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quinta-feira, 31 de março de 2011

O preço da liberdade é a eterna vigilância.



Hoje, 31 de março, aniversário do golpe militar no Brasil. Muitos jovens não tem conhecimento do preço que tantos brasileiros pagaram para reconquistar o direito da liberdade individual, liberdade de expressão e todos os direitos que temos na nossa ainda frágil democracia. Muitos foram mortos,  torturados, e inúmeras famílias perderam seus entes queridos.
A pergunta que sempre  faço é que erro os defensores da liberdade cometeram para que pudesse permitir a vitória dos que são capazes de matar, trucidar e torturar tivessem completo acesso ao poder. Creio que uma reflexão assim nos dias de hoje é de salutar importância. Que erro cometeu os defensores dos direitos humanos para permitir que indivíduos se apoderassem do poder para destruir vidas e famílias inteiras? Para tentar compreender as raízes de golpe e transmitir a nossa juventude atual a importância da liberdade e o que está por trás do discurso da ordem e do respeito aos valores morais é que passo elencar algumas questões.
1.   Os movimentos da direita que antecederam o golpe.
Eu costumo afirmar que o golpe de 1964, lançou suas primeiras raízes logo após a vitória de Getúlio Vargas na medida em que se acirrou a disputa entre o capital e a classe trabalhadora. As leis aprovadas por Getúlio e seu modo populista de governar desagradou imensamente a elite conservador que procurou então se reorganizar para retomar o poder e os seus “privilégios” perdidos. A Consolidação das leis trabalhistas era um destes motivos de desconforto entre a elite que não via com bons olhos o respeito aos trabalhadores nem tão pouco a proteção a vida e o bem estar social.
No período que antecedeu o golpe a elite se organizou procurando participar dos movimentos sociais, muitas vezes com discursos que na aparência pareciam estar na vanguarda da defesa da ordem, da segurança nacional, da democracia e dos direitos humanos. Seu primeiro alvo foi os jovens no movimento estudantil. Na década de 1940 e 1950, a direita logrou ocupar importantes espaços na direção do movimento estudantil tendo como sustentação partidária o PSD – Partido Social Democrata - e a UDN – União Democrática Nacional.
O alvo seguinte foi os movimentos religiosos, principalmente as comunidades de base da igreja católica. Em contraposição a Juventude católica cuja influência vinha de partidos socialistas e intelectuais ligados a academia, criou-se organizações da juventude ligados ao Pessedismo e ao Udenismo cujo objetivo era defender valores que na aparência protegia a sociedade, mas que na essência eram facistas. Corajosamente se ergueu a TFP – Tradição, Família e Propriedade. O líder da TFP. Plínio Correia foi o grande pensador da Ação Universitária Católica, e um grande ideólogo da direita lidado ao Pessedismo e Udenismo, defensor de um conservadorismo por vezes reacionário e  desequilibrado.
Na política, Carlos Lacerda do Rio de Janeiro era uma voz que parecia solitária no Congresso Nacional, uma voz que representava o que de mais conservador poderia existir naquele momento, ao ponto de parecer para alguns apenas um maluco a dizer bobagens. Calos Lacerda foi o Anti-Getúlio, depois o Anti-Juscelino, e depois, o Anti-Jango, e, finalmente um dos líderes civis a apoiar o golpe militar de 1964.
2.   Os movimentos da Esquerda que antecederam ao golpe.
Os movimentos sociais no Brasil ganharam expressão desde os idos dos anos de 1920. A popularização crescente da cultura cuja expressão maior foi o modernismo misturava um processo rico de conscientização da classe operária, dos trabalhadores do campo aumentando as demandas por educação, saúde, segurança e acesso a bens antes privilégios apenas das elites. A chegada de imigrantes de todas as partes do mundo, que pensava a elite substituiria a mão-de-obra escrava, contribui também para o aumento da consciência política e reivindicação de direitos bem como o aumento de uma parcela da sociedade que não possuía bens materiais suficientes para uma vida abastada. Estes imigrantes foram os primeiros agitadores e contribuíram para fortalecer aqui idéias socialistas, liberais, e revolucionárias que já existiam latentes desde antes da independência. Formaram-se assim os primeiros partidos tipicamente revolucionários, cujo exemplo mais premente é o Partido Comunista do Brasil.
Os  homens de idéias no Brasil, no entanto, nunca conseguiram chegar a um consenso de mudança ou revolução. Os progressistas brasileiros sempre foram seus piores inimigos. A traição nasce sempre nas fileiras progressistas. A falta de uma liderança com estatura moral de estadista fez com que os movimentos progressistas crescessem divididos, muito mais que a elite conservadora.
Nos anos 30 e 40, enquanto Getúlio se esforçava para aprovar leis em defesa dos trabalhadores enfrentando sozinho uma elite reacionária a esquerda não compreendia a importância da necessidade de acumular forças, preparar a classe trabalhadora, investir em segurança, saúde e educação para com isso implantar as bases de uma sociedade justa e igualitária. Dividida, a esquerda sequer percebeu a rapidez com que a elite conservadora se reaglutinava para em menos de 20 anos conseguir se implantar como única alternativa de ordem para a população em geral. A elite encontrou assim, uma esquerda dividida, um líder populista e sem apoio nas bases políticas do congresso, portanto presa fácil das forças conservadoras.
3.   As diretas já e o Lulismo.
Há quem pense que o Lulismo nasceu em 2002. Ledo engano. O lulismo nasceu muito antes de Lula tornar-se presidente de sindicado no abc paulista. O lulismo foi um anseio de encontrar um líder da classe trabalhadora que representasse  a defesa do homem trabalhador perante uma elite cuja avareza não tem limites. Desde a morte de Getúlio a classe trabalhadora no Brasil ficou órfã. Não teve um líder que se preocupasse com o bem estar daqueles que trabalham de sol a sol para conseguir a sobrevivência. O golpe militar contribui muito para dividir ainda mais a esquerda progressistas, mais foi falta de foco na luta pelo bem estar do  homem que trabalha de sol a sol para sobreviver a razão maior do fracasso. Os comunistas ficaram de olhos voltados para uma utopia que não tinha como valor imediato colocar a comida sobre a mesa. É como disse o sociólogo Betinho, “quem tem fome tem pressa”, e neste caso não dá pra esperar a revolução. Revolucionário para quem não tem o que comer é comida sobre a mesa. Durante o regime militar os líderes que surgiram, em sua maioria, estavam mais preocupados com ideais de liberdade, etc, do que em colocar comida sobre a mesa. A diferença entre Lula, Ulisses Guimarães e Tancredo Neves, é que o primeiro tinha uma  preocupação central: O trabalhador precisava de um bom salário se quisesse alimentar os filhos e tomar uma cerveja de fim de semana. Ironicamente isso não tem nada de ideal socialista, o que moveu Lula e o PT, foi muito mais uma idéia extremamente liberal: o direito de negociar o preço da força de trabalho. Foram as tentativas fracassadas de negociar melhores salários que fez se opor Lula ao Governo militar e contribui para levar as ruas gente que de outra forma jamais iria. A crise da década de 1980, acirrou o processo fragilizando de tal forma o governo de João Figueiredo e forçando uma transição gradual para o regime democrático. A elite não perdeu luta, negociou a rendição, mantendo importantes espaços e privilégios ainda inconfessáveis.
4.   A abertura democrática a eleição de Lula.
Os símbolos são sempre reveladores de uma era. Getúlio sucidou após uma manifesto de 22 generais, entre eles Castelo Branco o primeiro presidente militar do Brasil; e deixou uma carta testamento. Antes presenteara seu Ministro da Justiça, Tancredo Neves com uma caneta Parker 21 de ouro. João Figueiredo deveria passar o poder a Tancredo Neves, mas não passou. Tancredo faleceu antes de vencer a batalha que seu amigo não venceu. Em seu lugar, assumiu José Sarney, um ex-alinhado da ditadura que trazia consigo uma clave da direita extremada do Brasil.
Nos novos tempos, UDN e PSD , desapareceram e reapareceu com nova roupagem ou roupagens. PFL, PP, PPR, PDC, PSC, Prona, e tantas outras roupagens que assumiram. De outro lado, a esquerda progressista também se dividiu e assumiu novas roupagens em uma crise de ideologia e valores difícil de explicar. O equilibrista Sarney terminou seu mandato sob fogo cruzado de todos os lados; o Populista Collor caiu; O mineiro Itamar de forma quieta sobreviveu e criou as bases para que Lula chegasse ao Poder. O Sociólogo Fernando Henrique cedeu aos poderosos, curvou-se, talvez por ser sociólogo não conseguia acreditar nas forças das massas ou na possibilidade de contribuir para uma elevação moral da mesma. Negando-se a aumentar o bem estar do trabalhador permitiu o aumento da consciência, mesmo que consciência de que era preciso arriscar votar em um metalúrgico para se ter comida sobre a mesa. O PT prometeu cuidar do povo. O negociador Lula foi eleito em dobradinha com um empresário de grande envergadura moral e respeitado pela direita esquizofrênica.
No governo Lula, este governava as massas, José de Alencar controlava as forças reacionários com sua envergadura moral que lhe dava autoridade de exigir um Brasil mais justo e solidário. Com seu exemplo podia dizer aos empresários que era possível fazer concessão aos trabalhadores, cuidar do bem estar do povo, sem deixar de obter lucros reais.
Os dias atuais.
A nossa liberdade está novamente sob risco. Novamente temos um novo “Carlos Lacerda” o indisciplinado deputado Jair Bolsonaro do Rio de Janeiro. Dele ouvimos todos os tipos de bobagens, preconceitos, extremismos; até defender o fuzilamento do presidente FCH em plenário da câmara ele foi capaz. Novamente temos uma esquerda divida cuja preocupação central deixa de ser cada vez mais a comida na mesa do trabalhador. Novamente temos um governo de coalizão onde as forças conservadores não medem esforços para aumentar seus espaços nos movimentos sociais, nas igrejas, nas comunidades de base.
Novamente resurge o PSD, liderado por políticos de direita que se dizem pragmáticos, como se existisse pragmatismos em ideologia. Novamente menospreza-se o investimento em saúde, segurança e educação para as massas. As condições estão cada vez mais próximas do surgimento do manifestos de generais como defensores da ordem e da segurança nacional. A corrupção se alastra, os jovens desvalorizam a liberdade que possuem, os jornalistas são por vezes irresponsáveis no tratamento das notícias.
Novamente é preciso lembrar: “ O preço da liberdade é a eterna vigilância”. A busca de uma vida sadia, da proteção dos valores, da liberdade, da propriedade, da família não devem ser feitos jamais com o preço do desrespeito a vida ou quaisquer direitos humanos. Que este 31 de março nos ajude a perceber que é melhor sermos livres que sermos escravos e oprimidos sem direito a voz.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A DEMOCRACIA, JAIR BOLSONARO,JOSÉ DE ALENCAR E A ESTATURA MORAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA



No momento em que a sociedade chora a morte de José de Alencar, o vice presidente querido por todos que ajudou o presidente Lula a tirar milhares da pobreza a Corregedoria da Câmara recebe milhares de e-mails exigindo a punição a um outro personagem da vida pública brasileira. O nome dele é Jair Bolsonaro. Racista, homofóbico, conservador, reacionário e preconceituoso o deputado tem freqüentado a mídia nos últimos anos sempre protagonizando cenas que nada diz do homem brasileiro visto em sua maioria.
É Preciso perguntar quem é Jair Bolsonaro. A enciclopédia livre da internet diz que é um militar e político brasileiro. Em 1986, foi preso por 15 dias por liderar manifestação dos militares sem autorização dos superiores o que foi caracterizado como ato de indisciplina grave e de imoralidade. O general Leônidas Pires afirmou que o militar Jair Bolsonaro não era digno de ser um oficial do exército por sua postura problemática e indisciplinada. Saindo do exército ainda jovem, tornou- se político e já está no quinto mandato. Além de ser deputado federal tem na sua família no rio de Janeiro um deputado estadual e um vereador.
Jair Bolsonaro é considerado um representante das Forças Armadas no Congresso Nacional e  o único deputado brasileiro a defender abertamente a volta do regime militar no Brasil bem como todos os atos do regime implantado em 1964. Na sua vida política passou por diversos partidos, primeiro foi eleito pelo PDC  ( Partido Democrata Cristão) no ano de 1988, para o cargo de vereador no Rio de Janeiro. Para quem não se lembra o PDC foi o nome adotado pela Arena ( Aliança renovadora Nacional), que dava sustentação política ao Regime Militar. No ano de 1990, foi eleito deputado federal pelo mesmo partido. O PDC mudou de nome duas vezes, primeiro para PPR, depois para PPB, e lá continou o deputado  Bolsonaro. No ano de 2003, teve uma rápida passagem pelo PTB, e uma outra passagem ainda mais rápida no ano de 2005 pelo PFL ( atual Dem), enfim, voltou a sua antiga morada, agora novamente com um novo nome – o PP.
No PP, Partido Progressista, o deputado Bolsonaro é membro da direção nacional como vogal, membro da Comissão de Ética, e membro da Direção Nacional. Ou seja, é tido pelos colegas de partido como um homem íntegro que zela pelo estatuto do partido e pela moralidade. No Congresso Nacional, onde já defendeu na tribuna o fuzilamento de um presidente, segundo as notícias dos jornais, é membro da Comissão de Direitos Humanos, da Comissão de Segurança Pública e da Comissão de Relações Exteriores e defesa nacional.
A declaração dada no CQC não é a primeira declaração polêmica do deputado. No site pessoal ele defende abertamente o não desarmamento, já defendeu a tortura no combate ao tráfico e ao uso de drogas, e, até o fuzilamento do presidente em sessão plenária da Câmara dos Deputados. Pela importância da biografia do deputado, imagino que sua voz é mais que sua própria voz. E não é de uma pequena e isolada minoria como a imprensa faz parecer ser. É a voz de importantes parcelas da sociedade brasileira que se mostra cada vez mais ousada na demonstração de racismos e aversão a democracia. É isso que devemos ter medo, não do deputado Bolsonaro.
A democracia brasileira vive um momento de consolidação mas ainda precisa de cuidados. No momento em que perdemos um grande democrata como José Alencar, é bom tentarmos entender o que significa a voz de um homem tão reacionário e com tanta força dentro das instituições democráticas. Uma democracia só cresce e amadurece quando a maioria do seu povo alcança um elevado nível moral. E não são os líderes considerados como indignos por uma Instituição tão importante como o Exército Brasileiro que será capaz de guiar esta sociedade no caminho de sua elevação moral. Urge que sigamos o exemplo do nosso grande vice-presidente José de Alencar.
Uma educação política é urgente. O povo brasileiro precisa aprender a conhecer os partidos políticos, seus dirigentes, suas idéias. Os líderes partidários devem buscar selecionar melhor seus quadros que de fato represente seus ideais. No estatuto atualizado de 2003, do PP, consta que a defesa da solidariedade e dos direitos humanos é bandeira do partido, se assim o fosse, o próprio partido deveria punir o deputado. No entanto, o deputado é membro efetivo da comissão de ética do partido. A construção de uma democracia forte requer que as instituições se fortaleçam e de fato represente os ideais dos seus representados. 

terça-feira, 29 de março de 2011

José de Alencar - Um Brasileiro.



  muito tempo tenho uma admiração impar por José de Alencar. Quando ouvi o Senador José de Alencar dar as primeiras declarações favoráveis a Lula como político, afirmei para os mais próximos que estava ali o caminho pelo qual Lula chegaria a Presidência. Na época, políticos da esquerda torciam o nariz para qualquer cidadão que fosse empresário, como se a dominação de uma classe sobre a outra fosse a única maneira do mundo existir.
José de Alencar tornou-se vice-presidente do Brasil, sendo para alguns, principalmente no primeiro mandato a garantia de que a propriedade privada seria respeitada no governo Lula; e, hoje, torna-se um dos homens mais admirados no Brasil, e quiça, tivesse o mundo o conhecido, o mundo o admiraria. O mundo hoje, tem poucos homens que conseguem encarnar o que o mundo tem de melhor. Quase sempre, convivemos com o mediano, senão com o que há de pior. José de Alencar soube conviver com todas as nuances que o mundo lhe apresentou buscando o equilíbrio e a convivência fraterna, fugindo dos radicalismos de todas as matizes, fossem elas de direita ou de esquerda. Era um verdadeiro democrata.
A pergunta que fica é como seguir o exemplo de um homem assim, em tempos nos quais o individualismo egoísta parece tomar conta de todos os ambientes e de todas as pessoas. Como viver com um sorriso no rosto, alegre, de bem com a vida sem ser hipócrita, sem usar de perfídia? Como ser corajoso e enfrentar com bravura as dificuldades que a vida nos impõe? Como lutar contra a fome, a injustiça e tentar aliviar a dor dos outros sem ser ingênuo, fanfarrão ou hipócrita?
A biografia de José de Alencar mostra um homem que soube aproveitar as oportunidades que a vida lhe deu. Soube viver com equilíbrio, fugir dos radicalismos, respeitar as leis e ao mesmo tempo compreender o momento certo para se fazer as mudanças necessárias. Enfim, um homem preocupado com a família, as instituições e com a nação. Um homem preocupado com o seu povo. Não foi por acaso que Lula conclui que ele era o homem em quem confiava de olhos fechado o destino do povo brasileiro.
José de Alencar ganhou a admiração de todos os brasileiros por que sendo um homem de elevada estatura moral conseguiu ter sucesso tanto no mundo empresarial quando no mundo político. É o que podemos chamar de um homem que aproximou da completude. O respeito a família, aos filhos, as leis tornou-o  um ícone de nossa história. Por muitos e muitos anos, nós, aqueles que lidamos com o comportamento humano haveremos de lembrá-lo como exemplo a ser seguido por todos aqueles que sonham fazer a diferença.  José de Alencar, um exemplo a ser seguido por todos os brasileiros para que o Brasil se torne uma nação de elevada estatura moral e faça parte dos países que podem se colocar na dianteira da evolução moral da humanidade.

Oswaldo Montenegro - Estrada Nova

segunda-feira, 28 de março de 2011

Neste dia, Senhor.

Neste dia que amanhece, Senhor, eu lhe peço que ilumine minha mente e minha alma.
Se o mal tem que vir ao mundo, Senhor, que venha, mas não por mim, Senhor.
Que eu possa estar consciente e de espada em punho a combatê-lo.
Que eu possa estar forte para proteger os mais fracos;
Que eu possa estar lúcido para acordar os adormecidos.

Neste dia que amanhece, Senhor, eu lhe peço que ilumine o meu caminho.
Se o escândalo tem de acontecer, Senhor, que aconteça, mas não por mim, Senhor.
Dê-me forças para pacificar, sabedoria para trazer calma e paz aos desafortundados;
Dê-me inteligência, Senhor, para que eu possa lidar com aqueles que não tendo consciência do seu poder
Usam a espada da sabedoria para interesses egoístas transformando-a em motivo de loucura.

Neste dia que amanhece, Senhor, Eu lhe peço que me dê forças para disciplinar meu corpo e minha mente.
Se as trevas tem que entrar no mundo, Senhor, e tornar tudo ainda mais negro, que não seja pelo meu coração.
Que dos meus lábios saiam palavras de sabedoria que traga alegria aos homens e mulheres em sofrimento e na ignorância;
Que minhas mãos estejam estendidas a todos que estando caídos, queiram se levantar;
Que minhas pernas esteja fortes para  que eu possa carregar em meus ombros todos aqueles que já não conseguem mais caminhar;
Que os meus olhos estejam abertos para guiar pelo caminho correto aqueles que já não podem ver;
Que minha mente esteja pura, Senhor, para que eu possa a todos perdoar;
E que minha alma esteja na luz, Senhor, para que envolvido por teu manto sagrado eu possa ser luz, e o símbolo de tua vida.
Neste dia que amanhece, Senhor, eu lhe agradeço por estar em meu coração e ser o guardião de minha alma na estrada fatigada da vida, mas o único caminho possível pra que eu possa chegar até a ti.
Neste dia que amanhece, Senhor, eu lhe agradeço por todos os meus irmãos, sobretudo por aqueles que sendo meus maiores mestres tem me dado as mais duras lições evolutivas.
Neste dia que amanhece, Senhor, eu lhe agradeço por me ensinar do seu amor por meio de cada ser que cruz o meu caminho.
Neste dia que amanhece, eu me rendo a ti, aceitando tornar-me luz na caminhada da vida.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Obama no Brasil


Por pedido de uma amiga resolvi escrever sobre a vinda de Obama ao Brasil. Nunca fui muito crédulo com a possibilidade de Obama ter sucesso como presidente dos Estados Unidos, e, não considero ser isso um pessimista, apenas considero-me alguém que acompanha as tendências das relações internacionais e da dinâmica dos povos.
Quando ainda jovem quase criança, me debrucei sobre os estudos das profecias bíblicas, ali, aprendi que o império americano um dia entraria em decadência, e quando isso acontecesse não teria consistência para manter sua hegemonia no mundo que entraria em profunda transformação. A eleição do Obama me pareceu mais um dos sinais daqueles estudos proféticos,  e hoje vejo ter sido um sinal claro de muitas outras transformações que viria. Os acontecimentos no Oriente Médio, as revoltas populares, os governos derrubados, a dificuldade de  estabelecer a paz entre israelenses e mulçumanos, a ascensão da china, da índia e do Brasil são, neste caso, sinais evidentes da nova realidade.
Soma-se a isso o aprofundamento do processo de globalização que mistura todas as culturas, todos os povos e nos aproxima da glória e das desgraças de todos. Aproxima-se o tempo em que nos tornamos cada vez mais uma unidade. O mundo se torna um em uma multiplicidade que assusta o mais tranqüilo dos leigos.
A vinda de Obama ao Brasil é mais um passo, um evento de toda esta cadeia simbólica. Nela se pode ver as demandas do futuro – respeito a diversidade, necessidade da serenidade,  etc – desde as demandas diplomáticas mais duras até as mais simples. Na visita ao Brasil vemos um Obama Família. Olhando para a família se deslocando de um lugar para o outro se passava a imagem de que os Estados Unidos hoje são os maiores defensores dos valores da Instituição familiar tendo a família nuclear como modelo, ou seja, a família em seu modelo cristão. Vendo a família unida assistindo a roda de capoeira até senti saudade da minha infância quando todos se reuniam na porta da casa ao final da tarde, as crianças brincando e os pais conversando enquanto anoitecia.
A visita de Obama a cidade de Deus não foi menos simbólica. A pobreza extrema recheada de violência e agora combatida como política de estado é saudada pelo homem mais poderoso do mundo. Sua presença ali, é como se dissesse, “adversários da Dilma, liberais, é preciso mesmo combater a pobreza em todos os cantos do mundo”. De outro lado, imagino que Obama se sentiu em casa. A alegria é algo que corre no coração dos negros de qualquer parte do mundo, e como dizia um amigo angolano não existe negro mais alegre que o negro brasileiro.
Simbólica também foi a postura de Dilma. Agiu como grande estadista, digna do país que representa. Não pediu o que se não devia pedir ou o que podai provocar constrangimentos ao governo e a diplomacia americana. Ponto para os nossos diplomatas. Simbólico também foi o convite aos ex-presidentes para o almoço. É como se dissesse : “ este país tem sim uma história e por isso deixa de ser um país do futuro e torna-se um país do presente, na defesa dos mais nobres valores tanto internamente quanto no campo externo.
E finalmente, pode se dizer: a vinda de Obama foi um motivo de celebração. Celebração da democracia, da amizade e do compromisso com um mundo mais justo e humano, por que é isso que o Brasil representa depois dos oito anos do governo Lula. Para não deixar passar em branco registro a percepção de minha filha de cinco anos: Pai, você viu que o homem mais poderoso do mundo é marrom bombom? E eu respondi: Sim filha, por isso não precisamos mais termos vergonha de sermos negros. E ela retruca: Mas papai, você já viu que os pobres são todos marrons bombom? E de novo eu respondo: Sim filha, mas podemos lutar, e como o Obama,  melhorar nossa vida. Ela sorriu e disse: Papai, eu te amo, e sou muito feliz de ser sua filha. Macktub.


domingo, 20 de março de 2011

Por que devemos seguir adiante com coragem e virtude.

Há momentos na vida que não conseguimos ver sentido em tudo que vivemos  e fazemos. Olhamos em volta de nós e vemos sempre a mesma rotina. Sejamos pais, mães, filhos, amigos. Olhamos e vemos sempre o mesmo circulo de acordar, alimentar, trabalhar, descansar, dormir. Olhamos para o futuro e vemos um eterno circulo que acaba com a velhice e a morte.
Muitos de nós ficamos tristes. Não sabemos por que as coisas são assim. Alguns de nós conseguimos ver apenas o sofrimento,a dor, a tristeza. Quando paramos um pouco chegamos a pensar que a culpa é sempre das pessoas que estão a nossa volta, e as vezes, culpamos mesmo até Deus por nossas desventuras.Ficamos tristes pelos amores perdidos, pelas experiências não vividas, até mesmos por aquilo que podíamos ter feito e não fizemos. Os sonhos que deixamos para trás, os sonhos que vivemos, os sonhos que apenas sonhamos; qual sentido tem tudo isso em nossa existência?
Então olhamos para a vida e ficamos tristes. A tristeza invade nosso coração de tal forma que tudo parece ficar escuro. O sol não brilha, a lua e as estrelas não aparecem. Não conseguimos sequer ver beleza na água que cai da cachoeira, ou no sorriso de uma criança. E aqueles que são pais, olham para os filhos e chegam a lastimar por tê-los. Então, no auge de nossa dor e agonia, em meio a anti-depressivos, as vezes, nos perguntamos: Por que devemos continuar? Por que devemos seguir adiante?

Talvez esta não seja a pergunta certa. Talvez a pergunta deveria ser por que estamos aqui, e, ainda, o que somos afinal? Talvez esta hora seja a hora de olharmos para dentro de nós, e, se o fizermos descobriremos uma força que não se pode medir. Descobriremos que tudo que buscamos está bem perto de nós, dentro de nós, no nosso coração. Descobriremos que o nosso coração é a unica porta pela qual tanto o mal quanto o bem pode entrar em nossas vidas. E olhando mais ainda para dentro do nosso coração, ouviremos uma voz que nos diz que existe um Deus do nosso coração que tudo pode e que nos fortalece. Conscientes desta força perguntar por que devemos seguir adiante perde o sentido por que compreendemos a nossa participação na história do humanidade, na nossa história e na história daqueles que amamos. Conscientes desta força não acreditamos mais em amores perdidos, não acreditamos mais em sonhos não vividos. E vemos que tudo que tínhamos que viver, vivemos; acreditamos que tudo aconteceu a tempo e a hora, e que nada, absolutamente nada acontece por acaso.

Descobrimos então, que toda a luz que procuramos está dentro de nós e que todo o tempo nada tinha a ver com os outros, apenas com nós mesmos. Aprendemos, então, que nascemos sozinhos, e, que iremos morrer sozinhos. A vida é uma jornada na qual encontramos e des-encontramos; as vezes alguns ficam pela estrada e nós seguimos adiante; outras vezes, nós ficamos parados. No entanto, é apenas uma jornada. O pensamento firme nos ajuda a caminhar sempre, a continuar, a onde ir, ou as vezes, e quando necessário voltar. É preciso ter coragem, é preciso ter amor, e entender, que o amor da pessoa amada é aquele amor que está dentro de nós que nos faz prosseguir, mesmo quando tudo parece escurecer.

É assim a vida. Uma jornada na qual devemos sempre seguir em frente. Tocar em frente como diz Almir Sater. Tocar em frente, andando devagar por que vale a pena viver. É da nossa respiração que vive a pessoa amada onde que que esteja. Sempre existem motivos para continuar, e, o maior motivo é que o Deus que está em nosso coração é o Deus que nos fez sentir o amor e o quanto é belo e vale a pena amar. Viva hoje, siga adiante. Não deixe nenhuma tristeza impedir que veja os raios de sol quando noite passar.



quinta-feira, 17 de março de 2011

O código Moral da atualidade

 O código Moral da atualidade

Quando me ponho a pensar sobre como vivemos nos dias de hoje, e me pergunto qual código moral deveríamos seguir para termos o mínimo de satisfação com a vida, a impressão que logo me vem a mente é que estamos vivendo um sonho sem sim. É uma imagem de uma  história que li ainda quando criança no livro “História sem fim”. No livro, o personagem vivencia diversas experiências, sendo que em cada uma delas, fica um algo inacabado, uma experiência não vivida que segundo o autor se constitui em uma outra história e que só seria contada em outra ocasião.
Adolfo Sanchez Vazques em sua obra “Ética” pretendeu demonstrar-nos que a moral só surge quando o homem alcança o estado da vida em sociedade. Uma visão materialista da moral que exclui Deus, a Natureza e o Homem como fonte e origem da moral. Desta forma para ele, a moral evoluiria coma evolução da sociedade, e que seria possível assim identificar em cada época da história humana um código moral dominante, e, que segundo ele, fiel a tradição marxista, este código moral seria o código moral da classe dominante.[1]
Seguindo esta lógica de raciocínio o autor identifica três épocas dominantes: a antiguidade,o medievalismo e a modernidade. O código moral da antiguidade é então, identificado como a moral dos homens livres das cidades. O exemplo onde isso aparece com mais clareza seria nas cidades gregas, onde, a idéia do Homem Virtuoso determinava o modo de viver, conhecer, sentir e perceber o mundo de todos os demais segmentos da sociedade. Admitia-se, no entanto, a existência de outras possibilidades de ver e compreender o mundo moral, porém, estas outras visões eram dependentes da visão dominante e a ela de alguma forma se subordinava. Assim, mesmo no exemplo mais impressionante da existência de uma moral diferente da moral dos homens livres – a revolta dos escravos romanos liderados por Spartacus – explica-se a impossibilidade de os mesmos conseguirem estabelecer entre eles um governo organizado por que a moral que os movia – a coragem, o sacrifício, a liberdade, etc – era na verdade a moral dos homens livres, e reproduzindo entre eles as mesmas deficiências fez com que deteriorasse a possibilidade de uma nova forma de relação entre os homens.
À medida que o mundo antigo foi desaparecendo um novo tipo de sociedade tomou o seu lugar, o medievalismo, caracterizado pela presença do senhor feudal como classe dominante. A estrutura social, agora já não admitindo escancaradamente a escravidão, é marcada pela vassalagem de um Feudo menor e mais fraco a um outro mais forte e mais poderoso, em uma hierarquia que chegava ao Rei e a Igreja, pois esta sendo uma vez a representante de Deus na terra tinha poder sobre toda a Terra, portando autoridade sobre todos os senhores da Terra.Como necessitava de proteger suas terras surge a figura do Guerreiro Cavalheiro que luta em nome de Deus, e com ele a moral do cavalheiro, cujas virtude maior é representar a Justiça de Deus na Terra, empunhando sua espada e fazendo desaparecer da face da terra os ímpios e condenados.
Na estrutura da sociedade medieval existiam fissuras que levaram ao surgimento da nova sociedade, a sociedade moderna. A principal fissura foi a dificuldade de enquadrar os homens livres que não viviam da terra, e sim, na cidade e realizando pequenos trabalhos, comercializando e construindo pequenas fortunas longe da lida com a terra, e independente dos senhores feudais. Com o tempo, estes habitantes da cidade puderam pagar seus próprios protetores e iniciar uma nova forma de lidar com a realidade, constituindo uma nova forma de ver e perceber o mundo. Para esta nova classe que surgia, a criatividade, a capacidade de buscar lucro através dos negócios era bem mais importante que o apego a terra. E surge junto com esta classe uma nova moral com fundamento na capacidade individual de cada um.
A sociedade moderna, ou que se convencionou chamar-se de modernidade, nasce marcado pelo individualismo, ou pela valorização da liberdade individual, na valorização do respeito à propriedade privada como valor universal, e no direito de cada homem decidir por si mesmo quando ao destino da sua vida. Contrapunha-se desta forma a antiguidade por não aceitar a escravidão, ao feudalismo por não aceitar a servidão em forma de vassalagem, e, rompia com a idéia de que a igreja como representante de Deus na terra era á única capaz de conhecer e decidir sobre os destinos dos homens. Fundada sobre a racionalidade a modernidade fez muitos acreditarem que chegaríamos a uma era de ouro onde não haveria fome ou algum homem carente de necessidades básicas, no entanto, séculos depois, com muita evolução da ciência e da técnica – trunfos da modernidade -, o que se viu e se vê é uma era do vazio, como afirma o filósofo Gilles Lipovestkv[2]. Para  o autor a modernidade se acirra em contradições, por vezes, cai-se em um falso relativismos tornando complexa o processo de globalização das culturas e valores e na busca infinda por um modelo que possa ser universal.
É na compreensão desta cultura tão complexa que devemos buscar compreender  o código moral da atualidade. Não resta dúvida que é preciso verificar o que se busca. Em uma sociedade onde tudo necessita da idéia da moeda e da busca do lucro para se garantir a sobrevivência, a vida simples é uma contradição. A moral dominante se identifica com a mora do vencedor, porém, não se ajusta ao vencedor infeliz. É preciso ser mais que vencedor para inspirar o futuro. O próprio vencedor que não compreende as coisas simples da vida se perde se perde no desespero de são saber o que realmente tem sentido. Quase se pode dizer que o Código moral da atualidade é não ter nenhum código moral, por que o fim representado pelo que o homem moderno busca não permite a existência de um código moral ou de uma moral no seu sentido strictu sensu.



[1] Ética. Vazquez, Adolfo Sanchez. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; 2006.
[2] A era do vazio. In http://pt.scribd.com/doc/7265347/Gilles-Lipovetsky-A-Era-Do-VazioA cultura pós-moderna representa o pólo «surperestrutural» de uma socieda
que sai de um tipo de organização uniforme, dirigista, e que, para o fazer,
mistura, os últimos valores modernos, reabilita o passado e a tradição,
revaloriza o local e a vida simples, dissolve a preeminência da centralidade,
dissemina os critérios da verdade e da arte, legitima a afirmação da identi
dade pessoal de acordo com os valores de uma sociedade personalizada
onde o que importa é que o indivíduo seja ele próprio, e onde tudo e todos
têm, portanto, direito de cidade e a serem socialmente reconhecidos, sendo
que nada deve doravante impor-se imperativa e duradouramente, e todas as
opções, todos os níveis, podem coabitar sem contracção nem relegação. A
cul tura pós-moderna é descentrada e heteróclita, materialista e psi, pomo e
discreta, inovadora e rétro, consumista e ecologista, sofisticada e espontânea, espectacular e criativa; e o futuro não terá, sem dúvida, que decidir em
favor de uma destas tendências, mas, pelo contrário, desenvolverá as
lógicas duais, a co-presença flexível das antinomias

quarta-feira, 16 de março de 2011

Bêbados, Manés, viciados e espertalhões



A serenidade definitivamente está saindo de moda no mundo atual. A impressão que se tem é que o código moral dominante é o dos bêbados, manés, viciados e espertalhões. Eu já não sei mais se o importante é refletirmos e procurarmos entender por que chegamos a tal situação, ou se apenas tentamos seguir em frente tentando superar as barreiras que tal estado de coisas nos impõe.
Quando os estudiosos da Escola de Frankfurt se alarmaram diante do que viam e ouviam, e falavam da barbárie, creio que eles não imaginavam o que hoje vemos. O que temos e vivemos hoje, é possível que já está além da barbárie preconizada. Horkheimer pensou na existência de uma razão eclipsada jamais imaginou um tempo de puro irracionalismo, um mundo movido pela busca desenfreada dos prazeres dos sentidos.
Adorno insistiu na necessidade de educar contra a insensibilidade que faz ver no outro apenas um degrau para a nossa caminhada. Pobre Adorno! Em  nossos dias os espertalhões vêem nos demais apenas uma mercadoria. Uma mercadoria que pode ser reposta sem nenhum medo de qualquer conseqüência. A busca desenfreada pelo lucro construiu uma quantidade imensa de homens insensíveis, duros, cujo olhar vêem apenas a possibilidade de se ter mais e mais bens materiais. Foi-se a gentileza e amabilidade. Desapareceu a liberalidade, enterrou-se a magnanimidade.
O mundo parece estar sendo governado por bêbados e insensíveis. O que pode explicar que um governante destrua milhares de vida apenas para se manter no poder? O que pode explicar a corrupção galopante que invade todos os espaços sociais e destrói até mesmo as relações mais íntimas entre pais e filhos, pois mina a possibilidade da existência da confiança? As casas de leis que deveriam ser o espaço da sabedoria e da serenidade  onde ali deveria construir os mecanismos que garantiriam a justiça social tem se transformado em motivos de brincadeiras e chacotas quando deputados apresentam projetos de leis sabidamente inconstitucional apenas para servir de trampolim para discutir algum outro assunto. Outros, desviam o debate;  enganam a população enquanto desmontam a estrutura do estado que devia produzir bem estar e justiça social aos mais fracos e necessitados, colocando-o serviço da lucratividade de grupos gananciosos e nada comprometidos com a justiça e  a virtude.
Enquanto os bêbados, sem nenhuma lucidez, aliam-se aos espertalhões, os manes sacrificam toda sua honra, toda a sobriedade, os princípios e tudo mais pelo qual vale a pena viver correndo atrás das ilusões materiais. De tão manes passam a considerar que deus os abençoa nesta busca desenfreada pelo prazer material, pela satisfação dos sentidos, ao ponto de, ouvindo-os chegarmos a imaginar que o céu é um antro de ilusões sem sim. Não possuem consciência de sua própria humanidade. E quando repetem exaustivamente que deus os protege é por que o vazio que sentem já é tal que eles mesmos não conseguem definir. Não assusta pois, que nesta correria pelo melhor emprego, o melhor carro, a melhor casa, o melhor cargo no governo, muitos depois de conquistarem coloquem fogo no próprio corpo, pulam de prédios, e, alguns deixando para trás uma verdadeira fortuna que tudo fizeram para conquistar.
Para concluir, falemos dos viciados. É impressionante ouvir as pessoas falar com brilho nos olhos que são viciadas. Ser viciado em alguma coisa tornou-se virtude. O bêbado, o espertalhão e o Mané, são todos viciados. Já não são mais capazes de ouvir a voz da alma. A dor que sentem é a dor dos sentidos entorpecidos pela vileza do dia a dia. Olham no espelho e não se vêem mais. De tanto ver tanta loucura, até é possível imaginar que chegamos ao tempo do fim. O viciado em trabalho, o viciado em sexo, o viciado em estudos, o viciado em rezar; sim, até em rezar já tem viciado. E alguns se orgulham disso. Abandonam família, filhos, tudo para cuidar dos seus vícios. Não existe nisso a possibilidade da virtude, simplesmente porque tal situação está fora dos limites da razão. E no irracionalismo não pode existir a justiça, a prudência e sabedoria.

Ética, Jornalismo e Política - O que está acontecendo?

Preocupado com os últimos passos do jornalismo goiano resolvi estudar mais sobre esta área que se chama comunicação. Encontrei um texto interessante que traduz todas as preocupações que tenho tido. Reproduzo aqui no blog para que meus leitores compreendam melhor o que se está passando em Goiás na atualidade. Embora seja um texto grande para um blog, é importante que se leia o todo.


