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domingo, 4 de novembro de 2018

Um Brasil que começa: A contribuição do ENEM para a Democracia.






Nelson Soares dos Santos

Há quatro anos atrás, o tema da redação do ENEM foi sobre como a televisão manipulava o telespectador impedindo-o de forma uma ideia correta da realidade. Hoje, quatro anos depois, o ENEM praticamente repete o tema, entretanto desta vez, o instrumento de manipulação é o uso da internet. Diferente da televisão, a internet por meio da redes sociais capta muito mais dados dos usuários, e, através deles fica fácil compreender que tipo de mensagem o usuário está propenso a receber e “aceitar” como verdade.  E sendo assim, é possível levar o usuário a crer em notícias que estão longe de refletir a verdade ou a própria realidade.
Na prova do ENEM deste foi apresentado dois textos e um gráfico para ajudar o candidato a pensar em uma possível redação. No primeiro texto, faz alusão aos algoritmos para explicar como os aplicativos “escolhem” músicas que formam o gosto  musical de uma pessoa qualquer, a partir dos dados que estas pessoas disponibiliza nas redes sociais; no segundo texto, diretamente se fala dos algoritmos, por meio de um artigo de um Jornalista Brasileiro, Pepe Escobar, mostrando e fazendo uma alerta que no futuro serão as máquinas que vão escolher quais notícias devemos ler ou não.
No gráfico, um estudo do IBGE, sobre o uso da Internet no Brasil, os dados mostram algo curioso. 64,7 % da população utilizam internet no Brasil, sendo 63,8% mulheres, e 65,5% homens. Apresenta ainda o dado de que 85% dos jovens de 18 a 24 anos de idade e 25% das pessoas com mais de 60 anos usam internet, sendo; 94,2% para receber ou enviar mensagens de texto e voz; 73.3% conversar por vídeo ou chamada de voz; 76% assistir vídeos e programas.
A combinação interpretativa deixa claro a possibilidade do candidato compreender o quanto as eleições deste ano foram decididas pelas máquinas. Os escândalos ocorridos na Europa/Inglaterra com o Brexit; as eleições de Trump, e por fim, as eleições brasileiras, mostram claramente que estamos diante de um fenômeno pelo qual estamos perdendo a liberdade de escolher sobre o que ler, e portanto, em que acreditar. Em todas estas situações, acompanhou o processo de manipulação do usuário um outro fenômeno - o das faknews. Basicamente uma notícia falsa torna-se verdade quando os elementos argumentativos se harmonizam com a visão de mundo do leitor e as ideias que o mesmo defendem, ás vezes, nem precisa ser uma notícia totalmente falsa, apenas uma recriada e distorcida que possibilita a defesa de outros pontos de vista afastados da situação discutida.
Uma das notícias falsas que mais estrago causou aos adversários nas eleições 2018, foi o Kit Gay. No final, o TSE declarou ser mentira, o Governo declarou ser mentira, milhares de professores foram às redes declarar que nunca houve kit gay nas escolas, entretanto o assunto em questão, agora enviesado continuou sendo um instrumento de debate que fazia as pessoas perder o controle emocional, demonstrar ódio e todas as formas de paixões nos textos postados nas redes.  Diante de tudo isso, é que perguntamos: Será que realmente escolhemos o governo que temos? Será que as escolhas das pessoas estiveram dentro do processo democrático ou podemos dizer que as pessoas, por meio dos dados que disponibilizaram na internet foram embriagadas de emoções e levadas a acreditar em muitos fatos inexistentes e com isso fizeram opção de voto?
Hoje, 5.5 milhões de jovens fizeram o ENEM, e todos, por alguns instantes tomaram conhecimento da existência dos algoritmos. Estes jovens nunca mais usaram a internet da mesma forma. Eles sabem que os dados que disponibilizam são usados para conduzi-los a tomar decisões, e quem nem sempre estas decisões serão para o bem ou futuro que desejam ter.  Hoje, 5,5 milhões de jovens por alguns instantes, pensaram nas fake que eles mesmos publicaram, por que é impossível fazer uma redação sem pensar, sem fazer uma reflexão do ponto de encontro entre nossa moral e o texto que lemos. É por isso, que hoje, o Governo Temer deu uma grande contribuição a democracia e as lutas democráticas, pois hoje nasce um novo Brasil, um brasil que olhará com mais desconfiança para tudo que for postado nas redes sociais.


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Brasil - Uma democracia racial: um sonho que não pode acabar.




Nelson Soares dos Santos

Já escrevi mais de uma vez neste blog que nosso país, e nós estamos condenados a construir aqui uma democracia radical. É  nosso dever construir um país que propicie oportunidades iguais para todos na base; é nosso dever ser um país onde a tolerância religiosa seja desenvolvida ao seu nível máximo. É nosso dever construirmos um país onde a liberdade seja nosso guia, o amor e a compaixão sejam nossos alimentos. E é por isso que também aqui será o lugar onde todos os povos devem encontrar o seu canto para chamar de meu lar. Somos o país de todos os povos.
Não é um sonho novo, não é uma luta nova. Gilberto Freire em sua obra “Casa Grande e Senzala” escreveu :
“ Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí”.

No momento em que a escuridão parece nos rondar, nós negros desse Brasil devemos erguer a nossa voz. Nenhum povo neste país lutou tanto por liberdade como nossos ancestrais. Nós sobrevivemos às guerras tribais no nosso continente de origem, nós sobrevivemos às mortes aos milhares nos navios tumbeiros em meio ao oceano, nós sobrevivemos a mais de 300 anos de escravidão; Nós lutamos nos quilombos, nós sobrevivemos a quase 50 anos sem nenhum direito como cidadãos; e nós sobrevivemos a quase 100 anos de exclusão. Não temos por que nos amedrontar. Não temos o que temer. A luta está em nossa sangue, e daremos orgulho aos nossos ancestrais. Venceremos a escuridão e tempestade que se avizinha, e faremos deste país uma pátria para todos os povos, onde ninguém será banido e todos terão o seu livre arbítrio respeitado nos limites do bem estar coletivo. Nossa bandeira é a bandeira da união, da igualdade, da fraternidade, do amor e da compaixão. Nossa bandeira terá todas as cores.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Vivemos em um ambiente totalitário e caótico. 
Sim. As evidências estão ai para todos que quiserem ver. Vivemos em um ambiente totalitário e caótico. E não, Bolsonaro não é o único problema, embora possa ser o maior vetor de legitimação da violência, racismo, machismo, etc. O nosso problema é social. Não se pode negar que quase metade da população aderiu a uma forma violenta de ver o mundo e a vida; e pior, aderiu a soluções violentas, até mesmo para questões que sequer demandam violência.
Não dá pra negar que o problema está nas famílias, nas igrejas, nas escolas e em todas as instituições. Líderes evangélicos eminentes como Silas Malafaia, Edir Macedo, RR Soares, Valdemiro Santiago e outros menores, pregam o ódio abertamente. Não se pode negar que o ódio tomou o lugar do amor como fator motivacional. O Combate a corrupção se transformou em desejo de vingança, ou em expressão de uma pulsão de morte contra tudo que é diferente.
Direcionar todo este ódio contra o PT, ou ao "Anti-petismo", é apenas uma desculpa visando justificar a expressão dos instintos mais primitivos. E não se trata de negar os erros do PT, trata-se de não negar as evidências da realidade.
Precisamos aprender a viver na sociedade que está emergindo, por que nossos inimigos não serão exatamente o Estado, será aquele amigo invejoso que querendo nos destruir usará de discursos falsos para nos denunciar de desordem; será o familiar rancoroso e vingativo que não aceita nossas vitórias.
Os tempos realmente mudaram. Os tempos de liberdade e democracia já acabaram. O que estamos vivendo já é a resistência. O que estamos vivendo já é a disputa se teremos o direito de continuar a manifestar nossas opiniões ou se teremos de nos calar completamente. Quem ainda não viu isso, é melhor parar e olhar melhor.
E aqueles que força o curso do rio, eu lhes digo, - Não tenham tanta esperança de votar daqui a quatro anos. Eu não tenho mais esta esperança.

sábado, 20 de outubro de 2018

Combatendo nosso Fascismo Interior.

No ano de 2012 li este texto em um curso de formação política para vereadores. Ele nunca foi tão atual como agora. Se quisermos combater o fascismo precisamos ter a coragem de olhar no espelho e enfrentar o processo psicoanalítico. 
O Fascismo interior.
Todos temos um fascista alojados em nosso espírito. Combater toda forma de fascismo. Parafraseando Paulo Freire: hay que dudar del opressor alojado en el oprimido. (G.G.Kirinus).
Essa arte de viver contrária a todas as formas de fascismo, que sejam elas já instaladas ou próximas de ser, é acompanhada de um certo número de princípios essenciais, que eu resumiria da seguinte maneira se eu devesse fazer desse grande livro um manual ou um guia da vida cotidiana:
Libere a ação política de toda forma de paranoia unitária e totalizante;
Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, mais do que por subdivisão e hierarquização piramidal;
Libere-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna), que o pensamento ocidental, por um longo tempo, sacralizou como forma do poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo; a diferença à uniformidade; o fluxo às unidades; os agenciamentos móveis aos sistemas. Considere que o que é produtivo, não é sedentário, mas nômade;
Não imagine que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga, nas formas da representação) que possui uma força revolucionária;
Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política, para desacreditar um pensamento, como se ele fosse apenas pura especulação. Utilize a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política;
Não exija da ação política que ela restabeleça os "direitos" do indivíduo, tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é "desindividualizar" pela multiplicação, o deslocamento e os diversos agenciamentos. O grupo não deve ser o laço orgânico que une os indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de "desindividualização";
Não se apaixone pelo poder
M. Foucault em "Por uma Vida Não Fascista", Prefácio de "O Anti-Édipo", de G. Deleuze e F. Guattari.

quinta-feira, 29 de março de 2018

E agora? Quem irá nos defender? – O Dilema dos trabalhadores Goianos.



Nelson Soares dos Santos[1]

Até o dia 07 de abril estará definido quem poderá ou não ser candidato nas eleições deste ano. Funciona mais ou menos assim: Quem quiser ser candidato deve estar em dia com a justiça eleitoral e filiado a algum partido político. Isto significa que a partir de 07 de abril já podemos imaginar que pessoas poderão ou estarão dispostas a governar o estado, ser deputado estadual, federal ou Senador.
Esta semana tem sido de muitas movimentações. Muitos parlamentares mudaram de partido. A mudança de partido tem basicamente dois significados: a primeira é que a pessoa ou parlamentar eleito descobriu que as ideias que defende não estão em harmonia com o partido no qual ele está defende. Isso acontece mais do que sei imagina; a segunda questão está ligada a interesses pessoais e melhores condições de campanha mesmo. A maioria dos que mudam de partido é pela segunda questão.
Em Goiás, muita coisa já está definida. O PSB, - Partido Socialista Brasileiro, controlado por Lúcia Vânia, é um dos cavalos de Tróia para o povo nesta eleição. Tido como partido de esquerda, que defende os direitos dos trabalhadores, no caso goiano não é esta a verdade. Na verdade O PSB em Goiás não terá diferença nenhuma do PSDB, - Partido da Social Democracia do Brasil. Aliás, pode até se apresentar como um partido ainda mais “contra” os trabalhadores do que o PSDB ou PMDB.  O mesmo ocorre com o PPS – Partido Popular Socialista, controlado por Marcos Abrão (sobrinho de Lúcia Vânia), nacionalmente é um partido de centro e democrata. Em Goiás, não creio que tenha qualquer destas características.
O MDB –Movimento Democrático Brasileiro ( antigo PMDB), e que já tem candidato a Governador ( Daniel Vilela, filho de Maguito Vilela)  deve manter por aqui suas características nacionais. É o partido do Temer, aquele partido que comandou a reforma Trabalhista. Quem é trabalhador ainda deve se lembrar. Na essência, MDB e PSDB são aliados, ou seja, eles não têm discordância entre eles quanto a forma de lidar com os trabalhadores, professores, policiais e servidores públicos em geral. A disputa entre eles é apenas e somente sobre quem vai deter o poder do Estado.
O PSDB – Partido da Social democracia do Brasil, em Goiás, controlado por Marconi Perillo e que tem José Eliton como Candidato a Governador, deve manter o ritmo, se conseguir, implantado por Marconi. Ou seja, os professores continuaram sem plano de carreira com titularidade, servidores públicos na mesma toada, e o modelo de fazer política pouco deve mudar. Se eleito Governador, o Zé pode vir a ser mais conservador que o Marconi, afinal, ele originalmente era quadro do antigo PFL, atual DEM – Democratas. Foi indicado para vice de Marconi por Caiado. Traiu seus padrinhos e começou a própria carreira.
O DEM – Democratas, que tem como candidato Ronaldo Caiado, e um partido que se assume em seus documentos como sendo liberal na economia e conservador nos aspectos morais. É o mais antigo partido liberal brasileiro. Foram contra a abolição da escravatura, estiveram aliados ao Regime Militar em 1964; foram contra a CLT – Consolidação das Leis do Trabalho e etc. É o partido dos grandes latifundiários, plantadores de Soja, Café e da agropecuária em Geral. Portanto, os trabalhadores que votarem no DEM, não reclamem depois.
PT até agora não se fala em lançar candidato a Governador. Sofrendo com o problema do LULA, o partido não consegue dialogar com a Sociedade Goiana. O único deputado do PT em Goiás, foi o único deputado de Goiás que defendeu os trabalhadores na Reforma Trabalhista. Apesar disso, e com bons quadros, não consegue se apresentar como alternativa. O PC do B, Partido Comunista do Brasil, que tem nacionalmente a pré-candidata a presidente Manuela, não tem a expressão que merece ter no Estado. Controlado por Isaura Lemos, o Partido pouco tem conseguido fazer para denunciar as injustiças existentes no Estado.
Outros partidos de Esquerda como Rede e PSOL, pouco tem conseguindo realizar um trabalho efetivo de diálogo com a sociedade. E, por esta razão, a população goiana, sobretudo os trabalhadores corre o risco de iniciar a campanha eleitoral sem ter em quem votar. Qualquer candidato no qual votar poderá estar votando contra si mesmo, ou na destruição do futuro das novas gerações de trabalhadores e trabalhadoras de Goiás. É triste constatar isso. Como em uma democracia o cidadão não tem oportunidade ou possibilidade de escolher um candidato que possa minimamente defender os seus direitos? Na verdade, a conclusão é que ainda não temos democracia em Goiás. Somos ainda governados por pequenos grupos familiares e contendores contumazes, cujo único objetivo é uma briga fratricida pelo poder.


[1] Nelson Soares dos Santos, Licenciado em Pedagogia pela UFT ( Universidade Federal do Tocantins) Mestre em Educação Brasileira ( UFG),  ex-Dirigente Estadual do PC do B Goiás, ex- Dirigente Estadual e Nacional do PPS. Foi candidato a Vereador no ano de 1994, em Divinópolis de Goiás, e a Deputado Estadual no ano de 2014.

segunda-feira, 12 de março de 2018

O alto índice de violência e o caos na Educação.




Nelson Soares dos Santos

O último artigo de opinião que escrevi foi publicado em meu blog Observatório Goiano, no dia 20 de junho de 2016, e no Jornal Diário da Manha na mesma semana. Desde então, fiquei em silêncio. Até agora.  O título do artigo foi : “ O voto solitário de Rubens Otoni e a resistência progressista em Goiás”. Depois, silenciei. E o fiz, por que ao ver uma série de direitos trabalhistas sendo desmontados, faltavam-me palavras. Era preciso um tempo de reflexão. Desde então, muitos direitos trabalhistas se foram, muito da liberdade que tínhamos já se perdeu. O ódio se espalhou ainda mais. Contraditoriamente sinto-me no dever de retornar a luta.  Permanecer em silêncio no momento atual, seria no mínimo uma tremenda covardia.
Ao retornar do meu silêncio e hibernação, claro que a primeira coisa que começo a prestar atenção é na situação da educação. Converso com alunos, professores, e o que ouço é de assustar. Não é surpresa a violência que toma conta da sociedade quando relatos dão conta  ( e tem vários vídeos da imprensa nas redes), que a maioria das escolas públicas se tornaram espaços violentos com professores agredindo alunos, alunos agredindo professores, presença de traficantes , drogas, etc. E tudo se passa como se fosse normal. Tudo banalizado. Estamos banalizando o mal e de forma hipócrita choramos quando uma criança é assassinada.
Os professores estão ganhando mal como nunca. O salário mínimo subiu e a maioria das prefeituras não está fazendo correção de data base. Em alguns casos, progressão,  promoção por titulação, plano de carreira são ignorados. E o salário do professor vai perdendo poder de compra de tal forma que em algumas situações e relatos já não conseguem fazer a cesta básica chegar ao final do mês.
As condições de trabalho são péssimas. Alguns colégios estão depredados. As relações humanas estão piorando e os professores adoecendo. Ouvi relatos de professores que ministram aulas com medo dos alunos, casos de alunos que bateram em professores e até de aluno que vai pra escola armado e intimida professores com a arma para obter a nota que deseja. Em consequência há um êxodo da atividade docente.
O Sintego ( Sindicato dos Trabalhadores em Educação)  e os movimentos que  dizem defender os professores estão cooptados das mais diversas formas e se tornou muleta política de indivíduos, e, os governantes os utilizam como meio de controlar a categoria para não cumprir as obrigações constitucionais com a área da Educação. Há uma hipocrisia absurda reinando. É possível fazer muito mais com o dinheiro que já existe para a educação, se houver coragem, menos corrupção, menos cooptação, e disposição para pensar no bem e no futuro da coletividade.
Não é estranho, pois, que a violência aumente todos os dias nas ruas. Quando a educação não funciona nada mais na sociedade pode funcionar bem. Estudantes estão deixando o ensino médio sem capacidade de leitura e interpretação, sem bons costumes, sem nenhuma disciplina e tão pouco respeito por si mesmo e pelo próximo. E assim, todos se tornam terreno fértil para que o ódio seja plantado nos corações e o caos se instale na sociedade.
Chegou a hora da sociedade se unir em uma luta verdadeira em defesa de um nova era para a educação. Há sim condições de se pagar salários melhores, afinal, o Estado do Maranhão é uma prova disso. Tudo de que se precisa é de vontade política, sinceridade, honestidade de propósitos para colocar um fim nesta hipocrisia que reina para que possamos iniciar uma nova era de paz e esperança.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O voto solitário de Rubens Otoni e a resistência progressista em Goiás.


Nelson Soares dos Santos[1]

No dia da votação do impedimento da presidente na câmara houve quem tivesse a esperança de que dois ou três deputados goianos votassem contra. São deputados que durante o processo eleitoral se colocam como progressistas e democratas perante os eleitores criando uma imagem de compromisso com o bem comum. Flávia Morais foi o caso mais emblemático. Filiada ao PDT, muitos dos seus eleitores esperavam que ela votasse contra o processo do impedimento. De outro lado, outra parte dos seus eleitores que identificam como sendo da base do Governador Marconi pressionavam para que votasse a favor do impedimento. Mantendo o mistério até   a última hora, a deputada votou pela aceitabilidade da denúncia deixando assim o deputado Rubens Otoni como único voto contra na bancada goiana.
Quem conhece o modelo de operação política do Governador Marconi sabe que é possível que  ele tenha tentado influenciar mesmo o voto do deputado Rubens Otoni. Até mesmo aqueles que lutam por uma política progressista em Goiás acabam envolvidos pelo aspecto do progressista sedutor e trapaceiro vivido por Marconi e seus aliados. É como naquele filme “Golpe Duplo” com Will Smith que mesmo quando parece que tudo é real não passa de um golpe cujo desenlace final é manutenção do poder e o controle das massas. Apesar disso, e talvez por essa razão é razoável refletir sobre o voto solitário de Rubens Otoni e o significado para a construção de um campo política progressista em Goiás.
A primeira questão que se impõe e que ninguém, nenhum líder conseguirá construir uma posição progressista em Goiás se não estiver com o controle total de um partido e, se esse mesmo partido não estiver com laços rompidos com o Governador Marconi e, ainda, sem disposição de negociar com o mesmo. Wanderlam é um exemplo claro desta imposição. Considerado por Marconi um adversário de peso vem sendo cercado pela base aliada para não se constituir como alternativa de poder ao marconismo. A mais recente jogada do Governador para anular Vanderlan foi assumir o controle do PSB e PPS no Estado. Não se pode afirmar que as direções nacionais de tais partidos se venderam, mas no mínimo negociaram, levados pela esperança de um crescimento da legenda que na prática nunca ocorrerá. Ao longo prazo tais legendas serão descaracterizadas no estado, perderão suas identidades ideológicas, o respeito do eleitor, e conseqüentemente prejuízos nos projetos nacionais.
O PC do B foi outro partido que teve a maioria dos seus quadros cooptados pelo marconismo. Induzidos pela possibilidade de um avanço progressistas no primeiro governo Marconi, o partido se perdeu, perdeu o respeito do eleitor e nunca mais elegeu um deputado federal no Estado. Isso significou um grande prejuízo para a luta progressista nacional uma vez que Aldo Arantes, um Deputado de altíssima qualidade deixou de prestar seus serviços à nação. A luta progressista, a defesa dos direitos dos trabalhadores, a educação, a saúde e a segurança nacional ficou em prejuízo fruto de uma jogada política do Governador para manter o poder em Goiás.
O caso do PDT de Flávia Morais e George Morais foi apenas mais um capítulo desta triste história de trapaças que se transformou a política em Goiás. Ao colocar o controle do partido no Estado nas mãos de pessoas ligadas ao Governador a direção Nacional do Partido selou o seu destino. Mesmo que viesse a ter deputados federais e estaduais todos rezam na cartilha do Governador. As relações políticas em Goiás são fundadas na trapaça, uma espécie de pôquer misturado com o jogo do Bicho, onde quase tudo acontece na informalidade. Os acordos são feitos na por meio da trapaça, da sutileza, do blefe, e,  da esperança.
Rubens Otoni conseguiu manter sua fidelidade ao projeto nacional do PT devido as circunstâncias coletivas. Entretanto, mesmo isso não significa uma possibilidade de uma política progressista em Goiás. As correntes mais progressistas do PT, são hoje minoritárias no Estado. Não temos nem um nicho político de diálogo e ação política que possibilite a manifestação da cidadania. Jornais, revistas, e todos os mecanismos de ação política são sutilmente controlados, ou por meio da trapaça, ( quando os indivíduos são controlados sem que se percebam que estão sendo controlados). A construção de uma corrente verdadeiramente progressista em Goiás só será possível quando aqueles que se opuserem ao Governador aliar paixão pela política a sinceridade de se colocar a serviço do bem comum. Quando isso acontecer, talvez possamos dizer que a esperança vencerá a trapaça. Enquanto isso veremos o Governador reinar sozinho controlando tudo e todos em terras goianas.









[1] Nelson Soares dos Santos é professor Universitário.

terça-feira, 14 de junho de 2016

EDUARDO CUNHA E A CULTURA DA CORRUPÇÃO NO BRASIL


Nelson Soares dos Santos[1]

Quando saiu o resultado da votação do Conselho de Ética pela cassação de Eduardo Cunha, muitas pessoas comemoraram nas redes sociais. De fato, é um alívio. Foram seis meses convivendo com cinismo em rede nacional, ao vivo, em cores, gravado e documentado. Parece que é óbvio comemorar, entretanto, o fato de Eduardo Cunha ser cassado agora pode estar revelando algo ainda mais preocupando sobre a sociedade brasileira. Se for feito  pergunta: Por que Cunha durou tanto tempo? Por que afinal, quando toda a opinião pública sabia da falta de decoro e corrupção ele ainda encontrou forças para aprovar e presidir o impedimento de um presidente da república? E por que tantos intelectuais justificavam que não era hora de cassar Cunha pois era preciso servir dele para derrubar um presidente?
Esta última pergunta é a mais preocupante. Quando a opinião pública manipulada, ou aqueles que formam a opinião pública fazem o périplo que fizeram para justificar a presença de Cunha presidindo o impedimento de Dilma é um ato profundamente simbólico de que é natural no Brasil o uso de meios escusos para se alcançar objetivos pretensamente sadios. É um sinal de que Maquiavel ainda é o mestre da política no Brasil e que por aqui os fins ainda justificam meios. Para ser mais claro é só pensar que o que se fez no caso Eduardo Cunha foi como você aceitar que um Ladrão seja juiz por que não ninguém capaz de julgar o processo, mesmo sabendo que o Juiz ladrão está usando o processo para tirar proveito da situação. A história saberá julgar não apenas a classe política mas todos aqueles que, de alguma forma argumentaram em defesa de tal situação e revelaram assim o nível moral que conseguiram alcançar.
Independente de se o Processo de Impedimento da Presidente da República Dilma tenha sido legítimo ou não o que fica claro e todos já admitem, mesmos os intelectuais que antes nas redes e jornais diziam que Cunha era um mal necessário, o que fica claro é que Cunha não tinha legitimidade para ser presidente da Câmara, sequer tinha legitimidade e honra para ser um representante do povo no parlamento brasileiro caso queiramos falar de real respeito as leis e a constituição do país. Quando aceitamos que alguém que não tenha nenhuma legitimidade, nenhuma condição moral assuma os destinos e rumos de uma nação é por que algo de muito podre está no ar. Se existe alguma esperança e alento neste momento ele depende de Cunha contar a verdade, toda a verdade com a qual ele afirma ser capaz de derrubar o presidente Temer, ministros, 150 deputados, senadores e até mesmos ministros do Supremo Tribunal Federal.
A mudança possível.
Podemos, no entanto, ter real esperança. E esta possibilidade está na coragem de cada brasileira e brasileiro assumir posição em defesa de um novo modelo de sociedade. É preciso colocar fim aos arranjos políticos familiares, investir em Educação de qualidade para todos e construir uma cidadania fundada na participação política meritória e na livre expressão das vontades do povo. A luta contra a corrupção não terá sentido se não vier acompanhada por luta em defesa de uma sociedade humana, livre de preconceitos, fundada no respeito as leis, ao Estado Democrático de Direito e a todas as formas de diferenças do nosso espectro cultural.
O Governo Temer mesmo que consiga restabelecer a confiança na economia não terá legitimidade para propor mudanças nas estruturas sociais que provoque uma evolução ética e moral por que nasceu de forma ilegítima, marcado pela traição, pelos conchavos, e, sobretudo por um anseio de uma ala conservadora em avançar sobre os direitos sociais dos trabalhadores bem com um retrocesso no campo dos direitos humanos. Chega a hora que aqueles, que por alguma razão, e possivelmente com alguma razão, lutaram para colocar um fim nos governos do PT de refletir se querem ver a sociedade brasileira retroceder no campo dos direitos sociais e trabalhistas ou se querem de fato, combater a corrupção e ajudar a construir uma sociedade humanizada e avançada no nosso país. Chegou a hora de esquerdistas democratas se unirem, progressistas de todas as matizes, por que ao final o que interessa é o avanço civilizatório do nosso povo. E isso que vai nos colocar, no futuro, como líderes de outras nações.



[1] Nelson Soares dos Santos é professor Universitário.

A intervenção no PDT e o sonho de uma esquerda democrática em Goiás.


Nelson Soares dos Santos[1]

No ano de 2001, então dirigente do PC do B no Estado defendi efusivamente o lançamento da candidatura de Aldo Arantes para Governador do Estado, e fortalecia o sonho de ter nosso estado governado por uma esquerda democrática. Goiás nunca teve um governo voltado para o humanismo e a democracia. O Governador que mais poderia aproximar deste título teria sido Mauro Borges, e, mais recentemente Henrique Santillo. Entretanto ambos estiveram presos nas estruturas do coronelismo fundado nos meios de produção da Agricultura e da pecuária e, em uma cultura de submissão por parte da sociedade civil a um modelo de vida ultrapassado de cidadania pobre e periférica. Na verdade é difícil dizer que existe em Goiás cidadania política. Os últimos dois Governadores ( Iris Rezende e Marconi Perillo) tornaram-se verdadeiros coronéis e não contribuíram para fazer avançar um modelo de sociedade democrática em Goiás.
Recentemente li nos jornais que o Presidente Nacional do PDT Carlos Lupi, por meio de decisão do colegiado da direção nacional do partido, decidiu intervir em Goiás. Afastou os dirigentes George Morais e a Deputada Flávia Morais da direção e estará vindo a Goiânia no dia 24 de Junho para consolidar o processo. Vejo como corajosa a decisão do PDT Nacional por que em Goiás nenhum partido vive fora da esfera de influência do Governador Marconi Perillo. E eu acredito que se a Deputada Flávia Morais votou pela admissibilidade da denúncia contra Dilma foi em grande parte pela influência do Governado. O Governador tem suas digitais em todos os partidos das mais variadas formas, controla a todos como bonecos ventríloquos e pratica os atos que bem lhe aprouver e ai daquele que não seguir as ordens dadas pelo Chefe.
Caso concretize o processo de intervenção O PDT poderá vir a prestar um grande serviço a Goiás no Futuro que é de abrigar todos aqueles que desejam exercer a cidadania política longe das influências do Governador. Depois de 18 anos dominando o Estado e quase nada tendo sido feito pelo desenvolvimento humano e pela cidadania, com a educação as traças ( ameaça de implantar as OS na Educação sem ouvir a sociedade, ) saúde com todas as mazelas possíveis e tantas promessas não cumpridas Marconi segue impávido em seu projeto de se manter no poder. Um partido que pudesse se construir longe desta influência maléfica seria um sopro de esperança em um estado no qual a liberdade há muito tempo deixou de existir.
O caminho da construção.
Mantendo as esperanças é preciso dizer que caso o PDT queira mesmo ser o sopro de alento na construção de uma cidadania política no estado de Goiás, é preciso se construir e se constituir alinhado a um projeto nacional e que coloque Goiás em sintonia com os destinos da nação. Se, é para construir desde agora a possibilidade de o PDT ser alternativa em 2018 com Ciro Gomes, é preciso também que desde já o PDT se construa com pessoas que vestirá a camisa desse projeto desvencilhando das influências políticas da base do Governador. É preciso sobretudo que o PDT comece a pensar a se construir como um partido que poderá ter em 2018 candidato próprio a Governador, não apenas para constituir palanque para o candidato a presidente, mas sobretudo, para se colocar como alternativa a ser o capitão na construção de uma esquerda democrática em Goiás.
Para tanto, é preciso que o PDT traga para Goiás, ou acolha no estado pessoas que possuam identidade com passado de lutas do Partido, sobretudo a luta pela educação. No caso da educação é um momento de verdadeira desolação no qual o partido poderia vir a se tornar a voz daqueles que defendem uma educação de qualidade com oportunidades iguais para todos. As lutas, todas as lutas devem estar conectadas. Não para defender um novo modelo de educação para o Brasil, defender qualidade nos serviços públicos e aceitar de cabeça baixa o que o Governador faz com o povo Goiano. Se queremos um novo modelo de sociedade temos de ter coragem, de no mínimo seguir os caminhos por onde o processo pode evoluir. Aceitar a estagnação, o retrocesso, os desmandos em nome disso ou daquilo é servir a deus e o diabo e não ir a lugar algum. A zona cinzenta da política não nos levará ao caminho da luz, da liberdade, do desenvolvimento humano e da democracia.



[1] Nelson Soares dos Santos é professor Universitário.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Em defesa de Lula e do PT: Ou de como a sociedade não retrocederá

