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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A res – pública que não temos

Nelson Soares dos Santos

É possível que em algum canto do país, em alguma casa ou choupana alguém faça a pergunta: afinal, por que mesmo é feriado hoje? 15 de novembro, - a proclamação da república; - é possível que alguma outra voz responda. Para além da pergunta e da resposta, mesmo que seja feita em uma choupana ou em uma rica casa dos jardins, o que fica é que poucos sabem o que é a república, e por que somos uma república.
A transformação do Brasil de um império em uma república foi uma ação praticada por poucos homens, e talvez, até hoje seja assunto de poucos cidadãos da nossa pátria. José Murilo de Carvalho, em sua obra “ Os Bestializados” ao descrever o processo de como se deu a proclamação da república me fez ler algo que nunca mais vou esquecer e que me ensinou o quanto o nosso povo está distante de vivenciar de forma consciente o espírito da nação. Ele diz em seu livro que enquanto Deodoro montado em seu pomposo cavalo e cercado de oficiais percorria as ruas do rio na proclamação da república o povo assistia bestializado sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo e qual diferença teria entre império e república.

Ainda bestializados – razões não públicas em defesa da res-pública.

Mais de 100 anos depois muito do nosso povo se encontra na mesma situação. Bestializado com os acontecimentos que envolvem a coletividade chamada república, e muitos, sequer sabem o que é república e por que somos uma república. A história diz que um dos elementos que influenciou a transformação da situação de Império em república foi entre outras questões, a questão da escravatura. Ora, dizem que os grandes fazendeiros ficaram irritados com a princesa Isabel, e, por isso resolveram apoiar os republicanos. Outra questão, foi a questão militar. Militares insatisfeitos após guerras e o trabalho de sufocar rebeliões internas julgaram não receber do imperador o merecido reconhecimento. E por fim, a questão religiosa tendo como centro o clero da igreja católica, que resumindo, estava insatisfeita com a lei imperial de que as bulas papais só poderia ser obedecidas no Brasil após a sanção do Imperador.
Olhando bem, veja que cada grupo tinha suas razões particulares para apoiar o fim do império do Brasil, e pior, as razões particulares eram contraditórias entre si, pois um grupo se opunha seus interesses aos demais. E, analisando ainda, dentro do espectro, a solução foi a proclamação da república por meio de um golpe militar. Não sou monarquista, mas não posso deixar de ver que o surgimento da república no Brasil não teve uma relação direta com a preocupação em transformar o poder do Estado em uma coisa pública, pelo contrário, foi justamente o descontentamento com questões como o abolicionismo que tornaria um país de todos os seus filhos, fazendo dos negros cidadãos uma das causas centrais que motivou seu surgimento. A república no Brasil surgiu da contrariedade por uma medida que tentava colocar o poder do estado a serviço de todos, ou seja, tornar o Estado uma coisa pública.

Ainda a república que não é uma Res-pública.

Cem anos depois, as contradições permanecem. Pensando que a palavra república veio da Grécia e queria dizer coisa pública, no Brasil o Estado ainda não é tratado com coisa pública. As capitanias hereditárias se mantiveram e ainda se alguém resolver fazer uma pesquisa verá que mais de 50% dos nossos políticos e parlamentares federais são descendentes das mesmas famílias poderosas da época do império. Em goiás são 15 famílias tradicionais que dominam a política desde a época do império e pouco espaço tem para alguém surgido do meio do povo.
As políticas, toda vez que é feito algo em prol do povo, da maioria que ainda sofre todos os tipos de males; o governante que se atreve a fazê-lo sofre as mesmas dores sofridas pelo Imperador. Foi assim com muitos, e o mais ilustre deles Getúlio Vargas, aliás, este poderia dizer que proclamou a segunda abolição no Brasil ao regulamentar as relações trabalhistas em nosso país. Somos uma república cujo aparato do estado não está a serviço da coisa pública e sim manietada para a defesa dos interesses de uns poucos grupos particulares com interesses por vezes, mesquinhos que prejudicam o desenvolvimento e a grandeza da nação. Por todas estas razões, devemos continuar lutando para transforma o Brasil em uma Res-pública, ou uma república verdadeira.

Errata.: este artigo foi envidado para os jornais com uma pequena errata. O nome do autor do livro foi escrito como José Guilherme, e na verdade o livro citado é de José Murilo de Carvalho.

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