Pesquisar este blog

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A ocasião faz o ladrão?


Nelson Soares dos Santos[1]

Em tempos de crise moral, de apuração da lava jato, mensalão, tremsalão e tantos outros escândalos de corrupção que assolam o país talvez seja necessário perguntar – A ocasião faz o ladrão? Este é um ditado repetido pelo senso comum ou conhecimento popular e quem nem sempre paramos para refletir sobre ele. Exemplos não nos faltam. Como explicar o fato de que os dois tesoureiros do Partido dos Trabalhadores tenham sido presos por corrupção e ainda assim, o Partido conseguiu achar um terceiro para colocar no lugar do segundo preso? Como explicar o grande número de servidores públicos que se corrompe?
Alguns dizem que, dificilmente uma pessoa colocada em situação tentadora resistirá ao ato de se corromper. E a sociedade em geral, até tolera aquelas pequenas corrupções que se explicam com frase tipo como: “Ele precisa do emprego, então tinha que fazer o que o chefe mandou”. Afinal, uma pessoa que se corrompe para obedecer a uma ordem superior pode ser condenada? Durante a segunda guerra mundial, muitos crimes foram cometidos por pessoas que “cumpriam ordens”. O mesmo aconteceu nas ditaduras, das quais a ditadura militar no Brasil que durou vinte anos, é um exemplo a ser considerado.
Deixando de lado as ilações e opiniões populares, Kolberg, cientista e psicólogo que se dedicou a estudar o desenvolvimento moral do ser humano, elaborou uma teoria segundo a qual o homem passa por três níveis de desenvolvimento moral, sendo eles: o pré-convencional, o Convencional e o Pós-convencional. No nível pré-convencional, o qual ele dividiu em dois estágios, o individuo age no primeiro estágio desse nível movido pelo egocentrismo e movido pelo medo da punição; e no segundo estágio, ainda movido pelo egocentrismo, movido pelo hedonismo relativista, muito influenciado a obediência pelo medo da punição também o individuo move pelo princípio do prazer. Poderíamos concluir que para aqueles que estão nesse nível moral o ditado está correto uma vez que se houver uma ocasião em que a busca do prazer não conflite com o medo da punição o individuo se sentirá livre para praticar atos seja os quais for?
No nível Convencional, que segundo o autor está à maioria da população adulta,  e que também divide em dois níveis, compreende o que ele chama de moral do bom garoto, ou seja, o individuo age com vistas a obter a aprovação dos demais membros da sociedade. Ora, também nesse caso, poderia dizer que uma vez não sentindo medo de perder a aprovação dos demais membros da comunidade, o ditado estaria correto?  A ocasião faz o ladrão?
É apenas  analisando as conclusões do nível Pós-Convencional que podemos lançar luz melhor a questão. O indivíduo que alcanças este nível é movido por uma moralidade de contrato, princípios democraticamente aceitos, fundados em princípios individuais de consciência alicerçados na crença do valor sagrado da vida humana, e nos princípios da justiça e do amor universal. A transparência, a sinceridade, honestidade de propósitos, simplicidade e humildade seriam virtudes naturais dos indivíduos nesse nível moral. Nesse nível não há mais o medo da punição, não há mais a busca do prazer hedonista, nem tão pouco a necessidade de busca da aprovação dos demais membros da sociedade.
Desta feita, podemos agora responder a questão. A ocasião faz o ladrão? Não. A ocasião não faz o ladrão. A ocasião apenas revela o nível moral dos envolvidos em uma questão, portanto, ela apenas revela o ladrão. É uma pena que tão poucos alcançam a possibilidade de perceber os princípios da Justiça, do amor, e do valor sagrado da vida humana. Contra estes fatos resta-nos lutar por uma educação de qualidade, pois segundo Piaget, um pesquisador aos do desenvolvimento moral que antecedeu Kolberg, se conseguirmos propiciar aos jovens as condições de desenvolvimento moral no tempo certo ( Kairós), um número muito maior de pessoas alcançaria possibilidades de maior desenvolvimento moral, e poderíamos então, ter uma sociedade pacífica, justa e cheia de amor




[1] Nelson Soares dos Santos é Professor de Filosofia Aplicada na Faculdade Delta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário