .................. 

2.1 Cenog - a falta que o estado faz?.................................... 

2.2 A Cenog e a Igreja............................................................

2.3 O Movimento Estudantil pós-Cenog 1979/1988         

 

CAPITULO III

MILITANTES E MILlTONTOS: O MOVIMENTO ESTUDANTIL NO

TOCANTINS (1988/2003)............................................................... 

3.1 Os embates entre o público e o privado: um confronto discursivo

3.2 A importância estratégica da Unitins e o discurso dos estudantes

3.3 Socorro! Privatizaram o ensino superior no Tocantins     

 

CAPITULO IV

ENTRE DEUS E O DIABO? OS ESTUDANTES E OS PARTIDOS

POLíTiCOS 

4.1 Ação planejada: um exemplo de como os partidos políticos influenciam o ME

 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PELA NECESSIDADE DA

CONCLUSÃO  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS   

ARTIGOS DE PERiÓDICOS      

DOCUMENTOS ESCRITOS       

DOCUMENTOS ORAiS     

ANEXOS

SIGLAS UTILIZADAS

 

AP - Ação Popular

Cenog - Casa do Estudante do Norte Goiano

CoNorte - Comissão de Estudos dos Problemas do Norte.

ICP - Instituto de Cultura Popular

JEC - Juventude Estudantil Católica

JUC - Juventude Universitária Católica

ME - Movimento Estudantil

PCB - Partido Comunista Brasileiro

PCdoB - Partido Comunista do Brasil

PDT- Partido Democrata Trabalhista

PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro

PPB - Partido Progressista Brasileiro

PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira

PSTU - Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados

PT - Partido dos Trabalhadores

PTB - Partido Trabalhista Brasileiro

UCG - Universidade Católica de Goiás

UFG - Universidade Federal de Goiás

UFT - Fundação Universidade Federal do Tocantins

UJS - União da Juventude Socialista

UNE - União Nacional dos Estudantes

Unitins - Universidade do Tocantins

UT - União do Tocantins

RESUMO

 

 

Este trabalho foi realizado como requisito parcial de conclusão do Mestrado em Educação Brasileira do Programa de Pós-graduação em Educação, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás, dentro da linha de pesquisa Educação, Trabalho e Movimentos sociais, pretende discutir a questão do movimento estudantil(ME) como movimento social, na perspectiva de Gonh (2000) , procurando perceber por sua história, como a Igreja, o Estado e os Partidos Políticos exerceram influência sobre o ME do Tocantins. A realização de uma retrospectiva do ME brasileiro, com ênfase ao ME goiano o berço do ME do Tocantins, foi necessária para a compreensão das especificidades do ME do Tocantins.Como perspectiva teórica, foram de importância fundamental os estudos de Poerner (1979),Foracchi (1972)(1977), Tourraine (1989)(1994). Os documentos orais foram de suma importância para a consecução do trabalho. Foram realizadas mais de uma dezena de entrevistas com alunos, professores, políticos e ex-Cenoguianos. Dentre os documentos escritos, foram utilizados reportagens da mídia impressa nacional e regional, documentos das teses de diversos congressos da (União Nacional dos Estudantes) UNE, atas de reuinões dos centros acadêmicos (CAs), diretório central dos estudantes (DCEs), informativos de entidades estudantis e da Assessoria de Comunicação da Universidade do Tocantins (Unitins) O trabalho constitui-se de três parte, sendo que: a primeira busca compreender a interface do ME brasileiro e goiano até a extinção da Cenoga especificidade do ME goiano no Centro-Sul, e as relações do ME do Centro-Sul goiano com a Igreja; a segunda concentra-se no ME do Norte goiano até a criação do estado do Tocantins, em 1988, nos termos da Constituição Federal, e como a ausência de ação estatal é a característica principal deste período, sobretudo durante o período Cenoguiano; a terceira, registra e discute os embates entre o público e o privado no Estado do Tocantins, uma vez que foram vetores das ações estudantis mais aguerridas ocorridas no período, por meio das ações do SOS - Unitins, movimento em defesa da Universidade do Tocantins como pública e gratuita, mostra como a criação da Unitins serviu de um importante local de desenvolvimento das lutas estudantis, mesmo apresentando características que dificultavam a mobilízação dos estudantes pela sua natureza mUlticampi, e, ainda, pretende-se compreender as nuances do SOS-Unitins, movimento considerado a culminância da organização estudantil do Tocantins e que conseguiu chamar a atenção dos meios de comunicação de circulação nacional para o~ problemas da Universidade. A greve de fome, foi o sinal de maior radicalização. O trabalho mostrou que: a) no caso do Tocantins a influência do Estado, por meio do pOder constituído sobre o ME, ser mais forte que a Igreja e os partidos políticos, pela especificidade da pOlítica local;

b) a democracia no Tocantins é frágil, predominando formas ditatoriais de ação política; c) apesar das debilidades, o ME do Tocantins se fez presente na principal luta em defesa da universidade no estado: o processo de federalização da Unitins.

 

 

 

ABSTRACT

 

In this paper we attempt to discuss the Student Movement issue as a Social Movement, in the perspective of Gonh (2000), trying to discover how the Student Movement in Tocantins, was influenced by the Church, the State and the Political Parties. In order to understand the specifics of the Student Movement in Tocantins we looked back at the Brazilian Student Movement, with emphasis on the Student Movement in Goiás because it was the cradle of the Student Movement in Tocantins. As to the theoretical perspective, the studies of Poerner (1979), Foracchi (1972) (1977), and Turraine (1989) (1994) were of fundamental importance. Although it had not been the perspective to do the history of the Student Movement, we tried to start there and move on to understand our aim. Consequently the oral documents were of utmost importance in order to attain the research. More than a dozen interviews were conducted with students, professors, politicians and ex-cenoguianos. Among the written documents we made use of articles from the national and regional periodicals, documents from the theses of several UNE congresses, minutes of the CA and DCE meetings, brochures from the student organizations as weã as from the Communication Advisory Board of UNITINS. This paper shows that a) in the case of Tocantins, the influence over the Student Movement by the State through the constituted power is stronger than the church and the political parties, due to the specific characteristics of local politics; b) democracy in Tocantins is fragile, with dictatorial forms of political action predominating; c) in spite of the weaknesses, the Student Movement in Tocantins was present in the principal fight in defense of the University: the federalization process of UNITINS.

 

 

 

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

 

O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo mundo ... Eu quase que nada sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo eu digo: pra pensar longe sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!

 

 

Guimarães Rosa

 

 

 

O interesse em estudar o movimento estudantil (ME) e suas lutas durante a década de 1990, no Tocantins, provém de um lado, da vivência como militante desde os tempos de secundarista, e, de outro, da admiração adquirida pelas leituras sobre as lutas estudantis ao longo da história.

Assim, surgiram várias reflexões e as primeiras indagações: eram os estudantes da atualidade menos combativos que os de maio de 1968, ou tantos outros exemplos que poderiam ser citados? Havia uma apatia dos estudantes no Tocantins nos anos 90? E no restante do Brasil e do mundo?

Parecia, em um primeiro momento, que a resposta a tais questões pressupunha estudar conceitualmente a participação dos estudantes universitários na atualidade, buscando verificar a característica com que se apresentava essa participação na relação com outros atores sociais.

Ao delimitar como objeto de estudo o ME do Tocantins, outras questões se impuseram: quais as especificidades do movimento estudantil do Tocantins? Como o movimento estudantil tocantinense se relacionava com os. partidos políticos, com a sociedade civil organizada e com outros movimentos sociais? Como se dá a organização partidária no Tocantins? Como se comportam, no Tocantins, os partidos que hegemonizam a União Nacional dos Estudantes (UNE), isto é, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Comunista do Brasil (PC do B), em nível nacional? Possuem eles uma organização consistente no estado? Como as especificidades sócio-econômicas e políticas do Tocantins deram ao ME uma determinada configuração? Quais as razões para a diferenciação entre o comportamento dos jovens estudantes do Tocantins? Por que os estudantes não participaram das lutas nacionais das décadas de 1980 e 1990? Por que não participaram do movimento conhecido como Diretas já e, na década seguinte, continuaram não participando? Qual a relação entre o ME do Tocantins e o ME nacional, nas décadas de 1960,1980 e 1990?

Conforme o objeto foi se desvelando para nós, ao buscar uma retrospectiva histórica desde os tempos da Casa do Estudante do Norte goiano a (Cenog)l, percebeu-se que no passado, grande parte das bandeiras estudantis, estavam ligadas a aspectos reivindicatórios, sobretudo na busca de uma maior presença do Estado como meio de garantir acesso a educação e a outros bens aos jovens do Norte goiano, dos mais diversos segmentos sociais. Esta constatação levou a outro problema: este fator provocou um desagregamento do pouco que existiu de ME no Norte goiano e no atual Tocantins, após a criação do Estado e a construção da hegemonia pelo grupo político de Siqueira Campos?

Some-se a tudo isso uma questão controvertida no estado do Tocantins: a existência, a natureza e a legitimidade do movimento estudantil organizado. Tanto estudantes quanto professores universitários colocaram em dúvida a existência do movimento estudantil tocantinense. Daí a inquietação e o desejo de indagar um pouco mais sobre a constituição do ME do Tocantins, para perceber como ele se comportou diante das lutas políticas que envolviam os estudantes de outras universidades brasileiras, durante as décadas de 1980 e 1990.

Com essa problematização, chegou-se à seguinte hipótese: no caso do Tocantins, a influência do Estado, mediante o poder constituído sobre o ME é mais forte que a Igreja e os partidos políticos, pela especificidade da política local; a democracia no Tocantins é frágil, predominando formas ditatoriais de ação política e, apesar das debilidades, o ME do Tocantins se fez presente na principal luta em defesa da universidade no estado o processo de federalização da Universidade do Tocantins (Unitins).

Este estudo sobre o movimento estudantil no Tocantins não deve ser entendido como se existisse uma história de lutas heróicas dos estudantes tocantinenses. É antes de qualquer coisa um registro das atividades estudantis tocantinenses relacionadas à politica, ou mesmo às bandeiras que mobilizaram os estudantes do Tocantins ao longo da existência do estado e da Unitins, discutindo as lutas empreendidas pela organização estudantil.

 

 

O Percurso Metodológico

 

De posse de tantas indagações, a primeira preocupação consistiu na delimitação do objeto de estudo e nas nuances necessárias para compreendê-lo e apreendê-lo. As dificuldades do caminho foram muitas, e mesmo finalizando o trabalho depois de tantas idas e vindas, parece que só agora o objeto se desvela com um pouco mais de clareza.

Não ter o pesquisador uma formação em História tornou-se, ao longo do trabalho, um obstáculo e um desafio Afinal, compreender as especificidade do ME do Tocantins passou a significar resgatar fatos e acontecimentos envolvendo estudantes desde os tempos da Cenog. Também foi necessária a realização de um estudo bibliográfico sobre o ME brasileiro, buscando compreendê-lo em suas nuances  conservadoras e progressistas (Poerner, 1979), (Foracchi, 1972, 1977) e em seguida. do ME Goiano, por este ser o berço de influência do ME do Tocantins.

Em relação à natureza da documentação, vários tipos ou espécies de documentos foram utilizados, tais como: atas das faculdades, anuários, boletins informativos, relatório, documentos de secretarias da Unitins, estatutos, periódicos (jornais, revistas).

 

 

 

 

 

De acordo com Macedo,

 

O documento, para o historiador do final do século XIX, influenciados pelo positivismo era por excelência o documento escrito, especialmente o oficial. Com as criticas ao positivismo e especialmente com a "Escola dos Annales" a noção de documento histórico foi ampliada, e ao documento escrito são incorporados outros vestígios da ação humana que vai desde a música, arte, objetos diversos, a paisagens, os valores as tradições, a religião, etc., ou seja, todos as "provas" da experiência humana. (Macêdo, 1997 p.14)

 

O historiador, aos poucos, passa a utilizar um leque muito maior de documentos em suas investigações com esta visão mais ampliada.

            Analisaram-se ainda recortes de Jornais da imprensa nacional, com noticias e entrevistas dos estudantes representados pela UNE, na década de 1990, e da imprensa regional sobre a atuação dos estudantes do Tocantins, além de discursos de parlamentares, cartas abertas escritas por estudantes da Unitins, informativos dos CAs, dos DCEs e jornais internos da Universidade do Tocantins. O acesso aos documentos dos congressos da entidade, desde o congresso de 1998, até o ocorrido em Goiânia em 2000. foi de suma importância para compreender a evolução da entidade e a influência dos partidos sobre a mesma.

No tocante ainda às fontes orais, foram realizadas um total de doze entrevistas com professores e estudantes da Universidade do Tocantins, abordando questões centradas no movimento estudantil com destaque para o SOS-Unitins, principal momento do ME do Tocantins nos enfrentamentos com o poder governamental do Tocantins.

O critério utilizado para a escolha dos entrevistados e para o tipo de entrevista seguiu os objetivos do trabalho: compreender o movimento estudantil do Tocantins na década de 1990, e os embates enfrentados por ele. Assim, dentre os alunos foram selecionados estudantes que participaram diretamente dos embates, sobretudo do SOS-Unitins, e, entre políticos e professores também foram privilegiados aqueles que tiveram influência direta sobre o desenrolar dos acontecimentos.

As entrevistas foram importantes para a construção de um discurso histórico mais consistente, impregnado não só de informações, mas também de percepções e significados, permitindo ir além do escrito, e apreender o existente no dito e no falado.

O conteúdo do trabalho foi organizado como se segue. No primeiro capítulo, procura-se caracterizar o ME, buscando identificar as interfaces da história do ME goiano com a do ME nacional, sobretudo com a história da UNE. Neste sentido, o capitulo foi subdivido em três partes: a primeira busca compreender a interface do ME brasileiro e goiano até a extinção da Cenog; a segunda trata da especificidade do ME goiano no Centro-Sul, e a terceira procura tratar das relações do ME do Centro-Sul goiano com a Igreja.

O segundo capítulo concentra-se no ME do Norte goiano até a criação do estado do Tocantins, em 1988, nos termos da Constituição Federal. A ausência de ação estatal é a característica principal deste periodo, sobretudo durante a existência do Cenog. O período de 1979 a 1988 é de grande apatie para os estudantes goianos, mas um momento de maior atuação do Estado, sobretudo do governo de íris Rezende Machado.

No terceiro capítulo, discute-se o ME no Tocantins, na década de 1990.

A primeira parte deste capítulo registra e discute os embates entre o público e o privado no Estado do Tocantins, uma vez que foram vetores das ações estudantis mais aguerridas ocorridas no período, também o SOS-Unitins, movimento em defesa da Universidade do Tocantins como pública e gratuita.

A segunda parte mostra como a criação da Unitins serviu de um importante local de desenvolvimento das lutas estudantis, mesmo apresentando características que dificultavam a mobilização dos estudantes pela sua natureza multicampi.

Na terceira parte, pretende-se compreender as nuances do SOS-Unitins, movimento considerado a culminância da organização estudantil do Tocantins e que conseguiu chamar a atenção dos meios de comunicação de circulação nacional para os problemas da universidade. A greve de fome foi o sinal de maior radicalização do movimento tocantinense.

A quarta e última parte do terceiro capítulo objetiva compreender as indagações que ocorreram com base em depoimentos.Trata-se de um certo distanciamento do          ME tocantinense das lutas nacionais capitaneadas pela UNE, e neste espectro, busca-se verificar a influência dos partidos políticos sobre o ME, em âmbito nacional e no Tocantins.

O quarto capítulo procura mostrar como os partidos políticos exercem influência sobre o ME, mediante as tendências políticas ligadas ao PC do B, e no caso da década de 1990, da União da Juventude Socialista (UJS).

Por fim, as considerações finais sintetizam algumas conclusões sobre a história do ME tocantinense e as vicissitudes enfrentadas pelos estudantes desde a sua criação até os dias atuais.

 

 

 

CAPÍTULO I

 

O MOVIMENTO ESTUDANTIL NO BRASIL E EM GOIÁS: DA

CRIAÇAÕ DA UNE A CRIAÇÃO DO ESTADO DO TOCANTINS

 

Eh, bom meu pasto ... Mocidade. Mas mocidade é tarefa para se desmentir. Também, eu desse de pensar em vago tanto, perdia minha mão de homem para o manejo quente, no meio de todos. Mas, hoje que raciocino, e penso a eito, não nem por isso não dou por baixa minha competência.

Guimarães Rosa

 

Neste capítulo não se pretende reescrever a história do movimento estudantil no Brasil. A pretensão é identificar, ao longo da história do ME no Brasil, as relações possíveis com o ME do Tocantins. Procura-se analisar alguns pontos discutidos por alguns autores e que se consideram vitais para a compreensão do objeto: o movimento estudantil tocantinense e suas relações com o Estado, a Igreja e os partidos políticos.

Neste sentido, ganham importância os estudos que discutem o grau de organização obtida pelos estudantes brasileiros com a criação da UNE, em 1937, até os dias atuais, como Poerner (1995). As principais lutas enfrentadas foram: O petróleo e nosso, Diretas já, Fora Cal/ar, Marcha dos 100 mil, e Contra o provão. Procurando perceber a relação do ME com o Estado na história da participação política dos estudantes brasileiros ainda são analisados mais dois outros: a relação do ME com a igreja, e, a relação com os partidos políticos.

Os estudos de Foracchi (1972-1977) sobre a juventude estudantil e os processos de transformação da sociedade brasileira foram de grande importância para compreender a constituição do ME como movimento social, nos termos definidos por Gonh (2000) .

Em um primeiro momento, foi difícil definir o movimento estudantil no Tocantins como um movimento social, dificuldade considerada natural por Gonh (2000) em razão de uma consensual ausência de quadros teóricos e metodológicos. Ao delimitar neste estudo, o ME, com base na sua relação com o Estado, com os partidos políticos e com a Igreja, pareceu ser possível identificá-lo pela sua forma de expressão, como um movimento construído com base na origem social da Instituição que o apóia ou abriga seus demandatários. De acordo com Gohn,

 

partindo da premissa de que todo movimento social é formado por agrupamentos humanos, coletivos e sociais, decorre que estão de uma forma ou de outra inseridos na sociedade. Esta inserção não se dá no vazio mas a partir de algumas instituições de apoio ou abrigo, ou seja, a igreja, o partido, o sindicato, a escola e até a família - em alguns movimentos sociais messiânicos, coronelistas ou feudais.(Gohn, 2000, p. 268)

 

 

No caso do ME, tais instituições podem ser vistas nos partidos políticos, na Igreja e no Estado. São estas, ao que parece, as que, de certa forma, amparam e influenciam os destinos do ME. Os conflitos no interior do ME, parecem ser a extensão dos ocorridos entre tais instituições, o que se pode observar durante o percurso da exposição da pesquisa.

Ainda, pretende-se analisar a sintonia do ME goiano com as lutas da UNE, ou o desenvolvimento das lutas organizadas pela UNE em solo goiano. A análise do caso goiano limita-se à década de 1980, ao fim da qual foi criado o estado do Tocantins.

 

1.1 As primeira lutas

 

Em seus estudos, Poerner (1979) privilegiou a participação política dos estudantes brasileiros, tanto que procurou resgatar a indignação dos estudantes brasileiros desde os tempos coloniais. Porém, considera que "a UNE representa, sem qualquer dúvida, o mais importante marco divisor daquela participação ao longo de nossa história" (Poerner, 1979, p.127).

As lutas estudantis anteriores à criação da UNE estão marcadas pelos esforços de estabelecimento de espaços formativos no Brasil, o que permitiu a esses jovens obterem uma compreensão mais avançada da sociedade e do tempo vivido, levando-os a se envolverem nas lutas revolucionárias, como a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República No entanto, a tentativa de organização dos estudantes desse período, segundo Poerner (1979) pecava pela transitoriedade (não se firmavam, nasciam e morriam em curto espaço de tempo) e pelo isolamento em razão das dificuldades da integração nacional.

Após sua criação, um dos primeiros e principais desafios da UNE foi a inserção nas atividades políticas do país Esta luta não foi linear, mas cheia de avanços e recuos. Logo após a sua criação, a UNE teve diante de si a truculência do Estado Novo e o aparato policiai da Era Vargas, e, internamente, sofreu com as transformações que foram ocorrendo no seio estudantil, como se verifica pelas conclusões do seu 111 Congresso, realizado em agosto de 1939. A análise de Poerner demonstra que, naquele momento histórico, a juventude deixava de ser insensatamente rebelada como antes fora boêmia e romântica, para ser construtiva (Poerner, 1995, p.140)

Embora nos estudos de Poerner a participação política tenha centralidade, parece possível uma leitura em que seja percebida a influencia do Estado, da Igreja e dos partidos políticos. Os registros do autor dão conta de que o Estado esteve extremamente presente, ora aliado aos estudantes, ora como algo a ser enfrentado pelos estudantes. Como exemplos de alinhamento, podem-se citar a construção da Jovem Guarda Florianista (Poerner,1979, p.67), a participação na Campanha Nacionalista de Silac (Poerner, 1979, p.97), a fase de ascensão direitista (Poerner,1979, p.183) e o apoio a Jânio Quadros João Goulart, (Poerner,1979, p.197)

Em relação aos enfrentamentos com o Estado, ocorreram os embates com o Estado Novo de Vargas que culminaram com a tentativa do governo de instalar uma entidade nova de representação dos estudantes - a Juventude Brasileira, em moldes fascistas (Poerner,1979, p. 169), e os enfrentamentos durante o tempo em que o país foi governado pelos militares.

Após a criação da União da Democracia Nacional (UDN), ascendeu a influência da Igreja, por meio da Juventude Universitária Católica (JUC), e da Juventude Estudantil Católica (JEC).

No caso da relação estabelecida com Igreja, o caso mais sensível foi o que tratava da hegemonia da JUC, que culminou com a fundação da Ação Popular (AP), entidade que mais tarde rompeu com a Igreja e se fundiu ao Partido Comunista do Brasil (PC do B).

Os partidos políticos, de acordo com os estudos de Poerner (1979), receberam de forma clara a influência da UDN, nos anos 50, durante a ascensão direitista. Anteriormente, nos anos 30 e 40, parece possível afirmar que foi o período de maior influência dos partidos democratas e comunistas, uma vez que as campanhas da UNE eram contra o fascismo e o alinhamento do Brasil ao Eixo Alemanha/ltália.

Para Foracchi (1977, p. 228), a politização da massa estudantil só pode ser compreendida como expressão da eficiência do trabalho partidário.

A respeito da influência sobre o ME da JUC, AP, Política Operária (Polop), Partido da Representação Acadêmica (PRA), e outros, assim se expressa à autora:

 

É conveniente atentar para o fato de que todas estas facções do movimento político universitário se encontram, em maior ou menor grau, ligadas a correntes políticas nacionais e reproduzem a seu modo, a orientação predominantemente no processo político. (Foracchi 1977. p.228)

 

A influência que partidos políticos exercem sobre a massa estudantil é então considerada vital pela autora em questão.

 

Seriamos levados destarte a admitir que sem cobertura política partidária consistente, a vanguarda estudantil não pode desenvolver atuação organizada, sistemática e coerente (...) destituída de lastro partidário, não consegue arregimentar, por si mesma e com suas próprias forças, a massa estudantil porque só a duras penas, se sustém como vanguarda. (Foracchi 1977, p. 232)

 

Se o vínculo com os partidos políticos se torna vital para a sobrevivência das entidades estudantis, criou-se no ME um grupo de estudantes que passou a se constituir em vanguarda, sem estabelecer uma comunicação entre a cúpula do ME e suas bases, dificultando a renovação das lideranças, o que se dá pela dificuldade da cúpula de compreender o movimento da massa estudantil e a aspiração do estudante comum.

As relações das lutas estudantis, devem ser consideradas além da participação política e de uma possível indignação da juventude em relação as condições políticas do pais A leitura dos trabalhos de Foracchi (1972,1977) demonstra uma forte interface de como o mundo do trabalho interfere nessas questões.

A relação com o mundo do trabalho, para Foracchi (1977), possui um lado positivo e outro paradoxal Como fator positivo, o trabalho aparece como futuro projeto de emancipação e possibilidade para que o estudante, que é sustentado pela família, se livre de sua dependência e inicie um projeto autônomo de vida. (Foracchi, 1977, p. 45). O paradoxo ocorre quando o estudante trabalha. Desta feita, o estudante muitas vezes não depende da família e até em alguns casos a auxilia. Neste sentido, o paradoxo relaciona-se ao curso, pois se o trabalho se identifica com a área de formação, se torna um fator impulsionador do sucesso nos estudos, e se isso não ocorre, o sucesso em um acontece às expensas do fracasso do outro. (Foracchi, 1977, p.51)

    Touraine (1994) evidencia outras preocupações (especialmente na atualidade, em razão dos recursos tecnológicos existentes das mudanças ocorridas no mundo do trabalho, e sobretudo, da intensificação da ofensiva neoliberal com sua proposição de um caminho único) ligadas à inserção do jovem no mercado de trabalho para construção de um projeto pessoal de carreira profissional. Esta preocupação é identificada pelo autor nos movimentos de juventude:

 

Os secundaristas que em 1990 desencadearam na França um movimento de protesto importante preocupavam-se com seu futuro profissional, freqüentemente ameaçado pelo desemprego, mas eles queriam também que a cultura escolar não fosse estranha a sua cultura de juventude ou de certos segmentos da juventude. (Touraine, 1994, p.260).

 

Essa afirmação já parece presente, mesmo que de forma embrionária, nos anos que precederam a radicalização dos movimentos de 1968, uma vez que já se vislumbravam as mudanças no mundo do trabalho e o prenúncio do fordismo como modo de organização da produção.

Em outra obra - Palavra e sangue: política e sociedade na América latina (1989) - o autor procura analisar as especificidades da organização social e as formas de ação social e politica, as maneiras de fazer política na América Latina (Touraine,1989,p 19), observa as expectativas depositadas na escola e na universidade por pais e filhos como uma porta para a obtenção do êxito na sociedade. Assinala o autor:

 

A escola e a Universidade silo objetos de expectativas extremamente fortes por parte dos pais, porque lhes parece ser a porta quase única do êxito dos seus filhos. Para os migrantes, a vinda para a cidade tem como primeiro objetivo dar melhores oportunidades de educaçilo aos filhos. A América Latina ainda hOje, e em particular no Brasil, deposita na educaçilo uma confiança sem igual no mundo. (Touraine, 1989, p.138)

 

 

Nos anos 50, o taylorismo já vivia o auge de seu desenvolvimento e novas tecnologias eram incorporadas ao capitalismo a todo o momento, o que proporcionou o aumento da insegurança nos jovens e a razão para a rebeldia diante das ameaças de um futuro com poucas garantias de inclusão social.