Uma nova ética para uma nova modernidade


Bernardo Kucinski,
São Paulo, abril de 2002
 


O jornalismo brasileiro vive hoje uma crise ética muito especial. Mais do que a incidência de desvios éticos pronunciados, a característica dessa crise é o vazio ético. Nas redações, deu-se uma rendição generalizada aos ditames mercantilistas ou ideológicos dos proprietários dos meios de informação. A liberdade de informar e o direito de ser informado, canonizados na Declaração Universal dos Direitos do Homem e erigidos em ideologia dos códigos de ética jornalística nos mais diversos países, tornaram-se letra morta.
Não por acaso, esse novo ambiente ético no jornalismo é adequado aos valores do neoliberalismo econômico e foi instrumental ao seu processo de implantação. Nesse sentido é um equívoco considerar o vazio ético das redações uma disfunção do jornalismo. Ele existe porque tem uma função. E resulta de um embate ideológico que se dá além da esfera estrita da comunicação, um embate entre propostas divergentes de civilização e de organização.
No dia a dia, o vazio ético é reforçado por mecanismos diversos entre os quais o fim da demarcação entre o jornalismo e assessorias de imprensa, a fusão mercadológica de notícia, entretenimento e consumo; a concentração de propriedade na indústria de comunicação, a crescente manipulação da informação por grupos de interesse e principalmente a mentalidade pós-moderna.
Quando aceitei o convite, que tanto me honra, para esta aula inaugural , já tinha algumas dessas idéias delineadas. Mas o que me levou realmente a aceitar o convite de bom grado, como uma oportunidade feliz e não apenas como mais uma tarefa, foi um incidente ocorrido algumas semanas antes, que desencadeou um profundo processo de revisão das minhas ideais sobre o problema da ética no nosso jornalismo. É disso que pretendo tratar hoje. Antes, preciso explicar quais eram minhas ideais sobre a ética jornalística.
Confesso que era um fundamentalista no tocante à ética jornalística. Minha paixão pelo jornalismo foi tão absoluta que vesti a camisa da ética jornalística como uma ideologia, no sentido mesmo de camisa de força, conforme denunciado por Cornelius Castoriades. Ou seja, eu me colocava dentro da ética jornalística, e por isso não a podia ver criticamente ou como parte da ideologia de uma época ou fé, uma hegemonia datada. É bom que o jornalista se coloque dentro da ética de sua profissão, mas o professor e acadêmico deve poder olhá-la também de fora. Quem me chamou a atenção para o caráter “idealista” de minha postura foi o professor e colega Manuel Chaparro. Não o refutei na ocasião, mas sua observação foi fazendo um lento estrago nas minhas convicções.
Nessa concepção idealista, eu pregava que o jornalismo é uma atividade que se define por uma ética e não por uma técnica. E que essa ética é formada por um imperativo categórico, ou seja um preceito universal de conduta aplicável em todas as circunstâncias, e que não admite adaptação ou compromisso.É o imperativo categórico da verdade. Por esse imperativo, o jornalismo existe para socializar as verdades de interesse público, para tornar publico o que grupos de interesse ou poderosos tentam manter como coisa privada .O absolutismo dessa ética pode ser sentido por uma de suas implicações, a de que o jornalista não é responsável pelas conseqüências da divulgação de uma verdade de interesse público, seja ela qual for. Mas é responsável e até cúmplice das conseqüências de não ter socializado essa verdade de interesse público. Na minha ética jornalística absolutista, o valor responsabilidade não é simétrico.
É uma ética kantiana, na qual o valor verdade transcende todos os demais valores e se coloca de modo absoluto. E por que a ética kantiana se aplica ao jornalismo ? Porque se o jornalista começa a ponderar sobre as conseqüências das verdades que tem a dizer, sobre a conveniência de revelar parte da verdade e omitir outra, começa a assumir um outro papel social; deixa de ser jornalista para ser um censor e um juiz daquilo que o povo deve ou não deve saber. Na ética kantiana, não cabe esse julgamento. A verdade não pertence ao jornalista, que apenas recebeu um mandato da sociedade para procurar os fatos, e até certos privilégios éticos para executar esse mandato, como o direito de bisbilhotar na vida alheia ou de surrupiar certos documentos. desde que a serviço do interesse público.
Na cultura anglo-saxônica, em que essa ética jornalística prosperou e ganhou status de ideologia do jornalismo, há até mesmo duas etimologias para expressar o valor responsabilidade, na ética do jornalismo, em sua relação como valor verdade; fala-se que o jornalista deve ser “ accountable” por suas ações “, mas não é “ responsible” pelas verdades que revela. Poderíamos traduzir como: o jornalista é responsável por todos os seus atos, mas não pode ser responsabilizado pelas conseqüências de ter revelado verdades. Ou poderíamos dizer: a responsabilidade do jornalista esgota-se no ato de revelar a verdade.
Explico tudo isso que já se sabe, até de modo um pouco maçante, para mostrar que essa ética é fundamentalista: não permite nenhuma redução da verdade, nenhum compromisso, sob nenhum pretexto, porque por definição isso não é necessário, já que não é da conta do jornalista o que acontece depois que revelou o que tinha que revelar.
Essa busca de verdade de interesse público implica na adesão a uma deontologia, uma ética de procedimentos e que não se limita à técnica de bem escrever, abarcando todas as etapas da busca de verdade ou, para usar uma palavra mais precisa, da busca da veracidade dos fatos. E os fundamentos dessa deontologia são a honestidade intelectual e a perícia .O jornalista ético é o que age com a mesma honestidade intelectual que caracteriza o bom cientista. Aí está então, em resumo, o que vinha sendo minha visão da ética jornalística e a essência do que eu passava aos meus alunos e colegas sempre que havia oportunidade.
Tudo isso entrou em crise no incidente que vou relatar. Estava dando a penúltima aula de um curso de pós-graduação lato sensu denominado “Saúde e Cidadania”, de um módulo sobre jornalismo social. A aula tratava de ética. Minhas idéias provocaram uma reação alérgica imediata e muito forte que culminou com uma rebelião da classe. O mote geral era o de que eu estava exigindo posturas irreais, que em todas as redações o jornalista tem que fazer o que o patrão manda, e o que a publicidade manda. E choveram os relatos pessoais de incidentes de supressão de matérias, de opiniões, de trechos e de pautas.
Foi então que eu me dei conta que aquela era uma das classes mais homogêneas que eu já havia tido: eram quase todos jornalistas em serviço ativo, nas mais diversas redações, desde A TV Globo até revistas técnicas setoriais. E quase todos na faixa dos 30-35 anos de idade, ainda jovens mas não novatos. A maioria já tinha uns dez anos de experiência nas costas. Era a revolta de uma categoria toda contra a exigência de uma ética.
Perguntei a eles qual a diferença entre um médico que mata e um jornalista que mente? Ofendidos, não responderam. Disse a eles que navegar é preciso, viver não é preciso, ou seja, ninguém precisa ser jornalista. Também não gostaram. Responderam que tinham sim o direito de serem jornalistas sem precisarem ser éticos. Por necessidade de sobrevivência. Não sendo deles a culpa e sim do sistema, tinham esse direito. Finalmente disse a eles que eu não estava ali para fazer julgamentos morais, mas que eu só podia ensinar na escola uma ética, a do jornalismo livre e comprometido com o interesse público, que se desenvolveu nos melhores tempos do jornalismo Ocidental. Disse também que era um equívoco pensarem que a violência intelectual que cada um deles sofria no dia a dia das redações, não teria conseqüências de longo prazo. Disse que era um equívoco banalizarem essa situação.
O incidente me abalou profundamente, mas depois comecei a rememorar situações que já vinham de longe, e mostravam que havia algo de furado na minha posição fundamentalista de ou tudo ou nada. Lembrei-me da descoberta de que muitos alunos de jornalismo aprendem a cascatear, ou seja, a inventar matérias, já no primeiro ano do curso. Forjam entrevistas que não existiram. Cozinham matérias de outros sem se referir à autoria inicial. Digamos que isso está ainda no universo das malandragens da adolescência escolar, como o hábito de colar em provinhas. Mas a dimensão é outra, quando se sabe que cascatear é um traço marcante do jornalismo brasileiro.É possível até que esse verbo nem exista no jargão jornalístico de outras culturas.
Lembrei-me também de um aluno que propôs uma reportagem sobre uma desastrosa expedição do navio da USP à Antártida, a partir de informações de um amigo que participou da viagem. O barco quase soçobrou porque só um dos lados tinha holofotes. O freezer pifou e por isso eles perderam todos os espécimes de “krills” que haviam coletado. Finalmente estourou uma epidemia de diarréia a bordo, mas nessa altura, o médico já havia saltado do navio em Porto Alegre. Sugeri ao aluno que checasse bem as informações e escrevesse a reportagem para o jornal do campus. Qual não foi a minha surpresa quando o aluno me entregou o que eu chamei de antimatéria.Um texto que escamoteava todo o que aconteceu, com expressões, como “apesar de alguns problemas, terminou relativamente bem a viagem do navio Besnard à Antártida..” Quando questionei o aluno ele respondeu que não queria se complicar criticando as autoridade da USP. Ou seja, esse jovem ainda nem havia começado a vida de jornalista e já tinha decidido que contar a verdade não faria bem à sua carreira.
Comecei a mapear o destino dos meus alunos já formados: a maioria engajou-se em projetos jornalísticos sem nenhuma ambição intelectual, filosófica ou política. E uma minoria significativa entendeu a profissão meramente como uma boa oportunidade de ganhar dinheiro. Foi bastante frustrante ver discípulos de grande valor intelectual, selecionados por um vestibular competidíssimo e rigoroso, e com os quais compartilhei boas experiências de jornalismo ainda no campus universitário e desenvolvi uma relação de amizade, se conformarem com uma visão tão banal dessa profissão que eu via como tão fascinante – e dessa forma aceitar uma proposta banal para sua própria vida. Para eles, a vida decididamente não era uma meta-narrativa. Para eles, a utopia era um conceito morto, desprovido de qualquer significado.
Há dois anos, para substituir um professor, comecei a ministrar a disciplina “ ética e deontologia do jornalismo” e, de novo, surgiram os sinais de que algo estava errado nos fundamentos do meu ensino. Num dos primeiros exercícios de classe, que funcionou como uma espécie de pesquisa de opinião dos alunos, ficou claro que para boa parte deles a existência de um código de conduta para jornalistas era um absurdo. Cada jornalista tinha o direito de pensar e agir a seu modo. Era a demonstração de que no ambiente da pós-modernidade é difícil haver um código de conduta porque não existe a aceitação de valores dominantes e rejeita-se a idéia da coerção, mesmo a coerção moral.
Naquela classe não havia patrões para imporem a auto-censura e nem os inspirava tanto assim a idéia do oportunismo, do jornalismo como uma forma de ficar rico. Esses alunos, ainda bem jovens, de primeiro ano, rejeitavam genuinamente a possibilidade de haver uma ética , porque isso estava em conflito com seus valores fundamentais, acima de tudo os valores ” individualismo” e “ tolerância” .