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[1]Nelson Soares dos Santos

No primeiro momento a impressão que se dá é que a situação do PT é indefensável. Eu nunca fui um petista roxo. Minha primeira candidatura a um cargo público foi a vereador da cidade de Divinópolis de Goiás pelo Partido Progressista. Recém saído do internato já guardava em meu ser as idéias humanistas que hoje defendo, entretanto, achava o partido dos trabalhadores radical demais e não concebia como ainda não concebo as mudanças na sociedade por meio da revolução e sim por meio da evolução. Não acreditava no Socialismo/Comunismo como visão de mundo e modo de vida, nem tão pouco como forma de governo de Estado.
Embora mergulhasse nos estudos das obras marxistas nos anos 90, acompanhado a queda do muro de Berlim, o fim da União Soviética e a ascensão da Social Democracia nunca me conteve a idéia de que o fim de um mundo Socialista/Comunista representasse o fim das lutas por um mundo com menos desigualdade social. De outro lado também não me enveredei na busca de uma nova forma de socialismo/Comunismo como alguns fizeram. Apesar destes fatos no ano de 1998 filei-me ao Partido Comunista do Brasil no qual pude conhecer melhor a máquina burocrática do Governo Estadual e a forma do fazer política no Brasil. No PC do B aprofundei e consolidei em meu ser as idéias humanistas de igualdade de oportunidades, a necessidade de valorização dos trabalhadores, a erradicação da fome e da pobreza no Brasil, a necessidade de se investir em políticas públicas em Educação, Saúde e Educação para todos.
Embora considerasse o PT radical demais em suas propostas foi com tristeza que vi o mesmo escrever a chamada “Carta aos Brasileiros” durante a campanha que elegeu Lula para o primeiro mandato. Vi naquela carta as sementes de todo o imbróglio que se vive hoje. O tipo de concessão que ali foi feito não poderia ter outros resultados. De um lado a elite não se comprometeu a mudar sua forma/visão de mundo, portanto, não se comprometeu em modificar as formas de relações sociais entre a elite dirigente e os dirigidos, oprimidos e marginalizados da sociedade. O PC do B por meio de sua direção entendeu que o Governo Lula seria um “Governo em Disputa”, explicado como de um lado, estaria os movimentos sociais e as forças de esquerda, de outro as forças de direita que buscaria manter o status quo. O problema é que não se pensou como processo de corrupção e “jeitinho brasileiro” afetaria tal situação. O PT não tinha consciência da imensa podridão que poderia ser a Elite Brasileira, e, esta, apostou na possibilidade de envolver os principais dirigentes do PT no processo de manutenção do Status quo.
Foi portanto, o fracasso da disputa na base do Governo que ajudou ao fortalecimento do chamado “Centrão”, o aumento da corrupção e do poder de voz e voto dos chamados “deputados periféricos”. Estes deputados, sem idéias ou ideologias, preocupados sempre em defender interesse pessoais e particulares se fortaleceram formando bancadas que em vez de revelar preocupações com o interesse público passaram a esconder os interesses pessoais e privados dos seus componentes. Juntos com os interesses escusos estas bancadas passaram também a “esconder” os interesses de uma elite reacionária e conservadora, apresentando-se ao povo como defensores dos interesses da coletividade.
O Grande Erro do PT e de Lula.
É verdade que o PT e Lula errou. Mas a raiz do erro não foi o envolvimento na podridão da corrupção tão pouco o abandono de diversas políticas que poderiam mudar a sociedade brasileira e sua cultura de organização social. O grande erro do PT foi em nome da possibilidade assumir o poder na chamada “Carta aos brasileiros” ter concordado em negociar o que era inegociável. A grande origem do erro do Partido dos Trabalhadores foi não ter tido paciência de esperar a sociedade amadurecer para que os principais dirigentes das Instituições da sociedade civil compreendesse a necessidade de dar mais um passo na busca da equalização das oportunidades na sociedade em um processo de erradicação da pobreza, erradicação da fome, avanço nos direitos trabalhistas e sobretudo a necessidade de constituir uma sociedade onde todos, negros, brancos, índios, mulheres, homossexuais e outras minorias pudessem ser vistas como tendo direitos iguais aos da maioria ou daqueles que detém o poder financeiro e dos meios de produção.
Se é possível fazer uma defesa do PT é de que o PT não inventou a corrupção no Brasil, tão pouco foi o responsável por retirar dos trabalhadores direitos sociais. É verdade que o PT não conseguiu fazer todos os avanças necessários para que pudéssemos, neste início do século XXI tornarmo-nos uma sociedade mais igualitária e mais esclarecida. Não foi capaz de sequer tocar as estruturas sociais, tão pouco modificá-las. A sociedade permaneceu desigual, preconceituoso, e dividida. Entretanto, ao tentar fazer reformas periféricas feriu suscetibilidades de um lado, e de outro, alimentou esperanças com promessas que não foram cumpridas.
O PT não conseguiu implantar um novo modelo educacional que pudesse dar oportunidade iguais de esclarecimento aos brasileiros. A educação Brasileira continuou a ser dualista, excludente e podemos até dizer que tal situação se agravou com um processo de adoecimento dos servidores da educação pública e estatal. O PT não conseguiu fortalecer o SUS, não conseguiu resolver o problema da violência, e, tão pouco da vida no campo ( agricultura familiar e reforma agrária). E uma das razões para tantos fracasso é que não é possível resolver tais problemas sem que se mexa nas estruturas sociais. Finalmente, o PT não fracassou por que tentou mudar. O PT fracassou por que aceitou que a sociedade não deveria mudar.
Os erros do PPS, PSB, REDE, ( Esquerda democrática).
No ano de 2014, filiado e membro da direção Nacional do PPS ( Partido Popular Socialista) mais do que nunca eu estava convencido de que a mudança social só é possível se formos capazes de compreender o momento vivido pela sociedade, tocar as estruturas sociais, e, aguardar o momento propício para que aconteça a evolução. Entendia que o modelo de Governo do Partido dos Trabalhadores estava vivendo um profundo esgotamento e que para o bem comum deveria ser urgentemente superado. Foi desta forma que apoiamos com entusiasmo a formação de um novo bloco liderado por Eduardo Campos ( PSB), Marina Silva ( Rede) e PPS.  A idéia era propor a sociedade que era possível avançar na equalização das oportunidades, na conservação dos direitos sociais conquistados e por meio de um novo concerto, um novo pacto fazer avançar sobre as estruturas sociais existentes reparos nas formas de tratar as minorias, erradicar a pobreza em todas as suas formas tornando a sociedade mais produtiva. Embora tal proposto não tinha como objetivo modificar as formas do como se lidar com o enfrentamento da forma atual da propriedade dos meios de produção seria possível avançar nos investimentos em Educação, Saúde e principalmente na busca do entendimento do respeito aos direitos das minorias e, sobretudo, a possibilidade de expressão destas próprias minorias no seio da sociedade.
A morte de Eduardo Campos ( prematura e mal explicada), colocou fim neste sonho. Marina Silva não conseguiu representar os anseios das parcelas da sociedade que apoiavam o projeto e a derrota levou uma grande parte dos progressistas, premidos pelas circunstâncias ao apoio a Aécio Neves. O fracasso de Marina pode ser explicado de forma simplificada pela sua tibieza a enfrentar as formas ultrapassadas de se fazer política, e de outro lado pelas contradições internas da coligação. Entre o PT de Dilma, e o PSDB de Aécio Neves qualquer um dos eleitos significaria um estelionato eleitoral para com a população  que foi possível exatamente pelo fortalecimento das lideranças sem voz, periféricas, sem idéias ou ideologias e que escondiam nos seus discursos interesses escusos e particulares em tautologias que logravam defender os interesses coletivos.
Como candidato a deputado estadual vi meu partido (O PPS) caminhar para cometer os mesmos erros do PT. Por impaciência e imperícia tornou-se coadjuvante periférico do PSDB e DEM e após as eleições em nome da derrubada do PT do poder abandonou a possibilidade de construção de um projeto alternativo de desenvolvimento social calcado no humanismo, na evolução da sociedade, no respeito aos direitos sociais, humanos, trabalhistas das minorias, no investimento na construção de novas políticas públicas no campo da Educação, Saúde, Segurança pública e renda mínima que permitisse de forma evolutiva mudanças na estrutura da sociedade. Ao se bater pelo impeachment o PPS e a chamada esquerda Democrática ai incluída o PSB e a Rede cometeram erro igual ou pior que o PT no final dos Anos 90.
Ao assumir o Governo, Temer não somente ignorou as chamadas pautas da “esquerda democrática”, como entregou ao Ministério da Educação a um partido Ultra liberal e conservador ( DEM), retirou verbas já parcas da Educação, ameaça diminuir o Sus, e retrocede em avanços já consolidados ou pelo menos tenta. Entretanto, é justo este erro que pode ajudar a sociedade avançar ainda mais no caminho do humanismo, do rompimento com estruturas sociais ultrapassada, com costumes e idéias que já não se coadunam com o novo momento vivido pela civilização.
E é neste campo que reside as novas esperanças de luta dos progressistas e democratas: A compreensão de que a luta contra a corrupção é possível no marco das mudanças dos costumes sociais, das estruturas da sociedade civil, do respeito as minorias, do respeito ao Estado Democrático de Direito, e sobretudo do avanço na construção de uma sociedade onde a igualdade de oportunidades seja o marco ou ponto de partida.  A sociedade não retrocederá. Se  o PT foi derrotado não se pode pensar que as pautas que ousou defender, as bandeiras e esperanças que prometeu implantar e tornar realidade não acabaram. E sim, pelo contrário estão mais vivas por que o processo civilizatório exige de todos nós o repúdio a formas preconceituosas, racistas e de toda forma de exclusão, e, mais que isso, a construção de uma sociedade humanista e inclusiva.