O processo de industrialização, ao mesmo tempo em que gerava expectativas, trazia novas ameaças. O mesmo autor declara:

 

à medida que a industrialização progride e a marginalidade se torna menos um fato urbano do que um fato profissional, associado ao desemprego, as fronteiras sociais se tornam mais difíceis de transpor e a juventude se reparte de maneira mais rígida entre os que realizam o aprendizado da participação social e os que já estão rechaçados na exclusão. (Touraine, 1989, p.140)

 

Foracchi (1972) estuda o momento em que a expectativa da juventude era alcançar uma formação que lhe desse condições de se colocar no mercado de trabalho, em posições vantajosas e que propiciasse orgulho à família. Estava então presente, de forma forte, a influência das questões ligadas à família, aos vínculos de família e à origem de classe, fatores definidores das opções políticas de grande parte da juventude. Aliado e não separado desse processo, estavam o projeto de carreira e a manutenção do status de membros de determinada família, cujo processo era garantido pela exigência de formação universitária e casamentos no interior da própria classe.

Assim, as razões que levaram os jovens da América Latina e do Brasil às ruas possuem especificidades em relação à França e ao restante da Europa, porque estavam diretamente ligadas ao modo de desenvolvimento instalado, e os estudantes viam na luta uma forma de garantir o espaço na sociedade como cidadãos.

A institucionalização da UNE, que foi criada em 1937, e que se consolidou nas décadas de 1940 e 1950, representou a consciência dos estudantes quanto ao papel a desempenhar nessa quadra da vida. Sua atuação foi pautada pela realidade em que os estudantes brasileiros estavam inseridos, que não podia ser percebida como fruto da relação centro-periferia, mas como produto de uma crescente globalização que ganhou força após a segunda Guerra Mundial, e ainda como um resultado de ser o Brasil um pais com dimensões continentais e com uma história rica de miscigenação de cultura e raças.

É importante destacar que o crescente aumento da conscientização da juventude estudantil brasileira e a unificação das lutas estudantis se deram em um momento em que não existia plena liberdade de expressão, sobre o que Cunha afirma:

 

No auge da onda repressiva que ele (o Estado Novo) desencadeara e de que se alimentava, foi criada a União Nacional dos Estudantes - UNE. Até então, as entidades estudantis eram de caráter estritamente local, com objetivos assistencialistas, desportivos e culturais. A dispersão geográfica das instituições de ensino superior e a tardia e parcial reunião em universidades não propiciavam um associativismo de outra qualidade. Nem mesmo a obrigatoriedade de existência dos diretórios acadêmicos para regular o funcionamento das faculdades e das Universidades, determinada pelo estatuto de 1931, foi capaz de mudar este quadro. (Cunha, 2000, p. 169)

 

Outra razão que garantiu a criação e a consolidação da entidade estudantil foi o crescente desenvolvimento do ensino superior no país, que, no governo Vargas, ou nos anos pós 30, tiveram uma arrancada que só conhece momento igual na década de 1960, com as lutas pela reforma universitária. Houve o aumento do número de estudantes na luta estudantil, em prol do acesso à educação e a cultura, como também permitiu um aumento da massa crítica no meio da sociedade, ao mesmo tempo que espaços foram construídos para discussão dos problemas sociais.

A consolidação da entidade não significou, porém, que ela tivesse se colocado na vanguarda das lutas progressistas. A história da UNE teve seus momentos de conservadorismo.

Logo após a sua criação, a UNE viveu um momento de ascensão direitista, que perdurou até a década de 1940, e, posteriormente, em meados da década de 1950.

O Brasil vivia um processo acelerado de industrialização, marcado pela existência de uma política populista que mobilizava as massas em torno das possibilidades de melhoria de condições de vida dos trabalhadores e a auto-afirmação de uma burguesia industrial, que se contrapunham a uma elite agrária, que se encontrava em decadência desde a Revolução de 1930.

As décadas de 1940 e 1950 foram de radicalização de ambos os lados. Tanto esquerda quanto direita conseguiram atrair para suas fileiras jovens que assumiram uma postura de participação política avançada.

A ascensão direitista na UNE foi o momento alvissareiro de uma classe média burguesa que representava uma alternativa às elites agrárias e conservadoras que ainda detinham uma grande parcela do poder. Neste contexto, a classe operária começou a ter acesso aos bens culturais, a lutar de forma mais organizada pelos seus direitos, dando sustentação a um governo populista, mas que sabia das necessidades amplas das classes populares ou do povo.

Após o período direitista, a UNE foi fortemente influenciada por setores da Igreja Católica. Durante a gestão de Aldo Arantes, que foi eleito presidente com o apoio da JUC, a UNE se posicionou pela posse de João Goulart, colocando-se frontalmente contra o Estado.

Ao fazer uma análise dos motivos que levaram ao golpe militar Gorender afirma:

 

Por trás do desenvolvimento supostamente benéfico a gregos e troianos, cresciam os elementos de profunda crise econômica, que daria a tônica da fase imediata. Pela primeira vez, a questão da reforma agrária sala dos debates parlamentares e ganhava formas agudas de manifestação entre seus interessados diretos - os camponeses. Ao invadir a área rural, o desenvolvimento capitalista passou a eliminar, espontaneamente, aspectos pré-capitalistas ou pertencentes a uma fase primitiva do capitalismo e a criar relações de produção burguesas na forma pura de relações entre capital e o trabalho assalariado. (Gorender, 1987, p. 18).

 

 

O surgimento das relações de produção burguesas e o seu esforço para consolidar-se como alternativa de radicalização de classe:

 

A opressão tradicional das relações primitivas sobre os camponeses recebia o acréscimo da nova fase de desenvolvimento capitalista, trazendo exigência maiores de trabalho, aumento da instabilidade, desejos sumários e marginalização. Por isso mesmo, em vários pontos do território nacional, avolumaram-se os choques entre latifundiários e posseiros, parceiros, colonos, moradores foreiros. (Gorender, 1987, P 18)

 

 

Segundo Gorender (1987) durante a campanha pela legalidade, ao se posicionarem ao lado de Leonel Brizola que recebeu a adesão do Terceiro Exército, os estudantes contribuíram para retardar um confronto de classes ou mesmo uma guerra civil, mas se colocaram do lado oposto das elites dominantes, que não estavam dispostas a fazer concessões que prejudicassem seus interesses.

A realidade do país naquele momento guardava uma complexidade e o movimento das peças no xadrez político levou à radicalização das classes em disputa na sociedade, fazendo precipitar o Golpe militar.

Em estudo comparativo sobre o movimento estudantil na França e no Brasil, Martins Filho (1996) considera o golpe de 1964 um divisor de águas no ME Brasileiro: O golpe militar triunfou no momento em que as lutas populares ameaçavam ampliar as fronteiras da democracia (Martins Filho, 1996, p.27).

Uma vez garantido o seu triunfo, os novos governantes do país cuidaram de diminuir a força e a influência dos opositores. O mesmo autor assinala:

 

Para os estudantes universitários, na sua grande maioria de classe média, o governo desde o inicio reservou más noticias. Nos primeiros meses, por meio de da "Lei Suplicy de Lacerda", procurou extinguir a União Nacional dos Estudantes (UNE), as Uniões Estaduais dos Estudantes (UEEs) e os Diretórios Centrais (DCEs), criando em seu lugar uma espécie de sindicalismo estudantil dependente do Estado. Em seguida alarmou pais e alunos, ao propor uma reforma universitária que culminaria no ensino pago. Numa onda de obscurantismo, proibiu livros, filmes e peças de teatro. perseguindo artistas e intelectuais. Nilo bastasse isso, reprimiu com violência nunca vista os protestos de jovens que até entilo eram tratados como a futura elite do pais. (Martins Filho, 1996, p. 28-29)

 

 

Os militantes do ME enfrentaram forte oposição e foram cassados pela ditadura no final dos anos 60, e no pós-1968, e só se recuperaram no final da década de 1970, com a reabertura política (1979)

A década de 1970 foi de grandes perdas para o ME e para todos os movimentos que se opunham à ditadura. Ao discutir a perseguição do regime militar, Gaspari (2002) considera o ME como parte da burguesia e da elite brasileira, tanto que intitula o capítulo que trata do assunto de A elite aniquilada, e o seguinte, no qual também cita as revoltas estudantis em protesto contra o assassinato de Edson Luis de Lima Souto, denomina A soberba de Lúcifer, em alusão à capacidade de os governantes ditatoriais acharem que todo o poder estava em suas mãos.

A década de 1970 não foi só de frustrações para o ME. No final, como decorrência da reabertura política, deu-se o renascer do ME. Na Bahia, o estudante Rui César foi eleito presidente do DCE da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1978. No ano de 1979, a revista Veja noticiou as mudanças:

 

no Brasil de 1979, todavia o lider dos estudantes diz o que pensa e quer em programas de televisilo - ele pode afirmar, por exemplo, que Honestino Guimariles foi morto pelo governo. (Veja, 10 de outubro de 1979. p. 23)

 

A reconstrução da UNE, em 1979, ocorreu, no entanto, em uma realidade diferenciada daquela na qual fora colocada na clandestinidade. Na década de 1970, em conseqüência do regime militar, ainda não havia uma mobilização do operariado tão forte em todo o Brasil, apenas no ABC2 paulista. Os sindicatos e as associações de professores e de servidores públicos, com poder de mobilização social, estavam renascendo das cinzas.

A UNE passou então a dividir com os novos atores a mobilização da sociedade nas lutas. Durante a campanha denominada Diretas Já, os operários metalúrgicos de São Paulo tiveram participação hegemônica por meio da liderança de Luis Inácio Lula da Silva. Este é um elemento diferenciador dos anos 60. Se, em 1964, as principais lideranças eram estudantis, nesse momento operários saíram na frente, sensibilizando a sociedade.

A década de 1980 para o ME, é representada nos estados pela reorganização das uniões estaduais dos estudantes (UEEs), dos Diretório Centrais Estudantis( DCEs), e dos Centros Acadêmicos (CAs) nos quais a repressão ainda não havia permitido a sua reconstrução, ou não havia resistência estudantil suficiente.

 

1.2 O berço do ME no Tocantins: o Me em Goiás

 

Para desenvolver melhor uma análise sobre o ME em Goiás, é necessário recuar até a década de 1950, quando a mobilização estudantil ganhou força com a transferência da capital para o Centro¬Sul, com o impulso desenvolvimentista do governo Juscelino Kubtischek, e, como conseqüência dessa conjuntura, o ideário de uma Universidade no Centro-Oeste.

Em 1959, ocorreu o movimento pela criação da Universidade Federal de Goiás e a disputa entre a Igreja e a parcela mais laicizada da sociedade e mesmo entre setores da Igreja acirrou-s8. De um lado, estavam os que defendiam que a nova universidade devia ser católica, para propiciar uma educação do corpo e da alma e, de outro, aqueles que pretendiam uma universidade pública e laica.

    O deslocamento para o Centro-Sul do eixo de desenvolvimento e as lutas pela criação de uma universidade vão se reforçar nos anos 60, com a inauguração da cidade de Brasília como a nova sede do governo federal. No início dos anos 60, Goiânia e, sobretudo Brasília, representavam a materialização do discurso da Marcha para o Oeste:

 

Como parte dos planos ideal de modernidade, a marcha para o oeste concretizaria o que foi representado nos argumentos e discursos para a mudança da capital nos anos 30: desenvolvimento do interior, onde se entrelaçava o novo e o velho. Goiânia expressava a modernidade, onde a elite polítíca escondia o fazendeiro por trás do médico, do advogado, do engenheiro.(Cardoso, 2002, p.23)

Este deslocamento, que representou a expansão regional do capitalismo em busca de novos mercados, no entanto, não ocorreu sem as mais variadas contradições, já que o moderno passou a conviver com o arcaico, e produziu com esse encontro uma situação ainda mais nova. O crescimento da classe média e o início do processo de industrialização modificaram o perfil do ME goiano naquele momento.

Em tal situação, os reflexos da luta estudantil personificados na criação da UNE e em sua atuação, ficaram concentrados em Goiânia e no Centro-Sul do Estado, aumentando a distancia entre o Norte e Centro-Sul do então estado de Goiás.

A verdade é que a Marcha para o Oeste não conseguiu modificar a situação da ausência do Estado no Norte de Goiás. Estavam colocadas as condições para o surgimento da Casa do Estudante do Norte Goiano (Cenog), em 1959, que, dentre os seus objetivos, propunha dar assistência aos estudantes nortistas e quase que como principal bandeira, segundo Santana (1996), a reivindicação histórica da separação do Norte e criação do estado do Tocantins.

    Ao estudar a reivindicação denominada movimento separatista, Cavalcante (1999) afirma que este teve suas origens históricas no século XVIII, ganhando força concreta no século XIX. Assim, os acontecimentos da década de 1950 fizeram reavivar uma iuta que já existia no inconsciente coletivo dos habitantes do Norte goiano (Cavalcante, 1999, p. 19-21).

O movimento estudantil goiano passou, a partir de 1950, a ter duas vertentes uma do Sul, voltada para os problemas nacionais e muita mais engajada politicamente com a UNE, e uma outra, pouco engajada politicamente, e voltada para problemas típicos da região Norte do estado e personificada na criação da Cenog3.

Após florescer nas décadas de 1950 e 1960, o ME de Goiás sofreu as mesmas vicissitudes impostas pelo governo dos militares ao ME nacional, pois deste era parte integrante Vários dos seus quadros foram perseguidos e exilados ou buscaram apoio na Igreja por meio de do Arcebispo D. Fernando Gomes dos Santos, e enfrentou a policia do regime nas ruas.

A reconstrução dos DCEs deu-se entre 1979 e 1980. A UEE foi reconstruída em 1984, e, em seu primeiro congresso, elegeu Denise Carvalho para a presidência.

 

1.3 O ME do Centro-Sul, os partidos políticos e a expansão do ensino superior

 

Os estudantes goianos do Sul do estado tinham como principal centro de atuação a capital de Goiás, Goiânia, e, na década de 1950 envolveram-se, naquela que para Nascimento (2002) era a principal luta do momento: a criação de uma universidade do estado. Como conseqüência de tais lutas, em 1959, foi criada a Universidade Católica de Goiás, e, em 1960, a Universidade Federal de Goiás.

A criação de uma universidade confessional e de uma universidade pública em Goiás deu-se em decorrência de uma disputa advinda de um debate nacional daquele momento histórico, o conflito entre ensino confessional privado versus ensino laico público e gratuito. Baldino (1991) registra que o conflito se deu também entre a Maçonaria e a Igreja, e que em seu auge, os estudantes chegaram a realizar o enterro simbólico do Arcebispo Dom Fernando, como uma forma de protestar contra um boicote da Igreja a criação da Universidade Federal de Goiás (Baldino, 1991, p. 85).

Inicialmente, a preocupação dos estudantes era haver uma universidade no estado. Mobilizados pela UNE, lançaram a campanha pelo ensino público e gratuito, a qual se deu porém, em meio as disputas internas. A discussão feita por Nascimento (2002) permite afirmar que o movimento estudantil goiano esteve presente na discussão da criação das duas universidades - de um lado, dividindo com a Igreja os esforços pela criação da que seria primeira universidade do Centro-Oeste e, de outro, liderando o movimento em prol do ensino público e gratuito e pela criação da Universidade Federal de Goiás.

Alguns segmentos teceram críticas duras e públicas à Igreja, baseando-se na compreensão de que a criação de uma Universidade católica poderia prejudicar a luta pela criação de uma universidade federal (Duarte, 1996).

A criação das duas universidades contribuiu para dar ainda mais fôlego ao ME goiano. Portanto, bandeiras defendidas pela UNE, no espaço nacional - escola pública e gratuita, reforma universitária e recusa das imposições imperialistas - fizeram parte das lutas dos estudantes goianos que, a partir do início dos anos 60, participaram de forma ativa das lutas nacionais defendidas pela entidade, e, como em anos anteriores e com muito mais intensidade, passaram a sofrer influências externas semelhantes às vivenciadas pela entidade em nível nacional.

Embora a AP estivesse presente no movimento estudantil goiano, o episódio da criação das duas universidades e os conflitos entre estudantes e Igreja mostram que a relação do ME goiano e a Igreja foi por vezes conturbada, assim como as influências partidárias no interior do movimento. Nos início dos anos 60, as principais influências estudantis provinham da JUC e do Partido Comunista Brasileiro. Mais tarde, com sua criação, a Ação Popular passou a exercer uma hegemonia, recrutando seus quadros no movimento estudantil, e exerceu influência de todas as matizes no interior do movimento, como constata Cardoso:

 

Havia grupos formados dentro do movimento estudantil, à direita, no centro e a esquerda. À direita, havia grupos anticomunistas vinculados a UDN e ao PSD. Na esquerda haviam grupos ligados aos Partido Comunista do Brasil e a Açilo Popular com todas as dissidências, muitas formaram partidos ou organizações revolucionarias no perfodo da ditadura militar, sendo que os principais militantes destas organizações foram recrutadas no movimento estudantil. (CardoSO, 2000, p.65)

 

A influência da AP evidenciou-se na área cultural, na qual as atividades realizadas pelo Centro de Cultura Popular (CPC) da UNE se refletiram em Goiás com a criação do Instituto de Cultura Popular (ICP), em abril de 1963. Peças de teatro e atividades culturais foram realizadas em vários municípios do estado com a participação dos estudantes. Tendo o apoio do então governador Mauro Borges e da Igreja, o ICP tentou cumprir sua missão, desenvolvendo campanha de alfabetização e atividades culturais, com o objetivo de conscientizar a população dos seus direitos.

Nos anos 70, a maior influência da orientação do ME estadual

proveio da Igreja Católica e de partidos políticos, como o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), porém, com o registro da formação de inúmeras lideranças no movimento estudantil ligada à conservadora Aliança Renovadora Nacional (ARENA), mas com uma clara evidência da supremacia da orientação das alas mais progressistas da Igreja e de setores do MDB ligado às classes populares.

Diferentemente de muitos estados brasileiros, como Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro, e Ceará, em Goiás, o Partido Comunista do Brasil não conseguiu manter uma influência presente no movimento estudantil, durante o período do regime militar. Marcos Araújo, um dos reorganizadores do PC do B, após este sair da ilegalidade, afirma: só em 1978 tivemos acesso a um estatuto do PC do a, nos organizávamos por aquilo que líamos e que achávamos que era lá na União Soviética (Entrevista com Marcos Araújo).

No entanto, como bem lembram Nascimento (2002) e Cardoso (2002), havia em Goiás desde os anos 60, uma grande influência da AP e da JUC, tendências as quais pertenciam Aldo Arantes e Euler Ivo, figuras proeminentes no processo de reorganização do Partido Comunista do Brasil em Goiás. Com isso, a característica da ação política em Goiás, se inscreveu em uma concepção apista aproximando-se do trostkismo, como será analisado mais adiante.

O retorno do exílio em 1979 de Aldo Arantes e de Euler Ivo, ex-líderes estudantis na década de 1960, foi fundamental para colocar essa parcela da juventude em contato com o marxismo e com o PC do B. Iniciou-se o processo de reconstrução partidária em 1979, e em 1982, Aldo Arantes disputou as eleições pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), na ala conhecida como Bloco Popular do PMDB. O movimento estudantil e o movimento comunitário foram os dois espaços em que vicejaram com força as idéias comunistas.

O ME, que ganhou força em 1979, e participou da campanha pela anistia, em 1984 tinha organizado os DCEs da Universidade Católica e Universidade Federal, o que permitiu a reorganização da UEE.

O movimento estudantil, como já foi mencionado teve sua UEE reorganizada em 1984, e elegeu sua primeira presidente nessa fase, Denise Carvalho. As principais bandeiras do movimento, eram a luta contra o aumento de preços no transporte coletivo e pelo direito à meia passagem, além de pleitear a meia-entrada para os estudantes e a recuperação do patrimônio da entidade, que fora tomado pelos governos militares.

Em 1986, durante a eleição do governador Henrique Santião, já se notavam fissuras nas forças populares em Goiás. O PMDB havia crescido por meio do mecanismo da adesão ao poder. Elementos vindos do antigo regime reforçaram as práticas coronelistas e atrasadas de fazer política no interior do partido.

Dentre outras grandes lutas, estavam as bandeiras pela redemocratização do país, a luta pelas Diretas-já, e pela críação de uma universidade estadual em Goiás. Destas bandeiras, as eleições diretas tornaram-se uma realidade em 1989, mas a fundação de uma universidade estadual só veio a se concretizar, em 1998, com a eleição de Marconi Perião para o governo do estado.

É importante destacar que, embora não tenha criado a universidade estadual, o governo de íris Rezende proporcionou uma expansão do ensino superior pelo interior do estado. Baldino (1991) ressalta que na década de 1980 o ensino superior tornou-se presente no Norte goiano (Baldino, 1991).

No Centro-Sul, o governo íris Rezende não decepcionou camadas progressistas da Igreja e da sociedade, e no Norte, representou muitos avanços, desde uma maior representação política no poder do Estado, até melhorias de infra-estrutura; no caso da educação, a expansão do ensino superior levou oportunidades há muito sonhadas pelos cenoguianos.

Em 1980, foi criado o Campus Avançado de Porto Nacional, da Universidade Federal de Goiás, e em 1984, o Campus Avançado em Araguaína. Em 1985, foi criada a Fundação Municipal de Ensino Superior de Gurupi. As faculdades Isoladas espalharam-se por todo o estado. Os municípios de Itumbiara, Rio Verde, Catalão, Mineiros, Porangatu, Morrinhos, Iporá, Formosa, Itapuranga, Goiatuba e Quirinópolis, municípios do Centro-Sul passaram a ter centros isolados de ensino superior (Baldino, 1991).

Ao discutir a expansão do ensino superior em Goiás nas décadas de 1980 e 1990, e sua conseqüente interiorização, (Dourado, 2001) mostra que, implícita neste processo, ocorreu uma sutil privatização ensino público que assumiu as mais variadas formas, desde os processos envolvendo convênios municipais com fundações, até as instituições que recebiam verbas do setor público e ainda cobravam mensalidades. O embate entre o público e o privado tomou forma na criação da Universidade do Tocantins e apresentou claras contradições, o que será discutido mais adiante.

Segundo Moretz-Sonh (2002), a interiorização do ensino superior em Goiás, no caso do Norte de Goiás, atual estado do Tocantins, seguiu o modelo discutido por Dourado (2001), para atender à necessidade de formação de nova mão-de-obra produtiva, à formação de professores para atuar na educação básica, pela interferência de organismos Internacionais que entendessem a educação básica como o loeus para o qual devem-se remanejar os recursos públicos (Moretz-Sonh, 2002).

A expansão do ensino superior no Norte goiano não tornou o ME, mais combativo, mas trouxe para o interior da sociedade civil do Norte goiano o plano da universidade. Com a existência do ensino universitário no Norte, a problemática dos estudantes deixava de ter o acesso ao ensino superior como central idade Os estudantes do Norte gOiano enfrentavam problemas tipicos dos demais estudantes de instituições de ensino superior de outras regiões, como a questão das mensalidades e a necessidade de melhorias no ensino superior oferecido pelo setor público.

 

1.4 Sob as bênçãos e a maldição do altar: o ME do Centro-Sul e a Igreja Católica

 

A relação do movimento estudantil com a Igreja pode-se dizer que foi de parceria e de apoio mútuo. Mesmo no episódio de criação da Universidade Católica, quando houve divergências entre alguns segmentos do movimento estudantil e a posição defendida pela Igreja, não há registros de que a Igreja tenha deliberadamente, adotado posição com intuito de atrapalhar o pleito estudantil de criação de uma universidade federal e pública.

No processo de conscientização, como no exemplo do ICP, estudantes e segmentos da Igreja trabalharam de mãos dadas em projetos de alfabetização e em projetos culturais. Após o regime militar ter colocado na ilegalidade a União Nacional do Estudantes, a Igreja tornou-se o principal refúgio dos estudantes, quando tinham que fugir da polícia ou manifestar as suas idéias, sobre o que Duarte registra:

Em Goiânia. o primeiro movimento popular a se organizado a entrar em confronto com o regime e a buscar o respaldo da igreja foi o movimento estudantil, um movimento pluriclasista. O movimento estudantil começou a se organizar na Universidade Federal de Goiás, entre os alunos da área de Ciências Biológicas, liderados pelos estudantes do Curso de Medicina, entre os anos de 1975 e 1976.(Duarte, 1996, p.114)

 

Também, na Igreja, os estudantes encontraram uma voz forte que passou a criticar as mazelas do regime e o desrespeito pelo ser humano perpetrada nas perseguições estudantis.

 

Em 1968. o ano histórico dos movimentos estudantis, em quase todo mundo, os bispos, reunidos em Medeãim, na segunda conferência do episcopado latino-americano, consideram a juventude, não só do ponto de vista numérico, mas também qualitativamente como uma força para levar avante o "desenvolvimento integral", com um papel decisivo no processo de transformação do Continente. (Duarte, 1996, p.117)

 

Em seu pronunciamento realizado na reunião em Medeãim, os bispos de forma frontal, posicionaram-se contra a posição oficial reinante no Brasil de que os estudantes deviam se ater ao processo de formação para a vida profissional, não se envolvendo em atividades politicas. Em Goiânia, Dom Fernando se fez presente, ao transmitir em homilia a decisão dos bispos em Medeãín, como assinala Duarte:

 

naquela ocasião, os bispos criticaram a educação tecnicista e propuseram, para o subcontinente, "uma educação libertadora" e "criadora "; de certa forma, antecipadora e modeladora de uma nova sociedade, uma educação que transformasse o " educando em sujeito de seu próprio desenvolvimento". Na homilia, Dom Fernando reconheceu aos estudantes o direito de estudar os problemas da pátria e oferecer sua contribuição indispensável. (Duarte,1996,p.117)

 

No processo de restabelecimento da UNE, novamente a voz do Arcebispo se fez presente:

 

Em maio de 1979, no processo de restabelecimento da legtmidade da UNE, de novo, os estudantes buscaram o apoio do Arcebispo, e este, os encorajou naquela tarefa e o convocou a animarem a Universidade com o "espírito de comunhão e participação". (Duarte, 1996, P.117)

 

Além de encorajar os jovens na luta pela participação política, Dom Fernando, a convite dos estudantes, celebrou uma missa em 12 de agosto de 1977, pela libertação do estudante Leonardo Alves e de outros presos e vítimas do regime militar e ressaltou trechos do documento de Medeãin:

Já em 1968, em Medeãin, os bispos reunidos com os outros valores da Igreja constataram o elemento fundamental que a juventude representa para equacionar os problemas característicos de povos em desenvolvimento. Não se pode ignorar a situação de fome e injustiça coletiva sob vários aspectos. Quando a juventude Universitária, consciente desta cruel realidade, pretende melhorar as condições para aprofundar seus estudos e procurar participar dos debates em favor de uma ordem social condizente com os anseios coletivos, é mal interpretada e entregue a policia, como se fosse incapaz de cumprir sua missão que é, sem dúvida, de estudar também os problemas da pátria e oferecer sua contribuição indispensável.(...) é justo, pois, que solidários a vocês, lamentemos que, nas atuais circunstâncias do nosso pais, os responsáveis maiores não tenham a sensibilidade para interpretar de maneira mais alta e mais digna os legítimos anseios dos jovens e dos autênticos valores da Pátria. Como compreender, por exemplo, que na capital da República, em lugar dos mestres orientarem os alunos de nível universitário, ocupem o campus os policiais, para manterem uma ordem precária e instável como os ventos que provocam tempestades? (apud Duarte, 1996, p. 116)

 

Com o apoio da Igreja, o ME goiano chegou à reconstrução da UNE, em condições de participar com a apresentação da proposta de número 08. Segundo Romangnoli,

 

a proposta 8, apresentada pelo aCE de Goiás, defendia uma diretoria provis6ria formada por uma comissão de entidades e eleições e congresso no segundo semestre. Segundo eles, a tirada da comissão refletia as necessidades do atual estágio do movimento estudantil. (Romangnoli,1979, p.61)

 

O ME do Centro-Sul integrou-se às lutas gerais da UNE. Ao lado das questões locais eram apresentadas as questões nacionais. A luta pela anistia e pelas Diretas já, ocorreram em Goiânia com vigor. As disputas entre tendências cresceram, e já em 1980, havia espaço os remanescentes do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), do PC do B, passando pelas influências fortes da igreja por meio da JUC e IEC.

