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sexta-feira, 13 de maio de 2011

13 de maio – E quando será a abolição?



Não gosto de falar de escravidão. Tão pouco de abolição. Não acredito que tenha havido abolição da escravatura nem no Brasil e nem no mundo. O mundo continua cheio de escravos de todos os tipos: escravos da ignorância, escravos da pobreza, escravos da carne ou da falta de virtudes morais, enfim, escravos de todos os tipos. Como o dia hoje é para falar de abolição da escravatura no Brasil vou falar então da mentira da abolição e do 13 de maio. Não é de hoje que repito que 13 de maio foi uma grande mentira e enganou apenas aqueles que queriam acreditar em uma ilusão por que nunca entenderam o que significava a escravidão dos negros no Brasil. Pois digo: a escravidão dos negros no Brasil tinha apenas o significado de deixar claro quem pagava a conta do luxo.
Aprendi muito cedo, não sei mais com quem, e nem onde que na natureza tudo tem um preço e alguém tem sempre que pagar este preço. Não há nada gratuito. Plante uma árvore no seu quintal desejando obter apenas a sombra e esqueça de regá-la, adubá-la e não conseguirás nada, e mesmo que venha a conseguir que ela cresça sozinha pagarás o preço de ter que limpar as folhas no chão ou conviver com as folhas secas; terás de conviver com a presença de pássaros e tudo que eles trazem. Alguém tem que trabalhar, alguém tem que produzir. A riqueza só é produzida pelo trabalho humano. Na história humana sempre que se precisou explorar, dominar nações, construir palácios foi preciso utilizar o trabalho de multidões: foi assim no Egito no tempo da escravidão do povo de Israel, foi assim na Babilônia, na Pérsia, Na Grécia, em Roma. Na idade média a igreja fez cruzada, manteve os servos de gleba no estágio da escravidão; e, na modernidade, pelo menos no seu início o homem serviu-se da escravidão.
Escrevi uma vez um trabalho na graduação no qual eu procurava mostrar que a defesa da escravidão feita por Joaquim Nabuco era uma falácia. Na verdade ele estava mesmo era defendendo maior rentabilidade para os fazendeiros. Caso pudéssemos admitir que existiu algum grande abolicionista no Brasil este deveria ser Zumbi do Palmares ou tantos outros líderes de Quilombos. No mesmo trabalho ainda observei que, na verdade, a princesa Isabel queria mesmo com a abolição conseguir o apoio político da área progressista e ficar no poder produzindo uma avanço considerável no país e este foi um plano que saiu pela culatra pois naquele momento não existia uma base progressista suficiente, e mesmo o discurso progressista só era progressista no discurso, no fundo era norteado por interesses imediatos. Como se pode ver o  Brasil não mudou quase nada.
Na época eu havia lido com avidez autores como Nina Rodrigues, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Otávio Ianni, Sérgio  Buarque de Holanda, Gilberto Freire, e o próprio Joaquim Nabuco. Lembro-me de ter lido inúmeros artigos científicos sobre o assunto, livros antigos e recentes e o que eu vi foi uma relação pérfida que aqueles que tudo têm procura estabelecer com aqueles que não têm  nada. Foi nesta época que desisti de vez da igreja e das religiões. Não podia acreditar que a Igreja Católica tenha tida postura tão atrasada ao ponto de chancelar a idéia de que negro não tinha alma.  E as outras religiões também não tiveram postura mais avançada.
Uma das idéias mais pérfidas que já ouvi para justificar que no Brasil após a abolição não houve mais racismo foi a idéia do Homem Cordial. Segundo tal teoria o brasileiro aceitou a miscigenação. Estes fatos não se sustentam pela própria história; a tentativa de branqueamento da nação, a dificuldade dos negros de ter acesso ao trabalho após 13 de maio, e, pior, a quase impossibilidade de ter acesso aos direitos básicos de cidadão. Por tudo isso sempre vi, na abolição, uma manobra dos que muito tinham para aproveitar a idéia da liberdade dos escravos para lucrar e enriquecer ainda mais.
No estudo citado, fiz ainda uma comparação entre as idéias abolicionista, o conceito de liberdade defendido por Joaquim Nabuco e os fundamentos  do processo de formação da mão de obra assalariada, e, ali consegui entrever que a liberdade defendida pelos liberais não existe sem a proteção a propriedade privada, e, que esta é na verdade o fundamento de toda escravidão, e, que ao proteger a propriedade privada toda a possibilidade de recuperação da liberdade é perdida. Daí por que o único abolicionismo possível seja o dos Quilombos, pois este considerava necessário que o negro tivesse acesso a terra e a todas as condições para construir seu lar e sua família.
A abolição da escravidão foi então a ampliação da escravidão. Sob o pretexto de libertar os negros escravizou os índios, os imigrantes, e todos aqueles que por alguma razão não possuíam a propriedade privada seja da terra ou de algum outro produto. Ficaram todos  mercê dos senhores da terra, os herdeiros das capitanias hereditárias. Um estudo recente apresentado pela revista exame  ( não me lembro o número e não vou procurar), afirmava que dentre os trinta homens mais ricos do Brasil apenas dois eram fruto do próprio esforço, sendo que um contou com as facilidades iniciais do pai ser alto servidor público; ou seja, o Brasil é um país de herdeiros.
É verdade que muita coisa melhorou  para os negros no Brasil. Não se pode negar isso. Enquanto no entanto houver um ser humano faminto, sendo explorado de todas as formas em condições sub-humanas não existe motivo para comemorar. O Brasil é uma país ainda de pobreza e desigualdade. Devemos olhar para frente e com coragem lutar pelo que ainda temos de fazer. É necessário um grande avanço moral, uma grande luta para erradicar a pobreza, acabar com  a miséria, a exploração, a desigualdade, a violência. Enquanto isso não ocorrer 13 de maio só terá sentido se tomarmos como símbolo de uma luta que não foi vencida e que não acabou. Em um  país onde quase metade da população vive com muito menos do que um salário mínimo ainda não pode ser considerado um país de cidadãos livres. Somos todos escravos das necessidades, da desigualdade, da violência, da pobreza política e da pobreza da política.
A única coisa boa a comemorar é que se houveram alguns pequenos avanços no passado podemos acreditar que podemos continuar avançando. Outras lutas, outras trincheiras, outros quilombos. A luta que se trava hoje é para sermos em primeiro lugar donos de nossa consciência, donos de nossas mentes, e, livres de viver manietados por aqueles que julgam ter o monopólio da verdade. A abolição de que precisamos é contra a alienação que destrói o nosso corpo, entorpece o nosso espírito e macula nossa alma.


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