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sábado, 19 de novembro de 2011

A era da Estupidez: Do sabe tudo ao completo estúpido.



Nelson Soares dos Santos

Tenho visto muita reclamação de professores e intelectuais relacionado aos problemas que se enfrenta nos nossos dias. Muitos tem repetido que um dos problemas de nossa época é por que já não podemos mais corrigir as pessoas. E o que é pior, já não se pode mais corrigir o aluno em sala de aula. Criou-se uma ideia extremamente terrível de que corrigir o aluno pode deixar traumas, e, por não poder corrigir aceita-se qualquer coisa como resposta certa para uma determinada questão mesmo sendo absurda e incoerente. Isso é verdade. Entretanto tem também um outro problema que está crescendo de forma séria, muito séria e que é tão ruim quando não poder corrigir, pois se de um lado o respeito aos pontos de vistas mais absurdos cria o estúpido diplomado, de outro, o sabe-tudo cria o dogmático. O Estúpido é aquele que nada sabendo pensa que sabe de tudo. E o sabe tudo que é tão estúpido ou mais que o estúpido, pensa que a verdade dele é verdade absoluta, por isso não aceita discussão e nenhum tipo de discordância.

A equivocada ideia de que não se pode corrigir o aluno.

A primeira coisa que precisa ser esclarecida é a tal história de que existem correntes teóricas do campo de conhecimento da Educação que afirmam não poder corrigir o aluno. Não conheço nenhuma corrente teórica que defenda tal ideia. Algumas ( a pedagogia Escolanovista, libertária, libertadora, humanista), defendem, com suas peculiaridades que deve ter o cuidado de, na metodologia de aprendizagem preocupe-se com os danos psicológicos que possa vir causar ao aluno determinadas formas de correção, sobretudo, tais correntes procuravam se contrapor a uma época regida pelo excesso de autoritarismo. O erro de interpretação se dá justamente, pela interpretação também errada do que é a democracia e de como se constrói a formação de um estudante dentro do processo democrático.
A idéia absurda de que todo ponto de vista do aluno deve ser respeitado se resvalou para a ideia de que o mesmo deve ser aceito como verdade por ser um ponto de vista do aluno, de sua cultura e de sua formação psicológica. Nada mais absurdo e falso. Tanto que a pedagogia conteudista capitaneada pelo professor Libânio defende claramente a necessidade de uma organização da escola com regras claras, processos organizativos claros e com limites bem definidos para cada um dos atores do processo pedagógico ( professores, alunos e técnicos-administrativos do setor escolar).
A defesa de que o aluno precisa da aprendizagem de conteúdos é básico, uma vez que estes são os instrumentos pelos quais ele poderá interpretar a cada vez mais complexa realidade que vivemos. Um exemplo, ao um aluno ler um livro de Machado de Assis, ao interpretar de forma equivocada a característica moral da época e como aparece na obra, não sendo ele corrigido, levará para a vida uma visão equivocada da própria forma de interpretar a realidade, pois carregará consigo conceitos equivocados. Uma aluno que não sabe as regras básicas de construção de um texto precisa ser corrigido para que consiga não apenas escrever um texto, mas por que a base do saber escrever é saber ler, e sobretudo saber ler o mundo.
Desta forma não é difícil entender por que a não correção dos erros do aluno é um dano extremo para o futuro dele como cidadão, pois isto o torna estúpido, alguém que pensa que sabe e que na verdade não sabe. Tenho visto muitos alunos na Educação superior que não conseguem ler e compreender obras da literatura brasileira, unicamente por um motivo básico: não alcançaram um vocabulário erudito suficiente para ler tais obras. A grande desgraça é que este aluno sequer sabe que é um estúpido, por que ninguém disse a ele até que completasse o Ensino Médio, e, não sei por que ele acabou conseguindo entrar em um curso superior, e muitas vezes em boas universidades. Ignorando sua condição de estúpido sofre cada vez que se depara com os obstáculos colocados pela ignorância de questões elementares negados no seu processo de formação.

O Sabe Tudo ou o Estúpido Dogmático.

Do outro lado do aluno que não pode ser corrigido, ou no que se transforma o aluno que não é corrigido está o estúpido dogmático. Por que estúpido dogmático? Dogmático vem de dogma, e quando procuramos a o significado no dicionário encontramos que é “pertencente ou relativo a dogmas, que se apresenta com caráter de certeza absoluta, que exprime uma opinião de forma categórica, um sectário do dogmatismo”. O dogmático constrói ou adere a uma forma de interpretação de mundo, e dela faz, de forma categórica a única forma de encontrar e lidar com a verdade ou do que se pode considerar verdade na interpretação da realidade. Quando comecei a estudar filosofia na Universidade tive a sorte de ter um professor que vacinou-me contra o dogmatismo. Quando ele viu meu interesse profundo pela filosofia convidou-me para participar de um projeto de Iniciação Científica e a primeira coisa que ele pediu foi que eu fizesse um estudo histórico das principais correntes filosóficas. Tal estudo levou-me a perceber que cada ciência tem um método e instrumentos diferentes de investigar a realidade, e que um mesmo objeto pode apresentar diversas possibilidades de ser conhecido. Era meu primeiro contato com a Epistemologia. Como eu era cristão, logo fui levado a enfrentar meu dogmatismo, e, lidar com as possibilidades de que fosse possível Deus não existir.
No ano seguinte fui ao Congresso da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, e, orgulhosamente apresentei o trabalho intitulado: As determinações ideológicas entre Público e privado: Um estudo sobre as Políticas de Financiamento da Educação no Estado do Tocantins. O referencial teórico do trabalho era o pensamento de Habermas, sobretudo “A esfera Pública Burguesa”, e “Conhecimento e Interesse”. Quando voltei do Congresso inquiri ao orientador que não entendi por que as pessoas que se identificavam como pesquisadores da Teoria Crítica admiravam tanto o trabalho, e outros, Marxistas, Fenomenólogos, Idealistas Hegelianos, Positivistas, dentre outros, viam tantas críticas dava lugar para pensar que tudo no trabalho estava errado. O professor riu, e disse, - Você acabou de entender o que é dogmatismo. O Dogmatismo não aceita a possibilidade do conhecimento por outro caminho que não o dele, assim como na religião/teologia o dogmático acredita que apenas os dogmas que ele defende levam ao céu, na ciência, o dogmático acredita que apenas os próprios critérios metodológicos levam ao verdadeiro conhecimento.
Acalentado e confortado em sua igrejinha metodológica, teórica e instrumental, o dogmático passa a ver tudo que discorda de suas próprias conclusões como o mal encarnado, o demônio que precisa ser destruído. Quando se sente fragilizado em suas considerações e conclusões o dogmático ataca a pessoa que dele discorda. Chama-o de ressentido, de esquerdista, direitista alienado ou qualquer outra coisa que leva a condição de o discurso do outro não ser ouvido. A pior miséria é que o dogmático sabe tudo de todas as coisas, principalmente nas ciências humanas. Ele tudo interpreta, tudo compreende, tem sabedoria sobre tudo, e, pior ainda, rapidamente consegue seguidores, pois a maioria deles já se tornaram professores universitários de Universidades Federais conceituadas.
O dogmático pode ser encontrado em todos os campos do conhecimento, em todas as ciências, em todos os lugares. Na política, na economia, na filosofia, na sociologia, e, no senso comum. Aliás, uma coisa interessante é que o dogmático quase sempre sente-se com competência para explicar de forma simples qualquer coisa que seja complexa. Coisa maluca é ver um dogmático lendo Kant, Platão, Hegel ou qualquer grande filósofo. Ele não se preocupa em antes entender como ou que tipo de metodologia foi utilizada para construir um sistema; ele já começa por criticar a metodologia que construiu o sistema de pensamento a partir do seu próprio método. Ao analisar a realidade, banaliza o que já é banal e consegue transformar em senso comum o que muitas vezes já é senso comum. O dogmático, no entanto, não aceita ser criticado, afinal, ele está bem fundamentado, usou todas as categorias de sua corrente, e as vezes, de forma genial criou novas categorias. O dogmático torna-se estúpido por que julga capaz de compreender toda a montanha olhando de forma quase cega para apenas um dos lado da mesma.

O dogmático cria o estúpido diplomado.

Sendo o estúpido aquele que não aceita mais ser corrigido, sofre, magoa-se ao perceber que está equivocado, ele tem uma razão de existir. E tal explicação encontra-se na existência do dogmático. É o dogmático que cria o estúpido. Como isso se dá? Não é difícil de entender. O dogmático é aquele que conhecendo algumas possibilidades de se chegar a verdade ou ao conhecimento escolhe uma determinada forma e passa a aplicar como caminho absoluto e único de encontrar a verdade, e as conclusões encontradas sobre as coisas, a vida e a realidade ( a redundância é de propósito), passa a tomá-las como verdades absolutas saindo a desqualificar qualquer conclusão que tenha diferenças.
O estúpido é aquele que apaixonando-se por um dogmático passa a segui-lo como mestre absoluto, quase como um deus, um gênio sobrenatural. Assim, já não racionaliza nada mais que ouve, apenas acredita. Todo estúpido tem um professor que admira, segue, cita, elogia e em troca o professor dogmática afirma que o tal aluno é inteligente, sabido, e que se não está compreendendo outra matéria qualquer, a culpa é do professor que utiliza o método errado de ensinar. O pior é que o estúpido só se sente na necessidade de assistir aula do seu dogmático preferido, uma vez que não vê possibilidade de encontrar nada verdadeiro em outras ciências e ou disciplinas. Assim, utiliza da liberdade acadêmica para matar aulas, entrar e sair quando bem quer da sala, não respeitar a metodologia dos demais professores, e, pior, não se dá ao trabalho de ler as fontes, por que acredita no seu querido e célebre professor. Pior ainda é quando o dogmático tem livros publicados, por que ai o estúpido compra todos, pega autógrafo e não lê nenhum outro autor mais.
O problema é que estamos chegando em uma época em que já não se sabe que veio primeiro, se o estúpido ou o dogmático. Quase que se cai na história velha do ovo e da galinha. O certo é que o estúpido alimenta e sustenta o dogmático, pois caso tivesse coragem de pensar por si mesmo desmascararia os dogmas pelo exercício da própria razão; de outro lado, o dogmático vai criando mais estúpidos com aulas shows, pouco conteúdo, festa e verdades absolutas. O grande problema é que ambos, na medida em que proliferam, alimentam o fracasso, a violência, as guerras, e todos os tipos de atitudes mesquinhas que são produzidas pelo crescimento da Ignorância no seio da humanidade.

Um comentário:

  1. Realmente a questão de não poder corrigir um aluno é fruto de uma grande falácia, normalmente por conta da política do 'vamos aprovar todo mundo' e da perpectiva passada para os professores do aluno como cliente, sendo assim ele terá sempre razão e mantendo-o assim é uma forma de mantê-lo também como consumidor daqueles serviços, e claro pagando por ele. Sobre o estúpio dogmático diplomado, desconfio que é resultado da formação escolar deficitária como um todo, cada um deles chega à faculdade com uma limitadíssima capacidade de abastração e equivocada noção de relativismo. Muitas das vezes sua rejeição ao diferente não é tanto por puro dogmatismo, mas pela sua total incapacidade de propriamente compreender o outro e as demandas da sociedade. Estamos passando por uma crise sim, mas uma crise do pensamento, acesso à informalção não é mais o problema, e sim o uso desta.

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