A Igreja que, no Brasil e em Goiás, em um primeiro momento, apoiara o regime militar, colocou-se na vanguarda da Igreja católica 10 Brasil em defesa dos direitos humanos e contra as atrocidades perpetradas pelo regime militar e, dessa forma, tornou-se um espaço privilegiado de formação de lideranças.

O atual prefeito de Goiânia e diversos quadros do Partido dos trabalhadores são de formação política intimamente ligada às alas progressistas da Igreja, como também muitas lideranças da luta pela erra, por meio da Pastoral da Terra, sob a direção de Dom Tomás Balduíno.

O grande artífice da formação de tais lideranças foi mesmo o Arcebispo Dom Fernando, que não se restringia a homilias, e, por diversas vezes, como registra Duarte (1996), se fez presente para evitar espancamento de estudantes ou de pessoas de outros movimentos sociais, como o Movimento de Valorização do Professor4, os movimentos pela terra, que tiveram como principal foco o Norte goiano.

Após o fim do regime militar, o Arcebispo apoiou a candidatura de íris Rezende Machado ao governo de Goiás, mas

se distanciou pouco tempo depois,o que segundo Duarte, (1996), ocorreu em razão da relação do governador com os movimentos sociais e populares.

A relação do governador com os movimentos sociais, com o movimento estudantil, de professores e outros movimentos populares, foi classificada pelos líderes da Igreja como tão opressor quanto fora o regime militar. A utilização da violência pela polícia foi uma constante durante o governo Írís Rezende, tanto no trato com estudantes quanto com os movimentos mais radicalizados, como os movimentos de luta pela terra.

Não foi apenas as alas mais progressistas da Igreja foram se afastando do Governo íris, mas também o Bloco popular do PMDB.

 

CAPÍTULO II

O MOVIMENTO ESTUDANTIL NO NORTE GOIANO

 

Em termos, gostava que morasse aqui, perto, era uma ajuda. Aqui não se tem convivia que instruir. Sertão, sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigo ...

Guimarães Rosa.

A criação da Cenog foi o marco inicial do ME no Tocantins. Se houve outras manifestações, delas não se teve conhecimento durante a realização desta pesquisa Olhar a Cenog nos tempos atrás oferece perspectiva diferenciada da leitura feita por alguns cenoguianos e mesmo dos escritos sobre ela, porque o olhar se dirige a uma reflexão sobre as lutas ocorridas, os objetivos perseguidos e os resultados alcançados.

Pode-se afirmar que a força que impulsionou a construção da Cenog foi a inexistência de estado no Norte, ou melhor, a ausência do poder público no Norte Goiano. E por que isso?

Uma vez definida a criação do estado do Tocantins e a luta pela sua concretização ter seguido os caminhos institucionais, o ME (cenoguiano), perdeu força e não foram feitas gestões de resistência contra sua extinção judicial, em um momento em que outras entidades, que foram extintas anteriormente, lutavam pela reorganização. Diversos de seus membros passaram à militância nos partidos políticos das mais variadas tendências, e outros inseriram-se no mercado, em busca de realização de projeto profissional. Acrescente-se a isso o fato de que os estudantes do ME atual e mesmo os ex-cenoguianos não viam continuidade entre a Cenog e o ME atual no Tocantins.

As entrevistas realizadas evidenciaram que a Cenog apareceu como fruto de um movimento essencialmente voltado para garantir o acesso da juventude do então Norte goiano às universidades, e que rapidamente incorporou a luta pela criação do estado do Tocantins como uma possível solução para aquela que era sua bandeira principal: criar condições aos jovens do Norte goiano de acesso ao ensino superior.

 

2.1 Cenog - a falta que o estado faz?

 

O questionamento sobre a importância do Estado tem sido freqüente nos dias atuais. Os projetos eleitorais de 2002 trouxeram uma discussão fértil sobre o assunto. Caso se considere que a sociedade brasileira escolheu um projeto de desenvolvimento alternativo para o país, pode-se afirmar que a escolha refere-se a um projeto de mudança, uma alternativa ao modelo então existente.

Dentre os aspectos que se destacam na presente discussão, a questão do Estado pode ser formulada da seguinte maneira: é necessário que o Estado esteja presente como promotor do desenvolvimento nacional, elaborando e se responsabilizando pela execução de políticas públicas?

Ao estudar o fenômeno do coronelismo no Tocantins, na primeira metade do século XX, Machado (2002) detecta a forte presença do mecanismo de coerção e até mesmo da força da bala, como nos casos de Tocantinópolis e Dianópolis, onde o poder político foi disputado em intenso tiroteio, demonstrando com clareza como na região do Norte goiano o poder político na cidade era assumido por quem detivesse maior poder de coerção. Somente a Revolução de 1930 trouxe algumas mudanças nessa realidade

Mudanças substantivas nesse quadro ocorrerram, segundo Aquino (2002), com a construção rodovia Belém-Brasília por Juscelino Kubtischek, em 1950. A estrada modificou a geografia da região, tendo em vista que as novas cidades à beira da estrada passaram a crescer mais que as cidades tradicionais, localizadas nas proximidades do rio Tocantins.

A chegada da modernidade influenciou a política local mas não erradicou as práticas tradicionais de fazer política com mecanismos como a coerção e o paternalismo. O conjunto de mudanças e a pouca presença do Estado (poder do Estado localizado no Centro-Sul) permitiram a construção de uma identidade própria do nortense que aos poucos interpôs o Norte ao Sul. A criação da Cenog é um desses mecanismo de interposição

A criação da Cenog, em 1959, colocou em evidência uma bandeira antiga de reivindicação do povo do Norte goiano - o desejo de separação do Sul do estado de Goiás, e a posterior criação de um estado que gerisse os problemas do Norte. Os estudos realizados por Santana apontam:

 

A filosofia predominante nos idealistas fundadores da CENOG era a idéia de redenção do Norte goiano. Falava-se em redenção no sentido de resgate, de autonomia, de emancipação. Era até obrigação do estudante "lutar com todas pela redenção do Norte goiano" (art. XVI & 5.do estatuto). Todos éramos entusiastas da idéia separatista, da criação do Tocantins. (Santana, 1996, p. 100)

 

A bandeira da separação entre o Norte e o Sul foi levantada pelo ME cenogulano, ou pelo que então existia de movimento estudantil no Norte goiano e que não se restringiu apenas ao movimento estudantil, como assinala Santana:

 

O movimento naturalmente constituído, na sua maioria por estudantes. Mas desde o inicio, também era próprio da entidade cooptar individuas que não fossem estudantes. Diversas lideranças participaram dessa movimentação, inclusive deputados eleitos pela região, como Miranda, Francisco Maranhão Japiassu, Jaime Farias, Balestra, José Freire e outros. (Santana, 1996, p.103)

 

Segundo Cavalcante (1999), tratava-se de uma reivindicação histórica e as primeiras insatisfações, que deram origem ao movimento podem ser datadas de 1736, passando este a ter base real concreta em 1821.

As motivações do inicio do movimento têm suas raizes na economia, sobretudo no que se refere à reivindicação de igualdade na cobrança de impostos, que, em 1736 já era diferenciada do Sul para o Norte, incidindo sobre o Norte um peso tributário maior (Cavalcante, 1999).

A Cenog representa um momento de reivindicação que alcança o setor educacional. Com a sua criação liderada por estudantes, a entidade teve a compreensão de que a redenção do Norte goiano exigia a criação de condições para que os seus jovens tivessem acesso a um ensino de qualidade que os preparasse para a vida:

 

A CENOG criou uma consciência na juventude e transportou isso para o povo. A consciência de reunir e adquirir tudo o que almejávamos: uma vida digna com um padrão de vida, um progresso, um desenvolvimento para o nosso Norte de Goiás. (Santana, 1996, p.105)

 

O que era então um sonho de integração econômica se transformou no desejo cada vez maior da população de ter uma vida digna. Os documentos cenoguianos assinalam que as principais razões para emancipação do Norte eram a industrialização do babaçu, a possibilidade de navegação do Tocantins, o incentivo à agricultura e à pecuária e o transporte de produtos com a construção de uma ponte sobre o Rio Tocantins. O reavivamento do movimento separatista em um momento em que eram criadas duas universidades no Sul do estado significou um caso fortuito. O movimento, com a criação da Cenog passou a dar um peso maior às reivindicações de ordem social e de melhoria de vida, o que não estava presente até então.

A participação dos estudantes no movimento separatista é anterior à criação da Cenog. Cavalcante (1999) registra que em 1946, estudantes participaram de forma ativa da luta pela emancipação da região:

 

a mobilização em Porto Nacional recebeu manifestação de apoio do 8° congresso dos estudantes secundaristas de Goiãnia e da 48 União Estadual dos Estudantes goianos, realizada em Goiânia, os estudantes - cerca de 62 -, assinaram um documento endereçado ao CEJET5 com algumas sugestões, entre as quais a de que fosse feito "um apelo ao legislativo goiano, a fim de se colocar ao lado da medida uma vez que ela trará as possibilidades para uma transformação real de progresso e interesse para ambas as partes. (Cavalcante, 1999, p.106)

 

A criação da Cenog reforçou a partiCipação dos estudantes no movimento separatista, uma vez que a principal bandeira da entidade passou a ser o ideal da criação do novo estado, visto como panacéia para os problemas do Norte goiano. Mergulhados neste espírito, os estudantes da região não conseguiram se envolver nas lutas nacionais, conforme testemunha Santana:

 

A participação da casa nesse encontro era, de certa forma, atípica, pois não havia uma coincidência entre os objetivos das duas instituições. A UNE imprimia ás suas ações uma feição eminentemente política, voltada para os grandes temas nacionais e que, em regra, assumia um caráter contestat6rio. A CENOG, por sua vez, nascera com uma preocupação predominantemente assistencialista de consecução de bolsas, empenho de inserção de estudantes no mercado de trabalho e de alojamento de afiliados. Ao assistencialismo agregaria, posteriormente, o envolvimento á causa da autonomia da porção setentrional Goiana. O afastamento das duas entidades se revela de forma muito significativa pela preocupação da Instituição goiana em evidenciar sua natureza a política. (Santana, 1996, p.61)

 

No trabalho de Cavalcante (1999), nova referência aos estudantes ocorre somente em relação ao congresso da Cenog em 1965, quando esses reafirmaram o desejo dos jovens nortenses de lutar por dias melhores e tudo fazer pela redenção do Norte (Cavalcante, 1999, p. 106). A concretização da criação da Cenog, em julho de 1960, permite inferir que, na década de 50, houve uma movimentação e inquietação dos estudantes em relação à situação vivida por aqueles que sonhavam em continuar seus estudos e se viam diante de dificuldades as mais diversas. Santana registra que o manifesto de criação da entidade tinha motivações educacionais

 

o estudante que ali começa a sua formação intelectual e que é obrigado a conclui-Ia em outras paragens silo de tal magnitude, que ele muitas vezes, nem chega a continuar seus estudos. (Santana, 1996, p. 67)

 

A leitura dos vários trabalhos existentes indica que a melhor e mais consistente definição para a Cenog é ausência de políticas do Estado para o ensino superior no Norte goiano, porque a entidade se constituiu sob a bandeira da reivindicação de maior atenção do aparato estatal às causas do Norte, só lembradas durante os períodos eleitorais e, mesmo assim, estando sempre sub-representada nos poderes do Estado. Surgiu então no Tocantins um movimento que, dentre outros, tinha o objetivo de buscar meios de oferecer aos jovens do Norte condições para ingresso na universidade, até então distante da casa paterna.

Ao discutir os argumentos utilizados pelos políticos do Norte goiano para reforçar o discurso autonomista, Cavalcante (1999), assinala o vazio político de representatividade dos Nortenses no poder político do Estado:

A proposta de desmembrar o Norte de Goiás para instituir o Tocantins sustentava-se na situação de desamparo em que se encontrava "tão vasta e rica região", além da sua enorme distância em relação ao centro administrativo do estado, impossibilitando-lhe uma assistência administrativa direta e contribuindo para retardar a solução dos problemas da região. (Cavalcante, 1999, p. 98)

 

Esta discussão reforça a tese de que a criação da Cenog veio preencher um vazio institucional no setor educacional, mormente no nível superior.

Em alguns momentos, como nos exemplos dos conflitos entre posseiros e a Igreja, como registra Duarte (1996), parece mesmo que o Estado ao agir, favoreceu o lado mais forte, fazendo prevalecer uma situação de injustiça e de opressão do trabalhador rural.

Criada com 31 sócios fundadores, em 1960, em 1968, a Cenog já tinha quase três mil membros e sedes em Goiânia e em Porto Nacional, e seccionais nas cidades de Miracema, Tocantínia, Tocantinópolis, Gurupi, Pedro Afonso e Rio de Janeiro.

A localização das seccionais da Cenog é justificada pelos cenoguianos por serem cidades que possuíam escolas de nível médio - porta de entrada para a universidade - mais estruturado. Em Porto Nacional, já existiam dois colégios, um público em 1945, e outro particular, dirigido pelas irmãs dominicanas, e criado em 1904.

 

2.2 A Cenog e a Igreja

 

As principais lutas envolvendo a Igreja foram os incidentes da Prelazia de São Félix (Duarte, 1996, p 63), que ocorreram em 1976, durante o governo Geisel, e provocando a morte do padre João Bosco (Duarte, 1996, p.91). Tais acontecimentos contribuíram enormemente para que a Igreja assumisse uma postura de oposição ao regime militar.

No caso dos movimentos rurais, há, porém, a especificidade de que neles a Igreja se envolveu muito mais do que em relação ao movimento estudantil. Nos movimentos rurais, a morte de padres explica-se por um envolvimento direto na condução de lideranças á frente das manifestações, ao passo que no movimento estudantil, embora houvesse uma estreita ligação entre a Juc e o ME, este buscava o apoio e a proteção da Igreja e, ao mesmo tempo, dela recebia influência por meio da formação das lideranças.

No Norte goiano, a luta por terra ganhou dimensão popular, mas a luta estudantil não conseguia a simpatia de amplos setores populares. Seus principais atores eram estudantes que buscavam melhores condições para garantir aquilo que o Estado não lhes podia dar sem que saíssem de casa - a oportunidade de freqüentar uma boa escola de nível médio e acesso ao ensino superior.

Durante o regime militar, o ME goiano, a exemplo do que ocorreu em vários outros estados, viu sair de suas fileiras jovens que se engajaram na luta armada, com o objetivo de fazer a revolução e derrubar a ditadura. Muitos desses jovens perderam a vida e outros são dados como desaparecidos.

A disposição dos jovens de pegar em armas mostrou que chegava a Goiás o caráter ideológico da luta estudantil em busca das transformações sonhadas. Se os estudantes do Sul estavam sintonizados com a luta armada, no Norte não há registros de estudantes que dela tenham participado

Nascimento assinala:

Apesar do depoimento do deputado Athos Magno revelar ligações de grupos armados com o Estado de Goiás, não pudemos precisar o tipo de ligação nem se contava com o envolvimento do ME, a não ser por pessoas ligadas a esses grupos estiveram destinadas a reconhecer a região para uma posslvel resistência armada, o que possivelmente se deve a hegemonia que a AP tinha sobre o ME estadual. (Nascimento. 2002, p. 102)

 

Já os jovens do Norte goiano, que saíram de casa, retornavam com idéias diferente dos pais; a maioria acabava por firmar residência na cidade grande por possuir idéias incompatíveis com a população onde morava. O que os diferenciava dos pais não era motivo de confronto com a família e se resolvia com o estabelecimento de condições para o jovem ficar na cidade grande como profissional liberal.

Parece que a Igreja no Norte goiano não teve um papel destacado no processo de politização da juventude. No entanto, cumpriu outro papel, o de tentar suprir a ausência do Estado com a criação de escolas de nível médio, sobretudo com cursos de magistério, cursos profissionalizantes, aumentando as expectativas e os desejos dos jovens de ingressarem na universidade.

A atuação da Igreja no Norte goiano, aos poucos, permitiu-lhe ocupar espaços que deviam ser do Estado, provendo escolas, realizando obras assistenciais, mediando conflitos e orientando para o exercício da cidadania A forte presença da Igreja e a lenta laicização da sociedade revelam o desinteresse do Estado em ocupar os espaços que lhe cabiam.

Cabe aqui ressaltar que, embora fosse assumindo espaços, a Igreja Católica também teve atuação disputada com a Igreja Batista Tradicional, sendo esta última responsável pela instituição de colégios de nível médio em várias cidades do Norte, cujas influências estiveram presentes no processo de organização dos estudantes do Norte, no caso da Cenog, o que talvez venha confirmar mais uma vez a ausência do Estado como promotor de políticas públicas na região.

Em seus compêndios doutrinários, Igreja Batista Tradicional e Igreja Católica sempre possuiram posturas diferentes em relação ao papel do Estado. A primeira propugna por um Estado essencialmente laico, ao passo que a história do país registra que a religião católica constitui o credo oficial do estado. As marcas desta divergência ainda se encontram presentes em algumas cidades do Tocantins, onde cristãos batistas eram enterrados fora do cemitério público por serem considerados pagãos.

O que diferencia o Norte do Centro-Sul, não é que a Igreja Católica do Norte tenha posições diferenciadas em relação ao papel do Estado, ou mesmo uma propugnação pelo estado laico, mas a sua opção por um trabalho mais intenso com camponeses, e menos agressivo na área de educação, na qual o público maior é a juventude. Na constituição da Cenog, a Igreja tem participação considerável, e um dos seus organizadores foi o Padre Rui Rodrigues.

Com uma mescla de cristãos e protestantes, a Cenog encontrou um espaço fértil. Desde sua criação, consolidação e existência, mesmo tendo sua atenção voltada para os problemas do  Norte, os cenoguianos não ficaram completamente distantes das lutas nacionais.

Segundo Santana (1996), a principal bandeira da Cenog era a luta pelo ideal separatista, a criação do estado do Tocantins. No entanto, os congressos regionais da Cenog tinham abertura para a participação popular em seu interior, o que permitiu o envolvimento de massas populares, utilizando o mesmo o aparato da Igreja, para a abertura dos congressos.

Santana declara:

 

a primeira base política quem faz é o povo, essa é a consciéncia. A primeira base política é a consciência. O homem que adquire consciência de si já começa a existir. Essa é a consciência na qual está inserido. A CENOG criou uma consciêncía da juventude e transportou isso para o povo. A consciência de reunir e adquirir tudo que almejávamos: uma vida digna com um bom padri'Jo de vida, um progresso, um desenvolvimento para o nosso Norte de Goiás. (Santana, 1996, p103)

 

A contribuição da Cenog para o processo de conscientização deu-se nos pontos de intersecção de suas bandeiras principais com as aspirações populares, uma vez que os próprios cenoguianos, segundo Santana (1996), não atribuíam caráter ideológico ao movimento.

As razões apontadas pelo regime militar para perseguir alguns membros da entidade basearam-se na existência efêmera de um jornal - Paralelo 13 - dirigido por Adalicio Monteiro e a publicação de um artigo do estudante Atos Pereira, com o título O golpe dispensa comentários. Entrevistas com ex-cenoguianos, no entanto, dão conta de que muitas das perseguições perpetradas pelo regime militar não tinham como objetivo alimentar as brigas regionais dos grupos políticos em disputa no Norte.

Em entrevista realizada com Athos Pereira ficou constatado que a grande bandeira dos cenoguianos era o movimento separatista. A confrontação da situação social vivida no Tocantins era atividade de uns cinco ou seis amigos, filhos de camponeses que sequer poderiam se classificar como filhos de classe média. Em maioria, os cenoguianos estavam preocupados com a questão da criação do Estado o que explica o fato de muitos deles, após a extinção da Cenog, terem passado a continuidade da luta para a Comissão de Estudos do Norte Goiano (Conorte), fundada em 1981. O próprio Athos Pereira esclarece:

Eu pessoalmente, e um grupo de uns cinco ou oito pessoas se preocupava com a contestação ao regime militar, mas a Cenog como um todo era muito despolitizada, e tinha até muita gente de direita. O pessoal s6 se preocupava com a luta pela separação do Estado do Tocantins. (Entrevista com Athos Pereira)

 

O pequeno grupo de estudantes que tentava levar a Cenog a posições mais avançadas era constituída em geral de filhos de camponeses sem-terra e de outros setores do povo. Os demais eram filhos de donos de propriedades rurais, e o ex-cenoguiano assinala:

 

A origem social dos cenoguianos como eu era filho de camponeses pobre, e até mais pobres do que eu. Mas tinham filhos de donos de propriedade que teoricamente tinha valor por ser grandes quantidades de terra, mas que na realidade não tinham valor por serem terras n!lo produtivas. (Entrevista com Athos Pereira)

 

As famílias que eram donas de grandes glebas de terras disputavam o poder político local nas cidades de Pedro Afonso, Tocantinópolis e São José do Duro, atual Dianópolis (Machado, 2002).

 

A existência de disputas políticas familiares que passam de geração em geração, mesmo atualmente, é muito presente nas lutas cotidianas dos municípios tocantinenses.

A consulta a jornais e a observação do contexto político mostram a sobrevivência de varias famílias tradicionais, mesmo depois da constituição do grupo político de Siqueira Campos, como a família Freire, principal pólo de oposição do governo atual, o que reforça para o caso do Norte goiano e atual Tocantins a conclusão de Forachi (1972) dos vínculos de dependência dos estudantes com a família e o aspecto de transitoriedade da condição de estudante.

Unia os cenoguianos a condição de estudante que VIVia fora de casa. Finda esta etapa da vida, cada um deles seguiu caminho próprio. Alguns deles continuaram a manter uma perspectiva política e a busca da transformação social e tornaram-se responsáveis pela organização de partidos de esquerda no estado criado, como o caso de Athos Pereira, hoje na chefia de gabinete da liderança do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados. Outros refluíram de poslções consideradas progressistas e democratas, assumindo posições políticas ligadas a partidos de direita.

Se em um primeiro momento, estudar fora, militar como cenoguiano, representava um alheamento da família, em um segundo momento ocorre o chamado retorno às origens. No entanto, nesse momento, o indivíduo voltava não mais como membro da família, mas como um agente da classe. De acordo com Foracchi:

 

Todo o mecanismo de controle é mobilizado, para ensejar a manipulação do jovem como agente de transformação familiar em situação de classe e como elemento da continuidade de sua posição no sistema (Forachi, 1972, p.120)

 

Esses elementos permitem compreender as posições conservadoras presentes nas atitudes políticas de ex-cenoguianos e a não-interseção direta dos ideais da entidade com os demais movimentos sociais onde estas passaram a existir. Findo o tempo de estudante e com o ingresso no mundo do trabalho cessa a manutenção dessas bandeiras. Mas no caso dos cenoguianos, a principal bandeira de luta desses estudantes, vai acompanhá-los até sua concretização: a criação do estado do Tocantins. No caso das demais bandeiras, referindo-se aos movimentos estudantis, Albuquerque afirma:

Não há continuidade entre o movimento estudantil e os outros movimentos sociais nas sociedades latino-americanas, continuidade que pode existir em paises onde os sindicatos de quadros e as associações profissionais são bastante atuantes. A mobilização extrema e a intensidade do militantismo, características do movimento estudantil contrastam de maneira notável com o vazio político e organizacional que envolve as jovens gerações de profissionais de nível universitário. O pouco peso das jovens gerações no seio das organizações sindicais e pol/ticas representativas das camadas médias é o melhor indicador dessa descontinuidade. Se as análises das condutas de jovens profissionais universitários pudessem mostrar uma continuidade com relação às condutas estudantis, seria preciso admitir que pode estruturar-se um projeto pessoal a partir da experiência universitária. Se, ao contrário, a permanência de um projeto pessoal só fosse possível dentro de condições específicas, seria forçoso admitir que a experiência é apenas uma condição necessária, mas n!1o suficiente para a constituição de um projeto pessoal, e que este só se organiza efetivamente quando o ator ultrapassa tudo o que a vida estudantil comporta de provisório. (Albuquerque, 1977, p.79-80)

As entrevistas com ex-cenoguianos confirmam que as posições mais avançadas da entidade eram defendidas por filhos de camponeses Entretanto, apesar de ser intenso o movimento de contestação e de luta pela terra e haver constantes enfrentamentos com grandes fazendeiros e mesmo com a Igreja, não houve entre a Ceonog e o movimento camponês, uma continuidade.

A Cenog não era uma entidade com idéias consensuais, e no

seu interior permanecia uma luta entre aqueles transformá-Ia em uma entidade combativa, a exemplo que queriam da UNE, e os

que a queriam como instrumento de luta para a criação do novo estado. Na continuidade de suas vidas profissionais, ex-cenoguianos comprovam tais conclusões.

A luta pela criação do estado do Tocantins foi mantida por uma grande parte deles, no entanto, a propensão progressista foi vítima de um refluxo. ocorrendo um certo distanciamento entre essas lideranças e o povo.

Isto não significa que a criação do estado do Tocantins não tenha melhorado sensivelmente a vida da maioria do povo nortense, mas que a luta dos estudantes tinha como principal mote a resolução de um problema que comprometia o futuro dos filhos do Norte, considerados os naturais dirigentes da sociedade.

Conseguir o que a entidade almejava significava, dentre outros objetivos, obter uma formação universitária que desse condições de inserção no mundo do trabalho, pois este representava para os cenoguianos, a possível emancipação da tutela familiar.

 Foracchi assinala:

 

o sentido da manutenção do jovem como estudante é o de manter os vínculos de dependência no limiar da transformação da situação familiar em situação de classe. Convém não esquecer, entretanto, que essa transformação é um processo e que isso nos impede de tomar a situação de classe como situação cristalizada e definida. Mantendo o estudante e preservando, assim, os vínculos de dependência que o ligam a família como situação de existência, esta se assegura de condições favoráveis para manipulá-lo como agente de sua própria transformação e continuidade no sistema. (Foracchi, 1977, p 119)

 

Parece que as afirmações de Foracchi se aplicam aos jovens estudantes Cenoguianos em sua trajetória profissional após a vida estudantil. Ao deixar a condição especifica de estudante, muitos engajaram-se em projetos de carreira e se ajustaram ao conservadorismo da sociedade nortense, ou seguindo carreira profissional no mercado de trabalho, ou ainda se tornando políticos profissionais em partidos de esquerda ou de direita.

