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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Corrupção III – A doce hipocrisia da Marcha dos Insensatos.


Nelson Soares dos Santos

A complexidade atual das relações sociais e políticas estabelecidas entre os homens como seres individuais e singulares, e, estas mesmas relações mediadas pela tecnologia, pela sociedade e pelos diversos aparatos sistêmicos e aparelhos de Estado torna difícil,  imaginar um meio adequado de combate a corrupção, uma vez que, já sabemos que a corrupção não existe como ente concreto, ela existe como algo que se manifesta nos homens como indivíduos singulares. Diante disso, não deixa de ser engraçado ver nas manchetes dos jornais de hoje, no Diário da Manha reportagem sobre uma marcha que está sendo organizada contra a corrupção.
Não deixa de ser engraçado por que a existência de marchas contra a corrupção induz a pensar que esta é um ente concreto, que está em algum lugar, que toma decisões, que escolhe suas vítimas e que age de forma livre, e racional. O estranho é que a tal marcha tem o apoio da Academia Goiana de Filosofia, segundo noticia o jornal, o que significaria que os filósofos de Goiás acreditam que a corrupção pode ser combatida com marchas, ou que no mínimo tais marchas serviriam para chamar a atenção do público para os males da corrupção e a necessidade de combatê-la.
Ainda que a segunda hipótese estivesse correta, isso significaria negar que a corrupção é algo que se manifesta nos indivíduos como produto das relações que os mesmos estabelecem entre si, mediados pelos sistemas, pelos saberes, pela própria ciência e pelas tecnologias. Em resumo, não existiria corrupção, ( no modo como está sendo entendido e combatido) não houvesse seres humanos que decidiram, por algum  motivo, ou racionalmente, abandonar o esforço da vida virtuosa, uma vez que esta, seria a única forma deste mal não se manifestar.
Antecipando os acontecimentos que se darão as dez horas desta manha, eu imagino que lá, aglomerado na praça cívica estarão jovens tomando bebidas alcoólicas, cobiçando a namorada do amigo, planejando formas de colar na prova que terá nos dias seguintes ao feriado, ( e terá de colar justamente por que utilizou o tempo de estudo para marchar contra a corrupção), dentre muitas outras pequenas atitudes que certamente poderão ser ali observadas. Caso isso se confirme, não tenho dúvida que a marcha contra a corrupção será um bom lugar para se estudar os mecanismos da corrupção e como ela opera nos seres humanos, ou seja, a marcha da corrupção nada mais será que uma marcha de insensatos.
Sócrates afirmava que o conhecimento certo das coisas levava ao agir correto, e que neste sentido, os indivíduos que não possuíam uma vida correta, não a possuíam apenas por ignorância; Platão por sua vez, entendia que a vida correta era possível quando os indivíduos por algum golpe da sorte contemplava o mundo das idéias perfeitas, ou o mundo inteligível ( afinal, a saída da caverna me parece mais um golpe da sorte); Aristóteles, elabora uma teoria bem mais plausível, ao concluir, depois de olhar para a natureza em vez de ficar apenas olhando para o alto, que o agir correto é possível quando conseguimos distinguir o justo meio, e, assim, alcança a virtude. A grande descoberta do Estagirita, é que para ele, o  desenvolvimento das virtudes poderia ser feito pelo hábito, pelo menos no caso do que ele chamava de virtudes morais, as quais me parecem serem necessárias para de fato existir um combate a corrupção.
Para Aristóteles em sua Ética  e em A Política, o desenvolvimento de uma alta consciência moral que esteja além das leis e sistemas estabelecidos só possível aqueles que no processo de desenvolvimento das virtudes morais construíram as condições necessárias e suficientes para desenvolver as virtudes intelectuais e espirituais, estas, sim, capaz de levar os homens a uma vida justa,e  portanto, a governos justos em uma sociedade justa. Kant já bem mais tarde, identificou esta alta consciência moral com a ética do dever, conhecida pelo senso comum pela máxima de se fazer apenas aquilo que possa ser tomada como máxima por todos os homens.
Embora quisesse superar a ética judaico-cristã do “ame a teu próximo com a ti mesmo”, nunca se conseguiu que o pensamento filosófico de Kant se tornasse guia das populações, das massas humanas do nosso tempo, talvez, pela razão por ele mesmo identificada na obra “A religião nos limites da Simples razão”, de que o homem moderno não consegue entender as intrincadas e complexas leis que regem as relações humanas e as relações do homem com o Universo e os deuses.
Com Kant, até, ou pelo menos talvez, poderíamos dizer que a marcha contra a corrupção poderia ser mais bem chamada de “A marcha dos insensatos”; uma vez que manifestações barulhentas pouco podem fazer pela expansão da consciência humana que não se dobra a manifestações de força e poder, sejam elas, justas ou não. A expansão da consciência se dá, ainda, pelo alcance do conhecimento, e mesmo, que pudéssemos argumentar que a marcha contra a corrupção pudesse se encaixar no que Galileu entende como experimento científico, isso não se sustentaria, pois tal experimento seria em si a corrupção do espírito humano.
Mesmo considerando que a corrupção é algo que se manifesta nos indivíduos que estão entrelaçados por complexas redes sistêmicas, já independentes e autônomas em relação aos indivíduos singulares que se tornam delas dependentes, uma tal marcha seria bem mais sensata se fosse feita a favor do mais alto investimento em educação, do fim das relações incestuosas, corruptas e de compadrio que se tem estabelecido no interior do sistema educacional, e, a contra a ilusão criada entre o processo de titulação criado pelo sistema educacional em si, e o que chamamos de qualificação, que deveria, na verdade, ser entendido como formação humana e não como adestramento e ou treinamento vocacional.

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