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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Não é crise financeira – é crise ética e moral, Amigos.



Não, não sou marxista. Na verdade não me denomino como nada. A única coisa que faço é tentar entender a realidade. Se para alcançar tal objetivo sou obrigado a estudar todas as correntes de pensamento e para tal, tenha que levar a vida inteira que seja. Não importa que óculos você use a realidade que está-ai será sempre a mesma realidade. Conhecimento verdadeiro será sempre conhecimento se for verdadeiro, por que se não for, não será conhecimento da realidade, portanto, não será mais conhecimento. Portanto não me chamem de nada. O desafio do momento é compreender as raízes da crise que varre o planeta e que na aparência tem sido identificada como crise financeira.
No oriente médio, assistimos as multidões sair as ruas em diversos países – Egito, Arábia Saudita; na Europa, a Grécia, Suiça; ou seja, em todos os cantos do mundo algo parece acontecer. Na terra do grande Irmão (EUA) os dois maiores partidos parecem se preparar para um embate que por esperado não acontece, e, não acontece por que no final ambos estão de acordo com o rumo das coisas. No Brasil, os dois grandes partidos PT (Partido dos Trabalhadores) e PSDB, ( Partido da Social democracia Brasileira), vivem as turras na aparência, quando na essência também parece concordar com os rumos que de delineiam aos nossos olhos. Então afinal o que mesmo pode estar acontecendo? Se os grandes partidos, grandes corporações, e as grandes Instituições parecem estar de acordo com os rumos que mesmo está insatisfeito?
Manuel Castells analisando os movimentos de jovens que ocuparam as praças da Espanha recentemente[1] aproximou bastante do que tento colocar nestas linhas. Ele diz no artigo citado que a questão do confronto com o sistema só tem sentido se buscarmos as raízes da crise atual, que para ele é financeira e política. Financeira na medida em que o estado tem escolhido salvar as instituições bancárias, seguradoras, em vez de salvar o cidadão; política por que tal situação vem causando uma ruptura entre o cidadão e seus governantes. Esta é uma tese que o autor já anunciar em sua obra “A sociedade em Rede – a Era da informação”, e que a complexidade desta ruptura estava sendo dada tanto pela forma como os governantes utilizam o poder do estado quanto com a forma que as novas tecnologias da informação e da comunicação têm afetado e modificado o modo de vida dos cidadãos.
David Harvey desde a sua obra “Condição Pós-Moderna”, vem tratando a crise financeira como tendo seus fundamentos na imoralidade dos políticos ampliando de forma subliminar esta imoralidade a imprensa que segundo ele escamoteia a verdade criando uma realidade ilusória das coisas; e ao judiciário que sendo nomeado pelos políticos e tornou na verdade uma forma dos políticos e auto-absolverem. Em artigo recente, o autor escancara esta tese como quem busca um “réstia de esperança” como o caminho para que os novos revolucionários ( jovens que saem as ruas na atualidade), entendam que é o sistema capitalista[2] que precisa ser julgado.
O professor Romualdo,[3] Marxista revitalizado pelo esforço de tentar fazer justiça a Marx depois das tantas injustas interpretações de sua obra, arrisca uma explicação extremamente coerente retomando a análise da Comuna de Paris, e do Dezoito de Brumário de Luis Bonaparte. Compreende-o que como foi lenta a transição entre o feudalismo e o capitalismo, durando três séculos, também poderá ser muito lenta a transição entre o capitalismo e o novo sistema, que esperançosamente ele ver nascer das cinzas do velho. Nem o avanço da comunicação e das tecnologias demove o velho marxista de que tais transformações não se explicam por uma comparação com a transição entre o feudalismo e o capitalismo, e, que ali duraram três longos séculos; mas que ser formos beber um pouco da água deixada por Weber veremos que na verdade o feudalismo foi apenas uma pausa no surgimento do capitalismo, que para o velho burocrata alemão já se germinava durante a decadência do império romano.