Embora com esse caráter, a Cenog não conseguiu fugir à característica comum às entidades estudantis: a rebeldia típica da juventude. Em seu interior, houve espaço para manifestações ideológicas de forte teor rebelde

A esse respeito, Santana declara:

 

Como toda a entidade estudantil, a CENOG não conseguiu fugir á inevitável marca político-ideológica. Não conseguiu conter-se nos limites de uma improvável instituição "apolítica" voltada exclusivamente para o movimento separatista do Norte de Goiás.(Santana, 1996, p.117)

 

Segundo Santana (1996), essa condição da Cenog foi utilizada pelos militares do governo Figueiredo como justificatíva para o pedido de extinção judicial da entidade.

A afirmação de Santana apresenta uma contradição: a entidade foi extinta no mesmo ano em que os estudantes do país viviam o calor da reconstrução da União Nacional dos Estudantes, o que leva a crer que seu fim não está exclusivamente ligado á perseguição pelo regime, mas a um enfraquecimento da militância estudantil, em virtude da situação de classe de seus membros, e pela aprovação, em 1972, de um projeto de redivisão territorial da Amazônia Legal, que incluía a criação do estado do Tocantins. A posição ocupada na sociedade atual, na atualidade, e a postura ideológica assumida por diversas personalidades ex-cenoguianas reforçam essa hipótese.

Com a aprovação do projeto de redivisão territorial da Amazônia Legal, a criação do estado do Tocantins passou da sociedade civil a uma luta institucional no Congresso Nacional, levando à criação da Comissão de Estudos dos Problemas do Norte (Conorte) em 1981, que conduziu, sob a liderança do então deputado federal José Wilson Siqueira Campos, os trabalhos de articulação política até a criação do estado do Tocantins, pela Constituição de 1988.

A Cenog foi extinta no momento em que a luta pela reconstrução das entidades estudantis pelo Brasil se encontrava na sua fase de maior definição. A realização do congresso da UNE em Salvador, em 1979, as movimentações pela reconstrução da UEE em Goiás e a reconstrução dos DCEs da UCG e UFG, ocorreram com ínfima diferença de tempo da extinção judicial da Cenog. Em conseqüência, quando a luta pela criação de estado do Tocantins foi coroada de êxito, na década de 1980, culminando com a sua criação pela Constituição de 1988, os estudantes que fizeram o movimento cenoguiano já estavam inseridos como adultos na sociedade e no mercado de trabalho. e os novos estudantes eram, nesse momento, meros expectadores do processo.

 

2.3 O Movimento Estudantil pós-Cenog (1979/1988)

 

No momento em que a luta separatista do Norte goiano se institucionalizou, a participação popular diminuiu consideravelmente. Ex-cenoguianos tornaram-se atores ativos na sociedade e, no caso demais demais estudantes, restringiam-se ao papel de ouvintes dos informes jornalísticos Professores que atuaram no ensino superior em Araguaína, Gurupi e Porto Nacional afirmaram em entrevistas que as movimentações da juventude na década de 1980 foram inexpressivas como fator definidor do atendimento as reivindicações do Norte.

Mesmo tendo acesso ao ensino superior, propiciado pela expansão ocorrida no início da década de 1980, sobretudo no governo íris Rezende, a juventude do Norte não logrou uma forte participação popular. As poucas manifestações que ocorreram (os entrevistados referem-se a manifestações em Gurupi e em Porto Nacional, de forma mais organizada) tratavam de necessidades pontuais, como o aumento das mensalidades (na cidade de Gurupi), ou de busca das melhorias institucionais, (cidade de Porto Nacional).As manifestações tinham, pois, um caráter reivindicatório e de presença maior no Estado para resolver os problemas da região.

A nova realidade provocada pela presença de instituições de ensino superior não foi modificada. Os estudantes universitários do Norte goiano continuaram distantes das questões políticas da UNE, assim como foi da luta pelas Diretas já e das campanhas políticas que ocorreram a eleição de íris Rezende e Henrique Santião, em 1982 e 1986. respectivamente

Essa diferenciação do ME nortense em relação ao que se pensava no cenário nacional começou ainda nos tempos da Cenog, conforme constatado por Santana (1996), ao relatar a participação de estudantes cenoguiano no XXVII congresso da UNE, o que mostra o distanciamento entre os objetivos da casa e os da UNE.

Esta especificidade e o fato de o movimento ser apolítico e distante da UNE perdurou após a extinção da Cenog, e constituíram a forma de evitar que os estudantes ligados às classes populares denunciassem as mazelas da política local, caracterizada por diversos estudiosos, como atrasada e do tipo oligárquica (Miranda,1996).

Em Gurupi, os estudantes conseguiram estruturar uma sede e fazer funcionar os centros acadêmicos, ainda na década de 1980, mas, em geral, o movimento estudantil não se constituiu como fonte de mobilização popular de oposição às oligarquias locais, nem conseguiu conectar-se às lutas nacionais da UNE. Os registros de participação de estudantes na luta política são raros, e geralmente, a participação se dava ao serem chamados para participar de seminários institucionais, como por ocasião da preparação para implantação da Unitins.

No entanto, não há registro de movimentação de forma radical da juventude estudantil a não ser quando estava presente a discussão de fatos relacionados à questões pontuais, como o aumento de mensalidades, transferência de um determinado professor com alta popularidade entre os estudantes e outros.

Uma entrevistada relata:

o movimento estudantil tinha uma característica que era estar bem ligado as forças políticas no poder, mas ao mesmo tempo eles se manifestavam quando as decisões políticas prejudicavam ou pudesse vir a prejudicar a formação acadêmica deles, contrariando muitas vezes a posição política dos pais. (Entrevista com a professora Margareth Arbués)

 

Os Jovens que se engajaram na participação política não eram oprimidos e trabalhadores, mas, em sua maioria, filhos da classe média e de donos de terras improdutivas (ou não) que buscavam, por meio da organização estudantil, condições de melhor interposição perante o país e o governo, no ensejo de se fazerem presentes como indivíduos da conternporaneidade.

 A principal preocupação que norteava esse engajamento era a busca da superação dos descompassos existentes entre o Tocantins e o restante do pais, nos aspectos político e cultural, pelo abandono a que ficou submetido o Norte. A luta por um Estado mais presente, no caso do setor educacional, com instalação escolas de nível médio e de autarquias estaduais de ensino superior em Araguaína, Porto Nacional, Gurupi e Porangatu, representa louros para a luta desses jovens.

Sobre o ME daquela época, a professora Margareth afirma:

 

Ele foi muito mais festivo, os estudantes de direito que vai encampar, existia pessoas que estavam ligados a alguns partidos, como o próprio PT, que já estava ali se consolidando, mas havia muita resistência dos estudantes a influência desse partidos. Quando o ME se consolida ele está muito mais ligado a partidos de direita como POT, e PFL, com lideranças ligadas a empresários e pequenos comerciantes. Mais tarde ê que a UEE vai ate lá por meio de do Gifvane e do Gifson Bueno, tentar organizar o ME em outras bases. Mas atê entt!Jo o ME era festivo. As reivindicações se davam em torno de mensalidades, enfim questões pra ajudar a conseguir verba do estado. No caso das outras instituições que eram públicas nt!Jo vi e nem ouvi nada de significativo enquanto estive lá. (Entrevista com a professora Maragareth Arbués)

 

As manifestações, quando havidas, não se conectavam às lutas da UNE no cenário nacional, ficando restritas a problemas locais, e não chegavam a ter um cunho ideológico. Os protestos estavam ligados à recusa de tratamento político na contratação de professores, não chegando a se radicalizar em decorréncia de uma compreensão de que a realidade e os acontecimentos são produto da situação política, econômica e social do Norte goiano.

A instalação das faculdades contribuiu, no entanto, para que chegassem à região professores desvinculados da política local, a exemplo de Gilvane Felipe, Romualdo Pessoa, Margaret Arbués, Verbena Lisita entre outros, com um histórico de formação acadêmica ligada à Universidade Federal de Goiás ou à Universidade Católica de Goiás, quase todos ex-líderes estudantis e militantes do Partido Comunista do Brasil.

O Partido dos Trabalhadores tinha pouca penetração no mundo estudantil, mas o Partido Comunista também se fez presente, com o deputado Edmundo Galdino, eleito pelo Bloco Popular do PMDB. Marcos Araújo, que na época era chefe de Gabinete do então deputado e responsável pela organização do partido no Norte goiano, afirma:

 

A eleição de Edmundo Galdino e o fato de Aldo Arantes ter sido o segundo deputado federal mais votado no Norte criou condiç()es de arejamento da democracia no Norte e foi possível organizar o partido em vários municípios, sendo que as idéias democratas eram mais fortes em Araguaína e Porto Nacíonal. (Entrevista com Marcos Araújo)

 

O dito arejamento democrático não chegou ao movimento estudantil no atual Tocantins. Os setores da sociedade de que provieram os votos do deputado eram formados por camponeses, por pessoas solidárias à luta pela terra e pela massa estudantil radicada em Goiânia, segundo a opinião de muitos entrevistados. A massa estudantil no Norte permaneceu despolitizada.

Ligado ao Bloco Popular do PMOB, o deputado Edmundo Galdino era apoiado pelas então lideranças estudantis da Universidade Católica de Goiás e da Universidade Federal de Goiás, o que lhe dava uma marca extremamente progressista e o ligava diretamente às idéias marxistas presentes no interior dessas universidades, por meio de alunos e professores, propiciando, assim, a conquista do apoio estudantil

Sobre o ME daquele momento, assim se expressa novamente a professora Margareth:

Existia alguns alunos mais ligados ao PT, mas estes logo foram queimados por outros alunos que eram mais ligados ao POT e ao PFL, na época os partidos que lideraram fortemente era o PMOB e o POT, e eles tinha lá os seus vínculos entre eles. Na época um dos grandes lideres era filho do presidente com Associação Comercial Local. Na verdade a Pedagogia, nunca esteve a frente do OCE, e os alunos do Oreito eram ligados muito aos partidos de direita. Não que estes partidos pudessem propor algo contra a instituição, muito pelo contrário, na verdade a direção lá era imposta pelo prefeito, a fundação era mantida pela prefeitura e internamente os alunos tinham vínculos, ou eram filhos de vereadores, funcionários etc., embora tivesse o PT ali que era ligado a CPT, a igreja local não se atreveu a tentar influenciar a faculdade, a não ser por uns dois ou trés alunos do PT, que acabaram mudando de lá tempos depois. (Entrevista com a professora Margareth Arbués)

 

 

 

A mudança desses alunos não foi por acaso. O processo de oxigenação da democracia, mesmo em setores como o camponês, durou pouco. Após a criação do estado do Tocantins, em 1988, o deputado Edmundo Galdino afastou-se das posições mais à esquerda e, em pouco tempo, no início da década de 1990, passou a fazer parte da base de sustentação do governo Siqueira Campos.

Este fato, segundo Marcos Araújo, fez que o crescimento das forças populares no Norte sofresse um refluxo, permitindo que a política conservadora tomasse conta do Estado.

A chegada do ensino superior criou condições para o surgimento do plano da universidade no Norte goiano. Tendo Foracchi (1977) como suporte dessa análise, pode-se afirmar que esse fato permitiu ao jovem contestar os padrões vigentes, buscando um equilíbrio de si como agente social. A proximidade com a faculdade, conforme enriquece o processo de socialização, permite a vinculação mais imediata que une a Universidade à sociedade que é a carreira profissional (Foracchi, 1972, p.74-76). No entanto, isto não se deu no Tocantins, uma vez que a chegada do ensino superior não contribuiu para modificar a apatia do estudante do Norte na década de 1980.

O ensino superior chegou ao Norte goiano um ano após a extinção da Cenog, durante o surto expansionista dos anos 1980, sob o governo de íris Rezende Machado. As primeiras cidades contempladas foram Araguaina, Porto Nacional e Gurupi.

Em Araguaina e Porto Nacional, foram criadas autarquias estaduais de ensino superior nas quais funcionavam os cursos de Letras. História e Geografia. Em Gurupi, instalou-se uma Fundação Municipal, com uma característica um tanto diferenciada, pois havia cobrança de mensalidades e eram ministrados os cursos de Pedagogia e de Direito.

No caso dos cursos ministrados em Araguaina e Porto Nacional, e mesmo o de Pedagogia em Gurupi, era clara a preocupação dos governantes de criar cursos que atendessem à demanda de formação de professores para o ensino fundamental e médio, uma vez que até então era grande a caréncia de professores qualificados.

Em Gurupi, sobretudo o curso de Pedagogia constituia-se em um loeus de movimentação estudantil, porém, com caráter frágil do ponto de vista da politização. No curso de Direito, esta caracteristica ficava mais nítida, já no curso de Pedagogia, havia um pouco mais de combatividade, e as entrevistas levam a concluir que este fato se deu em razão da origem dos estudantes. Segundo uma entrevistada.

O CA de Pedagogia enfrentou muito mais as questões locais do que os demais. Alguns eram engolidos pela direç!lo e pelas lideranças políticas. O CA de Pedagogia se mostrou mais.(Entrevista com a professora Margareth Arbués)

 

Embora mais combativo, o CA de Pedagogia não possuía a hegemonia no DCE, e suas lutas se restringiam a bandeiras locais e a principal era a luta contra a cobrança de mensalidades:

 

a principal era a luta contra a cobrança de mensalidade, e principalmente no curso de pedagogia, por ser um extrato de estudantes mais carentes, e no curso de direito também. Era a grande bandeira deles. No mais, as grandes mudanças que ocorreram no pais eu n!lo lembro de nada que o ME estivesse a frente das discussões ou se colocado frente a frente com essas questões. (Entrevista com a professora Margareth Arbués)

 

Já o  curso de Direito atendia a uma demanda dos filhos de comerciantes, pequenos empresários e profissionais liberais vindos do outros estados, que viam em tal curso possibilidade de, no futuro, ocuparem postos da burocracia no Estado.

No entanto, a chegada do ensino superior no Norte goiano não deu visibilidade ao ME de nível superior. No imaginário coletivo, não havia movimento estudantil no Norte na década de 1980. Muitos entrevistados, quando lhes era dito que a entrevista era para uma pesquisa sobre movimento estudantil, retrucavam mas que movimento estudantil? Lá não tinha movimento estudantil, o que se dava pela própria característica do novo momento.

Os estudantes do Norte goiano, na década de 1980. foram colocados diante de novos desafios, dentre os quais a luta por ensino superior de qualidade. Distantes dos grandes centros e premidos pelas características conservadoras da política regíonal, permaneciam em uma determinada inércia. No entanto, a presença do ensino superior criava na juventude a condíção própria de estudante do Norte. Entregar-se à condição de rebelde significava nesse momento, confrontar-se com a própria família e com as condições políticas às quais estavam submetidos.

O ME no Norte de Goiás, nos anos que precederam a criação do estado do Tocantins, foi o que se poderia qualificar de morno. Havia uma clara descontinuidade entre os estudantes cenoguianos que atuavam então em outras esferas da sociedade, em prol da criação do novo estado, e os estudantes da década de 1980, que passaram ao largo das lutas nacionais e pouco se envolveram em outras lutas. Mesmo no processo de concretização do estado do Tocantins foram meros espectadores, como demonstram os dados.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 111

MILITANTES E MILITONTOS: O MOVIMENTO ESTUDANTIL NO TOCANTINS (1988/2003)

 

Vida, e guerra é o que é: esses tontos movimentos, só,o contrário do que assim não seja. Mas, para mim, o que vale é o que está por baixo ou por cima - o que está perto e parece longe. Conto ao senhor é o que eu sei e o senhor não sabe; mas principal quero contar é o que eu não sei se sei, e que pode ser que o senhor saiba.

Guimarães Rosa

 

Todos querem ser donos - e ninguém sequer e dono de si.

Goethe

 

Este estudo sobre o ME do Tocantins segue as diretrizes com as quais se lê a história do ME nacional. Dessa forma, as relações com o Estado, a Igreja e os partidos políticos têm proeminência sobre os demais aspectos que contribuem para a consolidação/organização das entidades estudantis, ou que a impedem. A análise da esfera política realizada neste trabalho tornou-se necessária para apreender a formação do estado do Tocantins.

A ênfase às reestruturações sofridas pela Unitins, única instituição pública de ensino superior no estado permite que se não desvie do propósito inicial desse estudo, de que o Estado, por meio da direção da universidade, interfere cotidianamente no ME, e só o faz diretamente quando a direção se mostra com força inexpressiva para conter a rebeldia estudantil e segundo, por ser no plano da universidade que, segundo Foracchi (1977), o jovem encontra as condições propicias para o desenvolvimento da condição de estudante.

Neste sentido, compreender as constantes reestruturações que ocorreram na Unitins é mais fácil levando-se em conta os embates que se deram entre o público e o privado, e as formas corrompidas de administração da coisa pública que estão presentes na história brasileira, assim como na atual esfera política tocantinense.

Estes embates não ficaram restritos apenas à universidade.

Outros setores, como energia elétrica e outros serviços, foram privatizados, a exemplo do que ocorria na esfera federal. Este trabalho restringe-se à universidade, em razão de se estar buscando compreender a história do movimento estudantil.

         As     movimentações          estudantis          com organização       mais

consistentes ocorreram justamente durante os momentos decisivos das (re)estruturações da universidade ocorridas nos anos de 1996 e 1998. A criação do UEE do Tocantins, em 1996, foi impulsionada pela criação da Unitins e as primeiras manifestações estiveram ligadas ao destino da universidade.

As idas e vindas na estruturação da universidade, por sua vez é um dos resultados do embate entre o público e o privado e das especificidades da política do Tocantins, que, na atualidade, ainda guarda semelhanças com modelos históricos já ultrapassados, como o coronelismo e um paternalismo exacerbado.

A política no Tocantins ainda se caracteriza por formas corrompidas de administrar a coisa pública, no escambo da cidadania, e do voto, que se torna moeda de troca entre os governantes e os governados. As observações e entrevistas ainda mostram que esses vícios estão presentes tanto entre os líderes políticos quanto entre o povo.

 

3.1 Os embates entre o público e o privado: um confronto discursivo

 

A criação do estado do Tocantins, em 1988. pouca modificação provocou no ME ou em qualquer outro movimento social. Uma vez criado, o novo estado foi governado por José Wilson Siqueira Campos, um dos batalhadores por sua criação e ligado às grandes oligarquias rurais do Tocantins.

Siqueira Campos, ao assumir o governo, tratou de imediatamente construir uma imagem de libertador do Tocantins. As comparações com aqueles que participaram das lutas separatistas do passado eram constantes, sobretudo com Teotônio Segurado, considerado herói nos documentos oficiais, e cantado nos hinos cívicos do estado.

A construção da imagem de super-herói deu-se por meio de pelo uso da força de sua influência estado. A revista Veja, no ano de 2000, publicou uma reportagem que ilustra bem como Siqueira Campos construiu a uma forte campanha publicitária e de ser o primeiro governador do imagem de bom governante para o povo tocantinense:

 

Como primeiro governante do Estado, eleito em 1988, logo após a emancipação, Siqueira Campos teve a prerrogativa de indicar os três conselheiros do Tribunal de Contas do Estado. órgão responsável por aprovar as contas do governo. Também nomeou todos os desembargadores do Tribunal de Justiça e quatro dos sete integrantes do Tribunal Regional Eleitoral. Com uma parte substancial do Judiciário sob seu controle, o apoio de dois terços dos deputados estaduais e de mais de 90% dos prefeitos, sua palavra é uma ordem. E ai de quem desobedecer. (Veja, julho, 2000a, p. 82)

 

De posse de uma estrutura estatal fortíssima, o governador foi mais adiante, e utilizou o poder que possuía para conceder benesses aos amigos e familiares. Distribuiu terras, lotes, empregos e concessões das mais diversas. O processo de ínculcação chegou às escolas, nas quais as crianças aprendiam desde pequenas a cultuar a imagem do governador e de seu grupo político, como assinala a reportagem:

 

Agora no terceiro mandato, já governou o Estado durante oito de seus doze anos de existência. Nas três administrações, distribuiu terras e agrados aos correligionários, fez a alegria das empreiteiras e nomeou quase todos os cargos públicos disponíveis. Nas escolas públicas do Tocantins, os alunos estudam a história da região por meio de uma cartilha em quadrinhos distribuída pelo governo do Estado. Siqueira Campos ocupa mais de um terço das páginas e aparece como um herói popular. "A criança e os jovens são prioridade, com educação para todos, salas equipadas, computadores e vídeos profissionais", afirma o governador em sua versão gibi (Veja, julho 2000a, p. 82).

 

Dois anos de governo foram suficientes para Siqueira Campos criar uma blindagem em torno dos bens públicos do estado, de forma a utilizá-los em proveito próprio nas eleições seguintes. Com práticas de caudilho e dos antigos coronéis, amparado por meios modernos de comunicação e de todo aparato do Estado, o governador fortaleceu os amigos e perseguiu os adversários Nos termos da reportagem:

Siqueira Campos mandou apreender e incinerar a edição de um livro que o criticava. O autor, Rinaldo Campos, ficou preso por cinco dias. Há dois meses, durante uma solenidade no município de Araguaina, o governador atirou um microfone sobre um manifestante que gritava palavras de ordem contra ele. Depois, ordenou á Policia Militar que prendesse o rapaz, que só foi libertado sete horas mais tarde. (Veja, julho de 2000a, p 82)

 

O autoritarismo do governador fazia-se sentir em todas as esferas da sociedade tocantinense, como nas empresas particulares, sobretudo pequenos comerciantes tornavam-se vítimas do seu poder.

Como o Tocantins, no período em que pertencia ao Norte goiano, possuía uma sociedade agrária, o poder local dos municípios era dominado por grandes fazendeiros, que representavam uma classe média frágil, estruturada somente nas cidades alimentadas pela Estrada BR-153, com destaque para Araguaína e Porto Nacional. Ocorreram dois fatores: o surgimento da cultura de promiscuidade das relações público/privado, em que o público passou a ser visto como uma forma de obter vantagens pessoais e locus empregatício de amigos e familiares; o surgimento de uma paternalismo exarcebado e patogênico na sociedade

Não se trata porem de uma esfera pública no sentido dado por Habermas (1984), quando define o conceito de esfera pública em seu sentido moderno.

A redução da representatividade pública que ocorre com a mediatização das autoridades estamentais por meio de dos senhores feudais cede espaço a uma outra esfera, que é ligada a expressão esfera pública no sentido moderno: a esfera do poder público. (Habermas, 1984, p.31)

          

No Tocantins, as pessoas privadas podiam agir com independência do poder público, e sem serem fiscalizadas por ele, possuíam condições de estabelecer contratos independentes do Estado. Passou a existir então o método siqueirista de fazer política que lembra muito mais uma definição anterior de Habermas ao analisar o modelo de Esfera pública helênica:

 

A posição da polis baseia-se, portanto, na posição de déspota doméstico: sob o abrigo de sua dominação, faz-se a reprodução da vida, o trabalho dos escravos, o serviço das mulheres, transcorrem o nascimento e a morte; o reino da necessidade e da transitoriedade permanece mergulhado nas sombras da esfera privada. (Habermas, 1984, p.17)

 

É possível um paralelo entre o helenismo da Antiguidade clássica e o que ocorre no Tocantins no tempo presente? Como se explica que em tempos modernos, seja possível uma forma de governo que remete aos tempos do helenismo, em que existia o trabalho escravo, quando o reino da necessidade e da transitoriedade dos homens era governado pelo déspota doméstico?

Parte de tal explicação pode se encontrar na discussão anteriormente realizada sobre as origens do estado do Tocantins. Foi possível perceber que o Norte goiano era uma terra de ninguém, em virtude da ausência de políticas públicas e de gerência do Estado. A compreensão da política tocantinense só pode se fazer entendendo o papel desempenhado pelo governador Siqueira Campos e as estratégias por ele utilizadas, conforme já visto, para instituir um poder paternal e despótico no Estado.

Ao manter em suas mãos o poder de indicar praticamente todos os ocupantes dos cargos públicos do estado, o governador passou a agir como um pai que pune o filho que não o agradava. Esses fatores são suficientes para estabelecer um poder tão duradouro?

Siqueira Campos governou o Tocantins durante dez anos, e em seu segundo governo, formou uma grande coalizão denominada União do Tocantins (UT), como base de sustentação do governo

A utilização de meios modernos de inculcação, por meio do aparato do estado, sobretudo com distribuição de cartilhas, em que o governador aparece como um herói vivo, certamente contribuiu para tal. No entanto. destaca-se o papel da imprensa escrita e falada do Tocantins e sua relação com o poder público, que dificulta a formação de uma opinião pública crítica. Neste quesito, o governador não se descuidou, pois obras que o criticavam foram queimadas, como no tempo da Inquisição e autores de livros ou artigos foram ameaçados de prisão e mesmo presos. Assim, a história política do jovem estado do Tocantins nasceu com práticas já ultrapassadas de lidar com o público e com a sociedade, estabelecendo para o povo tocantinense o desafio de se organizar como sociedade civil, para vencer os hábitos promíscuos, advindos dos tempos coloniais e agravados pelo uso indevido do poder público, em busca de vantagens pessoais para manter-se nos postos conquistados.

Os estudantes dos Tocantins representam uma parcela da sociedade que enfrentou esse poder consubstanciado como Estado. No entanto, por serem em sua grande maioria originários do próprio estado do Tocantins, como membros dessa sociedade, imprimem muitos dos costumes e práticas corrompidas de se fazer política; porém em vários momentos, rebelam-se, tentam organizar-se e protestam, como mostram os dados mais adiante.

Nas primeiras eleições ocorridas no novo estado' o embate político deu-se entre o grupo de Siqueira Campos e forças do PMDB, sobretudo o grupo de José Freire Júnior, que não se constituía como força popular pela composição ampla de forças no interior do PMDB. Esse grupo era um dos mais conservadores e também era composto de grandes fazendeiros.

Desta forma, o poder político no novo Estado não possuía expressividade popular. Tanto o grupo no poder, quanto o núcleo forte da oposição eram formados de pessoas ligadas às grandes oligarquias ou eram membros delas.

O primeiro mandato de governador definiu as linhas básicas de construção do novo estado e instituiu a Unitins como universidade pública e gratuita, mantida por uma fundação. Com uma forma conservadora de governar e apoiado nas elites, Siqueira Campos não conseguiu a reeleger-se, sendo derrotado nas eleições seguintes.

Em 1992, foi eleito pelo PMDB o governador Moisés Avelino, apoiado pela maioria dos partidos de esquerda do Tocantins. As primeiras atitudes do governador, ao exercer o mandato, contrariaram até mesmo aqueles que o apoiaram.

As mesmas práticas políticas foram mantidas intactas, como perseguição àqueles que votaram no candidato derrotado, utilizando-se como instrumentos os postos de emprego do setor público no qual o estado conseguia ter influência.

O governador decretou intervenção na universidade e no setor educacional, trocando a maioria dos diretores de escola, e influenciando as novas nomeações de diretores de unidades da universidade, e, outros cargos-chave. Esse tipo de atitude levou a professora Maria do Rosário Cassimiro que havia chegado no Tocantins, no intuito de criar uma universidade moderna a renunciar ao cargo de reitora.

