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terça-feira, 3 de maio de 2011

Bin Ladem, Princípe Inglês e João Paulo II - Unidos pela pobreza extrema.


Nos últimos dias muitos acontecimentos interessantes para se refletir sobre o ser humano. A morte de Bin Laden, a beatificação do papa, o casamento do príncipe da Inglaterra, a publicação dos novos dados do IBGE no Brasil foram alguns dos assuntos que chamaram minha atenção. Penso que todos eles possuem em comum motivos para pensarmos  na condição moral da humanidade, no processo civilizatório e na necessidade de um alto investimento no ser humano.
A morte de Bin Ladem foi noticiada em todos os canais de televisão. Eu estava em uma cidade do interior, celular desligado, televisão desligada; só fui perceber a euforia das pessoas no outro dia já por meio das onze horas da manha, ainda assim os canais de televisão noticiavam de forma obsessiva os detalhes da morte do maior líder terrorista da atualidade. Uma questão, porém, poucos levantavam: as razões que fez com um homem terrorrista, assassino de inocentes passasse a ter tantos seguidores espalhados mundo afora.  Passado alguns dias foi possível ler algumas reflexões de intelectuais fora do eixo da grande mídia, em blogs, sobre a necessidade de se combater as causas da violência e não apenas matar os seus líderes. Uma questão interessante que os líderes atuais parecem não perceber é que mataram Bin Laden mas não destruíram o nome, e, nem a motivação. No filme o Gladiador há uma cena engraçada mas profunda: após desafiar o rei, o general que se tornou gladiador, Máximus volta para sua cela com seus companheiros. Ao ser-lhes servido comida Máximus tem comer e ser envenenado, no que percebendo tal situação um soldado a quem Máximus salvara sua vida em batalha prova da comida e finge estar morrendo para gargalhada de todos. Ao fim da cena já de forma serena um outro soldado diz:  Não se preocupe Máximus, ele precisa primeiro destruir o seu  nome para só então tirar sua vida.
Não quero aqui comparar Máximus com Bin Laden, a não ser que para milhões e do mesmo caso, milhões de pessoas pobres e oprimidas ambos tornaram-se cada um ao seu modo o símbolo da luta contra a opressão. Do mesmo modo, seria mais inteligente na atualidade que os líderes mundiais em vez de tirar a vida de Bin Laden tivessem se preocupado em retirar dele a identificação com a luta contra a opressão, a dominação, a exploração e a pobreza.
Do outro lado do espectro, o santo. O papa João Paulo II foi beatificado. Milhares de , no mundo inteiro, acompanharam hipnotizadas o processo de beatificação. Na verdade, os cristãos comuns,  sequer entende direito qual a diferença entre ser beato e ser santo, e, no entanto o acontecimento transformou-se em catarse coletiva alimentando esperanças, sonhos, realizações.  A religião já foi dita e tida como o ópio do povo. A existência de um santo de “nosso tempo” torna essa verdade ainda mais forte. É como se pudéssemos todos sermos santos, realizar milagres, superar nossos desejos e pecados. O moralismo abstrato sempre procurou resolver o problema da pobreza reduzindo as relações sociais às questões morais, como se pobreza, miséria, e todos os males fossem apenas uma questão de pecar contra deus.
Diferente da beatificação do papa ( a encarnação do bem rodeado de tristeza), e, da morte de Bin Laden ( encarnação do mal rodeada de alegrias e tristezas), situa-se o casamento do príncipe Inglês ( a própria encarnação da felicidade na terra), que da mesma forma hipnotizou milhões de pessoas no mundo inteiro. Também não assisti o casamento do príncipe, no entanto, quando acordei e liguei o televisor foi possível assistir a homilia feita pelo Bispo celebrante da Igreja anglicana. Olhando para o casal acabei por refletir sobre o casamento e a idéia de família, esta instituição tão antiga e tão sonhada de ser vivida na plenitude por milhões de seres humanos que já viveram e vivem neste planeta. O casamento do príncipe, a morte de Osama, a beatificação do papa; de alguma forma estes acontecimentos tem em comum o fato de alimentar os sonhos de pobres e oprimidos de alcançar seja na terra ou no céu a resolução dos males terrenos.
Os sofrimentos terrenos existem das mais variadas formas, mas uma destas formas é emblemática pois é produzida pelo próprio ser humano e por sua estatura moral: a questão da pobreza. A existência da pobreza e seus males correlatos é hoje o maior desafio da humanidade. Não poderá haver crescimento e evolução moral da humanidade enquanto não se encontrar uma forma de enfrentar a questão da pobreza extrema que deixa milhões passando fome e a mercê da violência e das drogas. É aqui que entra a questão da publicação dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estátisticas ( IBGE). Dentre inúmeros dados interessantes salta os  olhos a existência de ainda 16.200.000 pessoas no nível da extrema pobreza aos quais sequer os serviços públicos os alcança. É praticamente a população do Estado do Rio de Janeiro.
Não podemos mais deixar de refletir sobre a razão que motiva tanta violência. Não podemos mais deixar de perceber que pessoas vivendo na extrema pobreza são presas fáceis do fanatismo, da cartase social por que vítimas do sonho de um dia se livrar dos males que as atormenta. Chegou a hora de cuidar do nosso planeta, e o caminho mais curto é cuidar do ser humano, nosso semelhante. Precisamos reecontrar o outro que existe em nós para então sermos capazes de perceber que o sofrimento daqueles que vivem na pobreza extrema é o nosso próprio sofrimento. Enquanto existir pessoas sofrendo na pobreza extrema haverá Bin Laden, príncipes se casando, papas sendo beatificados. São os opostos que se alimentam.

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