O desafio que temos pela frente portanto é de como reconstruir uma ética jornalística em tempos pós -modernos.Uma ética pertinente, que não paire no ar, descolada dos jovens, como uma mera cobrança de culpas que eles nem sequer reconhecem .. Os códigos de ética diferem de país para país, ou de tempos em tempos, justamente porque refletem mudanças de ênfase ou de articulação de valores das matrizes éticas de cada cultura ou de cada tempo. De hábitos novos, surgem novos valores, que por sua vez se aplicam na forma de normas de conduta, entre elas os código aplicados de ética, como são os diferentes código de ética profissionais, inclusive os dos jornalistas
Os diferentes códigos aplicados de ética são portanto exercícios datados de hegemonia ideológica. Seus processos de formulação e de legitimação se dão em contextos discursivos também datados. Hoje, vivemos um novo tempo discursivo, marcado pela negação das utopias e pela ausência de um padrão ético hegemônico, exceto no sentido metafísico de que a ausência de padrões também seria um padrão. Fatores objetivos contribuíram para a quebra de valores tradicionais. As revoluções da biotecnologia, que inovaram o campo da reprodução humana, alteraram definições fundamentais como as do início da vida e do momento da morte. O homem passou a ser definido como um animal simbólico e não como ser racional. Sua relação com a natureza passou a ser de uma solidariedade de destinos e não mais de dominação. O fracasso do socialismo real deu lugar à supremacia do neoliberalismo.
Nesse novo ambiente, as éticas socialmente constituídas cederam espaço a uma ética definida em torno de cada indivíduo, o que parece uma contradição em termos, um paradoxo, já que as condutas pessoais só podem ser avaliadas na sua articulação com outras condutas. Pode ser uma ética provisória. O fato é que hoje, dentro de limites bastante amplos, cada um tem o direito de pensar e agir como quiser. O exemplo mais expressivo está no campo sempre delicado da sexualidade: cada um pode adotar a preferência sexual que quiser. É também uma ética de muitos direitos e poucos deveres. Cada um tem o dever de pensar antes de tudo em si mesmo, em seu projeto de vida. Uma ética em que o dever é definido como negação do social, como celebração da individuação ética.
Não se trata da morte dos valores, mas da prevalência de determinados valores como tolerância, pluralismo, sucesso pessoal e liberdade individual que no seu conjunto e principalmente na forma como se articulam, definem uma matriz ética perversa pelos critérios de virtuosidade de nossa ética agora ultrapassada. Talvez devamos dizer que a ética da pós-modernidade é marcada também pelo declínio dos valores solidariedade e compaixão que marcaram a humanidade nos pós-guerra, e pelo predomínio de valores não-valores, como o ceticismo, o cinismo, a negação da utopia e da justiça social.
Não por coincidência são esses não valores que mais servem à etapa de super-concentração do capital e de supremacia dos interesses do capital sobre os interesses do homem, que marcam o mundo de hoje. Também nesse sentido, a aparente ausência de uma padrão ético dominante é apenas um verniz que encontre uma ética de antivalores que se encaixa perfeitamente numa ideologia neoliberal dominante.
Por isso, vivemos hoje a mais básica de todas as dicotomias da ética : a do indivíduo versus sociedade. Sendo os códigos morais socialmente constituídos, eles são hoje negados liminarmente por essa nova mentalidade que contesta a própria possibilidade de haver uma recomendação de conduta universal. Cada indivíduo, nesses tempos pós-modernos, teria a faculdade de decidir sua própria conduta, cultivar seus próprios valores. É a desqualificação do direito de exigir determinados comportamentos. É o retorno também a mais básica e fundamental de todas as discussões éticas: sobre a necessidade ou não de haver uma ética.
Se fôssemos reelaborar uma ética jornalística compatível com o novo ambiente ético, teríamos que partir dos valores dominantes dessa matriz e os rearticular de modo que percam seu sinergismo perverso. A tolerância poderia ser um dos valores dessa nova ética jornalística desde que no contexto de uma matriz ética em que não entre como antivalor, como negação da necessidade de outros valores, e sim como indicativo da necessidade de aceitarmos as diferenças como legítimas. A tolerância nesse contexto seria um valor importante para se antepor à inclinação à exclusão, típica do argumento neoliberal.
Certamente o sucesso pessoal, um dos valores centrais da ética neoliberali, poderia ser encaixado de tal forma numa matriz ética que se torne socialmente útil. Nos momentos de maior desespero ético, tenho apelado junto a meus alunos para o mais puro individualismo. Pergunto a eles: vocês querem ser mais um jornalista medíocre no meio dessa massa de jornalistas que nunca farão nada de importante na vida? Provoco seu brio. Machuco sua auto-estima. Pergunto onde foram parar seus sonhos? Se não tem sonhos como todos jovem tem, se não têm a ambição de serem os melhores, os mais bacanas, os mais bem sucedidos. É um argumento cativante porque parte da mentalidade existente, fundada na idéia do sucesso pessoal, do vencer na vida, chegando de modo natural à concepção do grande jornalista, ou seja do bom jornalista. E o bom jornalista é necessariamente um jornalista ético.
O passo seguinte é discutir o que é ser bom jornalista e como fazer sucesso na profissão, como se destacar da massa dos medíocres. Lembrei-me que costumava terminar meus cursos a alunos de quarto ano, quando eles já se preparavam para enfrentar a competição ferrenha no mercado, com uma aula em que dava dez sugestões para ser um jornalista bem-sucedido. Por exemplo, eu aconselhava os alunos a evitarem, de início, as grandes redações e procurarem se robustecerem em redações pequenas e em áreas não estratégicas do jornalismo. Dizia que jornalista bem-sucedido é aquele que sabe o que os outros não sabem, que tem fontes que os outros não tem. Ou seja, trabalhava em prol do jornalismo de qualidade, até mesmo validando a idéia perversa da competição.
A maioria das sugestões dizia respeito ao processo de acúmulo de conhecimento e de fontes, à criação de um saber e de uma competência jornalística. Dizia, por exemplo, que o jornalista no Brasil nunca deve entregar os documentos e materiais para os arquivos da empresas, e sim montar seu próprio arquivo. As empresas perdem esses materiais: além disso, te demitem sem mais essa ou aquela, arbitrariamente. E mais, eu dizia, em determinadas ocasiões faça reportagens aceite incumbências pesadas, para ter acesso a fontes e materiais que de outra forma seriam de acesso mais difícil. O saber passa a se localizar no jornalista e não nos arquivos das empresas. Assim o jornalista vai se tornando um sujeito do conhecimento e um ser epistêmico. Também um autodidata, que vai crescendo intelectualmente à medida que vai suprindo todas aquelas lacunas de conhecimento deixadas pelos currículos escolares, que, como nós sabemos, são montados de modo arbitrário.
O saber é alérgico ao mau jornalismo, à manipulação desonesta da informação. Por isso, as grandes empresas quando querem praticar o jornalismo desonesto, mandam repórteres jovens, que ainda não acumularam conhecimento, que não têm memória histórica. Certamente o saber pode ser um valor central a numa nova ética porque ele tem essa característica de tornar seu portador naturalmente resistente à desonestidade intelectual e à manipulação.
A escola tem um papel fundamental na procura de uma nova ética porque por meio dela se desenvolve no jovem a prontidão para o saber e o conhecimento. Esse “ser epistêmico” , como nós o chamamos uma vez numa das reformas de nosso currículo, vai estabelecer com o mercado um conflito ético feito de confrontos com editores autoritários e proprietários de mentalidade oligárquicas. Por um lado, isso exige do jornalista a adoção de certas estratégias de sobrevivência. Por outro lado, esse conflito altera a qualidade do próprio mercado. Trata-se, nesse sentido, de um conflito necessário, um conflito produtivo. E o fim da falsa discussão se a escola educa para o mercado ou contra o mercado.
É na escola também e apenas na escola, que o aluno ter hoje o aporte de conhecimento sobre as teorias da ética e da moral necessárias para seu posicionamento especifico no debate ético. Não temos aqui instâncias como comissões de ética ou direitos como a “cláusula de consciência”, que permitem o acompanhamento regular do debate ética durante a carreira do profissional. Os poucos ombudsman que temos, já está visto, limitam-se a corrigir erros localizados de informação ou erros gramaticais, com isso legitimando os grandes processos de supressão da verdade e da liberdade do jornalista.
Na busca de uma ética não metafísica, contemporânea e condizente com o ambiente discursivo da pós-modernidade, há três outros aportes possíveis. O primeiro é o que cobra a qualidade do jornalismo e da informação como um dos direitos do consumidor. O consumidor em duas dimensões; como indivíduo que paga por um produto e tem o direito de receber um produto de qualidade, e o consumidor como cidadão, membro de uma sociedade que tem o direito de informar e ser informado como parte de seus direitos de cidadania. Essas são abordagens compatíveis com a mentalidade neoliberal e portanto mais fáceis de serem trabalhadas.
Uma segunda abordagem é a denúncia da supressão da liberdade do jornalista no seu local de trabalho como um ato de “assédio moral”. Esse é um conceito novo, como se vê fundado no indivíduo e que naturaliza por assim dizer o direito político à liberdade intelectual. Por meio dele, pode-se fazer a crítica da práticas autoritárias nas redações a partir de um discurso tipicamente pós-moderno e, portanto, com legitimidade discursiva. Notem o paralelismo do conceito de “assédio moral” com o de assédio sexual.
Finalmente, quero terminar com o que considero a maior dimensão do problema ético que vivemos hoje no Brasil, sua dimensão política. Está claro, pela intensidade com que os meios de comunicação de massa são hoje manipulados pelos grupos dominantes para se manter no poder, que nosso principal problema ético hoje não é de natureza moral e sim política. A supressão dos ditames da ética jornalística clássica e a banalização do assédio moral nas redações existem porque são instrumentais no uso dos meios de comunicação de massa pelas classes dominantes para sua perpetuação no poder.
Isso significa que a luta por uma nova ética é também e acima de tudo uma luta política. E, portanto, essa luta tem que ser condicionada por algumas das leis da política, tais como ser referida a interesses sociais e desenvolver-se através de etapas e objetivos táticos e estratégicos bem definidos. Estar articulada às demais lutas políticas do momento. Lutas como pela instalação do Conselho de Comunicação Social, pela cláusula de consciência, pela limitação á concentração na indústria da comunicação. Na verdade, poderíamos organizar todas essas ações sob a retranca da ética. Porque, entre tantos paradoxos de nossos tempos, um deles é de que a pós- modernidade até aceita uma luta pela ética, desde que colocado em termos morais e pessoais não político-ideológicos.
De qualquer forma, a proposta de uma nova ética que resgate o pluralismo e da verdade a serviço público, e reelaborada como construção pedagógica de um novo jornalista contra-hegemônico, é hoje uma proposta necessária e importante, para a sociedade e para o jornalismo.
 