Estas ações do então governador Moisés Avelino mostram que, na atualidade, ainda não se constituiu um terceira via com força suficiente para fazer frente a política oligarquica do estado. Talvez seja um reflexo dos constantes refluxos também da esquerda goiana, que ainda não conseguiu até o presente momento se firmar como real alternativa ao pode instituído. No ano de 2000, PT, PC do B, PPS e POT tinham juntos dois deputados estaduais e a prefeitura de Goiânia. No Tocantins, após as eleições de 2002, já com o chamado efeito Lula, esses partidos passaram a administrar a prefeitura de Colinas e elegeram um deputado estadual, ainda assim em coligação com o PMOB.

Não é possível compreender a desmobilização política sem antes compreender a realidade do estado. Os estudos a respeito de sua formação e os dados colhidos nesta pesquisa mostram que a esfera política é uma das que mais influencia o processo de desmobilização da juventude estudantil e dos demais movimentos sociais. A política influencia todos os setores da sociedade com a presença forte do Estado, por falta de uma sociedade civil organizada e de consciência social crítica no seio do povo, aliado ao pequeno desenvolvimento industrial e do setor de serviços, que contribuem para facilitar o processo de cooptação de lideranças estudantis pelo governo.

As constantes oscilações da universidade e mesmo o processo de industrialização e do setor de serviços seguem o ritmo da política local na sua interface com a política global. O governo local assume características, às vezes, de oligarquia, e outras, de coronelismo explícito, mesclados, um e outro, com traços da modernidade pela presença dos recursos tecnológicos de gestão de recursos humanos e do mundo da informação.

A compreensão de lanni (1999) do moderno príncipe eletrônico parece adequada para o entendimento da realidade política do Tocantins, sobretudo a partir do segundo governo Siqueira Campos. O autor identifica no governante moderno, que utiliza os meios modernos de tecnologia da informação, o príncipe eletrônico, que substitui o príncipe gramsciano, e mesmo o príncipe maquiavélico.

 

 

Segundo o autor, o novo príncipe surgiria com base em algumas premissas:

nas sociedades industrializadas, centrais ou dominantes, subsistem desigualdades de todos os tipos, quando se mesclam diversidades e antagonismos, alimentando tensões e intolerâncias, estereótipos e preconceitos. Simultaneamente, os estudos demonstram que o Estado-nação está sendo seriamente desafiado pelos processos e pelas estruturas que constituem o Globalismo. (Ianni, 1999, p. 112)

 

De acordo com lanni (2000), os desafios históricos e sociais da globalização em curso são diferentes das respectivas épocas históricas, em que os demais arquétipos de governantes sintetizaram o que era especifico da política

 

Na época da globalização, alteram-se quantitativa e qualitativamente as formas de sociabilidade e os jogos das forças sociais, no ámbito de uma configuração histórico-social da vida, trabalho e cultura na qual as sociedades civis nacionais se revelam províncias da sociedade civil mundial em formação. Nessa época, as tecnologias eletr6nicas, informáticas e cibernéticas impregnam crescente e generalizadamente todas as esferas da sociedade nacional e mundial; e de modo particularmente acentuado as estruturas de poder, as tecnoestrutruras, os think-tanks, os lobbies, as organizações multilaterais e as corporações transnacionais, sem esquecer as corporações da mídia. Este pode ser o clima em que se forma, impõe e sobrepõe o principe eletr6nico sem o qual seria difícil compreender a teoria e a prática da pol/tica na época da globalizaçilo.(lanni, 2000a, p.143)

 

Quando construiu seu esboço teórico sobre o surgimento do príncipe eletrônico, lanni (2000) estava com os olhos voltados para a política global, mas consciente das contradições existentes nas relações de poder entre as nações. Assim, define o príncipe eletrônico como o resultado da junção de uma série de condições: o processo de globalização do capitalismo, aliado ao desenvolvimento das tecnologias eletrônicas e cibernéticas e todos as transformações em curso que constroem novos quadros e novas formas de ver o mundo e um novo e imenso palco histórico:

 

o príncipe eletrônico, não é nem condottiere nem partido político, mas realiza e ultrapassa os descortinos e as atividades dessas duas figuras clássicas da política. O príncipe eletrônico é uma entidade nebulosa e ativa, presente e invisível, predominante e ubíqua, permeando continuamente todos os níveis da sociedade, em âmbito local, nacional, regional e mundial, sempre em conformidade com os diferentes contextos socioculturais e político-econômicos desenhados no novo mapa do mundo. (Ianni, 2000a, p 148)

 

O caso do Tocantins parece enquadrar-se em tal  interpretação. A grande parte da produção estadual provém da agricultura. O setor de serviços e o industrial são extremamente frágeis, tendo no setor público o grande nicho empregatício.

O arcaico e o moderno, as práticas dos coronéis, o discurso da modernidade de liberdade e de justiça social, a modernização das instituições e o atraso nas relações humanas encontram-se e convivem mesmo que de forma conflituosa, conforme o slogan Estado da livre iniciativa e da justiça social. A característica agrária com grandes latifúndios e com uma indústria quase incipiente propicia que o estado tenha uma grande força de coerção sobre os indivíduos, como também sobre os movimentos sociais e sobre a imprensa escrita e falada.

Uma análise das notícias veiculadas nos meios de comunicação revela que quase não houve críticas substantivas ao governo nos últimos anos, o que representa a influência dos detentores do poder estatal sobre a sociedade civil, a imprensa e os movimentos sociais, sobretudo com a utilização de novas tecnologias. lanni (2000) constata:

Ao dispor de novas tecnologias, os líderes, os políticos, os gerentes, as organizações, as empresas, as agências governamentais, as organizações religiosas e outros, individuas e entidades, direta e indiretamente empenhados na política, passam a atuar além dos partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais e correntes de opinião pública. Estas instituições "clássicas" da' política são instrumentalizadas, transformadas,            mutiladas ou  simplesmente marginalizadas. Em escala crescente, predominam as novas tecnologias da comunicação, informação e propaganda, às vezes com objetivos democráticos, mas em outras e muitas vezes com objetivos autontários. Sim, porque as novas tecnologias estão organizadas em empresas, corporações ou conglomerados, como empreendimentos capitalistas articulados com grupos, classes ou blocos de poder predominantes em escala nacional e mundial. (Ianni, 2000, p.158)

 

O texto citado permite afirmar que o Tocantins passou então a constituir-se em um espaço de contradições políticas. De um lado, os governantes Siqueira Campos e, em seguida, Moisés Avelino manifestavam uma grande preocupação em modernizar o estado e de outro, a manutenção das formas arcaicas de fazer política.

Na verdade, o Estado e os partidos políticos do Tocantins aparecem sob a sombra do dirigente e do grupo político que o apóia com maior ênfase, sobretudo no caso de Siqueira Campos, e no caso da oposição, com menor força em razão das personalidades de Moisés Avelino e José Freire Júnior.

Todos os grupos e as práticas políticas são muito parecidas Leal (1995) registra que a nomeação de professores no estado, no ano de 1993, evidenciam como as práticas políticas ocorriam:

 

No estado do Tocantins, como, em outras regiões do Brasil, o professor leigo da zona rural se encontra quase que na sua totalidade ligado á esfera municipal, onde as políticas sociais parecem ser meras ações paliativas o que indica, que possivelmente as decisões educacionais em muitos desses municípios estilo vinculadas á política local, e os recursos destinados à educação possivelmente atendem a interesses especificas, como rendimentos eleitorais e prestigio político, meios efetivos para a criação dos chamados currais eleitorais e para o estabelecimento do voto de cabresto. (Leal, 1995, p.77)

 

A experiência alternativa de exame vestibular realizado em Arraias e Tocantinópolis está permeada por esses costumes, e talvez seja uma das razões de tão pouca duração desta experiência (Oliveira, 1996).

As forças populares e progressitas representadas pelo PT e segmentos dos movimentos pastorais e eclesiais da região, só vieram apoiar o candidato Moisés Avelino no segundo turno das eleições.

Grosso modo, a base de apoio do novo governador constituía-se pelo PMDB, no PDT e no PSDB, partidos que se opunham ao grupo de Siqueira Campos, mas que não possuíam uma base popular.

Uma vez eleito, o governador não fez diferente de seu antecessor. Os destinos da universidade foram influenciados pela realidade política existente. Criada como fundação no governo Siqueira Campos, transformou-se em autarquia no governo seguinte, o de Moisés Avelino (PMDB), que impôs á universidade uma completa reestruturação dos seus quadros e de objetivos. No entanto não há registros de reação por parte dos estudantes. Moretz-Sonh (2002) afirma:

 

De imediato, o governador desautorizou a renovaçilo do contrato de todos os funcionários nilo concursados do Estado, incluindo funcionários docentes da UNITlNS, além de reter os vencimentos a titulo de levantamento dos bens da UNITlNS. (Moretz-Sonh, 2002, p. 77)

Dentre as conseqüências das ações políticas do governador, a renúncia da reitora Cassimiro e as mudanças no projeto original da Unitins tiveram um certo impacto na sociedade tocantinense. Os jornais publicaram diversas matérias tratando da renúncia da reitora e de denúncias feitas por ela sobre as ingerências políticas no interior da universidade, o que segundo a ex-reitora impedia que cumprisse o seu papel.

O retorno de Siqueira Campos ao poder, em 1994, não mudou os destinos da universidade, pois os dois grupos majoritários da política mantinham uma matriz ideológica quase comum. Por detrás dessas disputas políticas, vicejava uma concepção de Estado que pouco se diferenciava nos dois blocos, a de que o Estado não é o maior responsável pelo ensino superior público Essa concepção, na verdade, prevalecia com nuances mais fortes no grupo de Siqueira Campos, já o grupo do PMDB adotava uma concepção privatista, porém, menos liberalizante.

Ao retornar ao poder, o governador Siqueira Campos mais uma vez resolveu reestruturar a Universidade. Em todas as áreas, o governador foi muito agressivo. Aprofundou a dependência da população ao poder público, buscou mão-de-obra de outros países (médicos e professores de Cuba) e em outros estados do Brasil, o que era mostrado como esforço do governador em colocar o estado na rota da modernidade.

A reestruturação da universidade seguia o paradigma adotado no estado: profissionais vindos de fora, convênios internacionais e um paulatino e sutil processo de privatização. Entre 1996 e 1998, a universidade assinou mais de dez convênios com organismos internacionais, nacionais e estaduais.

A universidade passou a viver um momento de euforia. Em 1996, e em 1998, foram realizados congressos e jornadas científicas envolvendo todos os alunos da universidade. Nos campi, ocorreram simpósios por áreas, com palestrantes de outras universidades. Em 1998, a Unitins concedeu incentivo para publicação de livros, cujos autores eram seus professores e em 1999, um projeto ousado de qualificação de professores do ensino médio, em convênio com a Secretaria Estadual de Educação (Seduc), instituiu os cursos Unitins/Seduc, para formar licenciados nas mais diversas áreas.

Durante esse per iodo, foi grande o incentivo para que os professores se qualificassem em nível de mestrado e de doutorado, culminando com o oferecimento, pela própria universidade, no ano de 2000, dos cursos de mestrado interinstitucional nas áreas de Produção Vegetal, Educação Brasileira Letras e Literatura. Estas realizações foram produtos da nova concepção, dos avanços apregoados e do discurso por uma universidade moderna, mas, ao lado de tudo isso, na verdade, aconteceu também um processo de privatização da única universidade pública existente no estado, o que, no primeiro momento não foi compreendido com clareza pelos estudantes.

A reestruturação iniciada, em 1996, pelo então reitor Osvaldo Della Giustina, em um primeiro momento foi aplaudido por uma grande maioria de alunos e professores, mas conduziu a universidade à cobrança de mensalidades e também à instituição da representação estudantil Essa representação, instaurada nesse momento, aconteceu nos mesmos moldes da representação em períodos anteriores da história brasileira, um instrumento que foi utilizado pelo regime militar como meio de desmobilização do ME.

Com base no novo regimento, a universidade deveria ter um conselho universitário composto por diretores e representantes dos alunos por curso, e, cada congregação deveria ter em eleição distinta das eleições do ME, a qual deveria ser conduzida pelas direções das unidades

Além das modificações da universidade, no período de lançamento da nova proposta, foi feita uma propaganda maciça entre os estudantes pelo jornal da Assessoria de Comunicação da universidade, Universo, com o objetivo de mostrar as possibilidades de a Unitins vir a ser um modelo de universidade a ser seguido em outros estados do pais, construindo-se, assim, um discurso do que deveria ser a universidade pública no Tocantins a partir de então.

A nova concepção apresentada pelo reitor Oswaldo Della Giustina nas palestras e pelo Universo era de uma universidade transformadora, dinâmica, moderna, e, verdadeiramente pública, o que era feito por meio de um intenso jogo de palavras que mais confundia do que esclarecia os estudantes. Em seguidos editoriais, o reitor utilizou diversos referenciais teóricos para justificar a concepção de universidade instalada.

Citações de Habermas e conceito de esfera pública burguesa eram utilizados para tentar esclarecer o que se podia chamar de público ou de privado. Em meio a um constante combate às formas atrasadas de concepção de Estado, esse discurso acabou por não se sustentar, culminando com a saida do reitor da direção da Universidade.

A reitoria construiu o discurso oficial como se segue Editoriais defendiam a concepção de universidade em três pontos, exatamente aqueles que eram motivos de críticas: a natureza pública ou não, a cobrança por serviços prestados, e a democratização do acesso. Em relação ao caráter público da universidade:

 

Na verdade não há como entender o contrário, a não ser por razões de velhos ideologismos ou de interesses demagógicos, ou por confusões, fruto da ingnorância ou da má fé, como quando se confunde o público com Estatal, (ou o privado com o particular). (Universo, 1998a, n. 02, p. 2)

 

As palestras dirigidas aos alunos eram repletas de termos eloqüentes Diretores e professores defendiam essa concepção, citando Habermas, Hegel e outros. Os estudantes, sem conseguir formular de início um discurso que se contrapusesse ao oficial, responderam com faixas escritas A Unitins é hermafrodita.

Outras vezes, o discurso oficial recorria à História do Brasil para enfrentar o que chamava de desinformação estudantil.

 

Tais confusões podem até ser compreendidas, também a partir do fato de que, pouco temos tido de sociedade livre, democrática, em nosso pais. Assim 3 que neste século, primeiro a ditadura Vargas, durante 15 anos, e depois ao Regime militar, durante mais vinte anos, venderam a sociedade brasileira a idéia do Estado Novo, depois do Brasil, GRANDE POTÊNCIA, representada por um estado forte, sem sociedade. Compreende-se que o Estado Novo, e o Estado Grande Potência tenham feito adeptos. (Universo, 1998a, n, 2, p. 02)

 

Sobre a cobrança pelos serviços prestados, assim se explicava o reitor:

 

Primeiro com se viu a UNITlNS é Pública. mas não estatal. Segundo entende-se a alegação. também. a partir da nossa tradição paternalista, graças a qual os mais poderosos do poder. da riqueza ou do saber. por tradição vivem à custa dos favores do Estado, enquanto cresce O• número dos excluídos: os analfabetos ou semi-alfabetizados. a quem o Estado não garante gratuitamente e de nenhuma outra forma. sequer, a educação básica, os sem terra, os sem teto, os sem trabalho, sempre os mais fracos. Os mais fortes estilo ai, gozando dos favores do Estado. (Universo, ano I, n, 02, 1998b, p. 02)

 

Nos termos do editorial a cobrança dos serviços prestados pela Unitins, incluído a mensalidade, era uma forma de evitar que os mais fortes se utilizassem dos serviços do Estado, e alegava-se que a universidade se colocava a serviço dos mais fracos. Parece que esse não era o caso dos alunos da Unitins. Um ano depois de iniciada a cobrança de mensalidades, a maioria dos estudantes estava inadimplente, por não ter condições de arcar com os custos.

O reitor assim se expressava:

 

As Universidades gratuitas atendem, no Brasil, a 23% dos estudantes e essa gratuidade consome em torno de 70% dos recursos do ME C, destinados a educação. Os 77% restantes, freqüentemente os mais necessitados, não tem qualquer apoio governamental, a não ser o precaríssímo sistema de Crédito Educativo, por meio de da Caixa Econômica Federal. O Modelo UNITlNS, instalado pela nova Universidade do Tocantins, quebra esta clamorosa injustiça. Assim é que a contribuição fixada para os alunos representa apenas 30 % de seu custo efetivo. Desta forma a UNITlNS, propicia a todos 70 % de gratuidade. Para os alunos que comprovarem a impossibilidade de pagar esses 30 %, no entanto, o Estado instituiu um sistema de bolsas reembolsáveis, que garante a todos permanência na Universidade. (Universo; 1998b, n. 03, p. 03).

 

Após um certo período, os estudantes iniciaram o processo de uma construção discursiva, em que procuravam fundamentar a defesa da universidade ou da não cobrança de mensalidades, com base nos conceitos de público versus privado, mostrando as contradições do discurso oficial que apresentava o Estado como da livre iniciativa e da justiça social, mas ao mesmo tempo mostrava-se excludente. Por não conseguirem pagar as taxas referentes à matricula e às mensalidades, alguns estudantes recorreram à justiça.

No entanto, todas as ações impetradas foram julgadas favoráveis ao governo, tanto as que se referiam à cobrança de taxas de matriculas como de cobranças de mensalidades. A direção da universidade aproveitou-se do episódio para desmobilizar os estudantes, acusando o advogado responsável pelas ações, e ex-presidente do DCE, de demagogo e de estar usando os estudantes para promover-se politicamente. Em reportagem sobre as ações, o Universo assim agurmentava:

 

Tem sido moda de alguns que fazem do exerclcio de usar os estudantes em beneficio próprio, objeto de demagogia, induzi-los a entrar com ações judiciais contra qualquer contribuição financeira destinada á Fundação UNITlNS. Desde que a fundação foi criada, foram ajuizadas 12 açães por esses contestadores. Até hoje nenhuma delas teve ganho de causa. (Universo, 1998b, p. 3)

 

A construção discursiva dos estudantes mostrou-se frágil perante as ameaças veladas, e com pouca estrutura para o enfrentamento, o ME acabou por sucumbir aos poucos ao processo de cooptação Em artigo publicado pela Assessoria de Comunicação sobre o resultado das ações judiciais, o reitor assim se manifesta:

Desde o ano passado, além de liminares negadas de inicio, por juizes singulares, o tribunal de justiça vem suspendendo liminares concedidas em primeira instância, às ações movidas por estudantes, quase sempre os mesmos. É o que comprovam alguns despachos que transcrevemos a seguir, dentre muitos, com o agravamento que esses mesmos estudantes engajados pelos que prometem mundos e fundos vêm depois solicitar à UNITlNS, com desculpas de toda ordem, que a Universidade renegocie suas dividas, induzidos que foram pelos falsos líderes. A Fundação vem negociando, mas poderá não fazê-lo se a má fé persistir em tumultuar a Instituição.(Universo, 1998b, n° 03, p.03)

O embate entre duas correntes, a que defendia o público como sinônimo de gratuidade e a que alegava que a gratuidade não era necessária em uma universidade pública, conseguiu transferir o problema para o poder central Em 2000, iniciou-se o processo de federalização da Unitins.

A UNE, entidade máxima dos estudantes, pouco participou dos embates tocantinenses. O momento mais importante da luta estudantil foi a realização de um fórum de debates sobre o processo de estruturação da Unitins. A programação de abertura do evento, que começou com todos os presentes cantando o Hino Nacional e rezando o Pai Nosso, de mãos dadas, terminou com uma posição tímida do diretor de Políticas Educacionais da UNE, que se limitou a fazer um histórico das tentativas privatistas e da luta da entidade que representava em defesa da universidade pública. Houve muitas trocas de acusações entre os lideres estudantis locais e os representantes do governo no Fórum. (Diário do Tocantins, p. 315, abro 2000)

 

3.2 A importância estratégica da Unitins e o discurso dos estudantes

 

Sem dúvida, a criação do estado do Tocantins representou um avanço para a população do Norte. O Estado passou a se fazer presente ao país e, de imediato, foram tomadas medidas visando diminuir o fosso que existia entre a região e o restante do Brasil. Em 1991, esse fosso pode ser i lustrado com os dados levantados para a elaboração do Plano Decenal de Educação Para Todos (Brasil, Mecãnep, 1992).

A taxa de mortalidade infantil no estado era de 10,2%, ao passo que a média brasileira era de 3,9%. O analfabetismo no Estado era de 63%, atingindo 83 % r,a região norte do estado, o chamado Bico do Papagaio. O ensino fundamental contava com 193.460 estudantes, dos quais 19% não chegavam a concluir essa etapa de formação. A área municipal contava com 93 mil matriculados e uma evasão de 20,92%, o que significa um número de 19.665 crianças que abandonavam a escola. O agravante maior era que 55% das crianças na faixa etária obrigatória não tinham acesso à escola (Brasil, Mec/lnep,1992).

Em 1992, quatro anos após a criação do estado, o ensino de nível médio contava com 14616 matriculados, dos quais 846, ou 578% não chegavam a concluir essa etapa de ensino. Do total de 12156 professores, 10.919 (89,82%) atuavam na primeira fase do ensino fundamental, e desse total, 5,053 (46,27%) eram professores leigos, dos quais uma quantidade considerável sequer haviam cursado o ensino fundamental (Brasil, Mec/lnep,1992).

Estes dados explicam a críação da Universidade do Tocantins e a implantação dos seus primeiros cursos. O curso de Pedagogia em Guaraí, Tocantinópolis e Arraias tinha o objetivo de alterar essa realidade. Havia uma necessidade premente de formação de professores para o ensino fundamental, sobretudo para as séries iniciais. Nos anos seguintes, com a aprovação da lei nO 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996, que estabeleceu as diretrizes e bases da educação nacional (LOB), e com a política da erradicação de professores leigos até a ano de 2007, surgiu uma modalidade de formação de professores que incrementou o ensino superior no Tocantins, o regime especial Unitins/Seduc.

A professora Maria do Rosário Casimiro ocupou o cargo de reitora na Unitins, com a promessa do então governador Siqueira Campos de que teria amplas condições para realizar na Unitins, o que não havia conseguindo realizar na UFG. Entretanto a professora renuclou ao cargo poucos meses depois, lamentando a interferência da política partidária no interior da universidade. Em suas próprias palavras:

 

Aliás, a experiência me demonstrou que Universidade e política silo coisas incompatíveis. Já o grande fundador da UNICAMP, professor Zeferino Vaz, dizia que quando a política partidária entra pela porta da frente da Universidade a competência sai-lhe pela porta dos fundos. (apud Moretz-Sonh, 2002, p.78).

 

A saída de Cassimiro da reitoria, no final do ano de 1992, foi a primeira de uma série. Da criação da universidade ao término do governo Avelino, a universidade teve seis reitores, e, entretanto, os estudantes não se mobilizavam para resolver essa situação caótica. Por quê? O que dificultava a mobilização dos estudantes para mudar o posicionamento desses reitores? Por que, muitas vezes, os alunos sequer tomavam conhecimento dos motivos que provocavam as mudanças no reitorado da universidade?

A resposta pode estar no fato de que, nesse período, o ME do Tocantins começava a ser organizar. Durante o governo de Moisés Avelino, houve reação tímida dos alunos de Arraias e Tocantinópolis, contra a mudança do modelo de seleção para o concurso vestibular. No Centro Universitário de Arraias, encontrava-se em processo de organização o Centro Acadêmico de Pedagogia, registrado em cartório no dia 7 de outubro de 1993. No entanto, a reação dos estudantes era ainda embrionária. Os professores ligados ao grupo político do PMDB, e liderados pela professora Magda Suely hegemonicamente compunha a direção do campus, e se encarregaram de acalmar os ânimos dos alunos, não permitindo maiores resistências.

Em 1998. estudo realizado por alunos do curso de Matemática sobre a origem social dos estudantes mostrou que, em Arraias, a maioria dos alunos se originavam de famílias tradicionais. No entanto, a configuração estudantil nesse campus começou a se modificar a partir de 1994, quando uma grande parcela de alunos do Nordeste goiano, sobretudo dos municípios de Campos Belos e Monte Alegre, passou a sobressair na vida estudantil universitária arraiana (Unitins, Campus de Arraias, 1998)

Em 1994, a Unitins contava com dez campi e vinte e três cursos. No entanto, as experiências alternativas de seleção só foram realizadas em Arraias, Tocantinópolis e Guaraí. Os demais campi Miracema, Porto Nacional, Colinas, Paraíso, Araguaína, Gurupí e Porto Nacional - foram submetidos ao processo seletivo tradicional de outras universidades, pelo sistema vestibular.

Presente na reestruturação de 1993, já havia um processo de mudanças na universidade que, aos poucos, foi se desvelando para os estudantes, professores e para a sociedade.Della Giustina então reitor, para legitimar a nova concepção, apresentava a Unitins como modelo de universidade moderna, ágil, e que permitiria corrigir as injustiças sociais como a dificuldade de acesso dos mais humildes ao ensino superior. A Unitins era então considerada:

 

Pública com acessos eqüitativos, participativa. com responsabilidades distribuídas, autônoma para servir à sociedade, ao conhecimento, e aos cidadãos que a demandam. (Jornal do Tocantins, 10 a 12/11/1996), (grifas do autor)

 

A cobrança de mensalidades estava bem explícita nos discursos oficiais. Em nota distribuída à imprensa e enviada para todos os campi em formato de informativo, o reitor afirmava:

 

Se, apesar da contribuição dos poderes públicos, das instituições privadas co-instituidoras e co-mantenedoras, por meio de incentivos existentes, contratos de serviços e de outras formas, restar ainda a necessidade de contribuições dos alunos, essas contribuições serão orientadas sobre tudo, a criação de um fundo de democratização de oportunidades para os mais carentes, de modo que se supere o atual privilégio odioso que caracteriza o Brasil. Onde os mais aquinhados tem maiores oportunidades de acesso á Universidade, o conseguem por meio de sacrifícios enormes, de trabalho simultâneo, de deslocamento, e de escolas ás vezes de segundo categoria. (Universo, 1998a, p.3)

 

Em 1996, foi instituída a cobrança de mensalidades para os alunos que seriam selecionados no ano de 1997. Nesse mesmo ano, já houve manifestação estudantil intensa em todos os campi da universidade, destacando-se as ocorridas em Tocantinópolis, Palmas, Araguaina e Porto Nacional.

Em Tocantinópolis, os estudantes bloquearam as estradas que dão acesso à cidade, na tentativa de chamar a atenção da sociedade para o que estava acontecendo na universidade. Em Porto Nacional e em Palmas, os estudantes fizeram passeata em direção às sedes dos poderes públicos.

Os campi de Arraias, Tocantinópolis, Guaraí e Colinas apresentavam um motivo a mais para que seus estudantes se mobilizassem. Constava no plano de reestruturação da Universidade a transferência dos cursos ministrados nesses campi para Palmas.

Em Colinas, onde o prefeito era do PT e oposição ao governo Siqueira Campos, para que fosse mantido o curso de Direito, houve forte reivindicação da população local, e a prefeitura acabou por assumir a manutenção da universidade, criando a Fundação Municipal de Ensino Superior de Colinas.

