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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O mundo precisa de Fidelidade.




No nosso tempo é difícil falar de fidelidade pela simples realidade de que vivemos em um tempo meio atemporal, um presentismo exagerado, um simulacro, um tempo dominado pelas aparências. No grosso modo poderíamos até dizer que falar de fidelidade seria coisa demasiada fútil. O simulacro e hipocrisia matam qualquer possibilidade de fidelidade. Como ser fiel se sequer somos autênticos? Como exigir fidelidade se na maioria das vezes nem sabemos quem somos? Afinal, o que pode ser fidelidade em um mundo onde tudo depende das circunstâncias?
Aristóteles não tratou a fidelidade como uma virtude. Em seu quadro de virtudes o que mais se aproxima é o que ele chama de veracidade. E mesmo assim teríamos de entender a veracidade no sentido do homem ser fiel a si mesmo. [1] Considerando como Andres Comte-Sponville que a fidelidade está intimamente ligada a questão do tempo poderíamos ainda aproximar do pensamento aristotélico no que poderia chamar do seu conceito máximo de justiça como virtude, pois assim, poderíamos entender que o homem feliz seria aquele consciente e fiel aos seus próprios princípios.
Antes dos gregos, os judeus tratavam a fidelidade de forma dura; entendendo a infidelidade como pecado contra Deus,  punia de morte aos infiéis, embora o pecado da infidelidade contra as leis divinas foram constantes na história do povo de Israel. Outro tipo de fidelidade era a  tratada no aspecto do relacionamento, e, neste caso a fidelidade do homem a mulher e sua recíproca era uma extensão da fidelidade ao seu Deus. Os exemplos de infidelidade se alastram desde o bezerro de ouro no caminho da terra prometida aos diversos altares que fizeram a outros deuses. No campo do casamento, o principal rei, Davi, envolveu-se com mulheres que não eram de Israel, e,  Salomão foi mais longe ainda. Teve centenas de  mulheres e infrigiu diversas regras e preceitos divinos.
Para Comte-Sponville fidelidade está tão ligada ao tempo que se fossemos sem memória não poderíamos sequer considerar a existência da infidelidade. Para ele toda dignidade do homem está no pensamento, a dignidade do pensamento está na memória e uma vez que o homem só é espírito pela memória só se torna humano pela fidelidade. A fidelidade então só existe se for uma fidelidade de pensamento, o que resta para, além disso, é infidelidade.  Não muito diferente da idéia dos judeus, pois estes consideravam que se uma mulher fosse infiel ao seu marido em pensamento já era considerada adultera e digna de ser apedrejada.
Para Montaigne a fidelidade era a condição da identidade. Ser fiel de si para consigo era a condição da existência do sujeito moral, ou seja, só existo e continuo a existir por que sou fiel a mim mesmo, por que me confesso como tal todos os dias. Esta interessante questão coloca em voga a fidelidade dos amantes que justificam a traição pelas mudanças que o tempo imprime no ser amado. Ora, eis a mais cruel infidelidade pois todos os sabem que o tempo provoca mudanças imprevisíveis e aceitar as mudanças impostas pelo tempo é que garante a fidelidade do amor prometido.
Já para Kant a fidelidade é um dever, cujo principio está na origem de toda moral. Não existe então sujeito moral sem fidelidade e isso por que o filosofo de Konisberg pensa fundar uma moral universal sobre o culto da razão. A fidelidade então seria puramente o dever. Não se pode dizer o mesmo da fidelidade dos casais. Há uma relativismo no que se considera a fidelidade entre os casais, justamente por que para cada um estabelece-se um conceito nada universal de fidelidade. Trata-se então de definir onde está a infidelidade, e a quem se está sendo infiel. O casal que de comum acordo define que ambos são livres para ter outros relacionamentos não estaria sendo infiel ao principio do casamento? E sendo infiéis, mesmo que de comum acordo, ao princípio e razão de ser do casamento podem cobrar o sucesso na empreitada? Trata-se pois de discutir  se um relacionamento assim pode chamar-se casamento, uma vez que os pensamentos de ambos, por principio não terá fidelidade um ao outro ou a projeto comum.
Outra questão envolvendo a fidelidade, diz respeito aquilo que a aproxima do pensamento aristotélico da veracidade. A pergunta é: devemos mentir para proteger uma vida? Ou o que podemos dizer das chamadas mentiras sociais nos nossos dias que tantos maridos e esposas contam uns aos outros sob o pretexto de protegerem-se mutuamente de maiores dissabores? Não se tem dúvida de que uma mentira para proteger uma vida inocente pode ser louvável, no entanto, como diferir os limites nos quais se pode infringir a veracidade? O próprio estagirita[2] já nos alertava que só é virtude aquilo que é mediania, e, diante disso, sabe-se que a veracidade não existe como virtude a qualquer preço.
Em outro texto[3] no qual escrevi sobre Polidez, afirmei que a moral dos  nossos dias é a dos sujeitos polidos, tempos de pouca moral. Vivemos no tempo do simulacro, tempo de plástico, era de plástico, tempo das aparências. Um tempo de capitus e Emas Bovarys. E se a polidez é típica de nosso tempo, virtude das crianças e dos corruptos há que se lutar em prol da fidelidade, pois apenas a fidelidade pode combater os excessos da polidez. Contra a polidez apenas a verdade, a fidelidade firme pode se sustentar.  A certeza de que poderei ser amanha o mesmo que sou hoje  ou permitir apenas a evolução em vez dos contra-caminhos e involução.
Na ética de nossos dias falta fidelidade. Em texto escrito a verve das atitudes dos jornalistas[4] servir-me de texto do Professor Bernardo Kunciski para demonstrar no caso dos jornalistas como estes esquecem daquilo para o qual foram formados. Tristemente não é só na questão dos jornalistas, parece-me que em todas as profissões não existe quase nenhuma fidelidade mais ao dever. O que move as atitudes dos profissionais não é o dever, e, sim o desejo desenfreado do lucro financeiro a qualquer preço. Fidelidade, fidelidade, fidelidade eis o grito que pode ajudar a melhorar nossos dias.



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