[1] Nelson Soares dos Santos é professor Universitário.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Não consigo admirar o Sérgio Moro


Nelson Soares dos Santos
Não sei por que razão não consigo admirar o Juiz Sérgio Moro. Hoje vejo que a Revista Fortune o colocou como o 14º líder mais importante do mundo. Sempre considerei as avaliações da revista como sendo próximas da realidade, mas, mesmo assim não consigo admirar Sérgio Moro. Já avaliei o Cúrrículo Lattes dele inúmeras vezes, li os artigos científicos que ele escreveu e publicou, a dissertação, a tese de doutoramento e, nada. Minha mente rumina, falta sinceridade de propósito, falta consistência.
1.           Sérgio Moro sabia que as relações promíscuas entre empreiteiras e políticos começou no ano de 1971, portanto, ainda no Governo dos militares. Por que começou a investigar apenas o Governo do PT?
2.           Sérgio Moro sabe que o processo de financiamento de campanha é um verdadeiro negócio onde está implícito o superfaturamento das obras públicas e que todos os empresários que contribuem para campanhas eleitorais o fazem pensando em levar vantagens nos processos de licitação. Então por que o Foco no Governo do PT? Por que não uma força tarefa para investigar todos os Governos Estaduais?
3.           Sérgio Moro sabia como funciona as relações dos empresários com a política. Amigo de João Dória, sabe exatamente como pensa o grande empresariado, então por que resolveu investigar apenas os empresários ligados a Lula e ao Governo Dilma?
4.           Sérgio Moro sabe exatamente os limites que deve conter a ação de um juiz. O que explica sua deliberada decisão de ultrapassar os limites constitucionais? O que explica sua deliberada escolha em praticar ações sabidamente ilícitas?
Por todas estas questões e muito mais, uma intuição ao olhar a foto do Sérgio Moro, não me deixa admirá-lo. Arrisco a dizer que Sérgio Moro deixará a toga e se arriscar na política. Entretanto, em uma democracia será mais um Jair Bolsonaro na câmara federal.


quinta-feira, 24 de março de 2016

Não existe doação legal para campanhas eleitorais no Brasil

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Nelson Soares dos Santos
A palavra doação é um substantivo feminino e significa ato, processo ou efeito de doar alguma coisa. Então para ser doação a pessoa que pratica o ato de doar não pode e não deve esperar nada em troca, ou do contrário deixa de ser doação e passa ser um negócio que gera algum tipo de expectativa de submissão.  Por esta razão eu não acredito em doação legal para campanhas eleitorais por que o que chamam de doação nada mais é que a criação de uma expectativa de ganhos e lucros por meio de participação no trabalho de obras do Estado ou de prestação de serviços nos governos eleitos.  Funciona mais ou menos assim:
1.           Durante as campanhas eleitorais os candidatos vão ate os empresários “pedir” doação. Depois de vários encontros e várias reuniões o empresário ao compreender que aquele candidato vai lhe “ajudar” a ganhar licitações, facilitar trâmites no interior da burocracia do Estado então ele entra na lista de recebedores de “doação” da empresa.  Há quase que um compromisso tácito de que o candidato uma vez eleito tem o “dever” de “ajudar” o empresário a ganhar licitações e fazer gestões juntos aos governos eleitos em favor da referida empresa.
2.           A razão para tantos escândalos envolvendo até a merenda escolar das crianças está explicada no processo de financiamento das campanhas. É possível que não exista hoje uma obra realizada ou contratada pelo governo que não seja superfaturada. O superfaturamento das licitações e o vício das mesmas ( não é preciso observar muito para ver que sempre ganha os mesmos grupos de empresários), o caminho da “devolução” do dinheiro doado para o financiamento das campanhas. São vários escândalos noticiados pela imprensa que mostra esta questão.
3.           O outro caminho do desvio das verbas é as chamadas emendas parlamentares. Transformou-se quase em consenso no meio político as relações podres entre parlamentares que apresentam as emendas e os prefeitos de suas bases. Acontece de dois modos: O primeiro, ao organizar a emenda o prefeito se compromete a trabalhar para aquele candidato na eleição seguinte; o segundo, cria-se mecanismos de desvios de verbas da verba destinada na emenda. Também existe na imprensa inúmeros casos que ilustra esta questão. Não é preciso nem ser muito observador.
Por todas estas razões não acredito em doações legais. Até por que fui candidato duas vezes e ouvi de vários empresários: Você é um bom candidato mas tem que aprender a aceitar as regras do jogo, preciso ajudar alguém que me ajude. Não existe doação “legal”. O que existe é uma espécie de negócio apalavrado e mecanismos de manipulação que garanta a permanência no jogo. Ou muda o sistema de financiamento de campanha ou a luta contra a corrupção será apenas uma quimera quixotesca. E Moro, um Don Quixote.


