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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Policarpo Quaresma e o Político que não sabia de nada.



Nelson Soares dos Santos

Triste fim de Policarpo Quaresma é um romance pré-modernista. O pré-modernismo não é considerado por muitos estudiosos da literatura exatamente como uma escola literária, e sim como um tempo de transição com autores diversos, tendo algumas características em comum que prepararia o terreno para o modernismo e seu total rompimento como Realismo/naturalismo do Século anterior. Entre os autores que admiro no Pré-Modernismo tem Augustos dos Anjos na Poesia, tendo como minhas preferidas “Versos ìntimos” e, “Idealização da Humanidade Futura”. Na prosa, e em tempos de caças a bruxas e do politicamente correta que se contrasta com a corrupção que impera, podemos citar Monteiro Lobado, Euclides da Cunha e Graça Aranha.
Em quase todos eles uma tentativa de ruptura com o passado, um pessimismo em relação ao futuro, denúncia da realidade brasileira e tentativa de se buscar uma identidade nacional. E é engraçado de ver os nossos contemporâneos condenar Monteiro Lobato, justamente ele que usou a pena com maestria para tentar construir uma identidade nacional e defender as riquezas do Brasil. Está presente, portanto, de forma forte e relevante a presença do comportamento político entrecortado pelo comportamento moral de homens que tornam-se cidadãos.

Major Quaresma – Ingênuo?

A história se passa em torno do Major Quaresma. Homem nacionalista, amante do seu país que ajudar a resolver os problemas do Brasil. O autor trata de pelo menos três problemas da realidade brasileira: a agricultura, a língua e na política. Não consegue sucesso em nenhum dos seus projetos. Interessante é o contato de Quaresma e Floriano Peixoto uma vez que embora seja bem tratado pelo presidente, este nada se interessa pelos seus projetos de melhoria da pátria. Quase nada parecido com os políticos populistas da atualidade que qualquer coisa fazem para agradar as massas em uma eterna política de pão e circo.
De outro lado, chama a atenção a atualidade da obra pelas tentativas malfadadas de um neo-nacionalismo brasileiro de deputados que esperam proteger a língua fazendo leis que proíbem o uso de estrangeirismos. Que espera se não uma figura grotesca em tempos globalizados tentativas de proteger uma língua fazendo leis que no final o grosso do povo jamais ficará sabendo da existência das mesmas. Policarpo Quaresmas não teve sucesso, não terá em nosos dias os novos nacionalistas extremados que pensam construir uma identidade brasileira proibindo a leitura de Monteiro Lobato, ou coisa do Gênero.
Na agricultura, Policarpo lutou auxiliado por seu empregado Anastácio contra as saúvas. Também fracassou. Hoje, talvez as saúvas sejam mesmo a corrupção, e se, no passado Floriano Peixoto não deu ouvidos a Quaresma, na atualidade o mandatário da nação de nada soube da existência das saúvas que tomou conta da vida pública na política brasileira, praticamente institucionalizando a corrupção na política nacional. Pior é saber que embora o Brasil tenha conseguido controlar as saúvas, a agricultura do país ainda tem muito a ser feito. Na terra existem conflitos que provocam mortes, trabalho escravo e tantos outros males que enfeiam a beleza do país.
No campo Político, Quaresma para auxiliar seu país alista-se no exército sem nenhuma experiência prévia do exercício militar. E, como diz o Coronel Nascimento no filme atual “Tropa de Elite”, isso só podia dar M... Coração bondoso, logo Quaresma percebe soldados matando prisioneiros, alguns inocentes e seu coração de nacionalista não podia permitir tal coisa. Tenta fazer uma denúncia direto ao presidente, e, mais uma vez como bem disse o Coronel Nascimento, denunciar a M... para um presidente que nada sabia e não queria saber, só podia dar em M. Os tentáculos da corrupção já se alastrara por todo o sistema político, e era mais fácil para Floriano livrar-se de Quaresmas a ter de livrar-se de todo o Sistema. O que fez com que Quaresma passasse de investigador a investigado, de homem em busca de justiça a traidor da pátria a um condenado que não encontrou ninguém a não ser sua sobrinha para ficar em sua defesa?
Nos dias atuais que se tornou cair um Ministro por semana, dossiês existentes por todos os lados, ( e falando nisso, goiás acaba de entrar na onda com a denúncia de males feitos na UEG), nunca é muito se perguntar quais são as motivações dos denunciantes, quais razões, afinal, seria nacionalismo? Profundo interesse em defender a pátria contra a roubalheira? Quantos homens bem intencionados pode existir em um meio onde o moralismo abstrato rivaliza com o realismo político, onde o público se mistura com o privado havendo uma absorção do público pelo privado? O que pode existir de verdadeiro no meio de tantas denúncias, denunciados e denunciantes?
Há muito que se refletir sobre a vida política do nosso país se nos entregamos a uma leitura tranquila das obras pré-modernistas. Lima Barreto é uma das possibilidades, mas muitas outras podem ser aproveitadas. Os Sertões de Euclides da Cunha é um exemplo de um estudo do comportamento religioso, um estudo sociológico profundo como poucos já se foi visto na história do nosso país. Há ainda que se falar de Monteiro Lobato, este quase renegado da atualidade, que tentou entender o homem simples de nosso país, o caboclo, de forma criativa, inventiva e original.

