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sábado, 13 de agosto de 2011

Corrupção: Qual ética? Qual moral?



Nelson Soares dos Santos.[1]
“E o meu povo perece por falta de conhecimento”
Bilblia.
Nos últimos dias muito tem se falado em corrupção e em combate a corrupção. Nos últimos meses oito ministérios estiveram nas manchetes de todo país tendo algum esquema de corrupção sendo denunciado ou  funcionários envolvidos em esquemas fraudulentos, quase sempre, com o objetivo de roubar e dilapidar o dinheiro público. Nos jornais deste domingo, momento em que escrevo este artigo, vejo mais uma notícia que para os que defendem os militares como paladinos da moralidade pode ter sido um golpe mortal: cinco generais envolvidos em esquemas de licitação corrompida. São tantos os esquemas descobertos que parece que a presidente Dilma está fazendo uma faxina. Penso que é melhor não ter tanta certeza disso, parece que mais que desejar fazer uma faxina a presidente pode estar ficando mesmo é sem alternativa. Digo isso por que me parece que o problema não é mais legal, nem tão pouco moral, o que torna a corrupção tão avassaladora me parece ser um problema ético.
Para que fique claro precisamos avisar o leitor as diferenças nítidas entre aquilo que é legal, moral e ético. Legal, é aquilo que está de acordo com a lei. E, sabemos todos que existem muitas leis imorais e anti-ética. Pior, não se pode querer que uma lei feita por pessoas injustas seja uma lei justa. A moral, diz-se de um conjunto de regras vivenciadas na prática por uma pessoa, um grupo de pessoas ou uma sociedade em uma determinada época. Já a ética, diferente da moral e da lei, tende a universalidade, sendo um conjunto de princípios e valores que utilizamos para responder os desafios do dia a dia, sobretudo tentando responder as perguntas: o que quero, o que devo, e o que posso.  O momento atual pode ser explicado justamente refletindo sobre estas perguntas.
Notadamente temos três questões postas: o dever fazer; o poder fazer; e o desejar fazer. A sociedade moderna parece repousar tão somente no desejar fazer. É como se vivêssemos em uma sociedade governada pelos desejos. Quando um homem com o poder fazer deseja algo nada mais o impede. Na sociedade dos desejos toda lei, toda  moral, todo princípio universal é ignorado. Faz-se por que deseja. Lembro de um caso de um aluno que procurou-me dizendo que estando reprovado em falta caberia a mim dar um jeito nas faltas dele já lançadas no diário. Eu respondi educadamente que eu não devia fazê-lo; no que ele retrucou; - mas o senhor pode. Sim, eu posso, respondi, mas não devo, e para falar a verdade não desejo, não vejo em você nenhum merecimento que me faça quebrar uma lei que visa proteger os cidadãos de profissionais ruins. Depois de ouvir imprecações e ameaças, fique sabendo mais tarde que o tal aluno seria aprovado, o coordenador iria “dar um jeito.
É assim. Vivemos na sociedade dos desejos. Recebi um e-mail recentemente sobre corrupção que me fez refletir. Quando falamos de corrupção sempre lembramos dos ministros, das pontes que não são construídas, dos hospitais públicos caindo aos pedaços, da educação ruim. Dizia o e-mail que a corrupção é muito mais profunda, no que concordo plenamente. A corrupção está impregnada na família, na escola, na igreja, nos partidos políticos, nas associações de bairros, etc. A própria idéia das instituições está sendo corrompida. A idéia do casamento há muito tempo está corrompida. Tudo começou com a flexibilidade de que não era mais preciso ficar noivo, e lá se foi o tempo necessário para as famílias se conhecerem, o casal se aproximar, se harmonizar  ou suavizar as diferenças; depois, foi a idéia de que não era mais preciso nem esperar o noivado para ir até o fim nas intimidades nupciais; por fim, a aliança perdeu a importância e também o significado. E, então, começaram a proliferar a idéia de que “amigado com fé, casado é”. E, já não se casava mais, apenas “morava junto”. O resultado são famílias cada vez mais frágeis e mais fracassos, aumento da violência e outros males.
Da mesma forma a corrupção se alastrou em todas as demais instituições. Na escola, tudo começou com a idéia de que aluno e professor eram iguais. Depois, criou-se a idéia da democracia em sala de aula, onde, e foi-se interpretando que o aluno tinha todas as condições de participar das decisões do que aprender, como aprender, e quando aprender. Por fim, chegamos no tempo em que poucos professores ensinam, e menos alunos ainda, aprendem. Não me assusta ter na universidade alunos que não sabem ler ou escrever. Na universidade, criou-se a falsa idéia de que o aluno tem acesso ao conhecimento, e que, portanto o professor agora tem apenas o papel de mediador. Grande mentira, e com ela, vai junto a possibilidade de formação do espírito científico do aluno.
Quando digo que o problema da corrupção é um problema ético, quero dizer que ele se apóia na chamada flexibilidade moderna e no relativismo. O próprio fácil acesso às informações, ( fácil e falso), contribui para este relativismo. Na verdade, o que se tem acessível são informações de baixíssima qualidade pois quando se pergunta a um jovem de vinte a trinta anos o que deve ser feito em determinadas situações ou como as coisa funcionam, quase ninguém sabe. Tenho perguntado a dez anos aos alunos que chegam ao curso superior se eles sabem como funciona o governo municipal, estadual e federal; menos de 3% sabem. Pergunto se sabem como funciona um orçamento doméstico; nada. Pergunto se sabem como funciona a hierarquia da religião que professam; nada. Reina uma ignorância quase absoluta quando a questão se trata das informações que realmente pode ser útil.
É  como se as pessoas não estivessem crescendo mais. Continuam crianças, incapazes. E por que não tem conhecimento, por que não sabem o que são as verdadeiras conseqüências dos atos praticados vivem qualquer moral, ou, a moral que alguém disse ser necessária para que ele tenha “sucesso” na vida. Falta conhecimento do que é a moral, do que é a ética; falta sobretudo, conhecimento do como escolher entre o que quero, o que posso e o que devo. Em um mundo dos desejos tão poderosos, tão desenfreados não existe espaço para a razão, e, por que não existe espaço para a razão não existe  possibilidade de existência a não ser de uma moral dos incapazes. Enfim, como o povo de Israel no passado o mundo perece por falta de conhecimento.


