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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Brás Cubas e Os mistérios da Vida.




Nelson Soares dos Santos

Texto II, também rascunho, sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas e   questão da ética e da moral.)

Não existe dúvida de que Machado de Assis foi e é um dos maiores escritores do nosso país. Suas obras, desde as poesias, contos e romances trazem uma interpretação da vida, da existência humana e da realidade de forma tão vívida que mais de um século depois parece nos ensinar a apreciar os mistérios da vida, e mais, mostrar-nos que é pela admiração dos mistérios da vidas que nos tornamos sábios. Machado de Assis foi cronista, contista, dramaturgo, e romancista. Neste último, três obras se destacam aos meus olhos: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, e Dom Casmurro.
Não tenho lembranças de qual de suas obras li primeiro. Parece-me que foi o conto Relíquias da Casa velha, e depois, segui com Esaú e Jacó. Qual foi minha surpresa ao ver que a história nada tinha da história bíblica a não ser o título e a analogia. Quem sabe foi ali que sorvi meu primeiro aprendizado de Psicologia, Psicanálise e outros estudos de comportamento humano, inclusive o comportamento moral. Ler Machado era diferente, era suava, e ao mesmo tempo frenético; doce e ao mesmo tempo amargo. Era como se a vida se apresentasse em suas formas mais vivas, mais duras e reais.

Brás cubas e a Filosofia.

Penso que foi em um verão. Era férias e levei comigo para Olaria um exemplar de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Homens brincando em voz alto ao raiar do sol enquanto amassavam barro para dali sair os tijolos que faziam tornar realidade as novas casas na cidade. Nove horas da manha e tudo parava na Olaria. Era hora do café. Enquanto os homens feitos aproveitavam para fumar o cigarro e contar histórias e piadas, comecei a ler Memórias Póstumas. Não esqueço as palavras de Zé de Corcino gritando: Seu Domingos, este seu filho se não ficar doido vai acabar doutor, por que nunca vi ninguém com tanta vontade de estudar ao ponto de trazer livro para Olaria e ler com os pés cheio de barro, daqui a pouco ele leva o livro para dentro do buraco. Meu pai, orgulhoso da possibilidade de ter um filho, um dia doutor, prometeu que se fizéssemos mil e quinhentos tijolos naquele dia, não trabalharíamos no sábado,e eu teria o fim de semana inteiro para ler o livro.
Foi assim que li Memórias Póstumas de Brás Cubas. Em um sábado e domingo, li o livro por três vezes. Fascinava-me a ideia de um defunto autor. Eu menino, sétima série, sonhava escrever minha biografia. Não depois de morto, mas ainda vivo. Era interessante ler como se escreve uma biografia depois de morto. Foi a primeira vez que cravou em minha consciência a ideia da vida após a morte, bem eu, que tentava por todas as religiões renegar as crenças paternas da Humbamda e do Candomblé, das almas penadas e dos Pretos Velhos.
Brás cubas era um outro tipo de alma. Não era penada pois sabia muito bem por que assistia ao seu próprio funeral. Também não era um guia, ou coisa que o valha, era apenas um homem, um homem escrevendo depois de morto sua própria biografia. Machado de Assis que já havia me introduzido no estudo da psicologia, da psicanálise e da sociologia, lançava-me agora no campo da filosofia e do ocultismo. Eu, no domingo a tarde, quase por volta das 17 horas cheguei arfando na casa do seu Joel. Seu Joel, ou Joel Pinto de Barros, foi o grande professor particular que tive em minha vida. Todas as dúvidas que meus professores não conseguiam responder, ele respondia, ou colocava livros em minha mão dizendo: no conhecimento temos de ter humildade de quando não sabemos reconhecer nossa ignorância, e, dizia – um dia você vai ser meu professor, a vida é assim, sempre gira. Um dia aprendemos, no outro ensinamos.
Cheguei naquele dia já com mil perguntas. Ele calmo, tranquilo, levou-me até a biblioteca particular que tinha. Lá, pela primeira vez deparei-me com uma coleção completa de “Os pensadores”, e olhando para aqueles mais de vinte livros ele disse: Sabe as citações que você encontrou no livro, muitas delas são pensadores, pensadores que mudaram a história da humanidade. Naquele dia, tive uma longa aula sobre Templários, maçonaria, Rosa cruzes, Martinistas, e tudo que representava os mistérios presentes em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Schopenhauer, dizia meu velho e querido professor particular, é um dos mais completos, densos e profundo filosofo do ocidente. Um dia, quando for adulto, entenderás toda a riqueza desta obra machadiana.
Tanto ouvi sobre o candelabro aquele dia. Sobre a estrela de Davi, o pantáculo de salomão. Hermes Trimegistus, Moisés, segredos, mistérios. A conversa descambava sempre para o papel dos homens na história e caía na independência do Brasil, na Inconfidência Mineira e todas as outras histórias fantásticas contadas pelo prisma de um ocultista isolado em uma cidade do Nordeste Goiano. Aos olhos do meu professor querido, tudo estava predeterminado pelo Grande Arquiteto do Universo, e que todos nós tínhamos uma missão neste mundo. E, terminava ele, Machado se eternizara, por que pelas suas obras homens aprenderiam por séculos os mistérios do Universo.