Embora os campi de Arraias, Tocantinópolis e Guaraí tivessem ficado um ano sem a realização do exame vestibular, o governo voltou atrás e manteve os campi na estrutura da universidade, na tentativa de incorporá-los à universidade federal que estava em processo de criação. As movimentações dos estudantes nesses campi mobilizou a sociedade civil e os políticos, contribuindo para a sua manutenção.

Já a cobrança de mensalidade foi instituída em 1997 e suprimida no ano de 1998. As razões conhecidas para a supressão estavam presentes em várias entrevistas, e se constituíram em uma arma utilizada pelo governador Siqueira Campos para garantir sua reeleição. Naquele ano, não somente a cobrança de mensalidades foi suprimida, como também foram perdoadas as dívidas de todos os estudantes que estavam inadimplentes com a universidade.

A cobrança de mensalidade desnudou o caráter neoliberal das reformas governistas e mostrou a verdadeira face das reformas e das contradições de um governo que pretendia levar ao Tocantins à modernidade e alcançar a justiça social com base no livre mercado. Um ano depois, um grande número de estudantes continuavam inadimplente, o que constituía uma prova factual da necessidade de o Estado se responsabilizar pelo ensino superior público. Em um misto de modernidade e atraso, a inadimplência dos estudantes foi utilizada como arma política eleitoral.

O governo, entretanto, além de manter um. discurso em defesa do novo modelo de universidade, utilizava-se de outros mecanismos como cooptação, pressão e persecução política que provocaram uma cisão no ME do Tocantins. Uma parte dos estudantes manteve um discurso de contestação ao governo e outra parte usava de um discurso semelhante ao governista e dizia que a situação da universidade era a melhor para os próprios estudantes.

O primeiro grupo era representado pelo ME organizado, e que, no processo de negociação da greve, conhecida como SOS-Unitins, era formada pela Comissão Multicursos, dirigida pelo presidente do DCE. O outro grupo materializou-se na constituição da Comissão Pró-dialógo e tinha como meta resolver as diferenças entre os estudantes sobre o destino da universidade e sua relação com o governo, por meio de um diálogo de amigos como definiu mais tarde o governador Siqueira Campos.

A existência do crédito educativo que, segundo o governador seria o instrumento de conceder acesso ao ensino àqueles que não pudessem pagar, se transformou em meio de coação política, como mostra do presidente do DCE, em entrevista a um jornal local:

 

O presidente do Diretório Central dos Estudantes da UNITINS, Élsio paranaguá, informa que o governador do Estado do Tocantins, Siqueira Campos, durante uma manifestação de estudantes das UNlNTlNS em Gurupi, no domingo 02 de abril, ameaçou-os de perda do crédito educativo. Para Élsio, “O governador quer que o universitário que não se adequar as normas imposta por ele, passe por uma punição rigorosa. Ele acha que nós temos que aceitar calados, que a nossa única Universidade gratuita, seja entregue á iniciativa privada” ressalta. (DCE denuncia agressão a estudantes. (Primeira página p. 3 abri ,2000)

 

As retaliações iam além das armas criadas pelo próprio governador. A influência do poder político do governante fazia-se sentir em conselhos para donos de empresas e supermercados, lojas, e outros serviços para que não dessem empregos aos alunos rebeldes.

Por outro lado, a recompensa para os alunos 'considerados compreensivos pelo governo como sendo o futuro do estado. Sobre eles os estudantes que participavam da comissão Multi-curso representada pelo DCE, Centros Acadêmicos e Das assim afirmou: os integrantes desta comissão são funcionários ou filhos de funcionários de gabinetes de deputados e vereadores, e cargos comissionados. (Primeira Página, abril p. 06, 2000a).

A posição da Comissão Multi-cursos e da Comissão Pró-diálogo diferenciavam-se em diversos aspectos. A primeira exigia do governo a manutenção de uma universidade pública e gratuita no estado, e a segunda aceitava negociar o acesso dos estudantes ao ensino superior, mediante a instituição de créditos educativos e outros mecanismos, como a prestação de serviços.

Com o avanço da luta pela criação de uma universidade federal no estado as duas comissões apresentavam pontos comums, e o próprio governo passou a encampar a luta pela federalização da Unitins.

 

3.3 Socorro!!! Privatizaram o ensino superior no Tocantins

 

Na década de 1990, como já foi dito, o momento em que a juventude tocantinense se mobilizou de forma a se fazer presente no cenário político com uma certa força, ficou conhecido como SOS-Unitins.

O movimento nasceu com o objetivo de defender a Universidade do Tocantins contra as investidas neoliberais do governo Siqueira Campos, que dentre as diversas propostas de reestruturação da universidade, em 1998, instituiu a cobrança de mensalidades. O auge do movimento ocorreu em 1998, mas há registros de mobilização de estudantes desde o início do funcionamento dos cursos, com o objetivo de participar da construção da universidade.

         Em    1995,         a       reação dos estudantes       perante as

transformações ocorridas na universidade, sobretudo o anúncio da cobrança de mensalidades, prenunciava que os estudantes se fortaleciam. Grassavam no meio estudantil idéias políticas, polarizando-os. Os centros acadêmicos intensificavam o debate sobre a situação da universidade e passaram a lançar informativos com notícias, na tentativa de levar os estudantes a compreenderem as mudanças que estavam sendo realizadas. Os estudantes tentavam construir um discurso mais elaborado, que se contrapusesse ao discurso oficial da reitoria.

No entanto, o crescimento dos protestos estudantis não amedrontou o governador, que afirmou várias vezes em jornais locais que ele permitia as manifestações, pois afinal o Tocantins era o Estado da democracia, da livre iniciativa e da justiça social, referindo-se ao slogan do seu governo.

Sobre os jovens do SOS-Unitins, o governador afirmou não haver problemas na manifestação dos jovens, pois sabia que tal ato seria passageiro. Citou o exemplo do ex-deputado federal Edmundo Galdino que, na juventude, fora comunista e, revolucionário e naquele momento fazia parte da sua equipe. Segundo o governador, o fim das manifestações chegaria quando aqueles jovens compreendessem a realidade e que o estado estava fazendo o melhor para a universidade.

Durante solenidade realizada pelo senador eleito Eduardo Siqueira Campos, no espaço cultural, na cidade de Palmas, para comemorar o início do seu mandato, o senador assim falou aos grevistas do SOS-Unitins que o vaiavam da platéia, conforme noticiado por um jornal local:

 

"Respondam por mim, a esse povo, os 74% que votaram em mim", iniciou Eduardo, dizendo que se tratava de "uns 30 desorganizados, que até hoje, sequer conseguiram eleger um vereador". O senador prosseguiu convidando os manifestantes a formarem uma comissão e o procurarem na Secretaria de Estado do Governo para tratarem de suas reivindicações. O senador ressaltou ainda que a manifestação foi um incentivo a mais para ele trabalhar na estrutura do governo acreditar que 'assim como nosso companheiro Galdino (ex-deputado Edmundo Galdino) hoje está conosco, não vai demorar e eu terei a honra de abonar a ficha deles (os alunos) na União do Tocantins7. (Jornal do Tocantins, p. 3 abro 2000a).

 

Embora o governo permitisse a manifestação dos jovens estudantes, ocorreram enfrentamentos entre a polícia e os estudantes, que foi denunciado pelo ME ao jornal:

 

Élsio afirma ainda que o governador não viu essa campanha pela privatização como um movimento justo e organizado e 'acabou perdendo a cabeça durante uma manifestação e agredindo a estudante de agronomia Anderlí Divina Ferreira, na cidade de Gurupi. Além de deixar 65 acadêmicos detidos, por aproximadamente 03 horas, sendo todos filmados pela polícia militar. (Jornal do Tocantins, p. 3 abro 2000a)

 

As agressões, o medo da polícia e da perseguição, o temor de perder o emprego de que muitos estudantes dependiam para sobreviver, fizeram que o poder de cooptação do governo se tornasse forte e diminuísse a quantidade de alunos com capacidade para resistir às investidas de agentes do governo.

Os jovens que participaram do movimento SOS-Unitins eram em sua maioria, os poucos que possuíam atividades no setor privado, ou então filhos de pequenos empresários urbanos e de profissionais liberais, e, em alguns casos, daqueles que trabalhavam no setor público e eram constantemente ameaçados de perderem o emprego.

Os conflitos entre os estudantes podem ser exemplificados pelo SOS-Unitins quando estes entraram em choque quanto aos rumos do movimento. O SOS-Unitins, no decorrer do movimento, formou duas comissões de negociação, e uma não reconhecia a legitimidade da outra.

Alguns entrevistados chegava afirmar que nenhuma das duas tinha legitimidade para representar o movimento, citando uma carta aberta escrita por estudantes e não-assinada,' com ofício anexo, no qual se denunciava conluio entre o então presidente do DCE e o governo para boicotar o movimento.

A carta aberta afirmava que o então presidente do DCE, Élsio Paranaguá e outros líderes, representantes da juventude tocantinense, pediram a nomeação de Ricardo Aires, filiado ao Partido da Frente Liberal, para o cargo de Secretário de Juventude, e denunciava a relação promíscua entre as lideranças estudantis e o poder constituído, mas também era uma demonstração de como os vícios da política local apareciam no interior da juventude.

A carta foi escrita e publicada por alunos da própria universidade depois da greve encerrada, mas o período de nomeação ocorreu no mês de janeiro de 2000, durante o processo de planejamento da greve.

Segundo a carta aberta escrita pelos alunos, o atendimento ao pedido condicionaria os solicitantes a não participar do protesto contra o governo, mas a ajudar o governo a convencer os estudantes da inutilidade de uma greve.

O mecanismo de cooptação aparecia como proposta, de um lado, surgida no seio da juventude ansiosa por conquista de espaços para o desenvolvimento da carreira profissional no setor público, e, de outro, por saber que o governo possuía o poder de controlar os movimentos sociais e buscar quadros dinâmicos para o serviço público.

No entanto, a prática do aliciamento de jovens para as fileiras partidárias estava presente tanto nos partidos governistas quanto nos partidos de oposição, demonstrando que a cooptação e o aliciamento significavam é tanto uma forma de busca da conquista do poder pela oposição quanto de manutenção do poder por aqueles que o detinham.

Alguns alunos e uma grande parte deles acabaram por ficar no anonimato político, recusando a filiação partidária para evitar perseguição política que podia ainda envolver seus familiares diretos.

Em 1997, o presidente do CA de Pedagogia de Arraias viu-se às voltas com uma transferência de uma cidade para outra, em razão de sua participação nos protestos contra a reestruturação da Universidade. Tratava-se de funcionário de carreira da Policia Militar que teve de recorrer a políticos de Influência para não inviabilizar a continuidade do curso. Anos depois, já pedagogo, o ex-presidente se tornou funcionário de carreira, também da Secretaria Estadual de Educação e eleitor do governador Siqueira Campos.

A influência dos partidos políticos no ME foi mencionada por um estudante que participou da greve de fome durante a radicalização do SOS-Unitins. Ele afirma, em entrevista, ter visto pessoas ligadas ao político Raul Filho, do Partido Popular Socialista (PPS), como os responsáveis pela manutenção da estrutura da greve deflagrada pelo SOS-Unitins, com recursos materiais e orientação política:

Quando chegou um homem, baixo o qual eu não conhecia, e o estudante Gilvan Noleto, ex-presidente do DCE, o cumprimentou dizendo algo assim: "Mas rapaz, como você está sumido! Onde é que você estava?" Ao passo que a pessoa respondeu: "sumido? Se não fosse eu esse movimento nem tinha começado! Eu é que to bancando tudo". Depois descobri que aquele homem era Adjalr de Lima, principal articulador da Campanha de Raul Filho e mentor do Movimento SOS-Unitins. É claro que diante das pressões dos estudantes, figuras como Adjair de Lima sumiram das reuniões, mas apareciam recursos para carros de som e as camisetas do movimento. (Entrevista com o estudante Lailton)

 

As influências sobre o ME não provinham apenas do campo da oposição. Também, os políticos governistas dispunham de pessoas e de meios com os quais buscavam interferir no ME do Tocantins. A indicação do estudante Ricardo Aires pelos representantes da juventude do estado, para a Secretaria da Juventude, e, posteriormente, sua filiação ao PFL, comprovam a influência governista sobre o movimento.

Estes fatos provocaram o aparecimento de divergências. No processo de negociação do fim da greve, as duas comissões, a Comissão Multi-curso e a Comissão Pró-diálogo, não reconheciam a legitimidade uma da outra.

As duas comissões enfrentaram-se constantemente, como ilustra a entrevista do então presidente do DCE, ao jornal local:

Não somos contra o diálogo, e buscamos esse diálogo, mas o governo não teve a dignidade de nos responder. (...) Respeitamos o que os colegas estã fazendo, mas sabemos qual é a intenção ... É pulverizar, reúnem com esses estudantes e traçam estratégias contra o movimento. Sabemos que deputados e vereadores se colocam contra o movimento. (Primeira página, p. 03 abro 2000)

Este fenômeno lembra a criação da Juventude Brasileira pelo ex-presidente Vargas, na tentativa de enfraquecer a UNE, e mostra os mecanismos que o governo utilizava para lidar com movimentos sociais e com pessoas que discordavam dos seus rumos.

A influência do Estado, configurado no poder estatal e nos partidos que se constituíam a base de sua sustentação, sobre os destinos do ME do Tocantins não se restringiu apenas à constituição de grupos de alunos simpáticos ao governo que se opunham a grupos de alunos que contestavam a política do governo. Esta influência também existia por meio do exercício do magistério por professores que eram defensores do regime de poder instituído.

As razões para que se defendesse o projeto de universidade presente na proposta do governo nem sempre se deram por convicção ideológica, muitas vezes, por razões de cunho pessoal e em prol da própria carreira profissional. É o que aconteceu no caso da participação dos professores na condução do desfecho da greve de fome. Eles intervieram para convencer os alunos de que era uma insensatez continuar a greve, como relata o estudante Lailton:

 

Por volta de uma hora da manhã o professor Deocleciano, do curso de Direito, entra e se reúne com alguns dos grevistas. Eu estava dormindo e quando acordei, o professor estava dizendo que a greve estava terminada. Nós, os grevistas, nos reunimos e decidimos ligar para o Orion, a partir de um celular, acho que era do professor. (Entrevista com o estudante Lailton)

 

No caso do ME, os professores exerceram um papel importante como formadores de opinião, pois exerciam influência sobre os alunos, pelo fato de muitos deles terem vivido experiência como militantes quando estudantes, e pela fragilidade do ME no estado.

Entretanto, a influência dos professores, em sua grande parte, não contribuiu para tornar o ME mais forte nos embates com o governo, como ilustra a fala do estudante Lailton. Poucos professores envolviam-se em discussões políticas, porque não queriam se comprometer, já aqueles que se envolviam, muitas vezes o faziam, desempenhando o papel de legitimadores das opiniões governistas. No campus de Tocantinópolis e no curso de Comunicação Social da cidade de Palmas, de acordo com os relatos, parte das atividades realizadas (protestos, eleições para C, A, etc) teve o incentivo direto de vários professores. Alguns restringiam-se a esclarecer aos alunos em sala de aula, ou, as vezes, fora dela, o significado das mudanças que estavam ocorrendo, de um ponto de vista mais politizado, e procuravam mostrar que as ações do governador não estavam lastreadas apenas por má vontade em relação às regiões em que os campi seriam fechados (referiam-se ao caso da polêmica de 1996, que envolveu os campi descentralizados), mas fundamentadas na doutrina do livre mercado, e na conseqüente recusa do Estado de manter o ensino público.

Além da forte cooptação, reinava entre os estudantes uma grande dificuldade de compreender os processos de reestruturação da universidade como um problema de embate entre o público e o privado ou de concepção de Estado. A característica neoliberal do governo Siqueira Campos era vista como mais uma má vontade do governador. Muitos estudantes não consideravam que o fato de o governador pertencer a um partido, cuja doutrina econômica é a defesa do livre mercado, seria a explicação para as constantes reestruturações da universidade. A retórica da modernidade (transformar a Unitins na mais moderna universidade do Brasil) muitas vezes serviu como fator de desmobilização do ME, como ocorreu em 1996, após as mudanças feitas nos campi, durante o início do processo que culminou na cobrança de mensalidades.

Liberal, mas intervencionista. Trata-se de uma grande contradição. Uma entrevistada declara:

 

a vida política do Tocantins é completamente direitista como disse o repórter da Veja '0 governo estadual participa de brigas pequenas e está presente tanto em assuntos importantes como acompanha as brigas pequenas do movimento estudantil". (Entrevista com Auriely Painkofw)

 

A reportagem à qual a estudante se refere foi publicada pela Veja, com o título Siqueirinha e Siqueirão, os donos do Tocantins, na qual o repórter referia-se aos bens da família Siqueira Campos e fazia uma análise do domínio político e econômico que o grupo político liderado por Siqueira Campos tinha sobre o estado.

Pode-se, contudo, qualificar essa configuração de liberal, e ao mesmo tempo de intervencionista? Na verdade, isso se tornou possível em razão da característica agrária do Tocantins, com grandes latifúndios, uma classe média frágil, uma indústria incipiente e um governo vivendo diante da contradição de colocar o Estado na rota do mercado nacional e internacional, e, ao mesmo tempo, manter os privilégios obtidos em razão de seu parco desenvolvimento.

Uma leitura interessante de todo o processo envolvendo a tentativa de privatização da universidade foi feita por estudantes do campus de Araguaína, sob o estímulo do professor de História Eugênio Pacceli que mantém em seu arquivo pessoal uma série de textos de alunos do Curso de História, em que fazem uma análise do SOS-Unitins. É interessante notar como esses alunos 'apresentam uma diferença sutil em relação às facções em que estavam divididas as lideranças estudantis, mostrando um distanciamento entre a base do movimento e os seus dirigentes, como já havia denunciado, em sua entrevista, a estudante Auriely Painkow.

Durante as greves e rebeliões dos estudantes contra a reestruturação da universidade, implementada a partir de 1996, e que chegou em seu aplce em 1998, com a cobrança de mensalidades, o campus de Araguaína foi o local no qual os estudantes se comportaram de forma mais aguerrida.

Foi o primeiro campus a entrar em greve, e o último a recomeçar as aulas. Em suas análises, a aluna Stelha Maris do Curso de História assim classificou a luta:

 

Foi uma luta de forças que parecia injusta; os universitários com a sua única arma: a paralisação por uma Universidade pública e gratuita, contra a prática neoliberal do Excelentíssimo Senhor Governador (que se julga onipotente) com relação ao Ensino Superior na tentativa de excluir a massa tocantinense do acesso ao terceiro grau. (Lima, 2000)

As palavras da aluna, além da ironia, demonstram o motivo por que governo e estudantes estavam de lados opostos. Estava em questão a cobrança de mensalidades recém-instituída e cada estudante enfrentava o Estado como podia.

As palavras ferinas tomaram conta do discurso estudantil. Carlos Antônio Machado Vieira qualifica o Estado de máquina destruidora de sonho. Sirley de Oliveria Cruz, por sua vez, qualifica o Estado de ditatorial:

 

o movimento demonstrou a força não desafia tantas ameaças do Governador, que ao decorrer de todo epis6dio se declarou como verdadeiro ditador, usando ameaças e violência "sica contra os estudantes Universitários que participavam do movimento. (Cruz, 2000)

 

Para Zenaide Silva Marinho, o governo de Siqueira Campos e seu grupo político é assim classificado: governo ditador e corrupto, voltado apenas ao seu próprio interesse (Textos de avaliação da greve dos alunos de História de Araguaína Zenaide Marinho).

 

Outro aluno que também elaborou texto de avaliação da greve ocorrida em Araguaína utiliza na sua análise a expressão peixe grande, referindo-se ao governo, que não podia ser vencido pelos peixes pequenos, referindo-se aos alunos (Pereira, 2000).

 

Para alguns, a realidade inspirava ironia em relação à situação e mesmo um ódio ao governador. Outros, entretanto, apresentavam uma construção discursiva mais elaborada, procurando compreender o momento com base na inserção do estado do Tocantins no cenário nacional, global e a inevitável convivência com os dogmas vigentes do neoliberalismo.

Dos 26 textos analisados, quatro fazem referência direta ao neoliberalismo como a orientação política norteadora da política do governo em relação a universidade, e três textos atribuem à política do governo as orientações da política nacional, citando as privatizações das empresas estatais, como a da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), da Companhia Vale do Rio Doce, dentre outras. A privatização da universidade ora aparece para os estudantes como artifício do neoliberalismo para dominar o globo terrestre, ora como discurso globalizado utilizado em defesa dos interesses próprios das elites.

Os estudantes tinham dificuldade para compreender a realidade política do Tocantins em suas interfaces com a política nacional e global. A presença na mídia em campanhas publicitárias nas quais o governador aparecia assinando contratos com empresas internacionais, da Alemanha e do Japão, a dificuldades de realização do debate aberto sobre as motivações reais do governo, dificultavam o aprofundamento da compreensão de conceitos como neoliberalismo.

Segundo depoimento presente nas análises, os professores eram pressionados para defender a construção discursiva, como escreve Sthela Maris de Lima:

 

Os manifestantes também tiveram o apoio de alguns professores da UNITINS, porém de forma restrita pois eles também foram pressionados tendo inclusive reduzido seus salários. (Lima, 2000)

 

Na perspectiva dos estudantes de Araguaína, o SOS-Unitins foi um movimento vitorioso, mesmo com as divergências entre os campi. Em um determinado momento, o campus de Araguaína foi o único a manter a paralisação diante das ameaças e tentativas de cooptação pelo governador. As dificuldades do movimento são assim compreendidas por Stelha Maris de Lima:

 

Houve muitas dificuldades sobretudo quando os Campi ficaram divididos entre os que aceitaram o falso compromisso do Governador e os que continuaram firme sem ser manipulados por este compromisso pois entendiam que esse não tinha caráter jurídico. E neste momento que o campus de Araguaína fica sozinho, mas quando o Campus de Gurupi soube que Araguaína jazigo paralisada também aderiu novamente a paralisação e ambos campi buscaram junto ao governo novas negociações. (Lima, 2000)

 

Tal afirmação, presente em quase todos os depoimentos dos estudantes de Araguaína, e a conclusão generalizada nesse campus sobre os campi de Araguaína e Gurupi serem os responsáveis pelas conquistas do SOS, são discutíveis por dois motivos: primeiro, porque houve em vários campi, como Arraias, Tocantinópolis e Guaraí fortes movimentações contra a privatização; e, segundo, porque houve também greve de fome, da qual participaram alunos de Palmas. No entanto, constata-se nas entrevistas e observações realizadas que os estudantes, na época, provocaram maior agitação nestes campi, nos quais, os alunos mais demoraram para voltar as salas de aula.

Sobre os conflitos no interior do ME, que levaram ainda o campus de Araguaína a tomar uma decisão isolada de continuar a greve, são inúmeros e diferentes os pontos de vistas. Alguns atribuem essa atitude a um caráter submisso dos estudantes, na condição de filhos de políticos ligados ao governo ou às elites; outros assinalam que os conflitos devem-se ao medo de sofrerem retaliações e perseguição, incluindo seus familiares.

Ao final, a grande maioria considera uma vitória do movimento o fim da cobrança de mensalidades e a promessa do governador de se aliar aos estudantes para pressionar o governo da União para a implantação urgente de uma universidade federal para o Tocantins.

Considerando que, no discurso oficial, o modelo de universidade implantado e contestado pelo SOS-Unitins, aparecia como um futuro modelo para o país, a promessa do governo de lutar por uma universidade federal pública e gratuita, pode ser considerada um recuo do governador e uma vitória dos estudantes pois, diante da oposição dos estudantes o governo passou o problema para a União, com a implantação da Universidade Federal do Tocantins.

 

CAPÍTULO IV

ENTRE DEUS E O DIABO? OS ESTUDANTES E OS PARTIDOS POLÍTICOS

 

Viver é muito perigoso ... querer o bem por demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo querer o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o consertar consertado. Mas cada um só vê entende as coisas dum seu modo.

 

Guimarães Rosa

 

As grandes lutas nacionais nas quais os estudantes estiveram no embate, como o fora Collor, o boicote ao provão (exame nacional de cursos), a marcha do 100 mil, e o fora FHC, teve pouca participação dos estudantes tocantinenses.

De imediato, as especificidades políticas e sociais do Tocantins surgem como uma explicação central para a compreensão do fenômeno e, confirmada pelas entrevistas e vivências na universidade e no estado. A relação dos estudantes com os partidos políticos e a própria situação do partidos no Tocantins são o objeto deste tópico.

Os estudantes no Brasil não guardam diferenças significativas. Os estudos de Foracchi (1972) mostram que há uma grande preocupação dos estudantes com a inserção no mundo profissional e com o projeto de carreira. Grande parte das lideranças estudantis segue posteriormente carreira política, o que transforma a militância no movimento estudantil em uma porta de entrada para a carreira política.

No Tocantins, como mostram os documentos, a possibilidade de seguir carreira política constituiu grande motivação para a militância estudantil.

O episódio Ricardo Aires demonstra várias faces de uma mesma moeda. Pode-se ver explicitamente a utilização da militância estudantil como uma forma de iniciar a carreira política. Em outras situações, a não-militância no ME também pode ser vista como forma de proteção ao futuro profissional. As constantes ameaças vindas do poder público, conforme várias citações neste trabalho, comprovam ser este um fator que amedronta os jovens tocantinenses, uma vez que o setor público se apresenta como um locus empregatício destacado no estado.

Todos os partido políticos do Brasil realizam um trabalho de reforço dos seus quadros com a juventude. Quase sempre o processo se dá por meio de uma direção de juventude ligada ao partido, mas não com a obrigatoriedade de obediência total ao seu estatuto, ficando a exceção por conta de alguns partidos pequenos que não conseguem disputar espaço na juventude, pela própria característica orgânica e falta de estrutura.

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) possui a Juventude do Partido da Social Democracia Brasileira (JPSDB), e, no meio estudantil a, Social Democracia Estudantil (SDE), por meio da qual procura intervir no ME e eleger bancadas para os congressos estudantis.

O Partido Progressista Brasileiro (PPB), possui a Juventude Progressista Brasileira (JPPB), com os mesmos objetivos, e assim os demais partidos: o PFL, a Juventude Liberal; o PDT, a Juventude Trabalhista; o PT, a Juventude Petista, o PPS, a Juventude Popular Socialista; e o PC do B, a UJS.

Embora todos os grandes partidos possuam trabalho específico para a juventude o Partido Comunista do Brasil manteve, na década de 1980 e sobretudo na década de 1990, a hegemonia entre os estudantes, aprovando a maioria das suas teses e não participando da diretoria da UNE apenas nos anos de 1988/1989, quando a entidade foi presidida pelo Partido dos Trabalhadores. Por essa razão, será analisada a política do Partido Comunista do Brasil para a juventude estudantil e sua forma de atuação.

 

4.1 Ação planejada: um exemplo de como os partidos políticos influenciam o ME

 

No congresso ocorrido em Goiânia, no ano de 2001, houve reafirmação da tese Por um ME crítico, científico e libertário, que procurou trazer uma análise crítica do ME e da questão da proliferação desqualificada dos partidos políticos no ME como forças hegemônicas. Esta tese apareceu com força, em 1992, nas discussões sobre a dinâmica do ME, como tendência dentre outras onze.