quarta-feira, 23 de março de 2016

O que a Lista dos corruptos da Odebrecht pode nos ensinar


Nelson Soares dos Santos

Tornou-se público, hoje, uma lista com mais de 200 políticos de mais de 18 partidos diferentes. Não me assustou. Ao contrário do que pensam os leigos em política que estão liderando as ruas contra Dilma toda pessoa que já foi dirigente partidário ou candidato a cargo político no Brasil de tem um mínimo de inteligência e sagacidade sabe exatamente como funciona o processo de financiamento político-partidário no Brasil.
1.           Todos os partidos funcionam de forma mais ou menos centralizada. Isso significa que os dirigentes nacionais sabem ( pelo menos informalmente) o que acontece nos estados e nos maiores municípios. O processo de controle é feito mediante a eleição dos dirigentes estaduais e municipais, isso nos partidos que tem um mínimo de democracia ( PMDB, PT, PSB, PC do B, PPS etc), entretanto, mesmos nestes partidos, em alguns estados  a política é personalizada em um político que manda e desmanda e só consegue ser alguma coisa no partido a pessoa que “falar a língua do chefe”.
2.           Nos partidos onde o processo é totalmente centralizado ( caso de quase todos os partidos em Goiás) na pessoa de um político você só consegue alguma coisa com a aprovação do “Chefe”.  Se você conseguir “tornar-se alguma coisa” fica totalmente dependente da vontade do chefe que pela manipulação dos Estatutos pode substituir qualquer um a qualquer hora.
3.           Se você vier  tornar-se candidato é chamado para discutir a campanha. Nesse momento, nem pense nada; se quiser mesmos ter alguma chance de ter financiamento de que dizer sim a tudo que o chefe mandar. Em Goiás o “Chefe” da base aliada é Marconi, na Oposição é o “Iris”. Nesta falsa luta do bem contra o mal há diversas nuances, muitas traições e muita falsidade.

Por tudo isso é que sempre digo: seria interessante se todas as empresas que financiam campanhas eleitorais resolvessem contar a toda a população como são os processos de financiamento, como cada candidato recebe sua parte. O povo aprenderia muito sobre os heróis que estão elegendo. Precisamos definitivamente abrir a caixa preta de todos os partidos. Se é pra combater a corrupção precisamos então fazê-lo de forma verdadeira.

quinta-feira, 10 de março de 2016

A Delicada Situação.


Nelson Soares dos Santos

Talvez estes seja um dos últimos artigos que eu escreva antes de calar-me perante a situação delicada que o Brasil vive, não por medo, mas por que há momentos que falar não contribui para a construção da paz. “Há tempo de falar e  há tempo de calar”, disse Salomão há mais de dois mil anos atrás. Caso eu opte pelo silêncio neste artigo vou expor algumas idéias que possam justificar minha atitude.
1.     O Brasil vive hoje uma situação profundamente delicada. Parece um momento de travessia, um daqueles momentos históricos onde muitos atores se tornam importantes no processo e, portanto podendo ser responsabilizados pelo desenrolar da trama.
2.     Dos 39 partidos políticos existentes, quase uma dezena estão envolvidos profundamente em corrupção e acusação de desvios de recursos públicos. O PMDB por meio dos seus principais líderes, Presidente do Senado e da Câmara; O PSDB, com citações diretas dos seus principais líderes em escândalos com destaque para o seu principal Líder Aécio; O PT, pelas acusações envolvendo Lula e os principais líderes do PT, O PP e o PR, já com diversos condenados; o DEM que há pouco tempo teve um dos seus quadros de destaques expulsos da vida política ( Demóstenes Torres); o que dá os principais e maiores partidos da república com a confiança comprometida.
3.     Os poderes da república estão todos comprometidos. O poder executivo não consegue administrar o país engessado pelas denúncias de corrupção e pela incapacidade da Presidente Dilma de conseguir Governar; O Poder Legislativo com grande parte dos seus membros e os altos dirigentes sendo acusados de corrupção, com destaque para o presidente do Senado e da Câmara, e, envolvido em brigas intestinas do poder não consegue votar aquilo que realmente interessa ao crescimento do país; e, o Poder Judiciário, de um lado, na cúpula, mostra-se dividido quanto os rumos a seguir; e na base, um grupo de magistrados que na ânsia de inovar exorbita a competência a eles atribuída pela constituição.
4.     Um sistema educacional falido. O  nosso sistema educacional está tão falido que menos de 30 anos depois poucos se lembram do que foi o regime militar. Estamos sem memória histórica e um povo sem memória histórica está sempre em perigo. Não temos educação das massas, nem educadores das massas. O povo não tem um exemplo no qual se espelhar dando espaço assim a falsos heróis que na verdade não possuem grandeza moral para serem erguidos ao pedestal desejado. As faculdades e Universidades ou o sistema como um todo não provê os seus egressos dos elementos básicos de formação, a saber: competência Lingüística, pensamento lógico e moralidade autônoma. E criou-se uma massa de indivíduos que tendo opinião e crenças pensa ter pensamento crítico e autonomia moral para fazer escolhas livres.
5.     Um sistema de segurança comprometido. O crime parece ter criado raízes em todos os seguimentos da sociedade. Ser desonesto parece ter se tornado regra moral de viver. Toda as autoridades parecem ter adquirido vida própria para além da constituição e aos poucos e de forma sutil, justiça vai sendo confundido com vingança, juízes e polícia como justiceiros sob os aplausos ensandecidos de uma massa desorientada.
6.     Um sistema de saúde precário. A crise da saúde agravada pelo aparecimento da Zica não parece ter sido suficiente para uma mudança de postura da população quanto ao problema. O nível de corrupção e desvios de verbas nestas áreas chegam a níveis estratosféricos. A vida humana vai se tornando menor do que a busca desenfreada por vantagens materiais. Faltam médicos e equipamentos nos hospitais até das principais cidades do país.
7.     A situação se espalha pelos estados, repetindo o domínio do crime sobre o republicanismo, a mentira toma o lugar da verdade e chega até aos municípios e aos lares com o endividamento das famílias e a criação de uma clima de desrespeito às autoridades. ( Parece natural uma multidão xingar juiz ou a presidente de anta no facebook ou em outras redes sociais, mas o mesmo desrespeito vai se alargando com o professoro em sala de aula, com o médico no consultório, com o policial nas ruas e os filhos com os pais em suas casas).

8.     Por tudo isso é que mais que nunca necessitamos de serenidade. A luta por justiça  e, por justiça social não pode colocar em risco ou diminuir o valor sagrado da vida. É preciso que se tenha consciência de que toda e qualquer vida possui exatamente o mesmo valor e de que a lei moral que rege o supremo bem é universal e implacável. O estímulo ao ódio e ao confronto não ajuda no processo evolucionário, antes, apenas contribui para a banalização do mal e em última instância para derramamentos de sangue desnecessários.