Na verdade, vejo na Leitura de Weber[4] como o ascetismo cristão ajudou a dar uma pausa no surgimento do capitalismo, à medida que impediu o motor do capitalismo ( o egoísmo e o interesse próprio), ganhar força. Incrível e de forma contraditória é perceber também que este mesmo ascetismo, ao incentivar uma busca pelo conhecimento nos mosteiros auxiliou o desenvolvimento das novas tecnologias que impulsionaria a revitalização do capitalismo, o rompimento com o próprio ascetismo e surgimento do espírito capitalista, que segundo Weber, constitui um fundamento fulcral da ética Protestante.
Daí, onde percebo existir uma falha nas análises atuais do capitalismo. Diferente do tempo de Marx onde o cálculo das operações financeiras acontecia levando em conta a vida cotidiana, na atualidade parece ter se tornado natural uma dissociação completa entre as finanças e o mundo da vida, para utilizar uma expressão cara a  Habermas. A questão que fica é: a vida financeira está mesmo totalmente dissociada do mundo da vida? Ou poderia haver uma explicação justamente se nos debruçássemos mais sobe o que significa esta dissociação alienadora entre o mundo da vida, o cotidiano e a as operações financeiras que cada cidadão pratica? Veja que parto do princípio de que até mesmo as grandes corporações financeiras não existem sem a existência do homem individual, e, que de fato até mesmo o capital financeiro não é possível existir sem o chamado pequeno capital, ou seja, o capital dos homens simples cidadãos. Se no tempo de Marx ele pode ver os trabalhadores sendo explorados em sua mais valia pelos donos do capital, agora é o capital financeiro possível dos trabalhadores que é explorado pelo capital financeiro dos donos do grande capital.
Ora, no final a crise é o resultado de uma relação entre homens  concretos movidos pelo desejo, que compram, vendem, especulam das mais variadas formas, movidos que são pelo velho egoísmo e interesse próprio. O problema é que o capital sofisticou tanto suas armas e instrumentos de sobrevivência transformando tudo que existe em mercadoria, quantificando valor em tudo que é possível ser visto e sentido pelos sentidos humanos que a existência do homem concreto na concepção marxista quase não é possível mais ser visto. Quem nunca calculou o valor que tem os amigos, os familiares em um projeto de vida e ou financeiro de longo alcance? Quem nunca dedicou algum tempo em busca do chamado network? Não é apenas da alienação que estamos falando, é de algo bem mais profundo, mais cruel e que parece irreversível.
Não é a toa que nas últimas décadas ganhou força, inclusive no Brasil, as religiões fundamentalistas. Tais religiões prometem aos seus fiéis, ao mesmo tempo, o sucesso no mundo capitalista e a paz interior dos mosteiros. Felizmente, ou  infelizmente, tais religiões com a gana que cresceram vão desabando justamente por não conseguir explicar aos seus fiéis por que criticam a ganância capitalista e todos os seus males e ao mesmo tempo utilizam dos mesmos instrumentos, inclusive na relação com os seus membros. Interessante, é que desde então tem surgido uma outra espécie de religiosos e protestantes ( que preferem serem chamados de evangélicos), é um grupo que considerando-se evangélicos não se ligam a nenhuma igreja ou religião, e que no Brasil, segundo dados do IBGE, cresceu de 4% para 14% nos últimos dez anos.
Parece-me que o pano de fundo deste crescimento e que está ligado a toda insatisfação com a vida e, portanto com o sistema, é uma questão ética. O que move as pessoas e uma percepção vaga de que já não existe uma ética para todos, universal, e que sirva de norte e modelo para as ações. É como se o capitalismo na sanha do lucro fácil tenha destruído a própria ética capitalista e nada foi posto em seu lugar. Não tenho a pretensão de que esta seja a resposta definitiva para a questão, mas é preciso que se chame a atenção para o fato de que é o homem que faz a história. São as ações humanas, e, portanto, ações que tem fundamento moral  e ético que, no final, movimenta todas as crises financeiras. A crise imobiliária americana não teria existido se tivesse havido consciência dos homens concretos de não comprar mais do que aquilo que coubesse em suas capacidades de pagamento. Comprar sabendo que não vai conseguir pagar é uma questão ética, questão que está no centro de todas as crises financeiras.


[3] Capitalismo na Berlina – Crise estrutural ou conjuntural. http://www.gramaticadomundo.com/2011/08/o-capitalismo-na-berlinda-crise.html
[4] Webber Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Editora Martim Claret, 2001.

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