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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Ruas vazias




Gosto de caminhar por ruas vazias. Ruas e avenidas vazias são sempre ruas e avenidas vazias. E é totalmente diferente de uma estrada deserta que corta as matas sob a escuridão da noite, a luz do luar ou a força do calor do sol. Ruas vazias são sempre ruas vazias. Ruas vazias só se encontra nas cidades, e, portanto, as ruas vazias estão sempre cercadas por prédios, casas, praças, e vielas com seus becos escuros e malcheirosos.
Ao caminhar por ruas vazias é possível sentir o poder que elas possuem quando os transeuntes estão ativos no calor do dia. Ali, está a rua, orgulhosa, dona de si, consciente de que sem ela não existe ir e vir. Sabe ela que todos estão dependentes dela e que todas as vidas que existem na cidade precisa transitar por ela. Cada rua luta por sua importância, por seu espaço, por sua existência. Ruas, avenidas, vielas, algumas sem saída, como é sem saída alguns aspectos da vida.
Quando chega a noite e todos se recolhem em suas casas, todas as ruas ficam vazias, desde a mais importante das ruas, a mais in-significativa das vielas. Quando caminhamos pelas ruas vazias sob o olhar da lua é que vemos o quanto pode ser pequeno se apegar ao fato de tantas pessoas dependerem da gente. Na noite, enquanto as ruas estão vazias o mundo ao redor adormece. Nas calçadas, nas casas, nos apartamentos. Nem mesmo os bichos ousam ficar caminhando, mesmo nas noites enluaradas. Nas noites, a ruas ficam vazias.
Quando chove as ruas vazias são possuídas de ainda mais tristeza. A água que corre carrega consigo o lixo deixado pelos transeuntes e quase nada interrompe o barulho da canção solitária que toca para quase ninguém ouvir. As águas que caem encontram apenas o vazio da noite. Aliás, quando chove, mesmo sob a luz do sol as ruas ficam vazias. Todos fogem para algum lugar a se proteger do inesperado. A chuva, como a escuridão, faz com que as ruas fiquem vazias.
Ruas vazias parecem para uma metáfora do poder temporal. É assim a vida dos homens que lidam com o poder dia após dia. Como as ruas estão com suas agendas lotadas, quase sempre sem tempo para os entes queridos e muitas vezes impedindo que nasça alguma relva ao seu redor. Quando chega a noite, quando a escuridão invadem suas vidas, ficam vazios. Quando a tempestade cai, quando o vento mais forte sopra todos desaparecem, a agenda desaparece, o telefone não toca mais. Homens e poder são como ruas, avenidas,e vielas. Todos de alguma forma pensam possuir alguma importância até a hora que a noite chega, o vento sopra ou cai uma tempestade.
A grande alegria é que o vento passa, a tempestade acaba, a escuridão se esvai e  o sol volta a brilhar. E volta tudo de novo, e recomeça a mesma rotina. A agenda, os transeuntes, a gritaria, o senso de importância anônima que muitas vezes impede nascer a grama, o trigo ou a flor que possa abrilhantar a vida. Ruas vazias, avenidas vazias, vielas vazias, vidas vazias. Nenhum poder tem sentido quando a escuridão da noite é capaz de transforma em uma rua vazia.

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