segunda-feira, 14 de março de 2011

Conselhos aos que buscam o conhecimento verdadeiro II – Os tipos de conhecimento.



No texto anterior, elencamos algumas idéias que consideramos necessárias àqueles que buscam o conhecimento das coisas, chegar a bom termo em suas jornadas. Neste, procuraremos ampliar um pouco mais, analisando alguns obstáculos[1] que podem ser encontrados no caminho. Em uma época com tanta informação, não basta mais a dúvida que leva à saída do senso comum, ou do mundo das opiniões, é precisar duvidar de cada dúvida, e se permitir trilhar caminhos já trilhados.
Supondo que o leitor seguiu os conselhos do texto anterior  e se encontra pronto para adentrar ao terreno do conhecimento, é preciso então alertar para o fato de que conhecimento não é sabedoria, e, necessariamente  não vai levá-lo a vida feliz. E, o que pode ser pior, é preciso tomar consciência da existência de várias formas de explicação do real, e, todas consideradas que não é mais senso comum.
Na Grécia antiga aqueles, que buscavam a sabedoria ou o conhecimento verdadeiro das coisas, deparavam-se com a religião, o mito, e contrapunha-se o logos na esperança de abrir os horizontes aqueles que não conseguiam ver além das aparências. Na atualidade, o mito, a religião convive com o Logus, e Logus se fragmentou em diversas possibilidades. Para tornar-se mais complexo é preciso considerar o fato da existência do senso comum para cada um deles. Então, temos o mito, e o senso comum do  mito; a religião e o senso comum da religião, o conhecimento científico e o senso comum da ciência, o conhecimento ocultista, místico ou metafísico e o senso comum correspondente.
Neste sentido é que se torna necessário caracterizar cada um dos tipos de conhecimento naquilo que se aproximam e se diferem operando em suas categorias definidoras para compreendermos o seu logos e o seu senso comum. Pode  dizer que hoje temos os seguintes tipos de conhecimento: O mito, o conhecimento teológico; o conhecimento Filosófico; O conhecimento Científico; e o Conhecimento oculto, místico ou metafísico. Na atualidade todos eles convivem de forma popularizada e dá se a falsa impressão de que todos podem ter acesso ao conhecimento verdadeiro sobre todas as coisas.
O mito.[2]
Já se disse entre os antropólogos  que o mito, hoje, faz parte de uma necessidade humana. Os homens precisam do mito. Necessário ou não, nosso objetivo aqui é caracterizá-lo. Neste sentido, é preciso dizer que o mito se define como uma narrativa fabulosa de acontecimentos envolvendo deuses, a natureza e o homem, sempre procurando estabelecer uma mediação entre o sagrado e profano, e dando assim, sentido a existência humana.
Compreender o mito é questão ainda mais complexa. Um conhecimento ou modo de explicar o sentido da existência humana o mito é rico em símbolos. A forma como cada um apreende estes símbolos é determinante na forma como se interpreta os mitos do passado, e quase sempre, mito se refere ao passado primórdio. Hoje, quase todo ser humano já ouviu falar dos mitos, sobretudo, os mais populares no ocidente, os mitos gregos. No carnaval deste 2001, lá estava na avenida diversas representações dos mitos gregos, de forma que ao entrar em contato com as formas, figuras e símbolos, estes por si só transmitem algum tipo do conhecimento transmitido pelo mito. A apreensão que se dá deste conhecimento fica a cargo daquele que recebe. Daí, pro que é preciso tomar cuidado com o senso comum do conhecimento do mito. Entender a rica trama do Olimpo, de deuses, semideuses e homens não é algo possível pela compreensão de alguns símbolos. É um trabalho que exige dedicação e, sobretudo entrega.
Neste sentido, o mito não é uma invenção, uma lenda, uma ficção. Para Roland Barthes decifrar o mito é decifrar-se, querendo dizer com isso que o mito é uma narrativa que explica o sentido da existência humana, e por isso, revela um acontecimento verdadeiro que em sua profundeza de significado traz toda a verdade sobre nossa existência.
Dito isso, creio ficar claro, o nosso alerta que não é possível compreender o mito de forma simplificada. É preciso entrar  no mundo do primitivo, do arcaico, vivenciar os sentimentos e emoções provocados pelos símbolos para se compreender os seus significados.
O logos, ou o Conhecimento Filosófico.
Passa-se a idéia para o senso comum de que adentrar-se no terreno da filosofia é abandonar o mito. Ledo engano. O mito é necessário ao conhecimento filosófico. Muitos chegam a afirmar que é impossível ao filósofo um conhecimento verdadeiro sem um conhecimento profundo do mito. Talvez este foi um dos elementos da defesa de Sócrates pouco compreendido para aqueles que não alcançam o discernimento necessário a sabedoria. Socrátes foi acusado de corromper os jovens e renegar as tradições ( os mitos), em sua defesa ele, então, mostra que a sabedoria que ele buscava era algo divino e que só os homens que tem o beneplácito dos deuses podiam compreendê-la. Ele, Sócrates, era apenas uma amante apaixonado deste saber dado a ele pelos deuses, saber este que era preferível morrer a renegá-lo.
O mito é pois, essencial ao trabalho do filósofo. Afinal, só pensamos naquilo que cremos, ou naquilo que embaralha as nossas crenças, na expressão dos alunos de hoje, dá nó em nossa cabeça. O filósofo é pois um mítico em busca da compreensão da verdade revelada, é um apaixonado pela compreensão do ser, das coisa, do mundo, por isso, questiona, pergunta, duvida.
O primeiro homem a utilizar a palavra filosofia,  cujo registro consta na história, foi Pítagoras. Nascido na cidade Grega de Samos, quase tudo sobre ele soa como lenda. Considerado no ocidente como um filósofo pré-socrático foi também o matemático cujos estudos é a base do conhecimento matemático na atualidade. Mas Pitágoras não era apenas matemático e filósofo, era também um místico apaixonado. Hoje, é  o grego de Samos é venerado em rituais em diversas sociedades ocultistas e místicas, como a Ordem Rosacrucianas, Cabalísticas, templárias, dentre outras.
Para Pítagoras não é possível ser filósofo ( amante da sabedoria), sem que antes se alcance o domínio de si. Daí por que sua escola foi uma Universidade, uma religião, uma fraternidade; como sintetizado por alguns, uma escola onde  a busca da compreensão dos mistérios do Universo e do Cosmo era a razão de todos que a compunha. Acreditava-se que apenas um homem livre, dono do seu destino era capaz de compreender a grandeza de Deus e do universo,e por isso, era necessário a este homem um esforço de auto-conhecimento para encontrar em si a grandeza do cosmo do qual participava.
Considerando as proposições pitágoricas, fica claro que um dos obstáculos para se tornar um filósofo nos dias atuais, é a forma como tem sido entendida a moral. O desregramento existente na atualidade, a forma como se o  homem tem lidado com os sentidos e buscado satisfação dos prazeres da carne sem nenhuma moderação torna impossível o encontro com o saber.
O conhecimento Científico.
A filosofia precisou de séculos para se sistematizar, no entanto, alguns problemas simplesmente teimavam em não encontrar uma solução racional. Os neoplatônicos ao  retomar a importância do mito, da religião e do misticismo como forma de tentar superar o dualismo platônico, de certa forma contribui diretamente para o surgimento da ciência moderna. A observação da vida prática, do comportamento moral do homem, já iniciado pelo gênio de Aristóteles, e agora, estendido a tentativa de compreender objetivamente os mistério dos deuses, dota o homem da necessidade da observação, sistematização, demonstração daquilo que ele subjetivamente ousava entender ser capaz de compreender do mundo inteligível.
Homens como Descartes, Francis Bacom, foram dotados de uma forte intuição intelectual, e, de profundo conhecimento místico, mítico e filosófico. Em seu tempo, sentiram a necessidade de tornar demonstrável aquilo que fosse considerado verdadeiro, desde a mais simples idéia àquelas que ousavam explicar a existência das estrelas e dos astros. Ao estabelecer esta ligação profunda entre a observação, experimentação à racionalização das coisas, estabelecia as bases do moderna ciência.
Esta racionalidade, em sua essência, não torna inútil nem o conhecimento mítico, nem o metafísico, ou mesmo o filosófico. Aliás, a razão se alimenta de todos os eles de alguma forma, devido a historicidade do próprio desenvolvimento humano. Talvez foi isso que quis ensinar o gênio alemão quando disse: A pouco ciência torna os homens incrédulos, muita ciência leva o homem a curvar-se diante de Deus. Ou mesmo, o gênio francês, quando disse: Ciência sem consciência é a ruína da alma.
Como se vê, novamente é colocada a questão dos sentidos. Não se pode alcançar o conhecimento científico sem saúde dos sentidos. O equilíbrio, ou seja, o aprendizado das virtudes é necessário a aquisição ou a iniciação ao saber, seja ele científico, teológico, filosófico, metafísico ou mítico. Apenas ao homem comum é permitido o desregramento moral, afinal, este não possui o compromisso com  a veracidade, tão somente com o ego e as opiniões.
Paulo Sales de Oliveira na obra Metodologia das Ciências Humanas tece considerações interessantes sobre a iniciação a ciência. Segundo ele, o processo de iniciação a ciência começa pelos sentidos e pela leitura. Deste modo é preciso e urgente desenvolver a sensibilidade, a imaginação criadora, a percepção, acompanhado de uma disciplina, de rigor, de ceticismo e confiança no método. Quanto a leitura, deve se ler não apenas de forma externa e exterior, mas exercitar o que ele chama de passeio da alma por uma estrada onde tantos já passaram. Outros autores são pródigos em exemplos do que é necessário para se adentrar aos portais da ciência.
Em comum, todos os autores falam, na atualidade, da necessidade de se aproximar as diversas ciências. Assim, surgiram variados nomes como multidisciplinaridade, transdiciplinaridade, interdisciplinaridade, transversalidade, dentre outras; sempre tentando mostrar que o aprendizado de fato de uma ciência requer contato com diversas outras, e que a formação dos futuros cientistas não pode mais se dar de forma fragmentada. O grande problema é encontrar os limites entre o senso comum da ciência e o início do aprendizado  da ciência pretendida.
A mesma questão, eu penso, se aplica aos diversos tipos de conhecimento. No momento atual da história da humanidade, a busca da sabedoria requer uma espécie de transdisciplinaridade entres os tipos de conhecimento. Não dá mais pra pensar a realidade e o sentido da existência humana, buscar e encontrar respostas isoladas em um tipo de conhecimento. Urge que ciência, religião e misticismo dêem-se as mãos nas mentes dos cientistas. Questões delicadas como a genética humana  (o clone de humanos), o aborto, a pena de morte, exigem mais do que respostas científicas, religiosas, ou filosóficas. Requer respostas que estão além dos limites de cada um destes conhecimentos. E não é apenas fazer a filosofia da religião, ou estudar a religião de forma científica, ou quaisquer outros tipos de inversão realizados. É necessário entrecruzamentos, encontros, entrelaçamentos para que se possível um novo modo de ver as coisas, totalmente novo do que até agora está posto.



[1] Obstáculo neste texto não tem necessariamente o conceito trabalhado por Bachelard, e sim, a dificuldade simples de acesso ao saber.