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sábado, 10 de setembro de 2011

Um dia no Instituto Adventista Brasil Central



Quando se vive momentos marcantes nesta vida as lembranças quase nunca vêm em continuidade. O máximo que se pode dizer é de contigüidade. São assim minhas lembranças do tempo de estudante no Instituto Adventista Brasil Central. E é por que vale a pena registrar algumas lembranças que me sirvo do espaço virtual de democrático de ter um blog pessoal para tornar público aqueles que me acompanham um dos momentos de raro aprendizado em minha vida.
Talvez um dia eu ainda faça algo importante para a humanidade, ou deixe algum legado e o Instituto Adventista Brasil Central e a Igreja Adventista do Sétimo dia,  tenha orgulho do fato de eu ter feito parte de suas fileiras. A verdade é que não importa qual legado eu venha a deixar os resultados das minhas ações terá influência delével dos anos ali passados. Algumas pessoas estão vivas na memória, seja pelos fatos positivos ou negativos; outras, tornaram-se sombras na memória sofrida dos traumas vividos.
Neste texto, quero relembrar a rotina de um aluno no IABC nos anos que se passaram entre 1989/1992. Não era uma rotina fácil, era preciso ter fibra para não arrumar as malas e voltar para casa. Quando cheguei no IABC no mês de dezembro de 1988, ainda era chamado de Alcatraz. Assim que cruzei pelo portão ainda de chão batido e avistamos um aluno, que na minha lembrança parece ter sido o Milton Godoy, este disse: Bem vindo a Alcatraz, amigo. Três dias depois, começava minha rotina no colégio como aluno Industriário[1].
Eram férias, e o dia começava cedo, com uma música, geralmente clássica ou instrumental, que ressoava pelas caixas de som do corredor. O monitor passava de quarto em quarto acordando aqueles que se relutavam a iniciar com ânimo redobrado o novo dia. Quem ousasse olhar no relógio veria que marcava cinco horas e trinta minutos, olhando pela janela ainda via o escuro da noite já cedendo aos primeiros raios de sol. Tínhamos meia hora exata para ir ao banheiro, tomar banho, escovar os dentes, e se dirigir ao auditório para o culto matinal, sob pena de perder o café da manha caso não conseguisse a disciplina dentro do horário estabelecido. No culto, ali estava o preceptor, que no mês que cheguei era o Pastor e Professor Gilberto. Cantávamos hinos, fazíamos oração, ouvíamos um pequeno sermão ou leitura bíblica feita por algum colega ou professor, e em seguida, encerrado o culto todos deixavam o auditório para aguardar tocar a sirene avisando que estava na hora de ira ao restaurante tomar o café da manha.
O restaurante era sempre um lugar especial, pois nele iniciava os romances vividos naquele lugar. Eu não tive muitas sorte nos romances, talvez  pelo fato de que a dor que sentia por estar ali fosse muito forte e não me permitia olhar para ninguém.  Não posso dizer, no entanto, que não tive paixões.  Tive ali uma grande paixão, platônica, distante, não realizada. Até por que a disciplina não permitia. No restaurante  podíamos sentar apenas na frente das meninas, e raramente, e em alguns momentos podíamos sentar do mesmo lado da mesa. Fora do restaurante outro momento que podíamos ficar perto das meninas era combinar para caminhar lado a lado na passarela que levava do restaurante ao Prédio Central. Lembro-me que os mais apaixonados conseguiam perder a hora de almoço para fazer um percurso de cem metros. E mesmo neste percurso não se podia tocar sequer nas mãos das garotas, apenas diálogos e doce olhares cheios de ternura.
Havia na época três tipos de alunos internos e o aluno externo. Internos havia os Industriários ( trabalhavam o período todo e as férias), semi-industriários ( trabalhavam o período todo mas voltavam para suas casas nas férias), os alunos semi-semi- Industriários ( trabalhavam algumas horas do período e também retornavam para suas casas nas férias), e o aluno regular, este, geralmente oriundo de família rica cujo pai possuía condições de pagar as altas mensalidades. Os alunos externos eram geralmente filhos de professores e funcionários ou moradores de uma pequena vila chamada de Planalmira.
Como já disse minha rotina era de um dia de férias, logo, éramos apenas os alunos e alunas industriarias. Após o café, tínhamos mais dez minutos para trocar de roupa e ir ao trabalho. As meninas, geralmente trabalhavam na cozinha, na limpeza em geral, excluindo o prédio masculino cuja limpeza era feita pelos rapazes; e na lavanderia. A jardinagem, a horta, e fazenda  - incluindo o plantio, construção, marcenaria e manutenção era território masculino.
Eu nos primeiros dias fui parar no plantio. O chefe um homem chamado Danilo, que não fosse eu ter conhecido antes outro gaucho teria passado a mim a imagem de que todo gaúcho é revoltado, racista, mal humorado e de mal com a vida. Foi esta a imagem que o Danilo deixou para mim desde o primeiro contato, desculpe aqueles colegas que gosta dele, por que sei que havia muitos que gostavam. O pior no Danilo era perceber que ela racista. Odiava quando ele me chamava de negrinho. Não conseguia ver nele jamais, um homem de Deus. Era para mim um demônio sempre com o tridente nas mãos.
Não era de se espantar que a relação não fosse dar certo. E dia depois foi parar nas hortaliças. Ali, os dias pareciam sempre melhores. Não me lembro o nome do chefe ( neste momento, embora tenha por ele um carinho imenso, pois tratava todos os seus subordinados como filhos); mas sei que ali existia esperança, esperança de que  o futuro fosse melhor. Dias de calor, dias de frio, todos os dias ali estávamos os alunos industriários das sete as onze e meia, de uma hora as cinco e meia. Uma falta, e era motivos de ameaças de perder a vaga no colégio.
Não, não era bom ser industriário. O trabalho era duro. O tratamento não era dos melhores, mas eu acreditava que ali era o melhor lugar para que eu pudesse ter uma boa educação. Nas férias, vez ou outro havia momentos de recreação após o culto do jantar no salão  do restaurante, onde brincávamos de roda com as alunas durante uma ou duas horas, pois as dez horas em ponto, as luzes se apagavam e éramos condenados a dormir, forma de descansar para um dia na labuta.  Foram assim, os quatro anos da vida, recheado de dores, sofrimentos e desilusões. Não assusto ao ver até hoje os ex-colegas dizerem que ali era como se fosse uma prisão de segurança máxima, uma verdadeira,  alcatraz.
Entretanto, não carrego mais nenhuma marca de dor. Todas ficaram para trás. Não sei se fiz a escolha certa ao ir  para aquele lugar, não sei se teria melhores chances em qualquer outra. Hoje, olhando para trás não sei o que faria, a única coisa que sei, é que era este os dias de industriário que vivi.




[1] Industriário era o nome dado ao aluno que por não ter dinheiro para pagar o colégio trabalhava nas férias, fins de semana e meio período em tempos de aula para pagar os estudos.

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