Comportamento Moral e comportamento Político em “Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Há três formas predominantes de comportamento na obra analisada – o trato social, o político e o moral. Entendido que o moral depende da nível de consciência adquirida pelo sujeito, considerando os estudos de Piajet, Freud e Kolberg, talvez seja possível afirmar que uma das coisas que fica possível ler em Lima Barreto é que toda tentativa de exercer alguma forma de comportamento quando nos falta as condições adequadas pode acabar em um triste fim. Quaresma demonstra desde o inicio da história uma dificuldade de relacionar-se, socializar-se. Não consegue perceber as nuances que estão presentes nas relações humanas e ignora as razões que levam, por exemplo, Floriano Peixoto a não dar valor aos seus projetos reformistas.
Na ignorância e na falta de liberdade não há comportamento moral. Tomando tal como premissa não podemos considerar o comportamento de quaresma um comportamento mora. Ele ignora as redes que fazem o sistema funcionar. E é isso, que o leva a não perceber os riscos da sua denúncias das injustiças cometidas. Seria possível perceber de outro lado, um certo determinismo na obra barretiana, até mesmo pelas influências sofridas pela sociologia positivistas de Augusto Comte e pelo cientificismo tão presente na literatura pré modernista.
Quaresma é o protótipo do homem que não alcançou as possibilidades de ser livre em um mundo complexo, por que não foi capaz de viver e servir da própria inteligência. Não alcançou o esclarecimento necessário para compreender a realidade onde estava inserido, seu tempo, sua época, seu meio e os homens com os quais convivia. Carregava em si uma das piores misérias humanas: a ilusão de conhecer o suficiente para transformar a realidade quando a ignorava de forma quase absoluta.

4 comentários:

  1. puxa vida ficou inspirado ... existem muitos policarpos por aí mesmo fadados ao insucesso. por outro lado, uma dose de policarpo nao nos faz mal, alias nao faz mal a america latina de um modo geral.

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  2. Profº Seria Ignorância ou uma vontade ínfima de externar seu sentimento e orgulho de ser brasileiro! tamanha vontade levou Policarpo a tentar mudar o mundo, isto por ser um nacionalista convicto e assumido que expõe este sentimento a sociedade corrompida e tendenciosa... Reflitamos sobre isto.

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  3. O problema é que não é perceptível na leitura, pelo menos para este que escreve, altivez moral em Policarpo. A luta consciente leva a altivez moral, como na morte de Jesus, dos santos e heróis.

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  4. A obra Barretiana ou "limeira", num todo, faz a marginalização da inteligência, do intelectual. Em Policarpo Quaresma não é diferente, a derrota da inteligência é tema central, a luta do Major é contra a sociedade e consigo mesmo. O uso desse fetiche, como nos aponta R.J Oakley, é para demonstrar a capacidade que o homem tem de autoiludir-se. Quanto ao termo "pré-modernismo" é uma invenção para "alocar" Lima Barreto e outros, na verdade o Modernismo só atrasou o que os anos de 1910-1920 produziram e discutiram.

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