[1] Professor Universitário de Filosofia e Ética, Mestre em Educação e Doutorando em Educação.

3 comentários:

  1. Boa noite professor Nelson, meu nome é Eliane estudo administração 1 período. venho comentar sobre este texto que descreve a nossa pura realidade em que vivemos hoje,corrupção,perdas de culturas e sucessivamente a falta de conhecimento das pessoas, sei que não tenho tanto conhecimento mais busca encontrar nas leituras que exerço diariamente para aprimorar meus conhecimentos e adquirir novos enriquecimentos da alma. Assim como dizia o filosofo Sócrates, a virtude nos enriquece em todos os meios,ou seja, a virtude trazia a riqueza e não a riqueza à virtude. Enfim o conhecimento nos enriquece materialmente e no espirito, pois a sabedoria creio eu que seja a arte de aprender...Para falar das corrupção citados digo que se a sociedade não agir pesando ela no bem coletivo e não individual sempre continuaremos nesta mesmice de fraudes e precariedade nos hospitais na segurança, educação e assim sucessivamente....
    obrigada por expô seus conhecimentos de mestre para pessoas que pretendem um dia chegar aonde chegaste...abraços e uma boa noite

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  2. Boa noite Eliane. Que bom que vocês estão aderindo ao diálogo. Não existe forma melhor de estudar filosofia. Juntos poderemos pensar mesmo a realidade. Aqui neste blog sem medo de admitir nossas fraquezas, o único objetivo é refinar nossa capacidade de pensar a realidade, compreendê-la, com o grande objetivo de aprender e fazer a vida melhor. Melhor ainda, é que todos os comentários identificados como de alunos serão lidos, e, servirá como parâmetro para nos ajudar a melhorar a compreensão dos textos em sala.

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  3. Boa Noite professor Nelson. Este texto expressou o sentimento que nos vem quando vemos as novas gerações X e Z, as quais se preocupam muito com tecnologia, relacionamentos virtuais, e interações vazias e sem valores moral. Neste ritmo de falsa facilidade estamos perdendo o convivio familiar, as amizades reais, a honra e o respeito pelo proximo. Se o mundo ainda esta de "pé" é por pessoas que buscam o conhecimento e sabem repassar de maneira clara e sem hipocrisia. Abraço e bom final de semana.

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