Além desta e da tendência Universidade: tempos negros virão, que colocava a variável racial como explicação para a maioria das contradições vividas pela sociedade brasileira, as tendências Convergência Socialista, Aliança da Juventude Revolucionária e É hora de Romper com o PT traziam como contribuição para a discussão a análise da atuação do PT, envolvendo questões regionais e nacionais. Os anarquistas, que se dividiam em duas tendências - Grupo Anarquista Ação Direta e UNE é o Que é do grupo de estudantes da Universidade de São Paulo (USP) - traziam análises semelhantes do ME, em uma perspectiva anarquista.

O Partido da Libertação Proletária é representado por estudantes que defendem a bandeira do partido, de forma direta, sem a intermediação de organizações de juventude submetidas aos partidos como fazem o PT, o POT, o PSOB e o PC do B. Até 1992, o PC do B agia no meio estudantil identificado pela tendência Viração e se constituiu na força hegemônica que elegeu Linderberg Farias como presidente da entidade e ficou com dezenove cargos na diretoria.

A influência dos partidos políticos sobre o ME acontece de forma planejada. No interior da organização partidária, essa meta fica a cargo da secretaria responsável pelo trabalho com jovens. No caso do PT, por meio da Secretaria de Juventude, no PSDB, pela Social Democracia Estudantil (SDE), no PDT pela Juventude Socialista, no PMDB, pelo PMDB Jovem e no PC do B pelo UJS.

No PC do B, a influência da UJS aparece nos documentos do X Congresso do partido, realizado no Rio. De acordo com Rabelo:

 

Investir. de forma pioneira. na campanha do Fora Collor. estimulando. por meio de  sua influência no seio da juventude. o movimento dos Caras Pintadas. liderado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). (Rabelo, 2002 p.99) (Grifo nosso)

 

 

Sobre o relançamento da UJS, o mesmo texto afirma:

 

Mesmo em um contexto geral adverso. manteve-se uma grande influência na direção das entidades do movimento estudantil. A atual orientação para o trabalho com a juventude, definida nas resoluções de 1996 e 1999, do Comitê Central, está sendo implementada e desenvolvida com êxito. A União da Juventude Socialista (UJS) foi relançada enquanto expressão concreta dos objetivos e da estratégia do partido para a juventude. sob sua direção política e ideológica. caracterizada como sua forca auxiliar. embora compreendida como amola oroanização socialista com autonomia orgânica. (Rabelo, 2002, p. 102 (Grifo nosso)

 

 

Ainda sobre a UJS, afirma:

 

Permanece o desafio de fazer da UJS um amplo movimento, como maior influência política e ideológica entre os jovens, mais organizado em direções e núcleos, com mais recursos. preciso reforçar o trabalho próprio da UJS, principalmente entre os estudantes, com novas bandeiras e formas de participação, bem como entre os jovens trabalhadores, nos bairros populares e nos diversos movimentos juvenis existentes. A grande influência da UJS no movimento estudantil é uma enorme conquista, mas esta ação não deve se limitar às manifestações, eleições e congressos. A UJS deve renovar os seus objetivos políticos no sentido de ampliar a participação dos estudantes na base e a representatividade e o enraizamento das suas entidades. (Rabelo, 2002, p. 120)

 

Nos documentos da UJS, fica clara uma intensa preocupação em aumentar tal influência por meio do plano de ação da entidade, que preconiza a conquista pelos militantes de CAs, DCEs e UEEs, bem como a organização de núcleos da UJS nas universidades, objetivando potencializar o trabalho entre os jovens. Para alcançar tal objetivo, recorre-se, às vezes, à profissionalização de quadros que ficam disponíveis apenas para o trabalho entre os jovens.

Nas teses aprovadas no último congresso da UJS, assim fica expressa a preocupação com o movimento estudantil:

 

Nos últimos dez anos avançamos muito na frente estudantil, mas os desafios que se colocam para o pr6ximo período são ainda maiores. Diante disso, o relançamento da UJS como corrente Estudantil não deve ser visto como 'peça de propaganda", mas como efetivo esforço de dar respostas aos desafios ideol6gicos, políticos e organizativos de nossa atuação. Precisamos reforçar o aspecto ideol6gico de nossa intervenção, travando mais o debate sobre a importância de difundirmos as idéias e valores socialistas no trabalho cotidiano, fazendo a ligação entre essas idéias e valores e a vida estudantil. É preciso elevar a consciência e a participação política dos estudantes nas lutas de resistência e transformação da sociedade. ( ... ) Temos, portanto ainda muitos desafios pela frente. Precisamos consolidar nossa liderança e enraizar nossa corrente. Sem uma UJS forte não conseguiremos nosso objetivo de superar a fase atual do movimento estudantil, elevando o nível de consciência e de mobilização dos estudantes e ampliando a influência e o prestigio do movimento estudantil na sociedade brasileira. (UJS, 2000)

 

Em outra parte do mesmo documento, evidencia-se a influência exercida sobre a UNE na época da campanha do Fora Collor:

A UJS deve comemorar os 10 anos do impechament de Fernando I. Nossa organização precisa ser apresentada aos estudantes de hoje como a "juventude do Fora Collor!", aquela que primeiro levantou a bandeira do impeachement, mesmo quando outras' correntes afirmavam a impossibilidade de vit6ria dessa bandeira. A imensa maioria

das lideranças estudantis naquele período era de militantes da UJS. Não foi a TV que derrubou o Collor. Foi a luta do povo brasileiro, e principalmente dos estudantes, que foram as ruas liderados pelas entidades estudantis, com a UNE e a USES a frente. Os que diziam no início dos anos 90 que o movimento estudantil estava em crise ou tinha morrido devem ter ficado impressionado com a vitalidade do defunto. A história é implacável com os que não confiam na capacidade de luta e de organização de nossa juventude e de nosso povo. (UJS, 2000)

 

A UJS não só possui uma intervenção planejada no interior do movimento estudantil, como se orgulha de considerar-se mais organizada em comparação às demais organizações de juventude dos partidos políticos. Consegue aprovar suas próprias bandeiras e as do movimento, as quais refletem a orientação política e ideológica do PC do B, partido ao qual pertence, como fica patente nas relações estabelecidas, o que contraria a afirmação do ex-presidente da UNE Ricardo Capelli, em sua entrevista para a Revista dos 60 anos da UNE:

 

O partido? Não há qualquer intervenção! Quero dizer que defendo a mais ampla liberdade de organização e funcionamento dos partidos políticos, que, aliás, o governo quer acabar. Esse discurso de que exista partidarização é de quem não tem projeto para o movimento estudantil. Toda e qualquer posição da UNE e o seu Presidente defendem, é aprovada, antes, pelas instancias deliberativas da UNE, das quais qualquer estudante pode participar. Aliás, tem crescido, sistematicamente, a participação dos estudantes e das entidadas estudantis. (Barcelos, 2000, p.76)

 

O documento do congresso da UJS fala de intervenção precisamos reforçar o aspecto ideológico de nossa intervenção (UJS, 2000), deixando clara a intenção da corrente estudantil do PC do B de se fazer presente em todas as lutas estudantis, organizando os estudantes pela base. Por outro lado, a estruturação da entidade com núcleos nas instituições de ensino tanto de nível médio como de nível superior pode possibilitar uma maior participação dos estudantes nas lutas cotidianas.

A veracidade do planejamento da intervenção comunista no cotidiano do movimento estudantil é patente, de acordo com a análise de tais documentos. Entretanto, a presença dessa influência não significa ser a causa determinante das vicissitudes atuais do movimento, em razão da presença das mais variadas tendências no processo diretivo.

Por outro lado, as disputas internas sob a hegemonia das influências dos partidos durante os processos congressuais - como mostram os documentos do XLI Congresso - certamente que desvirtua as discussões contribuindo negativamente para o processo de mobilização de estudantes para a participação direta.

Os congressos da UNE, na década de 1990, estiveram pautados pela hegemonia do PC do B. De acordo com a análises feitas na imprensa nacional, o Fora Collor, bem como o movimento dos Cara-pintadas, que acabou por derrubar o primeiro presidente eleito após a ditadura militar, acusado de corrupção e tráfico de influências, teve uma grande participação da UJS, em sua elaboração.

No XLIV Congresso, ocorrido em 1995, três anos depois do sucesso da campanha Fora Collor, as principais bandeiras empunhadas pela entidade eram a luta contra a avaliação pelo exame nacional de cursos (ENC) que os estudantes denominaram de provão.

O congresso ocorreu sob severas críticas de imprensa nacional ao PC do B. O Correio Brasiliense publicou um editorial no qual acusava o partido de sectário, de índole totalitária na reportagem afirmava: pois bem: é esse partido que hoje domina a UNE, e a distancia do universo que deveria representar (Correio Brasiliense, 18 de jun, 1995).

O universo a que o jornal se referia se relacionava aos estudantes universitários que lutavam por mais vagas nas universidades públicas e pela compreensão da nova realidade do estudante universitário. A direção da UNE enfrentou dividida essas críticas.

 

Os dois candidatos principais, Orlando Silva Júnior, baiano, 24 anos, estudante de Direito na Universidade Católica de Salvador, e Olavo Monteiro, 21 anos, ligado ao PT, concordavam que a UNE devia fazer oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso, mas não escondiam as discordâncias em relação à forma de fazer tal oposição. Olavo Monteiro criticava a postura da UNE e chamava suas ações de passeatismos e caravanismos, sustentando que se devia fazer oposição com propostas. Noticiava um jornal:

 

O problema é que a atual direção faz oposição pela oposição, não apresenta propostas", afirmou Monteiro. 's6 faz 'passeatismo" e caravanismo" e não estimula o debate entre os estudantes", completou o candidato. Segundo Monteiro, 'uma dúzia de iluminados" da atual direção decide o que é certo e o que é errado e s6 traz para o debate pessoas que concordam com suas idéias. 'Se você vai discutir o Plano Real, por exemplo, porque s6 trazer para o debate políticos da oposição?", perguntou Monteiro. (Folha de São Paulo p. 5, 16 de jun. 1995)

 

O então presidente da UNE, Fernando Gusmão, ligado ao PC do B, e principal cabo eleitoral de Orlando Silva Júnior, rebateu as críticas de Monteiro, afirmando não ser aquele o momento de apresentar alternativas às propostas do governo, e sim, combatê-las. A contenda estendeu-se durante todo o congresso, e, por detrás dela, estavam a desmobilização dos estudantes e as suas descrenças em relação à entidade. Em uma pesquisa feita na mesma época pelo jornal O Estado de São Paulo para identificar o perfil do estudante universitário, prevaleceu entre os estudantes a opinião de que o jovem em 1995 era mais alienado que o das décadas anteriores, apresentou os seguintes resultados:

Dos entrevistados, 50% discordaram da afirmativa de que o jovem em 1995 estava mais preocupado consigo mesmo e não ligava para os problemas sociais e políticos do país; em relação à afirmação de que os jovens não se preocupavam com a situação das crianças, dos jovens vítimas da exclusão social, e dos velhos, 64,4%; 60% discordaram da afirmação por não serem ainda maduros e não saberem o que querem, os jovens não conseguem criar formas adequadas de organização para resolver seus problemas; para a afirmação: se há falta de perspectivas futuras para a juventude é por causa dos próprios jovens que ainda não sabem o que querem do futuro, 69% discordaram; para a afirmação: se a falta de perspectivas futuras para a juventude é por causa da sociedade que não apresenta ao jovem condições favoráveis para eles decidirem sobre o que querem do futuro, 19.9% discordaram (O Estado de São Paulo p. 07,15jun.1995)

Olhando por ângulo diferente do adotado pelo jornal, pode¬se ler os resultados dessa pesquisa assim: dentre os jovens estudantes universitários 49,4 % dos estudantes estão preocupados com os rumos do país, sobretudo no que diz respeito aos setores político e social. Esse dado não parece absurdo, caso se considere o nível de mobilização conseguido pela UNE na data da pesquisa, um momento em que a entidade se esforçava para mostrar que ainda tinha força política.

Quando o quesito trata de perspectivas, a maior discordância aparece no seguinte dado: 31,6% dos jovens admitem que a falta de perspectivas para o jovem no ano de 1995 poderia estar ligada ao fato de não saber o que quer do futuro. Chama a atenção na pesquisa o baixo número daqueles que apontam que a causa da falta de perspectivas para os jovens está no fato de a sociedade não apresentar condições favoráveis para que eles possam decidir o que esperar do futuro.

Há que se registrar que a pesquisa foi realizada de diversas experiências do socialismo real e das utopias revolucionárias que se encontravam em um processo de refluxo.

Diversos partidos comunistas mudaram de nome e de bandeiras, como o caso do Partido Comunista Brasileiro (PCB) o atual Partido Popular Socialista (PPS), dirigido pelo senador Roberto Freire. Outros partidos passaram por uma profunda autocrítica interna, como PC do B, que procurou. compreender o momento histórico e manter a luta pela construção de uma sociedade socialista.

Uma vez que grassava como verdade que o neoliberalismo era o caminho único para a sociedade, explica-se o fato de o jovem não atribuir à sociedade a falta de expectativas para o futuro. Se o sucesso de cada um depende de como usa seus talentos individuais, o papel do Estado e da sociedade é enfraquecido, e a competição individual, fortalecida, e toda a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso recai sobre o indivíduo.

A mesma pesquisa do jornal aponta que 52% dos jovens atribuem ás pr6prias convicções a escolha do curso superior e 12% afirmam ter escolhido o curso como possibilidade de conquistar um bom emprego e um bom salário. Sobre o que lia o jovem em 1995, 27% preferia ler jornais a revista Semanais; 76,4% consideravam o setor educacional brasileiro ruim ou péssimo; 85% acreditavam que o acesso ao ensino superior por meio do exame vestibular favorecia aos estudantes de escolas particulares; e, 79 % apontavam como solução para o setor educacional a necessidade de o governo imprimir melhorias no ensino de segundo grau (atual ensino médio, nos termos da nova Lei 9.394/96), e aumentar as vagas no ensino superior público (O Estado de São Paulo, p. 07,15 jun. 1995).

Em busca de bandeiras para mobilizar estudantes universitários com esse perfil, segundo O Estado de São Pau/o, o congresso elegeu Fernando Henrique Cardoso como inimigo número um, e só em seguida, apareceram a luta contra as privatizações e contra o provão. A afirmação de Olavo Monteiro de que 60% dos estudantes não tinham interesse pelo movimento estudantil foi refutada por Fernando Gusmão, relembrando a mobilização durante a campanha Fora Collor, em uma construção discursiva confusa que de fato não explicava a situação real da falta de mobilização dos estudantes:

Em primeiro lugar acho que não existe apatia. O movimento estudantil brasileiro sempre esteve a frente das grandes manifestações. Uma prova recente disso foi o "impeachment" do Collor, os estudantes participaram ativamente das manifestações. Quanto ao objetivo dos estudantes, de ganhar seu diploma, arrumar um bom emprego e ganhar dinheiro, não acho que seja i1egltimo esse anseio. E na medida em que ele se torna inviável as pessoas se unem. Como está acontecendo neste governo, com a recessão e o desemprego. Quando o país cresce 12 %, o Malam diz que é um absurdo. Pede para a população não gastar, não consumir. Consumo gera produção que por sua vez gera emprego e absorve mais pessoas que estão saindo da Universidade. Hoje existem médicos sem emprego, mas não há saúde no pais, e na área de licenciatura, há desemprego, mas não há educação para todos. (Jornal de Brasília p. 4, jun. 1995.)

 

No congresso da UNE, que buscava eleger um presidente e anunciar novos rumos para uma entidade que enfrentava duras críticas, sobretudo a de não conseguir mobilizar a estudantada, foi vitoriosa a proposta de fazer oposição ao presidente do país como principal bandeira, colocando em segundo plano a luta contra a privatização e contra o provão. A construção discursiva dos dirigentes estudantis continuou distante da visão dos universitários sobre as bandeiras assumidas pela entidade. A campanha Fora FHC, não teve o sucesso do Fora Collor.

Disputaram o congresso da UNE, oito teses: UNE para todos, Para derrotar FHC, e Democracia e mobilização, Não vou me adaptar; (PT), Reviravolta, Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU); Saudações a quem tem coragem (PC do B); Indignação (PDT); Movimento acadêmico refazendo (PSDB).

Em um debate marcado por divergências, venceram as teses defendidas pela UJS (PC do B), e o congresso que elegeu Orlando Silva Júnior para XLIV presidente da UNE chegou ao fim com ameaças dos de que sairiam as ruas em protesto contra a política de Fernando Henrique Cardoso.

A participação tímida dos estudantes tocantinenses no congresso da UNE, com maioria dos delegados pertencentes ao PSDB, e alinhados com o governador Siqueira Campos, não colocou em debate o que estava ocorrendo no estado; pelo contrário, a bancada do PSDB ameaçou deixar o plenário do congresso caso a

 

privatização fosse discutida e se propusesse votação pelo seu repúdio.

No Tocantins, os estudantes viviam diante da construção discursiva do governo, que pregava uma universidade nova, moderna, transparente de fato pública e democrática. Analisando o discurso governista com profundidade, percebe-se que o governo Siqueira Campos se encontrava na vanguarda de um esforço para estabelecer um sistema de ensino superior em que o Estado não se responsabilizasse pela elaboração e execução das políticas. Em 1996, foram feitas as primeiras ofensivas do governador para privatizar a universidade, mas de forma sutil, não sendo percebido pela estudantada.

Os anos de 1996 e 1997 foram de protestos frágeis no Tocantins, com destaque para as manifestações ocorrido em Gurupi, como testemunha Moretz-Sonh (2002)8, que embora servisse como ponto de partida para outros enfrentamentos nos demais campi da Unitins, foi reprimido duramente pelo governador, que os tachara de uma tentativa de desestabilizar o governo por parte de um grupo de bagunceiros.

O XLV Congresso da UNE, ocorrido em 1997 e realizado em Belo Horizonte foi embalado por sol e música. Os estudantes chegaram à capital mineira prometendo acirrar a oposição a Fernando Henrique Cardoso. O Jornal do Brasil, que fez uma extensa cobertura do evento, afirmou que a única coisa que unia os estudantes era a oposição ao presidente do país (Jornal do Brasil p.2, jul. 1997).

No congresso de 1995, o jovem estudante universitário apresenta um perfil ainda mais modificado. À apatia detectada por alguns, em 1995, acrescentou-se uma grande desinformação. Um levantamento feito pelo repórter Murilo Fiúza de Melo, detectou que

 

 

uma grande parte dos estudantes sequer sabia quem era o então presidente da entidade.

Os próprios dirigentes admitiram um distanciamento entre a direção da entidade e as bases. Para contornar o problema, ainda na gestão de Orlando Silva, foi idealizado a realização dos Círculos de Cultura, com o objetivo de resgatar o lado cultural do movimento estudantil. As críticas à entidade eram ainda mais fortes que em 1995 e as acusações, as mesmas: partidarização da entidade, acusação ao partido com maior número de delegados de politicagem e de o processo eleitoral não ser democrático. O jornal noticiou:

 

Marcelo Henrique da Costa, ex-coordenador-geral do DCE da Universidade Santa Úrsula, faz coro as crfticas. "A UNE de hoje é como Aristocracia decadente que faz questllo de comer arroz com ovo em um prato de porcelana fina", fuzila. Para Marcelo, o movimento estudantil de hoje além de perder a ousadia e a inventividade, abriu um abismo quase intransponlvel entre a dita base e a direçllo do movimento. "o que preocupa o estudante de hoje? É o mercado de trabalho. A maioria sabe que vai sair da faculdade e nllo vai ter onde trabalhar. Mas a UNE permanece impasslvel a essa situaçllo", critica (Jornal do Brasil, p. 3, jul. 1997)

 

As opiniões dos estudantes consubstanciadas na citação do jornal, além de comprovarem as afirmações de Foracchi (1972) sobre a influência do projeto de carreira, mostram uma absolutização diante de outras preocupações estudantis. O estudante, premido pela competição no mercado de trabalho, vive o tempo de sua formação pressionado a realizar uma preparação que toma conta de todos os momentos do tempo de juventude. Os espaços do lazer, da fruição e do ócio, próprios da formação humana, tal como se fazia na Paidéia grega (Jaeger, 2001) perde-se perante um mercado que exige uma qualificação cada vez mais técnica.

Neste sentido e, sobretudo no caso do Tocantins, as afirmações de Foracchi (1972,1977) e Touraine (1989,2000) têm muita propriedade na atualidade, dentre outros fatores, pelo refluxo da força utópica representada pela ideologia do socialismo, com a frustração das experiências de governos do leste europeu.

Nos anos 90, a intensificação das exigências do mercado sobre os indivíduos era quase um discurso comum entre os intelectuais. Os intelectuais de direita o viam com o caminho único, e os intelectuais de esquerda, ainda vivendo o refluxo do pensamento marxista, pela queda das experiências do socialismo real na União Soviética, se limitavam a fazer critica negativa do capitalismo e ao mercado como regulador da ordem social. Mas as resistências não surgiriam?

Não ainda no ano de 1997. O Partido Comunista do Brasil (hegemônico no movimento estudantil), durante os anos de 1994, 1995, 1996 e 1997, esteve demasiadamente presente na luta por manter a alternativa socialista em seu programa. Os intelectuais que não fraquejaram com a queda do socialismo real se envolveram em tentativas de compreender o colapso do mundo socialista, e os discursos limitavam-se a tentar compreender os fundamentos da nova ofensiva liberal.

A pressão da nova ofensiva liberal foi avassaladora e não atingiu apenas o ME, pois diversos outros movimentos sociais foram vitimas do processo de desmobilização, no Brasil e no mundo. Na Inglaterra, depois de onze anos de ofensiva neoliberal da Dama de Ferro, Margareth Tatcher, os trabalhadores assistiram estupefatos o Partido Trabalhista de Tony Blair destruir o que havia restado de direitos trabalhistas da gestão anterior (Antunes, 1999). Uma exceção ficava por conta da França, como noticiou o Jornal do Brasil a propósito das eleições ocorridas em maio de 1997, nas quais o candidato de esquerda, Lionel Jospim, se sagrou vitorioso:

 

A União Nacional dos Estudantes Franceses teve atuação importante nas greves e manifestações de rua contra as políticas neoliberais do governo conservador de Alaim Jupé, na luta contra o racismo e na vitória da esquerda nas eleições do final de maio e inicio de junho passados. (Jornal do Brasil, p. 7. jul. 1997)

 

Mesmo na França, onde os estudantes tiveram uma atuação destacada, a motivação maior era o medo do desemprego, e ser de esquerda representava para os estudantes franceses estar do lado oposto das políticas neoliberais, conservadoras e racistas, como assinala a reportagem:

A assembléia geral estudantil concluiu que, se a direita ganhar, não haverá mesmo qualquer democratização da Universidade. Devemos afirmar que somos resolutamente de esquerda. Devemos nos colocar totalmente contra a direita e a extrema direita".(Jornal do Brasil, p.07, jul. 1997)

 

Na Inglaterra, a mesma reportagem registra uma intensa apatia do estudantado inglês:

 

Hoje na LSE, London School of Economics, ( .... ) a rebeldia não passa de fotos na parede lembrando o passado militante e a resistência contra cassetetes e as bombas de gás lacrimogêno. (Jornal do Brasil, p. 7. jul. 1997)

 

Com tal apatia espalhada pelo mundo afora, dirigentes estudantis brasileiros também enfrentaram dificuldades para chegar até a massa dos estudantes. A ofensiva neoliberal, que varreu o mundo, atingiu de forma inexorável o movimento estudantil brasileiro, tanto para impor a idéia de que o importante era se preparar para o mercado de trabalho, como a disseminação de que o estudante não podia se constituir em um sujeito coletivo. É o que revela a opinião do ex-presidente do DCE:

 

A UNE, nilo compreende que o estudante não é um sujeito coletivo. Em alguns momentos da hist6ria ele reage contra algumas questões, mas é s6. (Jornal do Brasil p.3. jul. 1997)

 

Os anos de 1997 e 1998 foram de pressão sobre as lideranças estudantis e da necessidade de chegar aos estudantes,

universidades com as constantes ameaças de privatização, além da pressão para aderir ao pensamento neoliberal como forma de ação política, deixando de ver o estudante como sujeito coletivo, e a universidade assumindo o caráter de prestação de serviços. No congresso de 1997, também se constatava a mudança dos estudantes. Na verdade, em meados da década de 1990, o mundo havia mudado, a classe média e o perfil do estudante também. Camisetas que traziam pôster de Che Guevara e palavras de ordem já não eram mais mecanismos usados para conquistar a adesão dos demais estudantes. Orlando da Silva Júnior, entrevistado pelo Jornal do Brasil, declara:

 

O perfil estudantil hoje é muito diversificado e a UNE precisa agregar tudo isso, oferecendo espaço para o debate dos diferentes temas propostos. (Jornal do Brasil, p.8, jul. de 1997)

 

A análises das matérias e entrevistas publicadas em jornais da época permitem perceber um determinado amadurecimento dos estudantes e dirigentes envolvidos no congresso da UNE sobre os rumos da entidade. A clareza de que era necessário lutar contra o neoliberalismo era mais forte ao final do congresso; no entanto, tal luta aparece personalizado no slogan Fora FHC, como assinala Silva Júnior:

No Brasil o Neoliberalismo começou com Collor, foi derrotado. O Itamar ficou por ali, não implementou. Já o Fernando Henrique retomou com força o projeto neoliberal. Minha opinião pessoal é de que este congresso da UNE deve aglutinar todos os setores que querem enfrentar os opressores do povo, apontar um projeto novo para o pais, uma nova visão. Com base nestas diretrizes, queremos desenvolver um projeto democrático popular que seja capaz de montar uma aliança ampla. (Jornal do Brasil p.8 jul. 1997)

 

O XLV Congresso da UNE, terminou como começou. As lideranças defendiam-se das críticas sobre a partidarização da entidade Segundo dados publicados na imprensa a época, os DCEs

 compreender os efeitos da ofensiva neoliberal sobre os destinos das estavam se transformando em pequenas UNEs, e esvaziando as UEEs, e a própria representatividade da UNE. Então apresentava-se a questão: qual era a realidade dos estudantes do Tocantins nos anos de 1996 e 19977

Os anos de 1996 e 1997 foram um tempo de realização de um grande esforço pela estruturação do DCE da Unitins. Nas eleições, foi escolhido o estudante Élsio Paranaguá que presidiu a entidade até a época do SOS-Unitins em 2000. Em um estado em que o discurso neoliberal do governo Siqueira Campos mesclava-se com a realidade do estado, a reação dos estudantes veio carregada também de nuances específicas do próprio Tocantins.

A preocupação com o mercado de trabalho e a forte pressão de cooptação levaram o jovem tocantinense a preocupa-se mais com o futuro profissional e com o mercado de trabalho do que com questões ligadas mesmo ao destino imediato da universidade. Os estudantes levantaram-se com força e enfrentaram o governo com medidas judiciais, no momento em que já eram sendo executadas as políticas neoliberais, e em que se iniciava a cobrança de taxas e mensalidades na universidade.