Brás Cubas e a Moral.

Li Brás Cubas pouco tempo depois de ter chorado lágrimas compulsivas pelo heroísmo dos personagens românticos, sobretudo, de José de Alencar. Não esqueço jamais, como Peri arrancou o tronco com as mãos para salvar sua amada do Naufrágio iminente. Brás Cubas destruiu em todo o ardor romântico do meu ser desde sua dedicatória: “ Ao verme que roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico estas memórias póstumas”. Como pode alguém dedicar um trabalho aos vermes? Ah, sim. Era um defunto autor, não um autor defunto. E ali, tempos depois eu aprenderia que nesta frase está o mistério de desta vida nada levamos, de que pouco importa o que é feito da nossa carne depois que desta vida partimos. Brás Cubas é um ser que soube transcender.
Outra dor cruel causada por Brás Cubas foi quando a questão do amor. Traspassou-me como a adaga no peito do cristo crucificado quando li: (...) Marcela amou-em durante 15 meses e onze contos de réis”. Quanto diferença do amor romântico de Alvares de Azevedo desejando a morte impertinente a preferir viver longe de sua amada!! não há amor, sim, e assim é escrito. (...) “ não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos”. O amor que se apresenta é comprado pelo dinheiro, falseado, realidade hipócrita que aos homens é dado fingir para suportar a vida crua e com pouco sentido.
Brás Cubas ( Machado de Assis) não se preocupa em colocar nenhuma levez na pena para descrever a moral do seu tempo, dos seus amigos. Como se pode esquecer da comoção do defunto autor ao ver seu amigo declamar elogios em seu túmulo, o suficiente, diz ele, para não arrepender das apólices deixadas. Não existe amor, não existe amizade. Tudo tem um preço nesta vida, e tudo, se compra com dinheiro. A vida é um repertório de desejos animalescos e se não fosse algo tão Schopenhaueriano poderia se dizer embrutecidos pelos sentidos em uma concepção aprendia de Platão, onde todos são escravos dos apetites. Ou talvez Aristóteles, onde os vícios reinam em detrimento das virtudes como no parágrafo seguinte:
Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelada e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão."- Capítulo VII;
Nada descreve melhor a moral do homem burguês. Olhando para os nosso dias, tudo parece tão atual que o defunto autor parece rondar fazendo-nos ouvir as palavras recônditas de verdades e ironias. O capitalismo só fez crescer o individualismo, a competição desenfreada, o amor pelo lucro, a ambição, a inveja desmedida, e, a fome, a vaidade, a melancolia parecia ser a descrição das doenças modernas daqueles que tudo tem e nada são. Profetizava a alienação do ser humano, a instrumentalização da razão, as barbaridades do nosso século, - tudo feito em nome da liberdade dos povos. No caldo moral dos nossos dias, a felicidade se tornou a mais doce quimera para aqueles que vêem no ter a possibilidade de compreender o sentido da vida.


E por fim, por que a vida é cheia de mistérios, Brás Cubas descobre que os mistérios não acabam com  a morte. Pelo contrário, eles continuam de outras formas, ainda mais misteriosos. Daí por que o defunto autor apresenta suas ultimas negativas  para com a vida.
"O acaso determinou o contrário; e aí vos ficais eternamente hipocondríacos. Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."- Capítulo CLX;

É preciso repetir. “ - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Uma frase e verdade tão profunda. Existe uma miséria humana, uma miséria moral. E todos que temos filhos, como não transmitir a descendência os elementos ( a miséria, a inveja, a ambição, etc) da miséria humana. Brás Cubas estava feliz, não tivera filhos. O defunto autor até hoje ri de nós que acreditamos no mundo da democracia liberal e capitalista, na ideia da descendência, na importância que temos para o destino da humanidade. E quisera pudéssemos aprender com o autor-defundo/defunto autor de que nos mistérios da vida, no processo real das coisas nunca somos o personagem principal, até por que na vida não existe espaço para um personagem principal. Somos sempre humanos imersos em uma grande miséria cuja libertação a morte nos premia com outros mistérios.

Um comentário:

  1. Essa sua veia de literatura ainda não conhecia ! Sério muito bom seu texto , surpreeendentemente bom! Não que vc não seja já bom , mas é pq desconheica essa veia literata! rs E Machado sempre é uma boa materia prima p\ se trabalhar. Alias vc viu que a propaganda da Caixa Economica Federal foi retirada do ar pq mostrava Machado branco e nao negro?

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