Em 1998, a UNE, debatia-se com os primeiros resultados do provão e assistia o exame nacional de cursos tornar-se parte da rotina das universidades. Nesse período, o ME do Tocantins lutava contra a cobrança de mensalidades na única universidade pública do estado, que culminou no SOS-Unitins, que trataremos no tópico adiante.

Apesar das fortes pressões para enfraquecer a entidade, as análises dos documentos do XLVI e XLVII congresso::; da UNE permitem afirmar que, indiferente ao que pregavam muitas lideranças estudantis, em 1997, em seus jornais, a UNE, permaneceu como entidade representativa dos estudantes, constituidora e constituinte do sujeito coletivo da estudantada brasileira.

A razão do esforço por mostrar o peso da intervenção da UJS nos rumos e na política do ME nacional advém da fragilidade do

 

Partido Comunista do Brasil no Tocantins e a quase inexistência da UJS. Essa peculiaridade contribuiu para o distanciamento do ME tocantinense das lutas nacionais e o surgimento de inúmeras concepções de ME, dando origem às diversas comissões de negociação com o governo, durante o acirramento do movimento SOS-Unitins.

A fragilidade da UJS no Tocantins não pode ser vista, no entanto, tendo como causa as peculiaridades do estado. Muitas razões podem ser encontradas na própria história da entidade e o partido que a orienta, sobretudo nas divergências internas, fruto da fusão da AP com o PC do B.

Estudando o movimento estudantil do Ceará, Ramalho (2002) faz uma importante diferenciação entre as formas de ação política de AP e do PC do B. Segundo ele, existem evidências documentais de que os apistas se fechavam mais com os trotskistas e possuíam uma característica stalinista de ação política. Entretanto ressalta:

O PC do B no Ceará, que era diferente, não se tornou hegem6nico no Brasil. A visão do PC do B que se tornou hegemônica a nível nacional foi a visão sectária e estreita do pessoal da Bahia e do Rio. Com a hegemonia dessa visão, o PC do B se aproximou da AP, encampou a AP. Nesse processo foi a AP que encampou o PC do B. O PC do B, hoje é a Ap9 (Ramalho, 2002, p.184)

Como o resultado desse processo de fusão se refletiu em Goiás? Quais foram as conseqüências para o movimento de massas? E para o movimento estudantil goiano? Como se refletiu no processo de organização do ME do Tocantins?

Em Goiás, a maior influência no PC do B, desde sua reorganização tem sido o ex-deputado Federal Aldo Arantes, que também foi umas das maiores expressões ao lado do ex-deputado baiano Haroldo Lima da Ação popular; ambos foram responsáveis por

 

articular a fusão AP/PC do B. A outra grande expressão da reorganização do PC do B goiano é Euler Ivo, vereador de Goiânia e Presidente do PC do B, de sua reorganização até sua saída do partido, em 1991.

Em consulta aos documentos das conferências do partido, consta que a saída do então vereador Euler Ivo do Partido deu-se em razão de conflitos de concepção de partido. De um lado, estavam o grupo de Euler Ivo, considerado autoritário e stalinista, do outro, um grupo mais liberal entre os quais estavam a ex-deputada estadual Denise Carvalho, Adalberto Monteiro e Aldo Arantes.

No Tocantins, a luta interna partidária refletiu-se sobre os quadros partidários, que para lá se dirigiram no intuito de militar no movimento social tocantinense, a exemplo de Marizon da Silva Rocha, na época militante do PC do B organizador da UEE no Tocantins. Descontente com as orientações partidárias, ele deixou o Tocantins no mesmo ano em que saiu do PC do B, deixando um vazio de direção na UEE, ainda não preenchido até os dias atuais. Outros quadros, por falta de assistência da direção do partido em Goiás ou abandonaram o partido, ou regressaram a Goiás, fugindo das condições adversas da política tocantinense e premidos pela forte tentativa de cooptação pelos governantes ou vitimas de perseguição política.

A análise dos próprios dirigentes permitem afirma que a luta interna fez minar energias fazendo com que o partido se distanciasse das massas (UNE, 1997/1999), podendo essa constituir uma explicação para os fatores que impediram o ME goiano de levar ao Tocantins uma proposta de ME que conseguisse mobilizar os estudantes tocantinenses, uma vez que este não houve apoio do partido e de seus militantes, os quais estavam envolvidos na luta interna partidária.

Outro fator que indica a confirmação dessa hipótese é o fato

de que dos três presidentes do DCE da Unitins, principal locus de organização do ME tocantinense, um foi Marizon, ex-PC do B, e

outro, Élson Paranaguá, membro do partido. Durante o SOS-Unitins, o DCE era presidido por Paranaguá, que com outras lideranças, conduziu o processo de negociação para o fim da greve estudantil.

Dede a década de 1980, o ME do Tocantins revela a fragilidade de acompanhamento político daquele que era o partido que mantinha a hegemonia no movimento estudantil, tanto quanto da UNE.

Em virtude da incapacidade do PC do B e do PT de se organizarem no estado e no meio estudantil, os estudantes conservadores e de direita, ou ficaram sob a influência dos partidos sem definição político-partidária.

Nas entrevistas realizadas, foi perguntado a vários alunos o que achavam da atuação política dos estudantes. As maiorias dos entrevistados repudiavam a política como forma de ação, mesmo aqueles que participavam dos protestos em defesa da universidade. Auriely aluna do curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, um dos cursos que mobilizou o maior números de alunos durante o SOS-Unitins, assim declarou: eu não acho que deve misturar movimento estudantil com política, mas quase sempre a gente vê que os estudantes que lideram as greves estilo ligados a algum partido político. E aqueles que não estão acabam ficando perdidos pois não sabe o que fazer diante da pressão dos dois lados. (Entrevista com a estudante Auriely)

A estudante em questão, para justificar sua posição, citou o que ela mesma chamou de episódio Ricardo Ayres10 .Em 1997, o professor José Manoel Miranda de Oliveira falando aos alunos de Arraias sobre o processo de reestruturação da Unitins, transmite a mesma impressão ao afirmar:

No Tocantins não tem estudantes progressistas. Alguns que parecem militantes de esquerda, na verdade com um pouco mais de atenção você vai perceber que é da direitona.

 

Outros não sabem o que querem, são militontos. (Produtos & Produções, ano I, n. 2, p. 2out.1997)

 

 

Por que os estudantes têm dificuldade de compreender o processo? As dificuldades de acesso à informação são um obstáculo para uma maior compreensão dos fatos pelos estudantes. O estado possui apenas um jornal diário desde 1997, o Jornal do Tocantins, e alguns jornais regionais, sem circulação diária. Na maioria das vezes, a imprensa tocantinense, em seus noticiários, favorece a difusão das idéias do governo. Além disso, o governo mantém uma forte rede de propaganda e marketing das atividades governamentais e do estado, tanto interna quanto externamente, em um misto de oligarquia agrária e príncipe eletrônico que se pode chamar de coronelismo eletrônico.

Ao sabor de várias oscilações, o ME do Tocantins entrou para o século XXI, convivendo com histórias de negociatas explícitas, como a acima referida. O grande sonho dos estudantes também permanece, a reboque de idas e vindas do governo.

A federalização da universidade, utilizada como argumento desmobilizador do SOS-Unitins permanece em lento compasso, embora no atual momento, já tenha realizado concurso público para o preenchimento de vagas para professores da Universidade Federal do Tocantins.

 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PELA NECESSIDADE

DA CONCLUSÃO

 

 

Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor até ache mais verdade do que eu, a minha verdade. Fim que foi. (...) O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real (...) O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.

Guimarães Rosa

 

 

A tentativa de organização do ME no Tocantins apresenta um caminho cheio de pedras para os estudantes universitários. A influência externa sobre a juventude, sobretudo do Estado, da Igreja e dos partidos políticos são fatores contribuem para a conformação do ME, tal qual ele se encontra na atualidade.

Na história do ME do Tocantins, a Igreja, (no caso, a Igreja Católica) pouca influência teve, o que, de certa forma, o diferencia do ME do restante do país, em razão da forte presença da JUC e da JEC, e, mais recentemente, das orientações de setores atuais da Igreja que trabalham com a juventude. A construção da Cenog, porém, teve participação ativa de setores da Igreja Católica, tendo dentre seus organizadores e grande incentivador, o Padre Rui Rodrigues.

Além disso, a Igreja, pela sua atuação como provedora de colégios de ensino médio no Norte (os conhecidos colégios das irmãs), cumpriu um papel importante, preenchendo o vazio deixado pelo Estado no então Norte goiano.

Na discussão envolvendo o laico e o religioso, ainda é preciso registrar o papel da Igreja Batista, que também ajudou a impulsionar o setor educacional no Norte goiano, contribuindo para a construção do movimento cenoguiano e para a conscientização da juventude nortense.

No Norte não ocorreu a discussão sobre o conflito que permeou o discurso educacional nos anos 50 e 60, que tinha como centro as disputas entre o laico e o confessional, em razão de grande ausência na região. No Norte, as disputas deram-se muitas vezes entre a Igreja Católica e a Igreja Batista, e algumas cidades ainda guardam vestígios de sepulcros de educadores e pastores batistas enterrados fora dos cemitérios públicos, por serem considerados pagãos. Esse exemplo apresenta uma clara associação, embora não-oficial, entre o estado e a Igreja Católica.

A questão do poder público e suas influências sobre o ME do Tocantins podem ser compreendidas em dois momentos: um primeiro, antes da criação do estado do Tocantins, pois a ausência da ação do Estado serviu como motor organizativo da juventude estudantil do Norte; um segundo momento, refere-se ao movimento estudantil após a criação do estado do Tocantins, quando o poder público passou a se utilizar do autoritarismo e de mecanismos como perseguição e cooptação para desmobilizar os estudantes.

Pode-se observar um fato interessante: no primeiro momento, período da constituição e existência da Cenog, embora houvesse divergências em seu interior, a condição de ser estudantes do Norte que não tinha acesso ao ensino superior era um fator de unidade do ME, fazendo que a bandeira de criação do futuro estado do Tocantins fosse um fator aglutinador, tornando difusas as diferenças de visão de mundo e de ideologias.

Assim, aos estudantes que se alinhavam com uma visão conservadora em relação às questões nacionais, bastava manter a entidade em uma posição apolítica, e desenvolver a luta pela criação do estado do Tocantins e cumprir o papel assistencialista. Os poucos estudantes que se alinhavam com uma perspectiva de política transformadora e mais utópica, procuravam realizar uma política de enfrentamento com o discurso oficial, tecendo críticas aos governos do regime militar. No entanto, ambos os grupos conviviam no interior da universidade, sem grandes divergências.

A extinção da Cenog, em 1979, representou o fim de um ciclo do movimento estudantil no Norte goiano, e início de uma nova fase. Segundo as entrevistas realizadas com o ex-cenoguiano, Athos Pereira, e estudantes da atualidade, não houve continuidade do movimento, e foi explicado por eles que se tratava de dois momentos históricos que exigiam bandeiras diferenciadas.

Na década de 1980, o movimento estudantil no Norte passam por um refluxo. A principal bandeira dos cenoguianos (a criação do Tocantins) se tornou realidade em 1988, com muitos dos ex-Cenoguianos em postos importantes na construção do novo estado.

Embora frágil, na década de 1980, Araguaína, Porto Nacional e Gurupi foram os lugares em que se fixaram as raízes do movimento. Estas cidades foram o locus de maior resistência dos estudantes na década de 1990.

No caso do Tocantins, pode-se dizer que a influência do Estado foi nociva à organização do ME. As pressões, cooptações, perseguições e atos de violência registrados neste trabalho mostram como o Estado agiu em relação aos movimentos sociais e, especificamente, ao movimento estudantil.

A forma truculenta com que o governador Siqueira Campos e o Poder público trataram os estudantes teve origem, de uma parte nas próprias raízes do estado do Tocantins, um espaço em que no passado era considerado a lei do mais forte pela ausência do poder público como árbitro dos conflitos sociais (Giraldim, 2002).

A esse fato, deve-se acrescentar a inserção do estado na conjuntura nacional e global, o que foi pouco discutido neste trabalho por que se privilegiaram fatos que o discurso dos estudantes

 

conseguiu alcançar. A inserção do estado nos rumos do país do mundo era muito forte nos discursos oficiais do governo, que imaginava uma universidade que também servisse de modelo para o país, e a política do neoliberalismo ajustava-se ao discurso oficial como perspectiva única de avanço e de modernização do Estado.

Neste sentido, a modernização era entendida como o meio de colocar o estado no ciclo de produção e de acordo com os padrões exigidos pelo mercado. Ocorre que o estado do Tocantins, possuindo em seu interior formas arcaicas e não-capitalistas de organização da produção, como as grandes propriedades improdutivas, tornava necessário, de um lado, que o poder estatal fosse o grande impulsionador do desenvolvimento do mercado, desde as áreas de produção de capital à qualificação de recursos humanos, e, de outro, um forte e centralizador comando político, como forma de manter o metabolismo social do capital.

Assim, parece que o Tocantins ajusta-se à concepção discutida por Meszáros (2002) sobre o Estado no atual estágio do capitalismo:

 

A formação do Estado moderno é uma exigência absoluta para a assegurar e proteger permanentemente a produtividade do sistema. O capital chegou a dominância no reino da produção material paralelamente ao desenvolvimento de práticas políticas totalizadoras que dão forma ao estado moderno. (Meszáros, 2002. p. 106)

 

 

Na essência, isso explica a característica liberalizante e totalizadora do papel do estado tocantinense: em um primeiro momento, uma grande preocupação em construir infra-estrutura e investir na qualificação de recursos humanos, e, em um segundo momento, uma pressa em passar todo o aparato estatal para as mãos do mercado.

Neste caso, agravante foi a existência de bolsões de pobreza e o afluxo de jovens de outros estados em busca de oportunidades no Tocantins, que produziu um grande número de alunos que não conseguiram arcar com os custos da mensalidade na universidade.

O comando totalizador da política sobre os processos de reprodução da vida material era potencializado pela pouca existência de nichos empregatícios disponíveis para aqueles que dependiam da venda da força de trabalho para o sustento. Em Tocantins, o principal nicho empregatício é o setor público, por isso não se torna difícil a manipulação dessa variável para a manutenção do controle político por meio de ameaças de perda do emprego sobre as pessoas que possam se colocar contra a política oficial. A história demonstra ter funcionado como fator de desmobilização do ME no Tocantins, o que explica a opinião de Athos Pereira, quando perguntado sobre a razão da fragilidade dos partidos do campo democrático e popular no Tocantins:

O Estado do Tocantins é muito atrasado. O domínio de Siqueira Campos sobre a sociedade do Tocantins é muito extenso. O acúmulo de forças democráticas no Tocantins é ainda muito modesto. (Entrevista com Athos Pereira)

 

Uma vez que o estudante no Tocantins, sobretudo na década de 1990, reivindicava um estado democrático, a sua influência sobre o ME era negativa, ou seja, o poder público estatal passava a agir para desmobilizar o ME, porque esse aparecia como opositor das políticas que o estado pretendia implementar.

A face totalizadora do governo tocantinense é vista pelos mecanismos utilizados para desmobilizar os estudantes, o que ocorre desde a perseguição política por ameaças, violência física e métodos de cooptação, como a criação da representação estudantil em congregações de cursos e no Conselho Universitário, que se elegiam em processos dirigidos pela direção da universidade.

A situação do Estado é a de um vassalo do capitalismo selvagem. Ao discutir questões que dizem respeito à relação do estado do Tocantins com os mercados nacional e internacional, Pacceli (2003) mostra uma situação em que a opressão política está a serviço de uma ordem na qual a selvageria do capitalismo, com sua expressão mais cruel e excludente, aparece de formas mais variadas, desde as construções bem elaboradas do discurso de um caminho único do neoliberalismo até a ação policial contra os estudantes e outros movimentos sociais, o que aparece nesta análise pelos enfrentamentos dos estudantes com o poder político no Tocantins, o qual produziu violência física e até mesmo prisões de lideranças estudantis.

Outra forma de agir do Estado em relação aos movimentos sociais consiste em vencê-los pelo cansaço, ou tratar a coisa pública com um certo descaso. Falando da forma que a universidade tratava o desenvolvimento dos cursos de licenciatura plena em regime especial, Oliveira (2002) assim qualificou a forma de agir do estado: no andar da carroça que as abóboras se ajeitam. No ME, também não era diferente, como se percebe na entrevista do governador em jornais e analisadas neste trabalho.

O estudante e suas ações políticas eram tratados com descaso. O governador, de fato, só deu importância à greve dos estudantes, isto é, a ação do SOS-Unitins, quando os estudantes paralisaram a maioria dos campi. Percebendo a gravidade da situação e vendo que os estudantes estavam chamando a atenção da mídia nacional, o governo agiu de várias formas - de um lado, tentou deslegitimar a representação dos estudantes incorporada no DCE, e de outro, incentivou os alunos que concordavam com a posição do governo na verdade pessoas com vínculos empregatícios ou dependentes de pessoas ligadas ao governo, como mostra o caso Ricardo Aires, a constituírem comissões para negociar com o governo, dividindo, assim, o ME da universidade. E ainda, o aparato estatal e até mesmo o aparato policial eram utilizados para ameaçar e amedrontar os estudantes.

Os partidos políticos não conseguiram influenciar e nem estabelecer uma hegemonia sobre o ME. Os partidos de esquerda, talvez pela fragilidade com que se mantêm organizados no estado, e

 

os de direita, por serem vistos pelos estudantes como uma extensão da pessoa do governador, e o como partido político propriamente dito. Esse trabalho não analisa com profundidade o fenômeno do personalismo nos partidos políticos do Tocantins, mas no caso da ausência de influência dos partidos sobre o ME, ou desse se constituir em locus de quadros para a esquerda, diz respeito à baixa politização dos estudantes, o que se evidencia nas entrevistas com estudantes, que separam participação política da vida estudantil. Assim há uma compreensão silenciosa de que basta não protestar, não militar, para não ser vítima da posição totalizadora do estado.

Nessas condições, os estudantes pouco se envolveram nas lutas nacionais, mesmo vivendo o momento em que a Unitins foi privatizada, quando o Ministro da Educação colocava a possibilidade de estabelecer a cobrança de mensalidades nas instituições de ensino superior. Nem nesse momento houve uma sintonia do ME tocantinense com o ME nacional .

Os esforços da UNE, que chegou a realizar um seminário sobre políticas públicas para o ensino superior, pouco modificaram a situação. Os problemas locais impediam uma discussão profunda sobre as reais causas que moviam a execução das políticas no Tocantins. Uma pequena minoria chegou a compreendê-las..

Esta parece que foi uma grande pedra no caminho dos estudantes tocantinenses, na tentativa de organizar o ME. Ao não perceberem o contexto no qual estavam situados, perderam uma oportunidade de compreender como os processos de globalização interferem nos setores periféricos de um país como o Brasil. O enfrentamento da situação no Tocantins não poderia SE: desconectar do processo de globalização excludente que se instala no mundo, é o que Bourdieu chama de construção de um movimento social que ultrapasse os limites do Estado-Nação (Bourdieu, 2001).

Não pode passar despercebido o aparecimento de conflitos no interior do ME tocantinense na década de 1990. Na verdade, trata-se de uma extensão do conflito de uma forma liberal de ver o Estado, agravado pela especificidade do Tocantins e as orientações provindas de partidos do campo popular democrático, que pretendiam apresentar uma política alternativa, em lugar da política neoliberal adotada no país.

Mesmo utilizando uma construção discursiva frágil, os estudantes tocantinenses reagiram à imposição de uma política que excluía uma parcela dos estudantes tocantinenses do acesso ao ensino superior. Talvez a reação tenha sido motivada sobretudo pela existência do projeto de carreira - já que este é uma das grandes preocupações da condição de estudante - em um momento em que tais preocupações se tornavam intensas pela realidade própria da década de 1990, pois a discussão sobre o mundo do trabalho viveu um refluxo no início da década e só voltou a tomar impulso mais para o seu final. A questão da central idade do trabalho (Antunes, 2000) e a dificuldade de construção de um discurso competente para fazer face ao caminho único apontado, certamente influenciaram, mesmo que indiretamente, a situação de empecilho para uma maior politização dos estudantes.

Enfim, muito ainda pode ser estudado sobre o ME tocantinense na década de 1990. As análises presentes neste trabalho constituem o que foi possível discutir. Parafraseando o mestre Guimarães Rosa: nem os estudantes eram anjos ingênuos, nem seus opositores, o diabo. É uma história de humanos, em busca da travessia da vida, cada um defendendo interesses específicos. A história da vida não parece mesmo ter termo real. Mas isso é o que se sabe, e que se pensa que muitos não sabem. A verdade seja dita, muita coisa é bem diferente daquilo que eu desconfiava ser.

 

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DIRIGENTE condena privatização. Entrevista de Fernando Gusmão Jornal de Brasília. Brasília, p. 4, 12 jun.1995.

 

ENCONTRO com Eduardo transfere para segunda feira os rumos da greve. Diário do Tocantins. Palmas, 15 abro 2000.

 

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ESTUDANTES da Untins querem ensino gratuito. Jornal do Tocantins. Palmas, 03 set. 1999.

 

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ESTUDANTES perguntam, governo responde. Diário do Tocantins. Palmas, 15 abr. 2000.

 

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DOCUMENTOS ORAIS

 

Relação dos entrevistados

 

ADELlNO SOARES DOS SANTOS. Professor universitário da UEG. Presidente do Centro Acadêmico de Pedagogia no Campos Universitário de Arraias em 1996/1997. Entrevista realizada em 13 de julho de 2002, em Campos Belos de Goiás.

 

ATHOS PEREIRA. Ex-militante da Cenog, e atual chefe de gabinete da liderança do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados. Entrevista realizada no dia 14 de maio de 2003, em Brasília.

 

AURYEL Y, PAINKOW. Aluna do curso de Comunicação Social, habilitação em jornalismo. Militante do SOS-Unitins. Entrevista realizada em julho de 2002, em Palmas-To.

 

ITAMAR ANTÓNIO DE OLVERIA JUNIOR. Aluno de Engenharia Ambiental de Palmas-To, quinto período. Foi militante do SOS¬Unitins. Entrevista realizada em julho de 2002, Palmas-To.

 

JOÃO BOSCO CARDOSO JUNIOR. Estudante de Engenharia Ambiental de Palmas-To, oitavo período. Foi militante do ME do Tocantins. Entrevista realizada em agosto de 2002.

 

KLEBER DE ALBURQUERQUE BRASIL. Militante do ME do Tocantins no Campos de Porto Nacional de 1997/2002. Entrevista realizada em julho de 2002.

 

LAIL TON ALVES DA COSTA. Aluno de comunicação social da Unitins. Militante do ME na época do SOS-UNITINS e um dos alunos que realizou a greve de fome. Entrevista realizada em agosto de 2002.

 

MARGARETH PEREIRA ARBUÉS. Historiadora e Advogada, professora na Faculdade Anhanguera .. Foi professora na Faculdade de Gurupi de 1985 até 1990. Entrevista realizada no dia 18 de maio de 2003.

MARCOS ANTÔNIO FRANC DOCUMENTOS ORAIS

 

Relação dos entrevistados

 

ADELlNO SOARES DOS SANTOS. Professor universitário da UEG. Presidente do Centro Acadêmico de Pedagogia no Campos Universitário de Arraias em 1996/1997. Entrevista realizada em 13 de julho de 2002, em Campos Belos de Goiás.

 

ATHOS PEREIRA. Ex-militante da Cenog, e atual chefe de gabinete da liderança do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados. Entrevista realizada no dia 14 de maio de 2003, em Brasília.

 

AURYEL Y, PAINKOW. Aluna do curso de Comunicação Social, habilitação em jornalismo. Militante do SOS-Unitins. Entrevista realizada em julho de 2002, em Palmas-To.

 

ITAMAR ANTÓNIO DE OLVERIA JUNIOR. Aluno de Engenharia Ambiental de Palmas-To, quinto período. Foi militante do SOS¬Unitins. Entrevista realizada em julho de 2002, Palmas-To.

 

JOÃO BOSCO CARDOSO JUNIOR. Estudante de Engenharia Ambiental de Palmas-To, oitavo período. Foi militante do ME do Tocantins. Entrevista realizada em agosto de 2002.

 

KLEBER DE ALBURQUERQUE BRASIL. Militante do ME do Tocantins no Campos de Porto Nacional de 1997/2002. Entrevista realizada em julho de 2002.

 

LAIL TON ALVES DA COSTA. Aluno de comunicação social da Unitins. Militante do ME na época do SOS-UNITINS e um dos alunos que realizou a greve de fome. Entrevista realizada em agosto de 2002.

 

MARGARETH PEREIRA ARBUÉS. Historiadora e Advogada, professora na Faculdade Anhanguera .. Foi professora na Faculdade de Gurupi de 1985 até 1990. Entrevista realizada no dia 18 de maio de 2003.

ISCO ARAÚJO. Médio empresário, atual Presidente do Comitê Estadual de Goiás. Ex-vice-presidente da UEE Goiás. Entrevista realizada no dia 11 de maio de 2003, em Goiânia-Go.

 

ORION MILHOMEM RIBEIRO. Presidente atual do DCE da Unitins, e aluno do curso de direito do Campus de Palmas. Entrevista realizada em agosto de 2002.

 

SÉRGIO AUGUSTO LORENTINO. Aluno do curso de Direito em Palmas e membro da Federação Tocantinense dos Estudantes de Direito. Entrevista realizada em agosto de 2002.

 

SUELAYNE LIMA DA PAZ. Professora da rede estadual do Tocantins. Militante do ME de 1996/2002. Entrevista realizada em agosto de 2002.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANEXOS

ROTEIRO DO QUESTIONÁRIO PARA ENTREVISTAS COM OS

PROFESSORES DA UNIVERSIDADE DO TOCANTINS

 

1.   Nome

2.   Naturalidade

3.   Você permite que esta entrevista seja utilizada em uma pesquisa de história sobre o movimento estudantil do Tocantins?

4.   Como era o movimento estudantil no Norte goiano na década de 1980, e como os estudantes atuavam?

5.   Os estudantes se organizavam em torno de centro acadêmicos ou outra entidade estudantil?

a) Como?

b) Quando?

6.   Quem foram as principais lideranças estudantis?

 

ROTEIRO DO QUESTIONÁRIO PARA ENTREVISTAS COM OS

ESTUDANTES DO TOCANTINS

 

1.   Nome

2.   Naturalidade

3.      Você permite que esta entrevista seja utilizada em uma pesquisa de história sobre o    movimento estudantil do Tocantins?

4.   Em qual curso estuda (ou estudou) na Universidade do Tocantins?

5.   Quando entrou para a faculdade e porque escolheu esse curso?

6.   Quando começou a participar do movimento estudantil?

7.   Quais as principais bandeiras e conquista do ME em sua época?

8.   Como era a articulação do ME do Tocantins com o ME nacional?

9.   Como era a relação do ME com os partidos políticos?

10.               Como você caracteriza o ME do Tocantins? Qual era a relação do ME do Tocantins com as oligarquias locais?

11.               Quem foram os principais líderes estudantis de sua época?

12.               Quais as principais bandeiras do ME?